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terça-feira, 22 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 3



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ana Cláudia Santos, Ana Oliveira Cardoso, Ana Rita Gomes, Anabela Carrazedo, Carlos Nuno Granja, Dina Pereira, Joana Afonso, João Albano Fernandes, Joaquim Margarido, José Paulo Santos, José Saro, Julio Machado Vaz, Manuela Lobo Vieira, Marcelo Teixeira, Pedro Albuquerque, Rogério Charraz, Sérgio Luís de Carvalho
Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2026 | sex | 21:00


O terceiro dia da 12.ª edição do Festival Literário de Ovar começou quando a noite ainda vinha longe. Entre oficinas, formação creditada para professores e uma sessão sobre as virtualidades pedagógicas da biblioteca escolar, desde manhã cedo que as palavras começaram a multiplicar-se pelas salas da Escola Secundária Júlio Dinis. Ao fim da tarde, no Museu Júlio Dinis, Anabela Carrazedo apresentou “A Crença do Desamor” e, depois, Carlos Nuno Granja juntou João Albano Fernandes, Manuela Lobo Vieira, José Paulo Santos e Pedro Albuquerque numa mesa de conversa que tomou como ponto de partida uma frase de José Cardoso Pires: “Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre quem se aventura a recompô-lo. É um eco a sublinhar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um aviso.” Um aviso, pois, numa jornada que viria a ser feita de memória e inquietação, de livros que pareceram ir à procura do que ficou para trás e de vozes que se empenharam em compreender o presente. Quando a noite chegou à Escola de Artes e Ofícios, o festival já trazia muitas horas de palavras dentro de si.

Foi com o pão que a noite se sentou à mesa. Sérgio Luís de Carvalho, com “Almanaque do Pão”, acompanhado pelas ilustrações de Dina Pereira e pela memória de séculos de tradição, mostrou que há alimentos que são também territórios, histórias, gestos e afectos. “O pão não é só pão. É história e é memória”, disse a ilustradora, autora de sessenta e cinco desenhos que procuraram acompanhar, com o mesmo cuidado e paciência, a matéria escrita. O autor trouxe mais de meio milhar de provérbios, receitas, lendas, referências bíblicas e tradições populares, da padeira de Aljubarrota à Festa dos Tabuleiros, das migas às açordas, lembrando que muitas das tradições dos pobres são aquelas que o tempo se encarregou de guardar mais ciosamente. O pão foi, assim, uma espécie de metáfora perfeita para esta noite: algo que se amassa, se transforma e se partilha. Mais tarde, “Palavra Puxa Palavra” levou essa partilha para outro lugar. Rogério Charraz e Júlio Machado Vaz fizeram da poesia e da música uma conversa sem mapa, uma espécie de carta aberta em que se sabe onde se começa, mas nunca onde se acaba. O’Neill, Ramos Rosa, Sophia, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, Jorge Palma, Luís Represas, Elis Regina. A palavra foi puxando a palavra, até a sessão ficar suspensa da última nota.

A mesa moderada por Joaquim Margarido fez com que a noite encontrasse o seu centro em três Anas - Ana Cláudia Santos, Ana Oliveira Cardoso e Ana Rita Gomes -, três percursos, três escritas, três maneiras de olhar o mundo sem aceitar que alguém lhes entregue uma legenda pronta a engolir. A frase de José Cardoso Pires - “Mas o pior dos piores sabe o que é? É cada qual obrigar-me a fazer uma ideia do mundo a seu gosto. Vem um, diz: Isto está certo porque assim é que deve ser. Toma nota, ó cego” - serviu de chave para abrir uma conversa sobre literatura, mulheres, identidade, linguagem e liberdade. Ana Cláudia Santos falou da escrita como exercício de passagem, afirmando que é a sua maneira de “traduzir os outros, traduzir ideias e traduzir-me a mim própria”. Ana Oliveira Cardoso, autora de “Ontem”, romance onde o mar, a ilha e a memória se encontram, deixou uma frase que parece conter uma poética inteira: “A escrita leva-me a não tomar as coisas à letra.” E Ana Rita Gomes, autora de “A Bicicleta Açoriana”, trouxe consigo uma história que parecia fechar um círculo: veio para Ovar aos 14 anos “para fugir das letras” e regressou aos 50 para um Festival Literário. Entre o humor, a intimidade e a reflexão, as três convidadas foram mostrando que a literatura começa muitas vezes quando deixamos de aceitar que as coisas sejam apenas aquilo que parecem.

