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terça-feira, 26 de maio de 2026

DANÇA: “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” | Victor Hugo Pontes



DANÇA: “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Interpretação Abel Rojo, Alejandro Fuster, Ana de Oliveira e Silva, Ángela Diaz Quintela, Daniela Cruz, Dinis Duarte, Esmée Aude Capsie, Inês Fertuzinhos, João Cardoso, Joana Couto, José Jalane, José Santos, Liliana Oliveira, Rémi Bourchany, Tiago Barreiros, Tomás Fernandes, Valter Fernandes
Produção | Nome Próprio
75 Minutos | Maiores de 16 Anos
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica
Teatro Nacional S. João
23 Mai 2026 | sab | 19:00


Há espectáculos que ocupam um palco. “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” ocupa um estado de espírito. Através dele, Victor Hugo Pontes regressa ao corpo como quem regressa ao primeiro território político, esse lugar inaugural onde a opressão começa e a liberdade encontra ainda a possibilidade de nascer. Logo no início, dois corpos medem-se num duelo que parece também um reconhecimento impossível: aproximam-se e recuam, como se a intimidade fosse ainda uma ameaça herdada. Depois, lentamente, o palco enche-se de uma humanidade nua, vulnerável e imensa. Não se trata aqui da nudez como provocação, mas como despojamento radical, um corpo sem ornamento, sem classe, sem época, sem defesa. Atravessada por enormes hélices suspensas, o cenário faz pensar simultaneamente num hangar, numa fábrica e numa catedral profana. Tudo parece preparado para uma transformação iminente, embora ninguém saiba exactamente de que forma ela chegará. É nesse intervalo, entre a expectativa e o abismo, que a peça encontra a sua pulsação mais funda. O verso de José Mário Branco deixa de ser citação e torna-se atmosfera: Há sempre qualquer coisa prestes a acontecer. E o mais inquietante é perceber que essa coisa talvez já esteja a acontecer dentro dos corpos, antes sequer de ganhar nome ou história.

Victor Hugo Pontes constrói esta criação como uma sucessão de imagens que recusam fixar-se numa narrativa fechada. Há ecos de Pina Bausch, de Géricault, de Delacroix, de antigos rituais pagãos e de manifestações contemporâneas; mas tudo surge contaminado por uma matéria profundamente física, quase animal, onde o colectivo ganha uma densidade emocional única. Os dezanove intérpretes movem-se como um organismo único, feito de músculos, suor, respiração e confiança. Há mãos que carregam cabeças, pernas que sustentam troncos, corpos que se empurram e amparam numa coreografia onde o contacto foge ao decorativismo para se tornar num gesto de sobrevivência. A beleza da peça nasce precisamente dessa oscilação entre fragilidade e potência. Cada quadro parece surgir do caos para logo regressar a ele, como se a comunidade fosse uma construção permanentemente ameaçada. Apesar da iminência da queda, o espectáculo insiste na possibilidade da ternura. Há uma delicadeza tocante na forma como aqueles corpos nus se oferecem ao olhar de todos, sem vergonha nem heroísmo. O palco transforma-se então num lugar de confiança absoluta, algo raro nos tempos que correm, habituados que estamos à à vigilância, à ironia e ao medo da exposição. Talvez por isso esta criação perturbe tanto, porque nos confronta com uma ideia de liberdade na qual já deixáramos de acreditar.

A dramaturgia visual da peça possui uma força invulgar na paisagem da dança portuguesa contemporânea. Victor Hugo Pontes não trabalha o movimento como mero virtuosismo coreográfico; trabalha-o como pensamento encarnado. Cada deslocação parece responder a uma pergunta antiga: Como dança um corpo depois da repressão? Como se move uma comunidade depois da violência? O espectáculo evita respostas fáceis e prefere permanecer nesse território inquieto onde a libertação é simultaneamente desejo e risco. Quando os intérpretes atravessam o palco numa explosão de energia colectiva, ou quando irrompe o coro de “I Want to Break Free”, dos Queen, não estamos perante uma celebração ingénua da liberdade, mas perante a memória física da sua conquista. O que emociona não é o triunfo; é o processo. A sensação de que aqueles corpos aprenderam lentamente a confiar uns nos outros, a respirar juntos, a cair juntos. Há algo profundamente comovente nesta insistência do colectivo num tempo histórico marcado pela atomização e pela fadiga social. Cinquenta anos depois do 25 de Abril, o espectáculo não procura monumentalizar a Revolução, antes reencontrar-lhe a temperatura humana. Em vez de nostalgia, oferece presença; em vez de discurso, oferece pele.

