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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Ana Rita Gomes



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Ana Rita Gomes
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
21 Out 2026 | qua | 17:00


No passado dia 21, pelas cinco da tarde, o Centro de Reabilitação do Norte voltou a abrir as portas à palavra, à partilha e à emoção, acolhendo mais uma sessão das Tertúlias Literárias «Conversas às 5», após uma pausa de longos meses. Cerca de vinte e cinco pessoas, na sua grande maioria utentes internados, reuniram-se em torno de Ana Rita Gomes e do seu livro «A Bicicleta Açoriana», numa tarde em que a literatura se fez caminho e a conversa, lugar de encontro. O moderador saudou uma plateia que, apesar das contingências da doença, continua a procurar horizontes para lá das paredes que a acolhem: "Reabilitar não é apenas fazer fisioterapia. Reabilitar é estarmos em comunhão, é estarmos em partilha, é sermos empáticos uns com os outros". E talvez tenha sido esta a primeira e uma das mais fundas lições da tarde, na medida em que há movimentos que não se medem pela força dos músculos, nem pela distância percorrida, mas pela capacidade de nos aproximarmos uns dos outros. A leitura do prefácio de Cátia Masari Oliveira, A garota não, abriu a porta a esse universo onde a bicicleta não é apenas veículo, mas extensão do corpo, da liberdade e do pensamento. Ana Rita Gomes, com a serenidade de quem não precisa de se impor para se fazer ouvir, trouxe consigo as ilhas, os seus verdes desmedidos, os seus mares inquietos e, sobretudo, a disponibilidade de quem sabe que a beleza só se completa quando encontra alguém disposto a acolhê-la. Naquela sala, banhada por um magnífico sol de fim de tarde e com o mar ao fundo, a viagem começava muito para além de São Miguel: começava em cada um dos presentes.

Eixo que dá unidade ao livro e presença física na sala, a bicicleta foi mais do que uma máquina de duas rodas. Depressa se revelou uma forma de estar no mundo, de o descobrir sem pressas, de permitir que a paisagem entrasse pelos sentidos e encontrasse morada nas palavras. No poema "IV", a terra húmida, as lagoas, os cones vulcânicos e a imensidão do mar compõem uma geografia que não se limita a ser contemplada: vive-se, respira-se, levita-se com ela. Quando questionada sobre a origem desta escrita, a convidada devolve a conversa ao lugar mais espontâneo da criação: "Primeiro vem qualquer coisa, desde que eu a consiga partilhar". A experiência acontece, a emoção amadurece e o poema surge, quase sem ser chamado. "O poema vem ter comigo, eu não faço nada", confessou, numa simplicidade que não diminui o trabalho da escrita, antes lhe restitui o mistério. A natureza e as pessoas com quem se cruza são matéria dessa revelação. A propósito, Ana Rita Gomes recordou os vinte quilómetros de verde da Estrada dos Rosais, em São Jorge, salpicados de flores de todas as cores, entre as quais as pequenas "não me esqueças". E como esquece-las, depois de as ver? A memória nasce, por vezes, de um pormenor minúsculo que a alma se recusa a perder. Também a capa do livro, da autoria de Urbano, guarda esse enigma numa bicicleta cuja bagageira transporta poemas. Estariam eles já ali, à espera de serem encontrados, ou seria a autora a depositá-los, um a um, no decurso da viagem? Talvez ambas as coisas. Ana Rita pedala para ser "mais eu, mais livre"; e é nessa liberdade, feita de atenção e espanto, que a palavra encontra o seu caminho. A qualidade da sua escrita reside também aqui, na capacidade de transformar uma experiência concreta numa descoberta partilhável, sem sacrificar a delicadeza do olhar nem a verdade do sentir.

