Há algo de essencial num lugar onde as pessoas se juntam para ver o mundo através do olhar dos outros. Algo que corresponde a esse desígnio maior de dar a ver cinema, mas que vai além da inerente dimensão onírica e que aposta, sobretudo, na criação de uma comunidade atenta e cúmplice, reunida num espaço onde imagens, ideias e inquietações encontram quem as receba e devolva em pensamento. Na 108.ª sessão do Shortcutz Ovar, a sexta da presente temporada, a Escola de Artes e Ofícios voltou a ser esse lugar repleto de gente ávida de ver cinema, sinal de que há uma fome que nem a pausa estival conseguiu adormecer. Fome de um cinema português breve, mas nunca menor, capaz de condensar em minutos aquilo que por vezes uma vida inteira não chega para compreender. “O mundo vai acabar? De quantas maneiras?”, perguntou Tiago Alves, antes de abrir a porta para três filmes que parecem ter escutado a pergunta muito antes de ela ter sido feita. Três filmes que mostraram três maneiras de olhar o mesmo abismo, levando-nos a reflectir sobre o que desaparece, a fugirmos daquilo que somos, a limparmos o que os outros deixaram para trás. Três filmes sobre sobrevivência, portanto, mas também sobre a nossa obstinada necessidade de inventar lugares, reais ou imaginários, onde ainda seja possível preservar os restos da nossa humanidade.
“Suave Mar”, de Sara N. Santos, encontrou o passado onde ele sabe esconder-se de forma nítida: nas fotografias. Imagens antigas, resgatadas aos arquivos, mostram-se capazes de nos devolver um país que parece familiar e remoto ao mesmo tempo. Crianças mergulhadas nas ondas, rendas, fatos de banho, corpos que pedem ao mar aquilo que o mar nunca poderá dar: a eternidade. Há qualquer coisa de profundamente comovente nesta tentativa de comprimir o tempo, de salvar numa imagem aquilo que a vida condenou a desaparecer. Mas as fotografias sobrevivem-nos sempre de uma forma estranha: “Mãe, um dia também as nossas fotos ficarão órfãs?” A pergunta atemoriza tanto quanto fascina, qual onda que se desfaz fragorosamente, desafiando a resistência das altas falésias. Entre o documento e a ficção, entre a memória e a invenção, a fotografia transforma-se nessa espécie de fronteira contra o esquecimento. O imaginário colectivo diz-nos que tudo se repete. E, no entanto, nada regressa verdadeiramente. O mar é o mesmo; nós é que deixámos de o ser. “Talvez o filme mais poético da história do Shortcutz Ovar”, afirmou um espectador. E eu só tenho de concordar com ele. Com ele e com o público, que elegeu “Suave Mar” como o melhor filme da sessão.
Em “Amarelo Banana”, Alexandre Sousa trocou a nostalgia pela insónia. O protagonista deste filme de imagem animada acorda para um mundo que parece ter perdido qualquer razão para permanecer acordado e encontra, dentro de um apartamento, uma comunidade que decidiu desistir da consciência. São homens e mulheres que se refugiam num simulacro de natureza, entre papéis de parede, sons de pássaros e vegetação artificial. A ideia é absurda e talvez por isso se mostre tão terrivelmente próxima: a de fugir dos problemas, das responsabilidades, da própria ideia de humanidade. A floresta artificial, os sons da natureza, os corpos entregues à imobilidade, compõem uma espécie de paraíso de plástico onde o homem tenta desfazer a evolução e regressar ao animal. Mas a fuga é, afinal, outra prisão. A música de André Aires conduz-nos por esse desconforto sem nunca o resolver, enquanto a extraordinária conversa em linguagem gestual entre uma mulher e um macaco - o único diálogo explícito do filme – condensa uma profunda ironia, mostrando que evoluímos demasiado para podermos ser felizes e pouco para podermos deixar de nos sentir responsáveis por isso. «A necessidade de espiritualidade é algo que incomoda», disse alguém na sala. E ficámos sem saber se devíamos rir. Talvez “Amarelo Banana” exista precisamente nesse lugar onde o riso mais nos faz doer.
Chegamos finalmente a “Quietude”, curta-metragem de Gonçalo Almeida, e deixa de haver fuga possível. Yessica limpa o hotel enquanto o mundo passa por ela sem a ver. Turistas embriagados chegam, consomem, vomitam, deixam restos que alguém deverá limpar. Sempre alguém. As baratas, entretanto, proliferam. Persistem. Multiplicam-se. Talvez sejam elas as verdadeiras habitantes daquele lugar, enquanto os turistas são apenas uma espécie passageira, voraz e ruidosa. Remetendo para Kafka, o filme faz a metamorfose ao contrário. O monstruoso já não é aquele que se transforma, mas aquele que continua perfeitamente integrado no sistema que o serve. E há qualquer coisa de terrível nessa normalidade. Os tons quentes, dourados, quase acolhedores, tornam tudo ainda mais inquietante: por baixo do conforto, há uma máquina que torna as pessoas invisíveis. “Todos somos Yessica”, referiu Tiago Alves. Não é uma pergunta, antes uma afirmação. O mundo pode acabar de muitas maneiras. Pode acabar quando esquecemos. Quando fugimos. Quando deixamos que outros limpem aquilo que fazemos. Mas, numa Sala Expande cheia de gente bonita, numa noite igualmente bonita, percebeu-se que o olhar é algo ainda capaz de resistir. E enquanto houver quem olhe, quem veja, quem repare, o mundo não vai acabar.
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