No final, fica a impressão de termos atravessado não apenas um espectáculo, mas uma espécie de ritual contemporâneo sobre a condição humana. “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” convoca-nos para um lugar anterior ao cinismo, onde ainda é possível acreditar que os corpos podem transformar o mundo ou, pelo menos, impedir que ele endureça completamente. A peça recorda-nos que toda a liberdade começa por uma exposição: mostrar-se, despir-se, deixar cair as armaduras interiores. Há qualquer coisa de profundamente político nesta escolha de vulnerabilidade. Num tempo saturado de identidades performativas e de violência simbólica, estes corpos nus devolvem à cena uma verdade desarmante: Somos frágeis, semelhantes, transitórios. E talvez seja exactamente por isso que precisamos uns dos outros. O espectáculo termina, mas a sua imagem persiste muito para lá do aplauso. Não uma imagem fixa, mas um movimento contínuo, quase subterrâneo, como se aqueles corpos continuassem ainda a respirar dentro de nós. Saímos do teatro com a estranha sensação de que a mudança não pertence apenas às grandes revoluções históricas; pertence também ao instante em que um corpo decide aproximar-se de outro sem medo. É pouco? É tudo.

[Foto: ©José Caldeira | https://www.tnsj.pt/]

domingo, 25 de fevereiro de 2024

DANÇA: "Bantu"



DANÇA: “Bantu”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Música | Throes + The Shine
Figurinos | Cristina Cunha, Victor Hugo Pontes
Construção de máscaras | Cristina Cunha
Interpretação | Dinis Abudo Quilavei, Dinis Duarte, João Costa, José Jalane, Maria Emília Ferreira, Marta Cardoso, Osvaldo Passirivo
Produção | Nome Próprio
Centro de Artes de Ovar
23 Fev 2024 | sex | 21:30


Quando as luzes caem sobre nós, somos apenas sete corpos cativos da sorte. Os nossos movimentos são lentos, o olhar é vazio. O ruído do mar ecoa nos nossos ouvidos, querendo abafar o choro das nossas crianças e o tumulto da guerra em que mergulhámos há muito. Olhamos uns para os outros com o espanto dos sobreviventes. Somos migrantes em terra de ninguém. Esboçamos o gesto, mas os músculos tardam em reagir. Do toque nasce a palavra e da palavra a força de estarmos unidos. Isso sabemos. É tempo de nos sentirmos vivos, de celebrarmos as nossas origens, a nossa cultura e tradições. De celebrarmos a paz e a liberdade. Mas como falar de paz e liberdade quando os muros que se erguem à nossa volta são cada vez mais altos, cada vez mais feios. Queremos resistir, queremos dizer não, mas ninguém vê os nossos punhos cerrados, ninguém escuta os nossos gritos, ninguém ergue os nossos corpos tombados. Somos a estátua e somos a máscara, falamos línguas estranhas e partilhamos a mesma garrafa. Somos a aranha, o bicho-papão. Não somos nada... E tudo recomeça.

Depois do muito recente “Corpo Clandestino”, Victor Hugo Pontes e a Nome Próprio regressam ao palco do Centro de Artes de Ovar com mais um espectáculo de enorme significado e alcance. Com origem num convite endereçado ao coreógrafo, encenador e director artístico pelos Estúdios Victor Córdon e pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo, “Bantu” estabelece pontes entre Portugal e Moçambique, ao mesmo tempo que promove a circulação e internacionalização da dança. Acerca do projecto, podemos ler que “Bantu é um caminho por traçar, e o percurso é feito entre dois países com afinidades complexas e memórias profundas um do outro”. Para criadores e intérpretes, “este é também um lugar que desejamos ocupar, um lugar diferente para cada um dos corpos que o habita, partilhado nas feridas que rasga, titubeante no trilho que percorre; um lugar exuberante na celebração da comunidade reunida em palco.”