Há, contudo, em «A Bicicleta Açoriana», duas viagens que se entrelaçam: uma percorre a ilha visível; a outra desce ao território, menos evidente, da intimidade. À exuberância das cores, dos aromas e das formas sucede, por vezes, uma escrita mais rarefeita, onde o silêncio pesa e a palavra parece medir cuidadosamente o espaço que ocupa. "Ilha Branca" é exemplo dessa transformação. O que poderia ser plenitude torna-se ausência, o que prometia melodia deixa de soar, e até o mar parece guardar uma dor antiga. Ana Rita Gomes explicou que esta dupla dimensão nasce da experiência física, mas também da sua própria maneira de ser. Professora e treinadora, aprendeu a reconhecer a importância de se conhecer para conseguir colocar-se no lugar dos outros. "Conhecermo-nos bem é importante para nos pormos do lado do outro", afirmou. Talvez mais do que numa definição de poética, encontramos nesta frase uma chave para compreender a mulher que escreve. A empatia não surge como palavra decorativa, mas como exercício diário, exigente e transformador. Também por isso a paisagem nunca é apenas aquilo que os olhos alcançam. Ela depende da nossa disponibilidade para a receber. "Só temos de perceber qual o lugar que nos permite sermos nós próprios", disse, evocando essa rara sintonia em que se respira a paisagem até quase sermos parte dela. E há momentos em que o caminho pede pausa, em que insistir seria perder a luz. A autora sabe-o e não teme o silêncio e a escuridão: "Há momentos para tudo". Até para deixar de pedalar, olhar o céu, descobrir as estrelas e encontrar no mar o reflexo da lua. Esta sabedoria, que atravessa os poemas sem se transformar em lição, foi talvez uma das maiores riquezas da tertúlia. Porque também na reabilitação há subidas que parecem intermináveis, dias em que a corrente contraria a vontade e instantes em que parar não significa desistir. Significa, simplesmente, conceder ao corpo e à alma o tempo necessário para que o caminho volte a fazer sentido.

Mas a ilha de Ana Rita não se deixa reduzir a um postal ilustrado. Sob o verde luminoso e o azul que parece não ter fim, há contradições, fragilidades e responsabilidades que a beleza, por si só, não apaga. Em "Areia", a paisagem é matéria viva, ardente, capaz de suspender a palavra e de fazer regressar o corpo a si mesmo. A autora falou da importância de descobrir lugares ainda resguardados da pressão turística e defendeu a bicicleta como forma de conhecer os Açores com maior respeito pela natureza. O turismo de massas preocupa-a; a ilha merece ser vivida, não consumida. E, porque a liberdade também se mede pelas oportunidades que a sociedade concede a cada pessoa, a conversa alargou-se à condição feminina, tema que lhe toca de perto. Com cinquenta anos, Ana Rita Gomes foi a primeira mulher a ser seleccionadora nacional de voleibol, a primeira a treinar homens na modalidade e a primeira a comentar um jogo de voleibol na televisão portuguesa. Feitos que poderiam bastar para compor uma história de superação, mas que, nas suas palavras, expõem sobretudo a lentidão com que se desfazem as desigualdades. "Parece que há muita equidade, parece que temos todos os mesmos direitos, mas não é bem assim», advertiu. E lembrou que continua a não haver, em Portugal, uma única mulher a treinar uma equipa de voleibol da primeira divisão. No poema "Mulher", as injustiças, as memórias geladas, as lutas e as mãos que seguram a esperança condensam uma realidade que não pertence apenas às mulheres, mas à humanidade inteira. "Tanto faz ser homem como mulher, somos pessoas. Precisamos é de pessoas boas", afirmou, recusando que a diferença se transforme em fronteira. É aqui que a escrita e a pessoa se iluminam mutuamente. A poetisa que observa as flores e escuta o rumor das ondas é a mesma mulher que não fecha os olhos à desigualdade, que defende a natureza e que reconhece, num mundo tantas vezes marcado pela indiferença, a urgência da empatia e do amor. Não há contradição entre a delicadeza e a firmeza; há, antes, uma coerência profunda entre aquilo que se escreve e a maneira como se escolhe viver.

