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quarta-feira, 9 de abril de 2025

CINEMA: "Coro"



CINEMA: “Coro”
Realização | Edgar Ferreira
Argumento | Edgar Ferreira, Mafalda Almeida, Andrea Lupi
Fotografia | João Biscaia
Montagem | Edgar Ferreira, Steven Nascimento
Interpretação | Verónica Milagres da Silva, Filipa Passos, Miguel La Féria, Rui Aleixo, Marisa Figueira, Lucília de Jesus, Mónica Santos, Rui Gonçalo Fernandes, Lucinda Gerhardt, Inês Martins, Maria Fátima Nunes, Manon Marques, Sara Afonso, Rui Miranda, Ariana Russo
Produção | Mafalda Almeida, André Vieira
Portugal | 2025 | Documentário | 86 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 7
06 Abr 2025 | dom | 14:20


Esforço, entrega, cumplicidade, resiliência, vulnerabilidade, sacrifício, emoção, paixão... Mil palavras não chegariam para descrever o objecto filmico que dá pelo nome de “Coro”, documentário encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian à produtora Galope Films, no 60.º aniversário do Coro Gulbenkian. Da primeira apresentação pública, sob a direcção de Olga Violante, a 27 de Maio de 1964, até aos nossos dias, o filme traça o percurso de um agrupamento de uma coesão inabalável, muito justamente reconhecido e aclamado, tanto dentro de portas como além-fronteiras. Realizado por Edgar Ferreira, o filme surge na sequência do excelente “Soma das Partes”, documentário sobre a Orquestra Gulbenkian, e de um outro menos conhecido intitulado “A música é bela, os aeroportos são tristes”, dedicado ao maestro Michel Corboz, personalidade ímpar do mundo da música e que dirigiu o Coro Gulbenkian ao longo de cinquenta anos, até 2019.

Em “Coro”, Edgar Ferreira decidiu abordar o Coro Gulbenkian através dos olhares, das vozes e das emoções dos seus elementos. Ao longo de quase uma hora e meia, ele mostra que por detrás de um som inconfundível, dos inúmeros concertos, trabalhos discográficos e distinções que o Coro vem coleccionando, existe um grupo de pessoas com vidas paralelas, nem sempre ligadas à música, onde se incluem professores, engenheiros, advogados, atletas, actores, médicos, enfermeiros, terapeutas da fala, musicólogos e até um enólogo. No cair da noite, de muitas noites, vemos como se reúnem e trabalham no exercício permanente de criar um corpo artístico de uma só voz. Desta arte de conciliar a vida pessoal com a verdadeira paixão que é pertencer ao Coro, retira o filme os maiores proventos. Ao desviar o foco dos factos históricos, de uma certa cronologia ou das personalidades que nele deixaram a sua marca - sobretudo Michel Corboz, mas também Fernando Eldoro e Jorge Matta -, o realizador humaniza o filme, trazendo o espectador para o seu interior.

Filmado com uma grande proximidade, “Coro” consegue transmitir o ambiente de absoluta confiança que reina no seio do grupo, algo que é reforçado no dia a dia pelo que cada um trás de fora e que, na sua vivência única, se torna parte do todo. A partilha torna-se palpável à medida que o filme avança e vamos percebendo o envolvimento de cada um no processo de filmar o “seu” Coro e fazer com que daqui venha a sair (mais) um objecto de que todos se possam orgulhar. O resultado não poderia ser mais feliz, já que o processo de realização espelha o funcionamento do Coro Gulbenkian: aproximação, contacto, trabalho colectivo. A lógica do trabalho artístico em conjunto, razão de ser do agrupamento, aplica-se à construção do documentário, daqui resultando aquilo a que se poderá chamar “um filme coral”. Por muitas diferenças que possam existir entre os vários elementos do Coro, o empenho de todos vai no caminho da perfeição.“Coro” poderá não ser um documentário perfeito, mas andará lá perto.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

CINEMA: "Soma das Partes"



CINEMA: “Soma das Partes”
Realização | Edgar Ferreira
Argumento | Edgar Ferreira, Andrea Lupi
Fotografia | João Biscaia
Montagem | Steven Nascimento, Edgar Ferreira
Interpretação | Maria João Pires, Evgeny Kissin, Rui Vieira Nery, Lorenzo Viotti, Muhai Tang, Lawrence Foster, Hannu Lintu, Joana Carneiro, Inês Thomas Almeida, Varoujan Bartikian, Levi Condinho, Teresa Nunes da Ponte, Vera Dias, Maria José Falcão, Alfredo Flores, António Gonçalves, Risto Nieminen, Alejandro Oliva, Arlindo Santos, Leonor Braga Santos, Andrew Swinnerton, Luís Tinoco, Manuel Teixeira
Produção | Mafalda Almeida, André Vieira
Portugal | 2023 | Documentário | 66 Minutos | Maiores de 12 anos
Vida Ovar Castello Lopes
23 Jun 2024 | dom | 13:10


“Uma Orquestra é o nível mais elevado do trabalho em conjunto. É sobre como se estabelece a comunicação através das ideias, das harmonias. Como se almeja fazer melhor escutando o outro. Uma Orquestra é um símbolo de uma sociedade que tem a noção que saber ouvir é o caminho para sermos melhores.”
Hannu Lintu, Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian

