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domingo, 9 de novembro de 2025

TEATRO: “José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983”



TEATRO: “José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983”
Encenação | Gonçalo Amorim 
Coordenação dramatúrgica | Rui Pina Coelho 
Textos | Lígia Soares, Marta Figueiredo, Miguel Cardoso, Rui Pina Coelho, Susana Moreira Marques
Cenografia | Catarina Barros
Figurinos | Cátia Barros  
Interpretação | Catarina Chora, Catarina Carvalho Gomes, Inês Salvado, Mariana Leite Soares, Pedro João, Xosé Lois Romero, Hugo Inácio, Abigail Raposo, Beatriz Mendes
Direção musical | Mariana Leite Soares, Pedro João
Produção | Teatro Experimental do Porto
165 Minutos (com intervalo) | Maiores de 12 Anos
Teatro Rivoli
07 Nov 2025 | sex | 19:30


O concerto de José Afonso nos Coliseus, em 1983, marcou o epílogo de uma das mais luminosas trajectórias da música portuguesa. Doente, mas ainda dono de uma voz interior intacta, Zeca despediu-se do palco com a mesma simplicidade e intensidade de sempre, oferecendo ao público um testemunho vivo da força da música como gesto de liberdade. A sua obra, enraizada nas modas e cantigas do povo, soube reinventar a tradição através de harmonias ousadas, ritmos do mundo e uma poesia de rara densidade moral e estética. Entre o coro anónimo da rua e a sofisticação de arranjos que bebiam tanto do jazz como da música erudita, Zeca Afonso construiu uma linguagem única, onde o compromisso político nunca sufocou a beleza. Naquele derradeiro concerto, ecoaram não só as vozes de um país recém-desperto, mas também a consciência de que sem a sua música - e a de tantos companheiros de utopia -, a Revolução dos Cravos talvez não tivesse encontrado o mesmo pulso, nem o mesmo canto capaz de transformar a esperança em acção.

Foi sobre o legado de Zeca Afonso, sobre a forma como soube transformar a canção popular em instrumento de consciência e liberdade, que o encenador Gonçalo Amorim e um conjunto de personalidades artísticas que com ele trabalharam se debruçaram, assumindo os concertos nos Coliseus como o culminar de uma carreira que uniu arte, povo e revolução numa mesma voz intemporal. Gravemente debilitado pela doença que o conduziria à morte quatro anos depois, José Afonso subiu aos palcos dos Coliseus de Lisboa e do Porto em 1983 para os seus últimos concertos. O concerto de Lisboa, registado pela RTP, tornou-se um marco na memória colectiva portuguesa e foi perpetuado em álbum, filme-concerto e, mais recentemente, numa edição restaurada que recupera quase integralmente o espetáculo. “José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983” faz-se de histórias e memórias onde se entrelaçam a música e o teatro, a performance e a poesia. Longe de querer assumir-se como uma cópia do concerto original, o espectáculo reinventa-o à luz de uma abordagem contemporânea inspirada no Gig Theatre, uma forma híbrida que funde a energia dos concertos ao vivo com a narrativa teatral.

O resultado desta reinterpretação do legado de Zeca Afonso, feita de liberdade criativa e profunda ressonância emocional, afigura-se díspar. Há um lado revivalista intenso e vivo que leva o espectador ao encontro das emoções de um momento único. É um dizer “presente” num concerto ao qual, presumo, muitas das pessoas na sala não assistiu… mas gostaria de ter assistido. Desse ponto de vista talvez tenha sabido a pouco, mas o momento final da “Grândola” terá valido por tudo o resto (para mim, pelo menos, valeu). Há momentos lindíssimos nos textos interpretados de forma original por actores misturados no meio do público, público que também são. As mensagens, actuais, remetem para o momento social, económico e político que se vive hoje em dia, momento de desconfiança em que o individual abafa o colectivo e em relação ao qual a música de Zeca Afonso é farol cada vez mais distante, já só - mas ainda - “uma pequenina luz bruxuleante”. Embora reduzido, o naipe de músicos mostra-se precioso, tanto na dinâmica de palco como na sua qualidade interpretativa. Há, enfim, um fio condutor do espectáculo errático, confuso nos seus propósitos, e ainda um erro de “casting” tremendo na opção pela actriz que assume a presença e a voz de Zeca Afonso. Se em relação à presença pouco haverá a apontar, já em matéria de voz só me ocorre dizer que o Zeca merecia melhor.

