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terça-feira, 7 de julho de 2026

CONCERTO: Maria João, André Mehmari & Carlos Bica



CONCERTO: Maria João, André Mehmari & Carlos Bica
Com | Maria João (voz), André Mehmari (piano) e Carlos Bica (contrabaixo)
Teatro Aveirense
05 Jul 2026 | dom | 18:00


Há concertos que parecem nascer de uma inevitabilidade artística, como se os músicos estivessem destinados a encontrar-se em palco. Foi essa, precisamente, a sensação que percorreu o encontro de André Mehmari com Maria João e Carlos Bica, na tarde do passado domingo, no Teatro Aveirense. Três personalidades absolutamente singulares, dotadas de uma invulgar versatilidade e de um domínio técnico irrepreensível, souberam construir um diálogo musical de cumplicidade única, cada gesto, cada silêncio e cada improvisação assentes numa escuta permanente entre iguais. Mais do que um concerto, assistiu-se a um exercício de criação em tempo real, onde jazz, tradição e improvisação se cruzaram sem fronteiras nem convenções. No centro desse universo criativo esteve, muito claramente, Maria João. A sua presença cénica dominou o espectáculo, não por qualquer protagonismo imposto, mas pela força magnética da sua comunicação. Elástica, poderosa, límpida, capaz de alternar entre o murmúrio intimista e a explosão expressiva, entre o canto, o grito, o sussurro, o riso e a palavra dita, a voz revelou-se, uma vez mais, um instrumento inesgotável. Poucas intérpretes conseguem transformar o palco num espaço de tão absoluta liberdade.

Os três primeiros temas — “Parrots and Lions”, de Maria João e Mário Laginha, “Duplo Falso Par”, de André Mehmari, e “Passarinhadeira”, de Guinga — anunciaram desde logo a identidade estética do projecto. A improvisação surgiu como linguagem comum, sustentada por uma escrita exigente e por uma permanente atenção ao equilíbrio entre os três músicos. André Mehmari impressionou pela elegância do discurso pianístico, alternando momentos de refinada contenção com passagens de arrebatador virtuosismo, enquanto Carlos Bica voltou a demonstrar porque continua a ser um dos grandes contrabaixistas europeus, desenhando linhas melódicas de enorme subtileza e uma pulsação que nunca deixou de respirar. Maria João respondeu a ambos com uma criatividade vocal verdadeiramente desconcertante, explorando sonoridades étnicas, inflexões populares e uma expressividade quase teatral. “Lucky”, composição de Carlos Bica incluída no álbum “11:11”, foi um momento inesquecível. Nela, música, palavra e gesto expandiram-se até aos limites da imaginação, convocando vocalizos de ressonância ancestral, improvisação livre e os célebres versos de Romeu e Julieta - “My only love sprung from my only hate…” - numa construção cénica e musical de rara intensidade, tão inesperada quanto comovente, que ficará certamente como o momento mais memorável do concerto.

O espectáculo prosseguiu numa sucessão de permanentes descobertas, oscilando com absoluta naturalidade entre a intimidade e a exuberância, entre a contenção e o risco. Houve referências subtis aos blues, inesperadas incursões por registos operáticos, episódios de oralidade narrativa e ecos da canção nordestina, sempre integrados num discurso coerente e profundamente livre. A capacidade dos três músicos para transformar cada tema num organismo vivo, em permanente mutação, constituiu uma das maiores virtudes desta apresentação, recusando qualquer previsibilidade e envolvendo o público numa experiência de permanente surpresa. “Para Além do Alentejo” e “Do Sertão ao Mar”, duas belíssimas composições de André Mehmari, enriquecidas por uma leitura calorosa e inspirada do trio, encerraram o alinhamento da melhor forma. A voz ampla, quente e generosa de Maria João voltou a assumir-se como o grande eixo emocional da música, enquanto Carlos Bica confirmava, com um trabalho magistral no contrabaixo, uma capacidade invulgar de sustentar e, simultaneamente, reinventar o discurso do trio. O público respondeu com entusiasmo inteiramente justificado a um concerto que dificilmente se apagará da memória. Pela excelência individual dos seus protagonistas, mas sobretudo pela extraordinária comunhão artística que alcançaram, esta foi uma daquelas raras ocasiões em que a música pareceu acontecer em absoluto estado de graça.