As intervenções do público trouxeram observações pertinentes, identificações inesperadas e confidências nascidas do reconhecimento. Houve quem encontrasse nas palavras de Ana Rita Gomes um reflexo de si próprio, quem se deixasse tocar por uma imagem, quem descobrisse na conversa uma forma de nomear emoções que, de outra forma, talvez permanecessem sem voz. A expressão "uma sala de emoções" resumiu a atmosfera de uma tarde em que a literatura cumpriu a sua vocação mais humana: aproximar pessoas, abrir espaço à escuta e lembrar-nos que ninguém se reabilita inteiramente sozinho. A convidada lançou então um desafio simples e generoso: que cada um se atrevesse a escrever, a partilhar o que sente, ou, pelo menos, a escolher um livro e conversar sobre ele; que os próprios utentes promovessem as suas tertúlias e dessem voz às suas experiências. No final, Ana Rita Gomes escolheu ler "Futuro", poema que fala de essência, liberdade, curiosidade e da possibilidade de preservar aquilo que ainda está por vir. E, quando lhe perguntaram o que mais se transformara nesta viagem, se o olhar sobre São Miguel ou o olhar sobre si própria, não hesitou: "Sem dúvida, sempre a forma como olho para mim própria". Porque é desse trabalho interior que nasce a capacidade de olhar melhor a ilha, as pessoas e a natureza. "A natureza merecia de nós mais do que os miminhos que lhe damos. Batemos mais do que lhes damos miminhos", disse, com a ternura desarmante de quem reconhece no cuidado uma forma de amor. A poesia não exige grandes viagens, nem paisagens extraordinárias. Basta, por vezes, a coragem de olhar de novo, de escutar o outro e de nos demorarmos onde a vida pede atenção. Naquela tarde, entre poemas, memórias e silêncios, Ana Rita Gomes não trouxe apenas uma bicicleta carregada de palavras. Trouxe a generosidade de quem as oferece sem as impor e a humanidade de quem sabe que o futuro, para merecer esse nome, terá de ser construído por todos. E que, mesmo quando o caminho custa, há sempre uma nova pedalada à espera de nos levar mais longe, sobretudo para dentro de nós.

sábado, 26 de setembro de 2026

LIVRO: "A Bicicleta Açoriana" | Rita Gomes



LIVRO: “A Bicicleta Açoriana – Uma Viagem Poética”,
de Rita Gomes
Ilustrações | Urbano
Ed. Letras lavadas, Fevereiro de 2026


“ (...)
Do ilhéu,
chega o maçarico mudo,
a baleia já não vibra
e o vento insiste
em não avançar.
O piano
estanque à janela do clube,
já não traz melodias.
A mó
já não envolve discursos audazes.
Ilha negra,
deixa o teu branco
assentar.”
Ana Rita Gomes, excerto do poema “Ilha Branca”

“A Bicicleta Açoriana” propõe uma viagem que começa antes da primeira pedalada. É a promessa de atravessar São Miguel com o corpo entregue ao vento, ao declive, à chuva e ao sal, mas também com os olhos demorados sobre aquilo que a pressa se impede de ver. Ao longo dos sessenta e um poemas que vestem o livro, Rita Gomes oferece-nos uma ilha que se move connosco: verde que se adensa, azul que se abre, lava que guarda o fogo, bruma que apaga contornos para logo os devolver, maresia que chega à pele como uma segunda respiração. A bicicleta é o eixo dessa travessia, mas depressa se percebe que é também uma forma de estar no mundo, um modo de medir a distância entre o que se procura e aquilo que inesperadamente se encontra. O livro percorre estradas, lagoas, pontes, igrejas, matas, piscinas naturais e pequenos lugares de passagem, mas percorre igualmente zonas mais secretas, da saudade à memória, do desejo à liberdade, da beleza à solidão. Há uma paisagem que se vê e outra que se pressente. Entre ambas, a poesia pedala.