domingo, 13 de outubro de 2024

TEATRO: “As Grandes Comemorações Quase Oficiais do Período Histórico Habitualmente Conhecido como PREC (Processo Revolucionário em Curso)”



TEATRO: “As Grandes Comemorações Quase Oficiais do Período Histórico Habitualmente Conhecido como PREC (Processo Revolucionário em Curso)”
Textos | Joana Bértholo, Joana Craveiro, Jorge Louraço Figueira, Jorge Palinhos, Lígia Soares, Pedro Goulão, Rui Pina Coelho, Sérgio de Carvalho
Encenação | Gonçalo Amorim
Coordenação dramatúrgica | Rui Pina Coelho
Cenografia | Catarina Barros
Figurinos | Cátia Barros
Interpretação | João Miguel Mota, Eduardo Breda, Pedro Galiza, Teresa Arcanjo, Catarina Chora, Tomé Pinto, Inês Afonso, Pedro Quiroga Cardoso, Daniel Silva, Telma Cardoso, Maria Inês Peixoto
Produção | Teatro Experimental do Porto, ASSéDIO, Teatro Nacional São João
180 Minutos (com intervalo) | Maiores de 12 anos
Teatro Carlos Alberto
06 Out 2024 | dom | 16:00


“Na manhã de 25 de abril, quem ligasse a rádio ouviria imediatamente que algo extraordinário estava a acontecer, mas era-lhe igualmente solicitado (ou ordenado) que permanecesse em casa, a aguardar tranquilamente o desenrolar dos acontecimentos. É sabido que a revolução começou aí, quando tantos e tantas desafiaram essas instruções e encheram as ruas. Uma citação, provavelmente apócrifa, atribuída a Rosa Luxemburgo, sustenta que nada parece mais improvável do que uma revolução cinco minutos antes de começar e nada parece mais inevitável do que uma revolução cinco minutos depois de ter começado. O nosso olhar póstumo tende a debruçar-se sobre os acontecimentos de há cinquenta anos com um sentimento de incredulidade. A generalidade dos trabalhos historiográficos reforça esse sentimento, abordando o passado revolucionário não apenas como um país estrangeiro, mas como um local exótico, de contornos quase mitológicos. E, no entanto, para aqueles e aquelas que protagonizaram as greves, ocupações, mobilizações e conflitos do PREC, os mais extraordinários gestos foram quase sempre encarados como uma condição necessária a qualquer processo de democratização efectiva. Sem a liberdade de mudar e decidir, a democracia teria permanecido um ritual desprovido de significado. A revolução foi, pelo contrário, o tempo breve em que a democracia se exerceu e é precisamente isso que, cinquenta anos depois, lhe confere uma marca de profunda e irredutível alteridade face ao tempo morno que vivemos.”
Excerto do texto “Como parar um comboio prestes a descarrilar?”, de Ricardo Noronha
Investigador do Instituto de História Contemporânea (NOVA FCSH)