Género considerado “pouco comercial”, o documentário não é presença assídua nas salas de cinema. Daí que seja de saudar a estreia, em dezoito salas de todo o país, de “Soma das Partes”, uma obra que resume seis décadas de vida da Orquestra Gulbenkian, entre os anos de 1962 e 2022. Com recurso a imagens de arquivo inéditas e entrevistas de músicos, maestros e solistas internacionais, o filme conta a história de uma orquestra que contribuiu de forma determinante para o enriquecimento do panorama musical português, gravou mais de setenta trabalhos discográficos e actuou ao lado de muitos dos maiores intérpretes no mundo da música. Com os musicólogos Rui Vieira Nery e Inês Thomas de Almeida a servirem de “pivôs” de uma história de sobrevivência, genialidade e intemporalidade, o documentário divide-se em seis partes - cada uma das quais correspondendo a uma década de vida da orquestra - e integra um conjunto de preciosos testemunhos de quem vive e sente a Gulbenkian como algo de muito íntimo, dos maestros aos coordenadores de projecto, dos músicos aos próprios espectadores.

A Orquestra Gulbenkian, como o Coro Gulbenkian, o saudoso Ballet Gulbenkian ou o Serviço de Música da Fundação, são obra de uma mulher visionária que foi Madalena Azeredo Perdigão. Foi o seu espírito de missão extraordinário e um apurado sentido do que fazia falta à vida musical portuguesa que a levou a pensar um projecto que completasse o ciclo da modernidade e, num momento posterior, lançasse as sementes da própria contestação dessa modernidade. À falta de uma orquestra, de um coro e de um espaço próprio, respondeu Madalena Perdigão com uma primeira tentativa, em 1959, de criação de uma Orquestra. Recusado, o projecto foi reformulado e viria a vingar três anos mais tarde, com a criação de uma Orquestra de Câmera formada por treze elementos - “quatro primeiros violinos, três segundos, duas violas, dois violoncelos, um contrabaixo e o cravo”. Integrando músicos portugueses e estrangeiros, a Orquestra teve na abordagem ao repertório barroco uma das suas grandes forças iniciais. Estava alcançado o objectivo da criação de novos públicos e era tempo de ampliar o projecto.

Com os maiores nomes da música erudita mundial a apresentarem-se em todo o país a preços extremamente módicos, as treze edições dos Festivais Gulbenkian foram uma das mais democráticas medidas algum dia tomadas no período do Estado Novo para fazer chegar a música ao contacto do público. Simultaneamente, a Orquestra Gulbenkian inicia a sua carreira internacional, com Maria João Pires e os concertos para piano de Mozart a mostrar-se e a mostrar a Orquestra ao público europeu. Das digressões pelo mundo inteiro, às gravações em plataformas de grande prestígio - o “Requiem de Mozart”, com direcção de Michel Corboz, é emblemático deste período -, o reconhecimento da qualidade e versatilidade da Orquestra não cessa de crescer. Entretanto, chegam ao fim os Festivais Gulbenkian e a atenção volta-se para a Orquestra e para a sua ampliação com base em critérios de qualidade. Com a Revolução de Abril, o “poder” de Madalena Perdigão é posto em causa, com ataques violentos a surgirem na imprensa escrita. Para evitar que a pessoa e a instituição se pudessem confundir, Madalena Perdigão demite-se em 28 de Maio de 1974.

O documentário prossegue e o interesse do espectador vai em crescendo. Percebe-se a estrutura sólida do argumento e a forma como o realizador segura o filme com uma montagem extraordinariamente dinâmica. É artística a sua forma de contar uma história que ganha, a cada volta do tempo, nova emoção e fascínio. Os testemunhos de Maria João Pires, Alfredo Flores, Leonor Braga Santos e outros, vão num sentido único: “Não podemos só tocar as notas, temos que fazer música”. Alejandro Oliva diz: “Uma Orquestra é um grupo de músicos - se forem muito bons, ainda é melhor - que tocam juntos. Isso é uma Orquestra. Não são sessenta músicos no palco, são sessenta músicos que partilham a sua vida. Isso é uma Orquestra”. A imagem acompanha a palavra. Como um trabalho de Orquestra, fala-se a uma só voz, aqui residindo, porventura, o grande mérito de Edgar Ferreira, ao interpretar o sentimento de unidade e cumplicidade vivido no seio da Orquestra, conseguindo devolvê-lo na forma de filme. Lawrence Foster, Muhai Tang, Joana Carneiro, Lorenzo Viotti ou Hannu Lintu, maestros, partilham a força das suas visões, tal como Evgeni Kissin, Varoujan Bartikian, Andrew Swinnerton, Arlindo Santos ou Manuel Teixeira, músicos.

A parte que fecha o documentário é a parte da afirmação, da Orquestra como “o meu primeiro amor, aquele que nunca se esquece”. Mas também aquela que se abre ao tempo presente, se mostra nas suas inquietações, e se interroga: “O que podemos fazer para continuarmos a atrair as pessoas? Por que motivo irei dispensar uma boa parte do meu tempo a preparar-me de forma adequada, apanhar um taxi ou o metro e passar duas horas numa sala de concertos?”. Há ainda essa constatação lapidar de Rui Vieira Nery e que me leva a nunca mais olhar um concerto da mesma forma: “Estes músicos estão a dar qualquer coisa de precioso. Cada concerto é menos um concerto que irão dar na sua carreira. Cada concerto é um tempo que eles queimaram para mim. Isto tem um valor extraordinário, não é um disco que se põe e que automaticamente toca as vezes que quisermos. É um percurso de vida destes artistas que, desde crianças, se dedicaram a 100% a esta arte, como uma missão, como uma paixão, e que em cada momento estão a queimar um bocadinho do pavio da vela para mim.” Bravo!