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sábado, 19 de julho de 2025

CINEMA: "Lindo"



CINEMA: “Lindo”
Realização | Margarida Gramaxo
Fotografia | Hugo Azevedo
Montagem | Grazie Pacheco
Interpretação | Lindo (Manuel da Graça), Regina Lopes, Márcia da Graça, Nataniel da Graça
Produção | Portugal | 2023 | Documentário | 90 Minutos | Maiores de 6 Anos
Vida Ovar - Castello Lopes
18 Jul 2025 | sex | 13:05


Também conhecida como Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), a tartaruga Sada é a última espécie de tartaruga marinha em reprodução na costa oeste africana, tendo São Tomé e Príncipe como seu último refúgio reprodutivo. Trata-se de uma das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no arquipélago, quatro da quais inscritas na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Criticamente ameaçada de extinção, a espécie enfrenta diversas ameaças como a captura indiscriminada para consumo e uso da carapaça, a urbanização das praias, as mudanças climáticas ou a captura ilegal. Projectos como o Programa SADA, da Universidade do Algarve, ou o Programa Tatô, têm-se mostrado preciosos para a sua protecção e conservação. No entanto, apesar dos esforços, a Tartaruga-de-pente continua a enfrentar sérios riscos e a preocupar os ambientalistas face ao aumento da prática de caça furtiva. O envolvimento das comunidades locais e de diversos actores sociais mostra-se fundamental para garantir a sobrevivência a longo prazo desta espécie.

É esta realidade que “Lindo” aborda, abrindo uma nova frente no amplo debate sobre o difícil equilíbrio entre o Homem e a Natureza. Rodado integralmente na Ilha do Príncipe ao longo de quase uma década, esta primeira longa-metragem de Margarida Gramaxo segue os passos de Lindo (Manuel da Graça) que durante mais de vinte anos caçou tartarugas como meio de subsistência. Depois de um encontro com uma tartaruga inesperadamente dócil, decidiu mudar de vida para começar a proteger o animal contra os seus predadores, com o homem à cabeça. Juntamente com outros caçadores de tartarugas começou a colaborar num projecto de desenvolvimento sustentável da ilha e trabalha actualmente em conservação marinha. O processo de mudança leva-o a mergulhar no seu passado em busca de pistas que lançam o debate sobre o futuro de uma ilha com uma frágil base de sustentação social e económica e cuja natureza luxuriante começa a sofrer as pressões de um turismo até aqui praticamente inexistente. Para o futuro a comunidade tem, inevitavelmente, de conciliar tradição e mudança.

Sensível a uma realidade de mudança no seio de uma comunidade frágil, Margarida Gramaxo desenvolve um documentário que é um verdadeiro poema visual. Em uma hora e meia de filme, a realizadora sabe tirar partido das vivências intergeracionais ainda em estado puro, do modo de vida das populações, da forte dependência daquilo que a floresta e o mar tem para oferecer. Respeitado no seio da comunidade, Lindo é o pivot da história, a figura que Margarida Gramaxo segue de perto e através da qual nos leva ao encontro das relações familiares e grupais, das tradições locais, do pensar dos habitantes ou da beleza ímpar de uma natureza intocada. Apaixonada pela natureza da Ilha e ciente das ameaças que sobre ela pendem, transforma uma simples fábula marinha num grito de alerta sobre a extinção das espécies, a poluição marinha ou o turismo de massas. O resto é esse olhar, terno e púdico, sobre a figura de Lindo, o deslumbrante bailado de quem mergulha no mar em busca de sustento, uma tartaruga que, depois da postura de uma noite, regressa ao mar e a uma vida no fio da navalha.

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