domingo, 13 de abril de 2025

CONCERTO: "Abundância" | Maria João



CONCERTO: “Abundância” | Maria João
Com | Maria João (voz), João Farinha (teclados), André Nascimento (sintetizadores), Texito Langa (bateria), Mariana Brissos (voz), Inês Almeida (voz), Mariana Silveira Ramos (voz)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar
12 Abr 2025 | sab | 21:30


O Ovar em Jazz 2025 fechou as contas sob o signo da abundância. Abundância de momentos musicais únicos e irrepetíveis, de sonoridades novas e fascinantes, de encontros ricos em conhecimento e partilha. Abundância de emoções, sorrisos e abraços num público que cresce ano após ano e se mostra grato pelo valor de uma programação com tudo para agradar a todos. Abundância na qualidade e competência de uma organização dedicada e que, nos quatro dias do evento, dá o seu melhor para que a festa aconteça dentro e fora dos palcos. Abundância, enfim, porque assim se chama o último trabalho de Maria João, estrela maior da nossa música, e cuja apresentação teve honras de encerrar o Festival, em estreia mundial e com gravação pela televisão pública. Com uma proposta destas, não é de estranhar que o Centro de Artes de Ovar voltasse a esgotar a sua lotação, em mais uma noite memorável, no convite à viagem por paragens meridionais, os sons e tons de Moçambique a oferecerem-se na voz e no gesto por Maria João, nas suas mais variadas dimensões: fortes, quentes, densos, intensos, impressivos!

Antes mesmo de iniciar a apresentação do seu novíssimo trabalho, ao lado de João Farinha e André Nascimento, Maria João interpretou o lindíssimo “Parrots and Lions”, exaltante abraço à natureza e aos valores da tolerância, do respeito e da amizade. Na sua forma única de (en)cantar, Maria João tem neste tema o exemplo acabado da sua extraordinária técnica vocal, à qual acrescenta uma natural expressividade, capazes de transformar o diálogo improvável entre um leão e um papagaio numa obra de arte doce e carinhosa. Depois deste momento imersivo no universo da cantora, tudo o que viesse a seguir era lucro. Já com o baterista Texito Langa e um coro composto por Mariana Brissos, Inês Almeida e Mariana Silveira Ramos em palco, “Abundância” fez-se de temas como “Esperança” e “Maputo Jive”, “O Amor é Verdadeiro” e “Beatriz” (incursão simbólica no universo de Edu Lobo e Chico Buarque), “Dário” e “Papalaty”, cânticos de amor aos frutos da terra e ao labor das gentes, ao valor dos ensinamentos que se transmitem de pais para filhos, ao sentimento de pertença e à beleza que reside nas coisas mais simples, a um coração que pulsa entre dois continentes, dois países, Moçambique e Portugal ligados no corpo e na alma.

O mais belo momento da noite surgiu de forma inesperada na voz de Texito Langa, com as sonoridades etéreas de “As tuas Tranças” em pano de fundo. “O amor, uma das palavras mais usadas e pouco compreendidas. Principalmente nestes tempos, em que objectos são amados e pessoas são usadas, quando deviam ser os objectos usados e as pessoas amadas”. O manto de espiritualidade que se vinha estendendo sobre músicos e público desde o início do concerto torna-se denso e macio, aquece e conforta. Rendido ao valor e significado do momento, o público está por tudo. Escuta com devoção cada tema e aplaude intensamente, ri com as provocações de Maria João e embarca em enérgicos exercícios de percussão, acompanhando os ritmos propostos por Texito e agradecendo com um milhão de palmas e sorrisos. “Fiona”, “Ao Sol” e “Dia” são as propostas finais daquilo que constituiu, no seu todo, um abraço à cultura e à tradição de Moçambique, em poemas de José Craveirinha, Dullmea, José Mucavele ou Stewart Sukuma. É tarde e um novo dia irá nascer, trazendo consigo vida nova, renovada esperança. “Near the village, the quiet village, the lion sleeps tonight”.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

CONCERTO: Hélder Bruno Quinteto



CONCERTO: Hélder Bruno Quinteto
Centro de Artes de Ovar
20 Jan 2023 | sex | 21:30