Numa narrativa que a autora classifica como “de cor mais intensa, a do traço que acompanha uma travessia física de bicicleta pela ilha de São Miguel”, o olhar parece querer levar tudo consigo. A ilha surge em sucessivas aproximações, numa profusão de cores, aromas, texturas e movimentos, e o poema avança por acumulação, como quem recolhe o mundo à passagem. «O alcatrão fumega, o verde e o azul estalam» e é difícil imaginar melhor síntese desta escrita, onde a cor nunca é apenas decorativa, mas matéria viva, quase sonora. Os verbos dão impulso à paisagem: ela atravessa, salta, galga, irrompe, perfila-se, brota, fervilha. A sintaxe, muitas vezes deslocada, parece obedecer menos à gramática do que à inclinação da estrada. Depois, quando o corpo pára, a palavra continua. Na segunda narrativa, mais aérea e descontínua, nascida nas pausas dessa viagem, as paisagens e os objectos dispensam coordenadas. A ilha interioriza-se. O mar faz-se memória, o vulcão palavra, o sal dor, o vento consciência. O branco da página ganha a importância do silêncio e os versos respiram como quem acaba de subir uma ladeira íngreme. É então que a bicicleta vinca a sua presença e faz questão de se inscrever no ritmo do poema.

Há nessa respiração uma liberdade que não é apenas individual. Rita Gomes sabe que nenhuma viagem começa inteiramente no presente. Atrás de cada corpo que hoje ocupa uma estrada há outros corpos que tiveram de conquistar o direito de a percorrer; atrás de cada mulher que pedala há uma história de portas fechadas, de espaço negado, de vozes contidas. A poetisa não transforma essa herança em discurso, preferindo deixá-la circular subterraneamente pelos poemas, como água sob a lava. «Mulher» condensa-a numa sucessão de vidas, injustiças, lutas e esperanças; «Ilha branca» faz do silêncio uma espécie de matéria histórica; «Causas impossíveis» aproxima a fé do desejo de contrariar o destino. E assim a ilha, que poderia ser apenas paraíso, ganha sombra, contradição e espessura humana. No fim da viagem, fica menos a impressão de termos conhecido São Miguel do que a de termos aprendido a vê-la através de uma consciência em movimento. Dessa consciência retira o leitor o verdadeiro engenho desta bicicleta: ela não transporta apenas o corpo, mas desloca o olhar. Pedalar torna-se uma maneira de escrever; escrever, uma maneira de regressar. E regressar, aqui, nunca é voltar ao mesmo lugar.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 3



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ana Cláudia Santos, Ana Oliveira Cardoso, Ana Rita Gomes, Anabela Carrazedo, Carlos Nuno Granja, Dina Pereira, Joana Afonso, João Albano Fernandes, Joaquim Margarido, José Paulo Santos, José Saro, Julio Machado Vaz, Manuela Lobo Vieira, Marcelo Teixeira, Pedro Albuquerque, Rogério Charraz, Sérgio Luís de Carvalho
Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2026 | sex | 21:00


O terceiro dia da 12.ª edição do Festival Literário de Ovar começou quando a noite ainda vinha longe. Entre oficinas, formação creditada para professores e uma sessão sobre as virtualidades pedagógicas da biblioteca escolar, desde manhã cedo que as palavras começaram a multiplicar-se pelas salas da Escola Secundária Júlio Dinis. Ao fim da tarde, no Museu Júlio Dinis, Anabela Carrazedo apresentou “A Crença do Desamor” e, depois, Carlos Nuno Granja juntou João Albano Fernandes, Manuela Lobo Vieira, José Paulo Santos e Pedro Albuquerque numa mesa de conversa que tomou como ponto de partida uma frase de José Cardoso Pires: “Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre quem se aventura a recompô-lo. É um eco a sublinhar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um aviso.” Um aviso, pois, numa jornada que viria a ser feita de memória e inquietação, de livros que pareceram ir à procura do que ficou para trás e de vozes que se empenharam em compreender o presente. Quando a noite chegou à Escola de Artes e Ofícios, o festival já trazia muitas horas de palavras dentro de si.

