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sábado, 25 de abril de 2026

LIVRO: "50 Abris" | Sara Duarte Brandão



LIVRO: “50 Abris”
Coordenação | Sara Duarte Brandão
Texto | Alex Couto, Ana Cruz, Ana Luísa Abreu, Ana Margarida de Carvalho, André Osório, André Tecedeiro, António Pinto Ribeiro, António Santos Pereira, Carla Crespo, Carla Mühlhaus e outros
Ilustração | Adamastor, Amanda Baeza, Ana Rita Robalo, António Modesto, António Seguro Franchini, Aurora Sant’Ana, Bia Costa, Bruno de Almeida, Catarina Ligeiro, Chila Mochila e outros
Ed. Truz Truz, 2024


“Filipa gostou de uma pinha pintada à mão: eram noites de verão. Para estar pronto para a liberdade, acredita ela, é preciso alguma luta. Um dia ela vai, com certeza, andar a cavalo, porque sim. Porque quer. Como quer Nuno levar suas palavras para o caderno de capa preta que escolheu, pelo prazer de escolher. De ter escolhas próprias, o que é o mesmo que ter palavras próprias, penso eu, mas quem sou eu. Cristiano também gosta de escrever porque fica bonito e todo mundo vê. Liberdade, aprendi com ele, não é estar na rua como um gato sem lar, é estar em casa, naquela casa ali, que é grande e tem até matraquilhos. Os pais são muito importantes, mas os amigos também, mesmo que briguem às vezes. Bom mesmo seria poder voar, e o Nuno concordou. Queria poder ir até o topo do céu.”

Há datas que não passam, que permanecem num pulsar como uma respiração funda no corpo de todos. O 25 de Abril que hoje celebramos é uma dessas datas. É memória e é matéria. Viva, inquieta, por vezes ferida. Chamamos-lhe revolução, mas foi sobretudo uma abertura: de janelas, de vozes, de futuros. Hoje, quando a liberdade parece tantas vezes reduzida a mera citação, a slogan ou mercadoria, regressar a Abril é um gesto de resistência. Nesse limiar entre evocação e urgência, ergue-se “50 abris”, coordenado por Sara Duarte Brandão, não para cristalizar o passado, mas para o devolver ao risco do presente. E fá-lo com um gesto raro ao deslocar o centro da narrativa, possibilitando escutar quem tantas vezes é silenciado. Nos encontros que deram corpo ao livro, cruzam-se escritores e ilustradores com utentes de associações sociais do Grande Porto, vozes frágeis, dissidentes, invisíveis, que aqui encontram lugar. Não como ornamento, mas como fundamento. Abril, afinal, nunca foi outra coisa senão isto: dar voz.

O livro recusa a solenidade amorfa e prefere o rumor múltiplo, quase indisciplinado, de quem fala sem erguer o braço ou pedir licença. Cada texto parece nascer de uma escuta prolongada, de uma espécie de hospitalidade radical, as palavras do outro sem correcção ou contestação, antes acolhidas no que têm de ingénuo, excessivo ou imperfeito. Há encontros que são colisões, há frases que guardam silêncios, há imagens que dizem o que o discurso não alcança. Nesse território instável, sente o leitor o quanto a linguagem se expande, se desarruma, se torna mais próxima da vida. Não há aqui uma narrativa única nem uma pedagogia da memória: há fragmentos, restos, lampejos, como se a liberdade só pudesse ser apreendida como quem recolhe os cacos de uma enorme jarra desfeita em pedaços. Entre a memória de um “desabril” cinzento e a tentativa de dar corpo ao presente, desenha-se um país que não deixa de tropeçar na sua própria história, dividido entre o que herdou e o que ainda não sabe construir.

