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sábado, 26 de setembro de 2026

LIVRO: "A Bicicleta Açoriana" | Rita Gomes



LIVRO: “A Bicicleta Açoriana – Uma Viagem Poética”,
de Rita Gomes
Ilustrações | Urbano
Ed. Letras lavadas, Fevereiro de 2026


“ (...)
Do ilhéu,
chega o maçarico mudo,
a baleia já não vibra
e o vento insiste
em não avançar.
O piano
estanque à janela do clube,
já não traz melodias.
A mó
já não envolve discursos audazes.
Ilha negra,
deixa o teu branco
assentar.”
Ana Rita Gomes, excerto do poema “Ilha Branca”

“A Bicicleta Açoriana” propõe uma viagem que começa antes da primeira pedalada. É a promessa de atravessar São Miguel com o corpo entregue ao vento, ao declive, à chuva e ao sal, mas também com os olhos demorados sobre aquilo que a pressa se impede de ver. Ao longo dos sessenta e um poemas que vestem o livro, Rita Gomes oferece-nos uma ilha que se move connosco: verde que se adensa, azul que se abre, lava que guarda o fogo, bruma que apaga contornos para logo os devolver, maresia que chega à pele como uma segunda respiração. A bicicleta é o eixo dessa travessia, mas depressa se percebe que é também uma forma de estar no mundo, um modo de medir a distância entre o que se procura e aquilo que inesperadamente se encontra. O livro percorre estradas, lagoas, pontes, igrejas, matas, piscinas naturais e pequenos lugares de passagem, mas percorre igualmente zonas mais secretas, da saudade à memória, do desejo à liberdade, da beleza à solidão. Há uma paisagem que se vê e outra que se pressente. Entre ambas, a poesia pedala.

Numa narrativa que a autora classifica como “de cor mais intensa, a do traço que acompanha uma travessia física de bicicleta pela ilha de São Miguel”, o olhar parece querer levar tudo consigo. A ilha surge em sucessivas aproximações, numa profusão de cores, aromas, texturas e movimentos, e o poema avança por acumulação, como quem recolhe o mundo à passagem. «O alcatrão fumega, o verde e o azul estalam» e é difícil imaginar melhor síntese desta escrita, onde a cor nunca é apenas decorativa, mas matéria viva, quase sonora. Os verbos dão impulso à paisagem: ela atravessa, salta, galga, irrompe, perfila-se, brota, fervilha. A sintaxe, muitas vezes deslocada, parece obedecer menos à gramática do que à inclinação da estrada. Depois, quando o corpo pára, a palavra continua. Na segunda narrativa, mais aérea e descontínua, nascida nas pausas dessa viagem, as paisagens e os objectos dispensam coordenadas. A ilha interioriza-se. O mar faz-se memória, o vulcão palavra, o sal dor, o vento consciência. O branco da página ganha a importância do silêncio e os versos respiram como quem acaba de subir uma ladeira íngreme. É então que a bicicleta vinca a sua presença e faz questão de se inscrever no ritmo do poema.

Há nessa respiração uma liberdade que não é apenas individual. Rita Gomes sabe que nenhuma viagem começa inteiramente no presente. Atrás de cada corpo que hoje ocupa uma estrada há outros corpos que tiveram de conquistar o direito de a percorrer; atrás de cada mulher que pedala há uma história de portas fechadas, de espaço negado, de vozes contidas. A poetisa não transforma essa herança em discurso, preferindo deixá-la circular subterraneamente pelos poemas, como água sob a lava. «Mulher» condensa-a numa sucessão de vidas, injustiças, lutas e esperanças; «Ilha branca» faz do silêncio uma espécie de matéria histórica; «Causas impossíveis» aproxima a fé do desejo de contrariar o destino. E assim a ilha, que poderia ser apenas paraíso, ganha sombra, contradição e espessura humana. No fim da viagem, fica menos a impressão de termos conhecido São Miguel do que a de termos aprendido a vê-la através de uma consciência em movimento. Dessa consciência retira o leitor o verdadeiro engenho desta bicicleta: ela não transporta apenas o corpo, mas desloca o olhar. Pedalar torna-se uma maneira de escrever; escrever, uma maneira de regressar. E regressar, aqui, nunca é voltar ao mesmo lugar.

2 comentários:

  1. Admirável "olhar" para a poesia, para as causas, sentido, valor e alcance de cada vivência partilhada na «Bicicleta Açoriana».

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  2. Admirável "olhar" para a poesia, as causas, as vivências, o valor, sentido e alcance da viagem na «Bicicleta Açoriana».

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