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terça-feira, 31 de março de 2026

CONCERTO | PERFORMANCE: “Poesia de Sons na Música das Palavras”



CONCERTO | PERFORMANCE: “Poesia de Sons na Música das Palavras”
Coordenação | Maria João Cartaxo
Com | João Martins (bateria), Inês Lamela (piano e teclados), Gabriel Neves (saxofone)
Declamadores | Andreia Lopes, Aurora Gaia, Carlos Baldaia, Carlos Rainha, Diogo Costa Leal, Diogo Pinto, Eva Estrela, Fernando Pinto, Hélder Ramos e Joaquim Margarido
Dia Nacional dos Centros Históricos | Semana da Leitura / Plano Nacional de Leitura
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
28 Mar 2026 | sab | 16:00


Entre as paredes vivas do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, um raro instante de comunhão brotou. Nele, a palavra respirou música e a música encontrou corpo na palavra, como se ambas regressassem a uma origem comum, anterior a tempos e silêncios. “Poesia de Sons na Música das Palavras” foi mais do que um concerto-performance. Foi um território sensível onde as sílabas ganharam pulsação e os sons aprenderam a dizer, num diálogo íntimo e colectivo, que fez da arte um gesto partilhado. Como sugeria o eco de Voltaire, a poesia revelou-se música da alma e a música, poema em expansão, numa celebração que rasgou fronteiras e convocou o público nessa travessia. Houve ritmo nas pausas, melodia nos olhares e uma espécie de respiração comum que se instalou entre quem disse e quem escutou, nesse propósito de abraçar instantes e dissolver distâncias. A palavra, dita por vozes múltiplas, deixou de pertencer a quem a escreveu para passar a habitar o coração do público. Nesse instante, a Casa tornou-se mais do que memória literária. Ela foi presente vivo, laboratório de criação, mesa posta onde a arte se deixou saborear. O momento foi de encontro, mas foi sobretudo um princípio, uma semente lançada à terra fértil da comunidade, trazendo em si a certeza da germinação em futuras celebrações de cometimento, reinvenção e partilha do indizível.

Nos poemas - diversos como constelações dispersas e, ainda assim, ligados por invisíveis linhas de sentido -, foi possível encontrar uma unidade feita de desejo, perda, reinvenção e espanto. Da flor de sílabas de Nuno Júdice nasceu o próprio gesto criador, como se cada poema declamado fosse colhido no instante exacto em que a linguagem se fez vida. Dessa matéria brotou, também, a saia infinita de liberdade e infância, onde cabem relâmpagos, paz e revolução, numa dança luminosa que atravessa o corpo e o mundo. Houve quem pedisse um novo amanhã, rasgando o real com imagens febris - girassóis-coração, ventos, constelações -, numa urgência de existir para além dos limites; e quem, na dureza da ausência e da pobreza, reinventasse o Natal como último reduto do amor, no qual o outro é abrigo. A dor íntima, quase indizível, cruzou-se com o erotismo da espera, com o corpo preparado como oferenda e ausência, com a memória que regressa em palavras mortas e silêncios cheios. Entre papoilas e bicicletas, entre rosas levadas no risco do caminho e diálogos nocturnos onde o amor hesita mas resiste, desenhou-se um mapa profundamente humano, feito de dádiva e perda, desejo e resistência, luta e liberdade. E nele, a lição serena de aceitar o mundo inteiro, contraditório e natural, como quem aprende a respirar dentro da própria imperfeição.

No Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, a arte deixou de ser objecto distante para se tornar experiência comum, tecido vivo entre pessoas que se escutaram e se revelaram. Poema após poema, essa aura ganhou uma energia quase palpável, literatura e música entrelaçadas como se sempre tivessem pertencido uma à outra. O “milagre” deveu-se, em grande medida, ao trabalho de coordenação de Maria João Cartaxo e à inspirada colaboração de João Martins, Inês Lamela e Gabriel Neves, cuja sensibilidade na composição e interpretação das peças musicais foi sólida argamassa capaz de unir os poemas, de os iluminar e expandir, oferecendo-lhes novas camadas de sentido, como se cada nota abrisse espaço para outra respiração da palavra. Ao lado dessa construção sonora, ergueu-se a força dos declamadores: vozes seguras, maduras, de presença firme, convivendo com outras ainda em nascimento, mais frágeis talvez, mas igualmente verdadeiras. Nesse encontro de experiências, residiu a beleza maior do momento, porquanto a comunidade é feita de risco, de escuta, de partilha. “Poesia de Sons na Música das Palavras” revelou-se uma novidade necessária e fecunda, capaz de gerar continuidade, de criar raízes e de deixar no horizonte, em firme promessa, frutos densos, inesperados, perfumados de humanidade.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