Há, também, uma inquietação persistente que atravessa estas páginas, uma desconfiança quase visceral perante as palavras gastas, domesticadas pelo uso. Liberdade, democracia, igualdade: termos repetidos até à exaustão, mas tantas vezes desligados da experiência concreta de quem vive nas margens do discurso dominante. O livro mostra essa ferida exposta sem procurar suturá-la. Pelo contrário, amplia-a. Interroga o que significa, hoje, poder escolher quando as condições são desiguais, poder falar quando não há escuta, poder existir fora de categorias que apertam mais do que libertam. As vozes reunidas revelam uma liberdade condicionada, negociada, por vezes adiada — medida em percentagens incompletas, atravessada por constrangimentos materiais, sociais e afectivos. Há quem a sinta no corpo, na precariedade, na exclusão. Há quem a procure na linguagem, reinventando palavras para dizer o indizível. E assim, “50 Abris” transforma-se num lugar de tensão entre o ideal e o vivido, entre o direito proclamado e a realidade que o desmente.

Apesar desse lastro de dúvida, de desgaste e de um certo desencanto, há uma força que insiste em emergir - discreta, mas obstinada. Uma espécie de claridade que não ilumina tudo, mas impede a escuridão de se fechar. Como se cada testemunho trouxesse consigo um resto de futuro, uma possibilidade ainda não capturada pelo cinismo ou pela resignação. Crianças que sonham antes de saber nomear o sonho, adultos que reaprendem a escutar, comunidades que se reinventam na partilha e na diferença. Tudo isto compõe uma cartografia frágil, mas intensamente humana, dos caminhos da liberdade. Uma liberdade que surge, não como uma conquista consumada, mas como gesto contínuo, trabalho inacabado, exercício exigente de presença e relação, de luta e defesa. “50 abris” não resolve Abril: reabre-o, expõe-no, devolve-o ao conflito necessário. O seu gesto é político e poético, lembra que a democracia não vive de datas comemorativas, mas de vozes activas, de fricções assumidas, de uma atenção vigilante ao outro. Porque Abril só permanece onde for dito, vivido e disputado. Todos os dias, em cada pequena e imperfeita forma de liberdade.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Sara Duarte Brandão



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Sara Duarte Brandão
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
04 Nov 2025 | ter | 17:00

As Tertúlias Literárias “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para a sua 26.ª sessão. À semelhança das anteriores iniciativas, o momento foi de comunhão e partilha à volta dos livros, abrindo a possibilidade de ampliar o processo de reabilitação dos doentes do Centro, expandindo-o ao universo colorido da literatura, à força das palavras, às viagens feitas de sonho e magia e, ao mesmo tempo, alertando para a importância dos livros nas nossas vidas. Convidada especial de um momento sempre especial, Sara Duarte Brandão trouxe consigo a sua enorme juventude e energia, a paixão pela vida e pela escrita, a promessa de um futuro que se espera melhor para todos. Um futuro feito de empatia, cumplicidade e dádiva. “Quem tem Medo dos Santos da Casa”, romance vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada 2023 e editado no passado mês de Marco com a chancela das Publicações Dom Quixote é o reflexo do espírito determinado e livre da autora, sendo o grande responsável pelo preenchimento do espaço da tertúlia, trazendo consigo as muitas camadas de que se reveste, das esculturas religiosas de Altino Maia às relações intergeracionais, dos valores da liberdade e da justiça à força de ser mulher.

“Um dos deveres do escritor e de quem se move no universo dos livros é levar a literatura a todo o lado”, referiu Sara Duarte Brandão, depois de afirmar a sua enorme emoção e alegria por poder falar da sua obra para um público muito particular e num lugar tão especial. Nascida no Porto, a convidada viveu praticamente toda a sua vida em Vilar do Paraíso, relativamente perto do Centro de Reabilitação do Norte. Designer de comunicação, com mestrado em Literatura, está actualmente a fazer o doutoramento em Ciências da Educação e a trabalhar com crianças e jovens cujos pais se encontram privados de liberdade e institucionalizados em estabelecimentos prisionais. Num contexto global mostra-se uma defensora acérrima da “educação pela arte e do seu impacto na vida de diferentes grupos e de diferentes pessoas”. Apresentando-se aos presentes, Sara Duarte Brandão falou da sua actividade como escritora, mas também como leitora: “Escrevo muito, mas leio muito mais”, disse. “Aprendi a andar de bicicleta aqui em frente, embora já não saiba andar de bicicleta”, lembrou, ao mesmo tempo reafirmando o carinho que tem por toda esta muito bela faixa litoral e que, seguindo para norte, encontra a foz do rio Douro e, na sua margem esquerda, a comunidade da Afurada, com o seu viver entre o rio e o mar, a sua identidade muito vincada, os estendais de roupa comunitários, as festas a S. Pedro e… os “santos da casa”.