Quando ao Hélder Bruno Quinteto se junta Maria João, o resultado só pode ser Jazz do melhor. Isto pensei eu, mas pensei mal. Quero com isto dizer que (já perceberam) nunca tinha ouvido falar de Hélder Bruno. Tão pouco fiz o “trabalho de casa”. Despreocupadamente, parti para uma noite de jazz tão do meu gosto e, coisa rara, tão à beirinha de casa. Praticamente esgotado, o Auditório agitava-se na promessa de um grande concerto. Mas foi quando os primeiros acordes surgiram do piano de Hélder Bruno que percebi que, afinal, os meus interesses e os do restante público não eram propriamente coincidentes. E mudar o chip? É o mudas. Dolentes, plenos de sedução, “Fairy Tale” e “Dança Comigo Uma Última Vez”, os dois temas que abriram o concerto, causaram em mim uma irritação inesperada em vez de um natural contentamento. Irritação que se prolongou em “Blossoming”, que o pianista interpretou juntamente com Maria Redes Martins, violoncelista e sua filha. Foi então que atentei nas palavras entretanto dirigidas ao público e decidi pôr a “neuroplasticidade” a funcionar e “deixar-me levar, sem preconceitos”.

Descodifiquemos: Hélder Bruno Quinteto é Hélder Bruno + Quinteto. Não é Jazz a sua música, como pude confirmar já com o “Blossom Ensemble” em palco, agrupamento formado por Maria Kagan e Francisca Pinto-Machado (violinos), Rogério Monteiro (viola d’arco), Feodor Kolpashnikov (violoncelo) e Miguel Falcão (contrabaixo). “Dinis” e “Island”, foram parte dessa “verdadeira viagem, libertadora dos sentidos, dos afectos e das emoções, da magia e do sonho, num conto em música”, como prometia o programa. Mas a viagem teimava em trazer pouco de novo, as águas do rio muito paradas, as árvores das margens sempre iguais, além uma garça que se alça no voo mas que logo desaparece. Tudo muda, porém, com a chegada do percussionista Quiné Teles ao palco. “Alentejo” traz ritmo e energia para o concerto, logo confirmado pelo lindíssimo “Door 17”. Mas é com Maria João que a viagem se torna vibrante e viva, sedutora e livre. “The Sailor, the Mermaid and the Sea”,”White Witch of the Seas” e, sobretudo, “Land, Red and Warm”, com letra da cantora, escrita na língua moçambicana changana, são momentos de qualidade ímpar, uma voz que se desdobra em tons e sons, a linguagem corporal a reforçar a mestria das composições e a beleza da sua interpretação.

Há neste concerto dois momentos distintos, assentes num antes e num depois de Quiné Teles e Maria João. É com eles em palco que reconheço nas composições de Hélder Bruno o seu grande valor, o seu enorme potencial. O grande mérito do compositor está em ter sabido encontrar na sua música espaço para a voz, esse instrumento por excelência. Abrem-se, então, as mais vastas clareiras, avivam-se as fogueiras, ninguém escapa à festa e à folia. Será justo alargar este abraço ao quinteto e a Quiné Teles, mas é Maria João que me prende e me liberta, me ergue no ar e me faz mergulhar no mais fundo de mim. A plasticidade da sua voz não se mede por escalas, antes pelas páginas do tempo, a guturalidade do homem primitivo enlaçada na limpidez das sonoridades do porvir. Escutá-la, já no “encore”, a interpretar “Mouraria”, um fado eternizado por Maria Teresa Noronha, é transcendental, a voz vestida de um lirismo a raiar o sublime. A finalizar o concerto, Hélder Bruno repetiu “Door 17” e encontrou-me apaziguado com a sua música e comigo mesmo. Aquilo da neuroplasticidade funcionou.


domingo, 8 de novembro de 2020

CONCERTO: Maria João | OGRE electric



CONCERTO: Maria João | OGRE electric
Caldas Nice Jazz
Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha
07 Nov 2020 | sab | 21:30


Foi com genuína emoção, uma satisfação enorme por voltar a cantar para um auditório com público e ainda essa mensagem, cada vez mais importante e necessária, de que “a cultura é segura”, que Maria João e o seu OGRE electric se apresentaram no palco do Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha. Com a cantora vieram a estreante Diana Cangueiro (electrónica) e os companheiros de longa data João Farinha (teclados e electrónica) e Joel Silva (bateria), para uma hora e meia de pura magia, as qualidades vocais, a versatilidade e a capacidade de comunicação de Maria João elevadas a expoentes de grandeza superior, mostrando o porquê de ser esta uma das grandes vozes mundiais do jazz.

