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quarta-feira, 31 de maio de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Utopia e Realidade"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Utopia e Realidade”,
de Gina Marrinhas
Galeria Morgados da Pedricosa, Aveiro
27 Mai > 20 Jun 2023


“O ser humano que nos gabamos de ser soube sempre humilhar e ofender aqueles a quem, com triste ironia, continua a chamar seus semelhantes. Inventamos o que não existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo. Por um uso perverso da razão viemos dividindo a humanidade em categorias irredutíveis entre si, os ricos e os pobres, os senhores e os escravos, os poderosos e os débeis, os sábios e os ignorantes, e em cada uma dessas divisões fizemos novas divisões, de modo a podermos variar e multiplicar à vontade, incessantemente, os motivos para o desprezo, para a humilhação e a ofensa.”
[Extraído de José Saramago: “Chiapas, nome de dor e de esperança”, Visão, 9 de Junho de 1998]

Depois de “Histórias de Encantar”, que tive oportunidade de ver muito recentemente na Biblioteca Municipal de Ovar, e de “Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente”, em finais de 2019 e no mesmo local, volto a cruzar o olhar com a pintura de Gina Marrinhas. No bonito e bem cuidado espaço da Galeria Morgados da Pedricosa, em Aveiro, é possível apreciar “Utopia e Realidade”, exposição patente ao público desde o passado sábado e que reúne um conjunto de vinte e oito trabalhos representativos do multifacetado universo da artista. Pintora de causas, atenta aos problemas que afligem as sociedades actuais, empenhada na busca de soluções, Gina Marrinhas elege a sua pintura como arma de denúncia, espalhando através dela uma mensagem universalista, transformadora, interventiva e profundamente humanista, que luta pela valorização da pessoa e da sua condição e sonha com um mundo mais justo e melhor.

Os desafios a que vamos sendo sujeitos, desde uma pandemia e uma guerra na Europa à crise inflacionista, às desconfianças que recaem sobre os sectores da economia e da política ou à escalada dos movimentos populistas e nacionalistas, não escapam ao olhar e à sensibilidade da pintora. Por isso pede que estejamos atentos às atitudes e comportamentos preconceituosos e discriminatórios que pendem sobre os mais frágeis e vulneráveis e que abandonemos o tom de passividade face ao sofrimento das crianças e idosos, das mulheres vítimas de violência doméstica, dos que sofrem perseguição política ou fogem das guerras, dos que revelam uma orientação sexual diversa ou não nasceram com a mesma cor da pele. Marginalizados, excluídos, vamos encontrá-los em quadros cuja enorme beleza pictórica não oculta o significado de um olhar perdido na imensidão, de um ombro que se enlaça, de um grito calado, de um rosto dolorido, de umas mãos que se erguem aos céus. Quadros que devemos olhar de frente, como quem se vê ao espelho.

Num todo coerente, “Utopia e Realidade” leva-me a abraçar Gina Marrinhas com a maior admiração. A sua pintura sempre me cativou, as figuras evanescentes, aquela paleta reduzida em combinações a primar pela elegância e bom gosto, quase como quem pede desculpa por “abusar” da cor, por vezes um fulgor vermelho vivo como um risco que se aceita correr. Porém, mostra-se aqui de uma forma que eu não conhecia, que me surpreendeu e me fascinou. Nesta exposição, a crueldade que se abriga por detrás de um conto infantil tem uma expressão bem real. Este país (este mundo) não é o de Alice, na floresta o lobo-mau não admite perguntas e pinóquios é o que mais há. Armas, só de destruição maciça, os barões assinalados são carne para canhão e as “ilhas dos amores” tomam o nome de Samos, Lesbos ou Lampedusa. Quase nada disto, porém, é mostrado cruamente. A inquietação gerada advém do contraste entre a chamada de atenção subtil e o conjunto de emoções que daí advêm. Um grito será sempre um grito, mesmo que levantado num sussurro.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Histórias de Encantar"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Histórias de Encantar”,
de Gina Marrinhas
Biblioteca Municipal de Ovar
10 Fev > 22 Abr 2023


Depois de, em finais de 2019, nos ter oferecido a sua visão sobre essa obra maior da literatura portuguesa e universal que é “Os Lusíadas”, Gina Marrinhas regressa à Biblioteca Municipal de Ovar com um conjunto de trabalhos que apelam à imaginação e ao sonho. São “histórias de encantar” que praticamente se inscrevem no nosso código genético de tanto as termos ouvido contar da boca dos nossos pais, tios ou avós e de tanto as termos contado aos nossos filhos. Histórias que teimam em aquecer, embalar e enriquecer. Que não cessam de aguçar a curiosidade e a imaginação, de despertar o lado lúdico de quem as ouve, de fazer com que o mundo possa ser mais facilmente entendido, de se mostrarem fundamentais para melhor lidar com as emoções. Todos passámos por isto e, de igual modo, a pintora; que, com a sua arte, quis prestar homenagem a um conjunto de figuras que cresceram com ela e que continuam a fazer-lhe companhia.