Integrar uma equipa de alunos de Mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, na altura a trabalhar na Afurada, foi o despertar para a escrita de “Quem Tem Medo dos Santos da Casa”, um livro que tem na sua génese a obra do escultor Altino Maia (1911-1988) e dos Santos da Afurada, revelados ao mundo aquando da inauguração, em 1955, da Igreja Paroquial de S. Pedro da Afurada. A História fala-nos da apoteótica viagem das imagens até à Afurada, num grandioso cortejo de barcos, mas fala-nos também da sua rejeição por parte da comunidade, ao não reconhecer nelas uma ligação devocional. Apeadas e enclausuradas em armários da sacristia após a saída do Padre Joaquim, o defensor e protector destas esculturas durante quatro décadas, as peças foram resgatadas no âmbito deste trabalho de mestrado e mostradas ao público no Centro Interpretativo do Património da Afurada, em exposição inaugurada no dia 04 de Julho de 2020. “Como é que pessoas tão devotas a um determinado Santo se sentem no direito de humilhar e destruir a sua figura”, foi a questão que mais inquietou a escritora e que a levou a comparar o percurso das imagens ao da mulher, “em especial em Portugal, ao longo do tempo”. Juntar à história dos Santos da Afurada a figura de todas as mulheres, vítimas de discriminação e de isolamento ao longo dos tempos, ergueu-se com a força iniludível das causas maiores. Daí à escrita do romance foi uma questão de (pouco) tempo e (muita) garra.

Em velocidade de cruzeiro, a conversa segue agora na senda dos detalhes. A paixão pela arte têxtil e a ligação destes lavores à figura da mulher levou a que a escritora trouxesse essa imagética para o livro, colocando Maria Teresa, a protagonista, na figura de alguém que tece e se serve da memória para recuperar as imagens dos santos e fazer deles tema dos nove tapetes que se propôs fazer. O próprio nome da protagonista, Maria Teresa, é uma homenagem à coragem, à determinação e ao valor e significado da obra de Maria Teresa Horta. Outrora encerrados no escritório do avô, os livros que povoam a casa de Maria Teresa e que, aos poucos, acabaram por se transformar em territórios de liberdade, são uma memória ligada à importância dos avós na educação e na formação dos netos. A pouca abertura do Estado Novo a novas tendências ou correntes estéticas levou a que o próprio Altina Maia fosse visto como alguém exterior aos princípios e valores culturais do regime e caísse em descrédito, acabando por morrer na miséria. Camada após camada - a mulher, a comunidade, as gerações, os santos, o regime -, o livro vai-se “construindo” na mente dos presentes, graças às palavras de Sara Duarte Brandão: Vivas, ricas, inspiradoras.

“A minha filha é Sara e eu sou Teresa. Estive para não vir hoje, porque não estava muito bem disposta. Estou muito feliz por ter decidido vir. Muito obrigado”. Este testemunho tão cheio de luz abriu a conversa ao público presente, com o diálogo a ampliar-se graças às várias questões colocadas. Os santos de Altino Maia acabaram por se constituir no grande motivo de conversa e fonte, até, de alguma controvérsia. As questões socio-culturais ou o papel da arte enquanto figuração do real estiveram em debate, com o moderador a lembrar que “vivemos tempos muito conturbados e percebemos que as diferenças estão a afastar-nos uns dos outros, a servirem de pretexto a que muros se ergam à nossa volta e nos isolem cada vez mais, ao invés de nos aproximarem, já que é na diferença que encontramos a nossa diversidade e nos afirmamos enquanto comunidade e humanidade”. Se, como diz o povo, “santos da casa não fazem milagres”, este livro é um lançar da semente no coração dos leitores, das quais, diz a convidada, “umas brotam e outras não”. E acrescenta: “Aqui reside o milagre da literatura”. A conversa encerrou com o (hipotético) gesto furtivo de alguém que, munido de um balde de tinta e de um pincel grosso, escreve uma frase numa das paredes da Afurada, na certeza de que resistirá ao vento e ao sal. Esse alguém é Sara Duarte Brandão e a frase é “roubada” a Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” Um maravilhoso final de uma tarde perfeita.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