Baseando o alinhamento no seu mais recente trabalho, “Open Your Mouth”, Maria João começou por cantar “Parrots and Lions”, trazendo-nos um cheirinho dos seus trabalhos primeiros, ao lado de Mário Laginha, e nomeadamente o fabuloso e muito pouco conhecido “Tralha” (2004). Daí em diante foi todo um desfiar de temas mais recentes, quase todos eles compostos por João Farinha, onde se destacam “Acute Angels”, “Tenho Um Verdadeiro Amor”, “Respiros” e também “Open Your Mouth”, o tema que dá título ao álbum. Revisitando “A Poesia de Aldir Blanc”, a cantora ofereceu-nos um divertido “O Coco do Coco” em jeito de samba para nos dar, logo de seguida, a “versão-fado”, o que mereceu do público a mais calorosa de todas as ovações da noite.

Outro dos momentos altos da noite surgiu com “Gobbledygook”, último tema do alinhamento, Maria João a “erguer a taça” à vitória de Biden nas presidenciais americanas e a trazer Kamala Harris para a música, literalmente – “We did it, Joe. You’re going to be the next President of the United States.” Depois de uma prolongada ovação, o quarteto regressou ao palco e interpretou “The Lion Sleeps Tonight”, reforçando a nota de boa disposição nesta grande noite do Caldas Nice Jazz. Em resumo, apesar do envolvimento crescente do projecto com a matriz electrónica, a alegria infantil de Maria João permanece bem viva e, com ela, esse convite à viagem por paisagens de sonho, florestas escuras e misteriosas, ritmos africanos e mesmo ao interior das nossas mentes, independentemente do grau de alucinação de cada um.

terça-feira, 16 de abril de 2019

CONCERTO: "Amoras e Framboesas"



CONCERTO: “Amoras e Framboesas”,
por Maria João e Orquestra Jazz de Matosinhos
Ovar em Jazz 2019
Centro de Artes de Ovar
13 Abr 2019 | sab | 22:00


Revisitando o memorável concerto ao vivo na Casa da Música de há uma década atrás, Maria João e a Orquestra Jazz de Matosinhos, dirigida pelo maestro Pedro Guedes, subiram ao palco do Centro de Artes de Ovar com “Amoras e Framboesas” para a derradeira noite do Ovar em Jazz 2019. Num auditório bastante bem composto de público, foram interpretados onze temas, uma boa parte dos quais saídos do cancioneiro popular brasileiro ou dos standards de jazz norte-americano, mas também de criações da sensacional dupla Maria João / Mário Laginha e até um “hit” de Bruce Sprinsgsteen.

Fazendo incidir a atenção na abordagem a temas incontornáveis do seu universo musical, Maria João contou com o suporte de uma big band cuja qualidade e virtuosismo fazem dela o melhor agrupamento do género no nosso País. E assim, o mínimo que se pode dizer é que as elevadas expectativas geradas pela reunião do som consistente da Orquestra Jazz de Matosinhos com a voz versátil e pujante daquela que é, indiscutivelmente, a primeira dama do jazz português, foram plenamente satisfeitas. De “Parrots and Lions” (do álbum “Tralha”, de Maria João e Mário Laginha, publicado em 2004) a “Beatriz”, um tema profundamente poético, escrito por Edu Lobo e Chico Buarque e cantado já no “encore”, foram passadas em revista, com a mesma emoção, paisagens sonoras a variar entre o colorido festivo e o mais profundo intimismo, todas elas intensa e sublimemente interpretadas.

Standard incontornável, “Skylark” foi um desses momentos de enorme delicadeza, a voz sussurada da cantora num apelo que ascende do mais fundo da alma – “Oh skylark / Have you seen a valley green with Spring / Where my heart can go a-journeying / Over the shadows and the rain / To a blossom-covered lane” -, o trompete de Ricardo Formoso a sublinhar a poesia do tema. Na mesma linha, “Lígia”, “Spring Can Really Hang You Up The Most”, “Torrente” ou “I’ve Grown Accustomed to Her Face”, este último reconhecendo-se do musical “My Fair Lady”, foram momentos mágicos, uma enorme doçura na voz a convidar à contemplação e ao sonho. Em contrapartida, “Surrey With The Fringe On The Top”, “Flor” ou “Dancing in The Dark” foram papagaios lançados ao vento, soltos e livres, "à espera que os meninos lhes cortassem o cordel”. A simbiose entre voz e instrumentos atingiu a perfeição nesse clássico absoluto da MPB que é “Canto de Ossanha” - “Coitado do homem que cai no canto de Ossanha, traidor / Coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor” -, Maria João incrível na articulação das suas múltiplas vocalizações, a bateria de Marcos Cavaleiro num diálogo arrebatador com a diva. Bravo!

[Fotos: facebook.com/ovarcultura/]