E houve ainda a inteligência artificial, essa presença cada vez mais inevitável, a pairar sobre o futuro da palavra. Ana Cláudia Santos lembrou que uma ferramenta generativa poderá imitar a linguagem, mas nunca será capaz de substituir as emoções e os sentimentos que um escritor deposita no que escreve; Ana Rita Gomes acrescentou que “quanto mais coisas sentidas partilhares, mais vais combater a inteligência artificial”. Pelo meio ficou também a questão das barreiras que ainda atravessam o caminho das mulheres, mas sem que a conversa se deixasse aprisionar por respostas fáceis: “Não é importante se se trata de ser homem ou mulher. O mais relevante é sermos boas pessoas”, afirmou Ana Rita Gomes. Nisso residiu o verdadeiro fio da noite: a recusa de uma única forma de ver, a desconfiança perante quem chega com certezas embaladas, o direito à dúvida e à diferença. Depois, Rogério Charraz e Júlio Machado Vaz levaram tudo isso para a música e para a poesia. “Quando os Deuses brincam é para magoar”, ouviu-se. Mas, naquela noite, talvez as palavras tenham feito o contrário: em vez de ferirem, encontraram-se. E, encontrando-se, fizeram companhia umas às outras. Palavra puxou palavra, a noite puxou a memória e a salvação veio pela música, pelos livros, pela partilha entre escritores e leitores.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Agrupamento de Escolas de Esmoriz – Ovar Norte | Curso Técnico de Multimédia | Alice Caetano, Andreia Confusa, Belmiro Carvalho, Bruno Henriques, Cândida Jardim, Carlos Nuno Granja, Cristina Carvalho, Edgar Pedro, Fernando Soares, Joana Leitão, José Manuel Castanheira, Lúcia Bandeira, Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins, Marcelo Teixeira, Matilde Horta, Nuno Bernardo, Paula Margato, Pedro Reisinho, Rita Correia, Rui Couceiro, Rui Guedes, Rui Manuel Almeida, Sérgio Duarte, Teresa Carvalho, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vanessa Martins
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar, Bar do CAO
21 Set 2025 | dom | 10:00 e 15:00


A décima primeira edição do Festival Literário de Ovar chegou ao fim e o balanço, feito na primeira pessoa por Carlos Nuno Granja, programador de conteúdos literários e, incontestavelmente, a alma e o coração do certame, resume-se numa frase: “Esta foi a melhor edição de sempre do Festival.” Uma ideia partilhada pelos indefectíveis do FLO, que o vêm acompanhando com renovado interesse, e que vêem nele o ponto de encontro perfeito no final de cada Verão. Durante cinco dias, Ovar foi a cidade da palavra e da cultura, com onze mesas literárias, quinze apresentações de livros, seis concertos e performances, oito oficinas, três sessões de teatro ambulante e uma curta-metragem em estreia mundial. Ainda na ressaca duma verdadeira maratona de celebração da palavra, a emoção prevalece, pela alegria da novidade e o reconhecimento da surpresa, pelo abraço de amigos de antes e de agora. Mas há também como que uma estranheza, uma quase sensação de orfandade, pelo fim deste ambiente acolhedor, vivo e livre, que sabe bem e faz bem.

De uma beleza ímpar, o Parque Urbano de Ovar foi o palco da manhã do último dia do Festival Literário de Ovar. A jornada não poderia ter começado melhor, com a apresentação de “O descabido caso dos livros desaparecidos”, uma obra de Carlos Nuno Granja, com ilustrações de Andreia Confusa. Matilde Horta dirigiu uma oficina de ilustração, Paula Margato trouxe para a Sessão de Conto “Um Lobo, Uma Capuchinho & Companhia Ilimitada” e houve igualmente lugar a uma mesa, a penúltima do programa, superiormente moderada por Rui Guedes e que contou com a participação de Vanessa Martins, Alice Caetano e Joana Leitão. A sessão resultou num vivo e enriquecedor momento em torno da literatura infantil, no qual se falou do processo criativo, de onde nascem as ideias para escrever, do acto da escrita como catarse e da dificuldade em provar aos mais novos, fascinados pelas novas tecnologias, que o livro é um objecto carregado de magia e sedução. A tarde teve o seu início no Bar do CAO e, logo a abrir, foi animada por uma excelente conversa moderada por Marcelo Teixeira, com Cristina Carvalho e José Manuel Castanheira ao seu lado na mesa, nela se falando da vasta obra dos dois convidados e, em particular, do livro que escreveram em parceria, “Fabulário ou o Pequeno Circo do Mundo”.

A apresentação dos livros “A Dança dos Pássaros Invisíveis”, de Edgar Pedro, e “O Rufo do Tambor que Levamos no Peito”, de Rui Guedes, prenderam igualmente a atenção dos presentes, bem como a Sessão de Contos, animada por Cândida Jardim, e a Oficina de Ilustração, com Rita Correia. O Auditório do Centro de Arte de Ovar abriu-se ao público para a última mesa do Festival, com Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins e Rui Couceiro, e moderada por Teresa Carvalho. Sob uma frase de Miguel Torga - “Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem” –, os convidados fizeram aquilo a que a moderadora chamou “esfregar sal na ferida que somos”. Também aqui se falou do processo de escrita, com Madalena Sá Fernandes a afirmar que “a literatura pode pouco, mas é esse pouco que a torna insubstituível” e Manuel Frias Martins a dizer que a base da escrita ficcional está no “não é, mas poderia ser”. Enfim, Rui Couceiro salientou que, “ainda que o futuro esteja sob a ameaça da Inteligência Artificial, haverá sempre uma literatura sem batota para nosso consolo.” A curta-metragem “Fui logo a Bela para Todos”, realizada por Belmiro Carvalho, e “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”, por Trigo Limpo Teatro ACERT, colocaram um ponto final numa edição memorável do Festival. O FLO regressa daqui a um ano. Viva o FLO!