“Bantu designa uma família de línguas faladas na África subsariana: é identidade e é comunidade. Mas é mais do que uma ocorrência linguística, podendo ser uma linguagem própria que sobreviveu às línguas europeias impostas, um mecanismo identitário, um signo vedado ao colonizador, uma forma de comunicação, plena de códigos culturais, históricos, religiosos e políticos, a materialização efémera de um longo encontro. A palavra Bantu acolhe tudo o que queremos ou imaginamos que o espetáculo Bantu seja. O que Bantu será, contudo, depende dos olhos de quem vê.” Por muitas leituras que possamos fazer deste espectáculo, estou certo que esbarraremos sempre no desenraizamento, na dispersão e na deriva como marcas identitárias de um mundo pouco interessado na solidariedade, na igualdade e na integração. É por isso que Bantu é tão importante, pelo que congrega e aproxima, pelo que descodifica e torna legível, pelo que amplia e partilha. Falta apenas dizer que as interpretações são maravilhosas - inesquecíveis as sequências de “tableux vivants” - e que o primor dos cenários e do trabalho de luz e de som elevam este espectáculo a um nível de grandeza superior.

[Foto: Ovar/Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

sábado, 11 de novembro de 2023

DANÇA: "Corpo Clandestino"



DANÇA: “Corpo Clandestino”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Música | Joana Gama, Luís Fernandes
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Figurinos | Cristina Cunha, Victor Hugo Pontes
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Andreia Miguel, Gaya de Medeiros, Joãozinho da Costa, Mafalda Ferreira, Paulo Azevedo, Valter Fernandes
Direcção de produção | Joana Ventura
Centro de Arte de Ovar
10 Nov 2023 | sex | 21:30


Quando as luzes se extinguem na sala e deixam o palco a descoberto, percebemos que a sua nudez está povoada de vultos. Naquelas vestes que cobrem os corpos e remetem para uma cultura diversa, há uma estranheza a abater-se sobre nós. Num primeiro vislumbre, algo nos diz que a mulher está no eixo da diferença, mesmo que venhamos a ver mais tarde que a diferença está por toda a parte e que aquilo que nos separa é, justamente, o que mais nos aproxima uns dos outros. Altos, baixos, gordos, magros, brancos, pretos, elegantes, disformes, os vultos vão-se dando a conhecer nos movimentos que ensaiam e depois encaixam, como se de um corpo apenas se tratasse: sinérgico, solidário, cúmplice. Quando as vestes caem, a estranheza dá lugar ao espanto. Sujeito e complemento de si próprio, o corpo cresce e multiplica-se, prende e liberta, encolhe e amplia-se numa respiração que é só sua. Combina gestos, adopta formas, assume a sua identidade, toca o céu dos seus próprios limites, ganha asas e faz-se livre.

Estranheza. Diferença. Movimento. Nudez. Corpo. Em conjunto, estas cinco palavras definem a essência de “Corpo Clandestino”, extraordinário espectáculo de dança que faz mais pela afirmação das liberdades individuais e pelo direito à diferença do que mil campanhas de sensibilização para a necessidade de sermos mais empáticos e compassivos uns com os outros, mais eficazes na construção de um mundo que se quer justo e livre. Apontando o dedo aos padrões de normalidade pelos quais se regem as sociedades actuais, pondo em causa verdades e consequências, a peça quebra com os tabus, faz do preconceito a face mais visível da diferença e estilhaça em mil pedaços o dogma e a norma. A superação afirma-se na simplicidade de uns dedos que percorrem um corpo, na disponibilidade de umas mãos que se dão ou de uns braços que prendem com força, na complexidade de um coto tornado funcional pelo crer e pela vontade. Nunca o movimento teve tanto significado, nunca o gesto foi tão expressivo.

Confesso que não estava à espera de ver o que vi. Victor Hugo Pontes e a Nome Próprio há muito que me habituaram a entender a dança como um território de causas no qual a palavra adquire relevância e se assume como parte maior de um espectáculo cuja preponderância associamos à expressão corporal, ao gesto e ao movimento. Depois de “Margem” e de “Porque É Infinito”, era essa a minha expectativa. Neste “Corpo Clandestino”, porém, a fala está praticamente ausente, e só nos babélicos quadros finais, quando as máscaras caem em definitivo e já nada esconde aquilo que se é realmente, surge feita de sons guturais, ininteligíveis, sinónimo de raiva, impotência, incomunicabilidade. É o corpo que, clandestinamente, se ergue como lugar da fala, da expressão de desejos e afirmação de vontades, ansioso por mostrar aquilo de que é capaz. Cabe, enfim, uma palavra para o trabalho de interpretação a cargo de sete talentosos bailarinos / actores. Não distinguirei um em particular, de tal forma foram brilhantes de expressividade e entrega. Distinguirei, sim, a expressão da sua felicidade nos sorrisos de cada um. É meu o sorriso deles. É deles o meu sorriso.