Do coração para a tela e da tela ao nosso olhar e sentir, “Histórias de Encantar” é um tempo de partilha e de dádiva que nos coloca à prova num duplo sentido. Por um lado, as partes conhecidas de cada história que despontam de cada quadro, o lobo bem apessoado, a apetecível maçã por sobre a mesa, casinhas feitas de doces, um nariz a crescer, um sapatinho deixado para trás, meninas e príncipes que se apaixonam, casam e vivem felizes para sempre. Há um lado subliminar, porém, que Gina Marrinhas faz questão de trazer ao de cima na forma de um relógio, uma espada, um anjo, uma flor, uma velha (uma bruxa?) à espreita, uma criança à espera, uma abóbora, um coelho, uma chávena de café. E pássaros, sempre. Signos como ecos de um tempo, de um lugar, de uma voz cada vez mais distante. A sua forma de devolver uma história sonhada mil vezes.

Exercício de reinterpretação de enorme significado, “Histórias de Encantar” reparte-se entre Lewis Carroll e Charles Perrault, Gabrielle-Suzanne de Villeneuve e Hans Christian Andersen, os Irmãos Grimm e Carlo Collodi, a tradição oral japonesa e alemã, Maria Judite de Carvalho, Rubem Alves, Antoine de Saint-Exupéry. Há histórias que são “património universal”, como “Alice no País das Maravilhas”, “Pinóquio”, “O Principezinho”, “A Bela Adormecida”, “Branca de Neve e os Sete Anões” ou “A Menina do Capuchinho Vermelho”. Outras serão menos conhecidas mas, ainda assim, histórias de encantar. E há, enfim, Gina Marrinhas, com a beleza da sua pintura, o seu traço muito pessoal na forma como pinta, sem vincar em demasia os objectos da sua atenção, antes deixando-os envoltos numa relativa indefinição. As cores prendem-se aos elementos essenciais, recaindo nos azuis em todos os tons e nos ocres. A tela é despojada daquilo que é acessório, os espaços deixados livres para que possam ser preenchidos por quem observa. Para ver na Biblioteca Municipal de Ovar, espaço de livros e de esperança. De histórias de encantar.

sábado, 2 de novembro de 2019

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente”,
de Gina Marrinhas
Biblioteca Municipal de Ovar
20 Set > 09 Nov 2019


— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

A Sala de Exposições da Biblioteca Municipal de Ovar acolhe, até ao próximo dia 09 de Novembro, “Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente”, conjunto de trabalhos da pintora Gina Marrinhas por onde perpassam os versos de Luís de Camões, seu fundamento e brisa inspiradora. O primeiro quadro invoca a musa Calíope e nele se intuem caminhos de sabedoria, eloquência e poesia feitos. Entre as boas graças dos deuses e o canto de belas ninfas, é atravessando-os que visitamos uma parte importante da nossa alma, o clamor das batalhas, a dor da partida, os amores para sempre adiados, “tantas vezes a morte apercebida!”

Como refere Sérgio Azeredo num texto intitulado “As Emoções no Silêncio” e que acompanha esta exposição, “a pintura de Gina Marrinhas conta-nos uma história de emoções profundas, que exprime o inconsciente-consciente pessoal. Apologia sensorial que valoriza a imagem, de impacto visual assumido, e mergulha nas águas de um oceano turbulento, cheio de belezas inocentes, que parecem atingidas pela tristeza, em meios sorrisos interrogativos e plenos de ironia esboçada, sussurrando segredos. Gina Marrinhas confronta-nos com a intemporalidade cósmica, num diálogo tenso, de aspectos intangíveis, em traços de uma austeridade serena e de amor sentido.”

Singela nas cores esmaecidas, imensamente bela no desenho, intensa na mensagem, “Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente” é uma exposição que cala fundo em nós. Uma boa parte da nossa herança histórica de quase nove séculos cabe inteira neste conjunto de trabalhos, nos quais, inevitavelmente, nos revemos. Com “Batalha de Aljubarrota”, “Episódio de Inês de Castro”, “Velho do Restelo” ou “Vasco da Gama”, é da nossa cultura e da nossa civilização como memória, vida e futuro, que Gina Marrinhas nos fala. Fala-nos de sóis e de ventos, de promontórios que se erguem como gigantes e da imensidão do mar, do concílio dos deuses e da fé dos mortais. Fala-nos do pão que sacia a fome aos homens e dos seus feitos gloriosos, mas também nos lembra o quanto torturaram e mataram. Fala-nos da beleza, da grandiosidade e da dádiva, mas fala-nos também da ignomínia e da vergonha, que não podem ser esquecidas para que jamais voltem a acontecer.