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domingo, 19 de julho de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão # 107 - Festa dos Premiados



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #107 
Festa dos Premiados 2025
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
17 Jul 2026 | sex | 21:30


Há um ano escrevia, neste mesmo espaço, sobre a Festa dos Premiados do Shortcutz Ovar, sublinhando a vitalidade de um projecto que, sessão após sessão, tem vindo a conquistar um público cada vez mais numeroso e fiel. Na noite da passada sexta-feira, a Escola de Artes e Ofícios voltou a encher-se para celebrar o melhor da 9.ª temporada, encerrando mais um ciclo de afirmação daquela que é, muito justamente, uma das maiores referências nacionais dedicadas ao cinema em versão curta que se faz entre nós. Ao longo do último ano passaram pelo Shortcutz Ovar vinte e quatro filmes, entre os quais sete primeiras obras e cinco filmes de imagem animada, numa programação marcada pela forte presença do documentário e por um número assinalável de comédias, sempre escolhidas com o rigor e a sensibilidade a que Tiago Alves e Ana Castro já nos habituaram. Num tempo em que ver cinema em comunidade se tornou quase um acto de resistência, o Shortcutz Ovar continua a oferecer um raro espaço de encontro entre realizadores, espectadores e filmes, contribuindo para formar um público atento e exigente. Muito desse mérito pertence também ao Município de Ovar e aos responsáveis pela área da Cultura, cujo apoio consistente tem permitido consolidar um projecto singular que, temporada após temporada, continua a afirmar o cinema português como património vivo, próximo e necessário.

Talvez não tenha sido por acaso que o palmarés deste ano tenha desenhado uma inesperada geografia da casa e da memória. Escolha do público, Maria, Maria, de Benjamim Quadros Costa, levou-nos até Belgais para descobrir não apenas a pianista Maria João Pires, mas também a intimidade de um lugar onde criação artística se confunde com afecto, heranças e liberdade, fazendo do diálogo entre neto e avó o verdadeiro coração do filme. Já Uma Mãe Vai à Praia, distinguido como Melhor Primeira Obra, confirmou Pedro Hasrouny como um realizador de enorme sensibilidade, desmontando com humor subtil e grande inteligência os preconceitos que recaiem sobre a maternidade, o corpo e os modelos familiares, num exercício cinematográfico onde Cláudia Jardim oferece uma interpretação de extraordinária contenção. Também T-Zero, de Vicente Niró, vencedor na categoria de Animação, encontrou na casa o centro da sua inquietação, transformando a crise da habitação numa poderosa alegoria sobre a gentrificação, a turistificação e a perda de identidade das cidades, lembrando-nos que a especulação imobiliária não destrói apenas edifícios: desfaz comunidades, memórias e modos de vida.

Se T-Zero denuncia uma cidade que expulsa quem nela sempre viveu, Amanhã Não Dão Chuva, distinguido com uma Menção Especial, recolhe os fragmentos de uma memória que lentamente se dissolve. Com um delicado trabalho de desenho a carvão, Maria Trigo Teixeira acompanha o percurso de uma mulher consumida pela demência, fazendo do próprio desenho uma metáfora das recordações que se esbatem sem nunca desaparecerem por completo. Num registo radicalmente distinto, mas igualmente marcado pela inquietação, Atom & Void, de Gonçalo Almeida, recebeu o Prémio Especial do Júri pela ousadia da sua proposta estética. Bastam nove minutos para transformar uma aranha na silenciosa protagonista de uma perturbadora fábula pós-apocalíptica, onde fotografia, desenho sonoro e luz convocam um universo entre o terror e a ficção científica, devolvendo ao espectador uma reflexão profundamente contemporânea sobre a fragilidade da condição humana e os limites de um progresso que insiste em ignorar as suas próprias consequências. A distinção unânime atribuída pelo júri reconheceu justamente uma visão artística invulgar, reveladora de um cineasta disposto a explorar caminhos pouco percorridos pelo cinema português.

O momento maior da noite chegaria com a atribuição do Prémio de Melhor Curta a Tão Pequeninas, Tinham o Ar de Serem Já Crescidas, de Tânia Dinis, talvez o filme que melhor sintetiza o espírito desta temporada. Fortemente ancorada no documentário, a realizadora devolve voz às mulheres que, ainda meninas, deixaram as aldeias do Norte para servir nas casas da cidade, resgatando uma memória colectiva demasiado tempo remetida ao silêncio. Entre fotografias, testemunhos e arquivos, revelam-se vidas de trabalho precoce, sacrifício e invisibilidade, mas também de uma extraordinária resistência e dignidade. O filme recusa olhar estas mulheres como figuras do passado; antes as aproxima do presente, lembrando que a exploração, o preconceito e a desigualdade apenas mudaram de rosto. Talvez por isso tenha reunido o consenso do júri, ao qual o público juntou o seu forte e prolongado aplauso. Mais do que distinguir os melhores filmes da temporada, a Festa dos Premiados voltou a demonstrar que a curta-metragem portuguesa atravessa um dos períodos mais criativos da sua história recente. O futuro de que tantas vezes se fala está aí e continua a encontrar, na última quinta-feira de cada mês, uma casa de portas abertas em Ovar. Após a pausa estival, lá estaremos de novo em Setembro.

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