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terça-feira, 3 de março de 2020

TEATRO: "Romeu e Julieta"



TEATRO: “Romeu e Julieta” 
Texto | William Shakespeare 
Versão | John Romão, a partir da tradução de Filomena Vasconcelos 
Encenação e cenografia | John Romão 
Dramaturgia | John Romão, Marta Bernardes 
Figurinos | Carolina Queirós Machado 
Interpretação | João Arrais, João Cachola, João Jesus, Mariana Monteiro, Mariana Tengner Barros, Matamba Joaquim, Rodrigo Tomás, Rui Paixão, Gonçalo Menino 
Produção | Colectivo 84 
90 Minutos | Maiores de 12 anos 
Teatro Nacional D. Maria II – Sala Garrett 
23 Fev 2020 | dom | 16:00


“O que me motiva neste texto é, exactamente, pensá-lo como uma pedra, no sentido em que ele tem uma forma tão específica e ao mesmo tempo tão ampla – a do nosso imaginário – que, finalmente, somos nós que definimos o que pode ser ‘Romeu e Julieta’. É um texto que tem um movimento quase dialético com a passagem do tempo, que ganha sentido à medida que o tempo passa. E essa é a força e o poder destes textos: são eles que regressam ao presente, não somos nós que os vamos buscar”. Estas palavras de John Romão, reproduzidas na folha de sala da peça e que são parte duma conversa muito interessante com Maria João Guardão, levam-nos directamente a uma constatação: Numa época em que o palpável, o materializável, cede rapidamente lugar ao virtual, a forma como o encenador trabalha o texto de William Shakespeare e o dá a ver, realça a sua actualidade e vitalidade e constitui, em si mesma, uma poderosa metáfora do mundo de hoje e um extraordinário momento de teatro.

A peça conta a história, por demais conhecida, de dois jovens apaixonados, filhos de famílias rivais, que sucumbem ao ódio que os separa, mas cujo amor perdura para além da morte. Esta poderia ser, como tantas outras, apenas mais uma versão do clássico de Shakespeare, mas aquilo que John Romão e o Colectivo 84 nos oferecem, escapa claramente à banalização. Seja pela estranheza dos corpos estáticos, em despojamento total, nos quais se reconhecerá uma queda livre, vertiginosa e febril, que (n)os aproxima rapidamente do momento derradeiro, seja pelo dispositivo cénico, marcado por uma evidente estética cinematográfica, pela palavra, pelo belíssimo texto de um dos mais pungentes dramas de toda a literatura clássica, ou pela interpretação dum colectivo de actores fantástico, esta versão de “Romeu e Julieta” é uma peça absolutamente única, duma eficácia e beleza ímpares no nosso panorama teatral.

Comprometido com os aspectos julgados essenciais neste texto, nomeadamente um Romeu e uma Julieta que se assumem como motores de uma construção individual e de uma decisão consciente em não se aterem à inevitabilidade de serem quem lhes diziam que tinham de ser, John Romão lança mão de uma série de recursos cenográficos de extraordinário recorte estético, para melhor vincar a mensagem que pretende fazer passar. Das cortinas de luz à individualização do movimento dos vários palcos da acção, dos símbolos evocativos da guerra como da paz aos lugares que ora são ora deixam de o ser, é a um lugar do amor e da transgressão, a um lugar da impossibilidade – ou seja, o lugar de todas as possibilidades – que John Romão nos transporta. Verticalidade e horizontalidade, movimento e imobilidade, céu e terra, vida e morte, é entre esses estados que flutuamos, ao encontro dos lugares de onde viemos e para onde caminhamos. No final, diremos como Julieta, depois de tomar o veneno: “E se tudo falhar tenho sempre a possibilidade de morrer.

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