LIVRO: “Quem Tem Medo dos Santos da Casa” | Sara Duarte Brandão



LIVRO: “Quem Tem Medo dos Santos da Casa”,
de Sara Duarte Brandão
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2025


“O passado e o futuro são meras construções do presente: Muitas vezes ficamos presos ao que nunca existiu ou ao que acreditamos que se perdeu para sempre. Mas viver é aprender a conjugar os tempos. Os santos que se exibiam nesta igreja contavam uma narrativa que se aliava ao sofrimento que aquela vila já padecera. Eram um retrato de dor cravado em esperança, nunca a procura da desordem que atearam.”

Há uma névoa que sobe do rio, um murmúrio de vento que parece arrastar consigo preces antigas, uma casa ao pé da qual todos evitam passar. É neste ambiente sombrio que vamos encontrar Maria Teresa, a “louca”, a “bruxa” da Afurada. Entre o rigor das paredes familiares e a inquietação doce dos livros ao colo do avô, a sua juventude foi um tempo de descoberta — de um amor secreto, da vontade de não se deixar calar, de uma voz que pedia quem a escutasse. Porém, foram as mãos dos homens — de um pai austero em nome da fé, de um marido prepotente em nome do dever — que tentaram esculpir nela uma estátua muda, feita à imagem de promessas, na procura de a juntar ao rol imenso de mulheres que, separadas do seu mundo, se viram obrigadas a caber em moldes que não lhes serviam. Maria Teresa não se deixou imolar no altar do sacrifício. Um dia atravessou o rio e, nesse gesto simples, quase bíblico, rompeu com o preconceito. Abandonou uma vida de clausura e escolheu a margem onde o barro da vida prometia ser mais denso. Mas também mais livre, mais seu.

Ao ler “Quem Tem Medo dos Santos da Casa”, percebemos as palavras de Sara Duarte Brandão quando diz que “há muita magia no acto de honrar quem se admira”. Estamos perante um livro extraordinário, tecido com a brandura dos afectos e a força do não-dito, que celebra a memória daqueles que, no seu exemplo, fizeram de nós o que somos hoje. Intensas, emotivas, as palavras perfilam-se ao olhar do leitor como se de imagens num álbum de fotografias muito antigo se tratasse, em cada plano, em cada rosto, o passado e o presente de mãos dadas. Ao fazer de uma história que abalou a comunidade de São Pedro da Afurada o pano de fundo do romance, a autora faz dos “santos pretos” metáfora maior daquilo que uma comunidade escolhe calar. Tal como os santos, expulsos da Igreja e lançados ao rio, também a protagonista carrega em si o peso da exclusão e o brilho da transgressão. Na sua marginalidade, porém, abriga-se uma enorme beleza e integridade, reafirmação da certeza de que enquanto houver alguém para contar uma história — mesmo que em fragmentos, mesmo que em silêncio — a memória não morrerá.

Terna e sensível, de uma enorme força e coragem, a escrita de Sara Duarte Brandão ergue-se num clamor surdo para nos dizer que só pode ter medo dos santos da casa quem receia a audácia de uma mulher que, digna e livre, ousou atravessar o rio. Neste tecido narrativo, a força de Maria Teresa afirma-se pela recusa do lugar que lhe estava destinado, pelo fazer da solidão um refúgio e não uma punição, pelo ensinar Joana – agora menina, mais tarde mulher – a pensar, sentir e agir. Tida como assombrada, a casa sobre o rio é, na verdade, um lugar de esperança e recomeço, onde os fios do passado se entrelaçam com os do futuro. E é nesse espaço feminino — de partilha, de criação, de escuta — que se opera a verdadeira revolução: não a da força, mas a da transformação silenciosa de quem está a herdar uma forma de estar no mundo, a aprender a resistir e a combater a submissão. Talvez seja essa a beleza maior do romance: mostrar que a emancipação começa quando uma mulher tem coragem de olhar o medo nos olhos e continuar, mesmo que sozinha. Até que outra mulher, e outra, e mais outra, e muitas outras mais, a ela se cheguem e juntas façam o caminho.