Extraordinária peça de teatro aquela a que assisti no Carlos Alberto, ao encontro do mais problemático e contraditório momento da história da democracia em Portugal, aquele que mais posições extremou, que mais fileiras cerrou, que mais esperanças matou. Extraordinária, pela força dos textos, desenhados em onze quadros escritos com os nervos à flor da pele, dados a ver em memória ou fado, em manifesto ou mensagem. Extraordinária, ainda, pela qualidade das interpretações, ousadas, irreverentes, à imagem e semelhança do momento que se ousou recriar. Extraordinária, enfim, pela mensagem que faz passar para estes tempos estranhos que vivemos, tempos acomodados, de espera, enquanto os inimigos da democracia, como vampiros, nos vão chupando o sangue pela calada. Alerta, povo, alerta. Às armas, se preciso for. Não adiantarei mais, abrindo caminho à Comissão de Festas Populares do Teatro Experimental do Porto e da ASSéDIO - Companhia de Teatro para que vertam, nos próximos parágrafos, “Enquanto houver força”, espécie de “manifesto” que integra o Programa de Sala da peça e que expõe, na perfeição, os princípios e valores desta peça, repito, extraordinária. [Pergunto-me como é que estas “Grandes Comemorações” nem uma semana estiveram em cena].

“O fim do PREC a 25 de Novembro de 1975 (se arriscarmos fazer uma datação precisa de um movimento tão fluido e tão complexo) não foi propriamente uma surpresa. Até certo ponto, tendo em conta a bipolarização geopolítica que emergiu da Conferência de Ialta (1945), o fim do PREC era inevitável - e até - muito provavelmente - desejado por todas as forças políticas organizadas, na altura activas em Portugal. Então, o Ocidente e o Leste olharam para a revolução portuguesa como um possível laboratório para a experimentação política. Simplificando (muito), para a esquerda - mais próxima ideologicamente do Bloco de Leste - o 25 de Abril seria uma espécie de Maio de 1968 tardio; e para a direita - mais próxima do capitalismo ocidental, a revolução portuguesa seria a primeira das transições democráticas que viriam a desembocar na queda do Muro de Berlim. Esquerda e direita usavam a história como um campo de batalha para a reconquista de uma narrativa sobre a sua própria cronografia.
 
Todavia, este espectáculo não é sobre o 25 de Novembro de 1975 e a previsível inevitabilidade da morte do Processo Revolucionário em Curso. Este é, sobretudo, um espectáculo sobre o fantasismo utópico e alegre que animou muitas cabeças, corações e mãos em Portugal durante os cerca de dezoito meses do PREC. É um espectáculo sobre o país que arriscou “assaltar o céu”. Mas é, também, um espectáculo assombrado pelas muitas derrotas e pelas muitas figuras trágicas que pairaram, espectrais, sobre todos os acontecimentos, durante esse período. Daí a nossa melancolia (de esquerda).

Neste espectáculo, contraria-se a tese de que, em 1974, após o 25 de Abril, se descambou num caos desordenado e excessivo. Ao invés, descobre-se no “dia inicial inteiro e limpo” e no processo revolucionário que se lhe sucedeu a eclosão de uma força popular sem epicentros coordenadores (um “abalo telúrico”, na feliz expressão de Fernando Rosas). No discurso político, o PREC rapidamente se transforma em confusão e desordem e a sua liquidação em sinónimo da institucionalização da democracia. Por seu lado, o 25 de Novembro tornou-se sinónimo da correcção dos perigosos excessos de uma imberbe democracia. Contudo, é a dimensão descentrada, libertária, espontânea, vitalista, popular, socialista e luxemburguista do PREC que mais nos fascina, ainda! Assim, entendemos, aqui, o PREC como mais uma das muitas batalhas travadas pela esquerda, alimentada pelo desejo de utopia, mas que, todavia, acabou derrotada... e que, por isso, é assombrada por revoluções passadas e, inevitavelmente, assombrará as revoluções futuras. Sim, as revoluções futuras, porque isto ainda não acabou. Este espectáculo desconfia da narrativa dos brandos costumes e de como em Portugal se fez uma revolução (quase) sem sangue.