[Foto: Ovar/Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

TEATRO / DANÇA: "Porque É Infinito"



TEATRO: “Porque É Infinito”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Texto | Joana Craveiro, a partir de uma releitura de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare
Cenografia | F. Ribeiro
Música original | Rui Lima e Sérgio Martins
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Desenho de som | Leandro Leitão
Figurinos | Cristina Cunha, Victor Hugo Pontes
Interpretação | António Júlio, Benedito José, Inês Azedo, Ivo Santos, José Ferreira, Luísa Guerra, Pedro Frias, Rui Pedro Silva, Santiago Mateus, Sofia Montenegro, Vera Santos
Produção | Nome Próprio
Duração 90 minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Nacional São João
01 Dez 2021 | qua | 19:00


Escrita entre 1591 e 1595, nos primórdios da carreira literária de William Shakespeare, “Romeu e Julieta” é uma das mais belas e trágicas histórias de amor de todos os tempos. Através dela se imortaliza Romeu, filho único da família Montéquio, e Julieta, filha única da família Capuleto, que se conhecem durante um baile de máscaras em Verona e se apaixonam perdidamente um pelo outro. O seu amor proibido e o desenlace fatal da relação levam a que a história seja um arquétipo do amor juvenil, com as suas deslumbrantes paixões e os seus desgostos viscerais. Foi este o foco da releitura que Joana Craveiro fez da peça, colocando a adolescência em pano de fundo e questionando o amor e os seus limites. Victor Hugo Pontes acrescentou-lhe uma linguagem coreográfica que exalta o turbilhão de emoções em “tempo de excessos adolescentes e de madrugadas longas”. O resultado é este “Porque É Infinito” e é genial.

Há aspectos neste trabalho que importa realçar. Comecemos por onde normalmente ninguém começa, pela direcção técnica e desenho de luz, assinados por Wilma Moutinho. Só com aquela luz, os “quadros vivos” poderiam atingir tais níveis de beleza, as sombras destacarem-se na imensidão do palco, a amálgama de objectos materializarem-se ou os corpos ganharem a dimensão pretendida. Depois há o texto e a forma como é tornado actual sem se desviar do cânone. Vertidas sobre a linguagem do quotidiano, as palavras brotam em diálogos ricos de significado, explorando a ambiguidade e o equívoco, temperados com generosas doses de humor. Assente no ritmo e na batida forte da música original de Rui Lima e Sérgio Martins, a dança vem dar expressão à riqueza do texto, transpondo o torvelinho de emoções para os corpos que, em palco, se apartam ou se enleiam, se multiplicam em gestos, se desgarram, se recompõem.

“Já te aconteceu?” Informal, a interrogação suceder-se-á ao longo da peça, como se um comentador viesse à boca de cena convidar-nos a escavar mais fundo, a romper a espessura das aparências. Aos actores é dada liberdade para, sempre que se justifique, fazerem uma pausa e meditarem na origem ou consequências dos actos que as suas personagens acabam de praticar. Por arrasto, o público é levado a reflectir também, tornando-se cúmplice da trama. Assim nasce um muito útil “manual de instruções”, espécie de guia para sobreviver a corações despedaçados e afins. Dando vida às personagens, oito jovens, com idades entre os 15 e os 20 anos, puseram à prova a sua capacidade de representação e mostraram saber estar em cima de um palco, algo que aconteceu pela primeira vez para a maioria deles. Chapelada da boa para o Ivo, a Inês, o Benedito, a Ana Luísa, o José, o Santiago, a Sofia e o Rui Pedro (e também para os menos novos Pedro, Vera e António Júlio), pela sua generosidade e enorme cumplicidade. Isso foi muito visível da plateia. Parabéns para todos eles.

[Foto: José Caldeira | https://www.nomeproprio.pt/]