Foi com o pão que a noite se sentou à mesa. Sérgio Luís de Carvalho, com “Almanaque do Pão”, acompanhado pelas ilustrações de Dina Pereira e pela memória de séculos de tradição, mostrou que há alimentos que são também territórios, histórias, gestos e afectos. “O pão não é só pão. É história e é memória”, disse a ilustradora, autora de sessenta e cinco desenhos que procuraram acompanhar, com o mesmo cuidado e paciência, a matéria escrita. O autor trouxe mais de meio milhar de provérbios, receitas, lendas, referências bíblicas e tradições populares, da padeira de Aljubarrota à Festa dos Tabuleiros, das migas às açordas, lembrando que muitas das tradições dos pobres são aquelas que o tempo se encarregou de guardar mais ciosamente. O pão foi, assim, uma espécie de metáfora perfeita para esta noite: algo que se amassa, se transforma e se partilha. Mais tarde, “Palavra Puxa Palavra” levou essa partilha para outro lugar. Rogério Charraz e Júlio Machado Vaz fizeram da poesia e da música uma conversa sem mapa, uma espécie de carta aberta em que se sabe onde se começa, mas nunca onde se acaba. O’Neill, Ramos Rosa, Sophia, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, Jorge Palma, Luís Represas, Elis Regina. A palavra foi puxando a palavra, até a sessão ficar suspensa da última nota.

A mesa moderada por Joaquim Margarido fez com que a noite encontrasse o seu centro em três Anas - Ana Cláudia Santos, Ana Oliveira Cardoso e Ana Rita Gomes -, três percursos, três escritas, três maneiras de olhar o mundo sem aceitar que alguém lhes entregue uma legenda pronta a engolir. A frase de José Cardoso Pires - “Mas o pior dos piores sabe o que é? É cada qual obrigar-me a fazer uma ideia do mundo a seu gosto. Vem um, diz: Isto está certo porque assim é que deve ser. Toma nota, ó cego” - serviu de chave para abrir uma conversa sobre literatura, mulheres, identidade, linguagem e liberdade. Ana Cláudia Santos falou da escrita como exercício de passagem, afirmando que é a sua maneira de “traduzir os outros, traduzir ideias e traduzir-me a mim própria”. Ana Oliveira Cardoso, autora de “Ontem”, romance onde o mar, a ilha e a memória se encontram, deixou uma frase que parece conter uma poética inteira: “A escrita leva-me a não tomar as coisas à letra.” E Ana Rita Gomes, autora de “A Bicicleta Açoriana”, trouxe consigo uma história que parecia fechar um círculo: veio para Ovar aos 14 anos “para fugir das letras” e regressou aos 50 para um Festival Literário. Entre o humor, a intimidade e a reflexão, as três convidadas foram mostrando que a literatura começa muitas vezes quando deixamos de aceitar que as coisas sejam apenas aquilo que parecem.

E houve ainda a inteligência artificial, essa presença cada vez mais inevitável, a pairar sobre o futuro da palavra. Ana Cláudia Santos lembrou que uma ferramenta generativa poderá imitar a linguagem, mas nunca será capaz de substituir as emoções e os sentimentos que um escritor deposita no que escreve; Ana Rita Gomes acrescentou que “quanto mais coisas sentidas partilhares, mais vais combater a inteligência artificial”. Pelo meio ficou também a questão das barreiras que ainda atravessam o caminho das mulheres, mas sem que a conversa se deixasse aprisionar por respostas fáceis: “Não é importante se se trata de ser homem ou mulher. O mais relevante é sermos boas pessoas”, afirmou Ana Rita Gomes. Nisso residiu o verdadeiro fio da noite: a recusa de uma única forma de ver, a desconfiança perante quem chega com certezas embaladas, o direito à dúvida e à diferença. Depois, Rogério Charraz e Júlio Machado Vaz levaram tudo isso para a música e para a poesia. “Quando os Deuses brincam é para magoar”, ouviu-se. Mas, naquela noite, talvez as palavras tenham feito o contrário: em vez de ferirem, encontraram-se. E, encontrando-se, fizeram companhia umas às outras. Palavra puxou palavra, a noite puxou a memória e a salvação veio pela música, pelos livros, pela partilha entre escritores e leitores.