Este espectáculo desconfia da narrativa de que houve um bando de brutos analfabetos que não souberam o que fazer com a liberdade que os soldados do MFA lhes atiraram para o colo. Este espectáculo duvida, também, da narrativa de que os dias do PREC foram loucos, excessivos, desorientados, a reboque de um bando de perigosos esquerdistas que tiveram de ser postos na ordem. Este espectáculo duvida da narrativa de que os portugueses não estavam preparados para a democracia. Este é um espectáculo que celebra a passagem dos cinquenta anos sobre o PREC. Este é um espectáculo dedicado a todas e a todos os que ainda conseguem estar motivados. Sim, motivados, porque isto ainda não acabou.”

sábado, 15 de dezembro de 2018

TEATRO: "Verdade ou Consequência"



TEATRO: “Verdade ou Consequência”
Direcção Artística | Gonçalo Amorim
Dramaturgia, pesquisa e criação | Catarina Barros, Gonçalo Amorim, Marta Bernardes, Rui Pina Coelho
Direcção plástica| Catarina Barros
Artistas-performers | Nils Meisel, Joana Mesquita, Marta Bernardes, Patrícia Gonçalves, Catarina Barros, Tânia Dinis, Susana Paixão, Gonçalo Amorim, Paulo Mota, Pedro André, Daniel Seabra, Camila Muñoz
Produção | Teatro Experimental do Porto, TNSJ
Teatro Nacional S. João | 80 minutos | M/12
12 Dez 2018 | qua | 19:00


Verdade E Consequência! No princípio há aquela disposição dos lugares no centro da sala, a aleatoriedade dos números, a sua eventual desadequação em relação ao lugar onde decorre momentaneamente a acção. Perceberemos rapidamente que este artifício cénico não é um mero capricho do encenador, antes a primeira verdade da peça. Através dele somos obrigados a sentar num lugar que não aquele que seria suposto, enfrentamos o incómodo de termos de nos levantar ou deslocar para melhor apreciarmos a acção, sentimos o desconforto de acompanharmos a turba no aplauso injustificado, na interjeição despropositada, no “passeio dos tristes” que nada diz, nada acrescenta. Consequentemente, pede-se ao espectador que invista o seu tempo e os seus recursos numa realidade com a qual acabará por se identificar, por muitas reservas e distância que queira marcar. Pede-se que olhe à sua volta e perceba o quanto de verdade há numa sociedade em profunda mutação. E quais as consequências sobre o próprio eu.

E eis-nos chegados ao cerne duma peça que se desenvolve como se de um jogo se tratasse, “um espectáculo em doze versos, um bolo em doze fatias”. Pequenos palcos para representações isoladas, os doze espaços em torno dos espectadores vão sendo ocupados, espelhando a futilidade de comportamentos e gestos, o vazio das acções que arrastam meio mundo, a idolatria e a alienação. Nesta roda da fortuna, tiro de partida de uma maratona de proporções inimagináveis e onde a maioria é obrigada a alinhar, “os cavalos também se abatem”. Lutar contra a corrente é sempre um acto isolado e que resulta numa estéril pregação no deserto (extraordinário o monólogo da actriz que “nada sabe”). No final, verdade e consequência resultarão numa e na mesma coisa, tal como a história do homem que está seguro que ao chegar a casa terá uma festa surpresa à sua espera e, pondo a chave à porta, descobre que afinal não há surpresa nenhuma e isso deixa-o... surpreendido!

Concluo dizendo que a verdade é que, no decorrer da peça, se revelou inglório o meu esforço para me agarrar a algo que fizesse sentido, que não vi grande mérito no trabalho dos actores (à excepção do já referido monólogo e que resulta num extraordinário momento de teatro), que no final não reagi com as habituais palmas e que saí do teatro sem olhar para trás e com a firme intenção de esquecer rapidamente um momento que, pensei eu, me tinha trazido mais insatisfação do que prazer. A consequência é que se instalou em mim uma tremenda dúvida quanto ao propósito ou à mensagem da peça e que acabei por me sentir na obrigação de dar dois passos atrás para melhor perceber se, na verdade, não haveria ali algo que se pudesse aproveitar. Consequência: Da revisão da matéria dada resulta a percepção de que há muito de bom numa peça que importa ver sem reservas.