domingo, 27 de maio de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Eugenia Rico



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Eugénia Rico
Museu de Ovar
26 Mai 2018 | sab | 21:30


Eugenia Rico foi a convidada de Maio das “Conversas Úteis”, conjunto de tertúlias literárias promovidas pelo Museu de Ovar e particularmente vocacionadas para o campo das letras. Como habitualmente, a moderação esteve a cargo de Carlos Nuno Granja e, uma vez mais, o saldo foi deveras positivo, de tal forma a escritora abriu ao público a sua cumplicidade e encanto, o seu requintado sentido de humor e a sua visão clara e acutilante sobre o mundo actual, e em particular no que à literatura diz respeito.

Nascida em Oviedo, Eugenia descobriu que queria ser escritora com cinco anos de idade, tendo publicado o seu primeiro conto aos onze. Os estudos em Direito e Relações Internacionais levaram-na a França e à Bélgica, mas os livros acabaram por falar mais alto e, em 2000, publica o seu primeiro romance, “Los Amantes Tristes”, o primeiro duma trilogia que prosseguiria com “La Muerte Blanca” (2002) e “La Edad Secreta” (2004). Tem, até hoje, nove livros publicados, quatro dos quais traduzidos para português, sendo “Los Amantes Tristes” / “Os Amantes Tristes”, a sua publicação mais recente no nosso País. Apresentado na Fundação José Saramago no passado dia 23 de Maio de 2018, “Os Amantes Tristes” estiveram na origem da vinda da escritora a Portugal e, num programa recheado de grandes acontecimentos, a passar pela nossa cidade para uma agradável troca de impressões e partilha de algumas curiosidades e experiências com o público ovarense. A acompanhá-la esteve Marcelo Teixeira, dirigindo também ele algumas palavras ao público e enriquecendo a tertúlia com a sua visão de tradutor e editor desta obra.

“Há muitas maneiras de matar um homem, mas uma das mais tremendas é impedi-lo de dormir. O homem não morre por não poder descansar, mas sim por não poder sonhar. Sempre que uma Nação conquista a sua independência, é dos artistas que se socorre para que sonhem os seus jovens ideais. Precisamos de artistas que sonhem o sonho dos povos.” Com estas palavras, Eugenia Rico começou por colocar-se a si e ao conjunto da sua obra no campo dos sonhos e explicou por que é que pensa poder oferecer-se a si própria o “luxo” de escrever: “Durante muito tempo não me foi fácil entender o sentido de escrever quando há tanta gente que não sabe sequer ler. Com o tempo acabei por perceber que tudo o que escrevemos é para sempre, existirá para lá de nós. Escrever é parte dum caminho de evolução para a Humanidade.”

Quanto à sua escrita, dum ponto de vista formal, Eugenia Rico gosta de se comparar a um argumentista (talvez ao facto não sejam alheios os seus estudos em Arte Dramática e Guionismo para Cinema, que cursou sob a direcção de Fernando Trueba). “O escritor faz o guião mas é ao leitor que cabe o papel de realizador. É ele quem determina que os tempos sejam mais lentos ou mais breves, quem faz o casting. Quando escrevo, deixo espaços no livro para que o leitor os possa completar. O verdadeiro detective é o leitor porque só o leitor sabe o que acontece verdadeiramente”, revela a escritora. Particularmente em relação a “Os Amantes Tristes”, Eugenia Rico confessou que, antes de o publicar, tinha páginas e páginas escritas guardadas na gaveta, associando a decisão de avançar com a sua publicação a um episódio marcante na sua vida, uma infeção num pé que resultou num delicado regresso a Madrid e numa intervenção complexa. Num mercado enorme e particularmente competitivo como o espanhol, foram muitas as portas que, no início, se fecharam à escritora. Mas a sua persistência acabou por dar frutos e ela é hoje um dos nomes importantes das letras no país vizinho, com obra editada na Alemanha, Itália, Grécia, Bulgária, Holanda, Rússia, Estados Unidos, México e Brasil.


P. S. - Para a parte final da tertúlia estava guardada uma enorme surpresa, a da descoberta em Ovar do primeiro leitor português de “Os Amantes Tristes”. Importará aqui referir que o leitor sou eu e que a minha recensão crítica ao romance de Eugenia Rico será publicada já de seguida. Aí se desvendará um pouco daquilo que constituiu uma particular conversa com a escritora, um momento privilegiado de partilha e conhecimento e que guardarei com especial carinho.