EXPOSIÇÃO: "L - Luta e Liberdade"



EXPOSIÇÃO: “L - Luta e Liberdade”,
de Adélia Oliveira, Filomena Bettencourt, João Católico, Maria Branca Silva, Maria José Valente, Ricardo Pinho, Sara Alves, Vitória Castanho
Coordenação | Maria João Cartaxo
Museu Júlio Dinis
23 Mar > 21 Set 2024


Chama-se “Projeto L - Livros, Luta e Liberdade” e foi a forma encontrada pelo Agrupamento de Escolas de Ovar Sul para, com o apoio e envolvimento da Câmara Municipal de Ovar, se associar às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Alertar para a necessidade diária e premente de proteger a liberdade e a democracia é um dos seus objectivos primordiais, dele fazendo parte um conjunto de iniciativas que, das mais variadas formas, convidam à participação e à cidadania activa dos ovarenses. Cinema, teatro, dança, música, literatura e artes plásticas são vectores de um projecto que traz para primeiro plano a liberdade de expressão e faz de cada artista um mensageiro da reflexão crítica em prol da sociedade. Inscreve-se nesta linha a exposição “L - Luta e Liberdade” - assim como as visitas orientadas, performances e tertúlias que lhe estão associadas -, reunindo no Museu Júlio Dinis um conjunto de trabalhos desenvolvidos por docentes / artistas do Agrupamento. Uma dessas iniciativas foi a visita orientada e comentada pelos autores, realizada ao final da tarde do dia 29 de Maio, e que ofereceu a possibilidade aos participantes de terem uma outra visão sobre os trabalhos, descortinar os seus significados e perceber os diferentes processos criativos nos quais se baseiam.

Das palavras iniciais, proferidas pela coordenadora do projecto, Maria João Cartaxo, infere-se uma grande cumplicidade entre aqueles que abraçaram o desafio de se juntarem ao projecto e de dar corpo à exposição. Adélia Oliveira, a primeira convidada a falar do seu trabalho e da forma como se inscreve no ideário de Abril, oferece-nos uma imagem poética de libertação, a partir de duas figuras estilizadas que dialogam entre si e com o espaço exterior do Museu. É uma peça muito bela, passível de ser lida de forma metafórica graças ao antes e depois, ao dentro e fora ou ao preto e branco e à cor que nela se evidenciam. Filomena Bettencourt opta, através da pintura, pela conjugação de várias expressões artísticas, tomando como fonte de inspiração os poemas “Livre”, de Carlos de Oliveira, e “As Palavras”, de Manuel Alegre, dois hinos à liberdade de pensamento, enquadrados pelo lápis azul da censura e pelos cravos que brotam dos canos das armas. Maria Branca Silva propõem uma leitura diferente das palavras “liberdade”, “luta”, “expressão”, “igualdade”, “justiça e “democracia”, bem como da frase “ninguém cala esta revolta”. É esta frase que, dialogando com o cravo que se vê a ficar sem pétalas, a perder a vida e a cor, nos lembra que a liberdade nunca é um valor garantido e que precisa de ser cuidada diariamente.

Num outro espaço do Museu Júlio Dinis, Ricardo Pinho apresenta um trabalho de 2006 desenvolvido de forma quase artesanal, podendo relacionar-se com um mosaico bizantino ou com um bordado em ponto de cruz. Parte integrante de uma série de trabalhos de cariz pessoal, foi escolhida pelo seu autor pelo sentimento de raiva que dele transparece e que funciona como resposta ao esquecimento a que parecem votadas as conquistas de Abril. Vitória Castanho junta num mesmo trabalho a paixão pela fotografia e aquele que, no dizer da artista, é o Herói do nosso país: Salgueiro Maia. Por fim, Maria José Valente traz-nos um conjunto escultórico em arame, composto por um vasto conjunto de figuras que, de olhos e bocas bem abertos, parecem clamar que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Ausente da visita, João Católico é o autor do logótipo do projecto e desenvolveu um vídeo de apresentação que pode ser visto na sala a abrir a exposição. Também ausente, Sara Alves oferece-nos uma malha desenhada sobre papel, na qual a bidimensionalidade adquire um tom tridimensional. É um trabalho de grande impacto visual, que pede que atentemos no detalhe e que retira a sua energia da persistência e do gesto, duas “virtudes adormecidas” que se afirmam e que importa valorizar nestes tempos imprevisíveis que são os nossos.