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domingo, 29 de março de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #103



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #103
Com | Carlos Lobo, Rodrigo Lavorato e Jo Castro
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
26 Mar 2026 | qui | 21:30


As noites Shortcutz Ovar são momentos incomparáveis de festa e celebração do cinema português em versão curta. À qualidade da programação, junta-se a presença de um público entusiasta e conhecedor, o que faz da Escola de Artes e Ofícios o ponto de encontro ideal para quem aprecia e valoriza as pequenas pérolas que, mês após mês, vão sendo dispensadas na tela. Assim foi, uma vez mais, na noite da passada quinta-feira, numa sessão que contou com três filmes de ficção verdadeiramente desafiantes no seu pendor de inquietação e provocação. Ainda que diversas, as propostas convergiram numa mesma atenção ao íntimo como espaço político e sensível. Explorando territórios de transição - corpos, faixas etárias, geografias -, os três filmes mostraram que a identidade não é um dado adquirido, antes algo construído a partir do contacto com o outro, com o espaço e com o próprio desejo. No gesto de uma certa errância, de permanência em trânsito, percebeu-se de forma clara o quanto as narrativas viveram daquilo que as uniu, muito mais do que o que tiveram a separá-las. Entre a fusão e o deslocamento, entre a distância e a descoberta, a sessão foi ao encontro do público, instigando-o a encontrar respostas para uma mesma inquietação: como habitar o mundo, o corpo e o outro, quando nada parece definitivo?

Depois de aqui ter estado em Setembro de 2023 a apresentar “Aos Dezasseis”, o seu filme de estreia, Carlos Lobo abriu a sessão com “Ofélia”, insistindo numa certa ideia poética de juventude e na necessidade de percepção do “eu” como condição de sobrevivência. O realizador mostrou a sua atracção pela contemplação e o silêncio, estabelecendo o filme no instável território do desejo, aqui a emergir como força motriz, mas também como campo de tensão, risco e transformação. De mera figurante em “Aos Dezasseis”, a figura de proa neste “Ofélia”, Ofélia Oliveira é o espelho de uma narrativa inspirada na obra do artista visual Ovartaci (1894 – 1985) e escrita com as palavras do amor e da liberdade: liberdade a sério, “liberdade de mudar e decidir”. Uma semana após a aprovação de três projectos-lei para alterar a lei da identidade de género - um marcado retrocesso social e civilizacional que mostra o quanto esta nova direita odeia os corpos livres, porquanto odeia a liberdade como um todo -, “Ofélia” veio provar a sua enorme delicadeza no que tem de belo e livre, mas também a sua actualidade e pertinência na chamada de atenção para os riscos que, de forma crescente, se erguem como uma ameaça à democracia e aos valores de Abril. O filme foi eleito pelo público como o melhor da sessão.

Se “Ofélia” exibiu uma dimensão política apreciável, “Quem se Move”, uma primeira obra da brasileira Stephanie Ricci, ergueu-a de forma explícita, quase contundente. Nesta história de uma imigrante brasileira em Lisboa que “enfrenta a difícil escolha entre permanecer ilegal numa cidade que se torna cada vez mais estranha ou retornar ao lar do qual fugiu”, percebemos a ligação directa entre a repressão do corpo e a ilegalização dos imigrantes, enquanto componentes articulados de uma cartilha muito mais vasta, apostada no cercear dos direitos, liberdades e garantias que, cada vez mais, são só para alguns. Aqui, o desejo desloca-se. Deixa de se dirigir apenas ao outro para se expandir numa procura mais difusa: de pertença, de estabilidade, de lugar. Ao longo de uma noite errante, a protagonista move-se entre espaços, línguas e afectos, confrontando-se com a impossibilidade de fixação. A intimidade surge fragmentada, assente em encontros breves que tentam enganar essa instabilidade, enquanto o corpo carrega o peso da condição migrante e provisória, questionando-se sobre aquilo que trás consigo e o que foi obrigado a deixar para trás. Um filme, também ele, essencial, num momento particularmente difícil para as comunidades migrantes, vítimas de barreiras estruturais que agridem e de práticas intolerantes que excluem e desumanizam.

Dissolvente, intensamente físico e exploratório, “Crua + Porosa”, um filme de Ágata de Pinho, fechou a sessão e, paradoxalmente, abriu-a em carne viva num “after-session” que prolongou as sensações de uma invulgar experiência de cinema. Prémio para Melhor Primeira Obra na 7.ª temporada do Shortcutz Ovar, “Azul”, o anterior trabalho da realizadora, encontra eco neste “Crua + Porosa”, espécie de “segundo tomo de uma história complexa”, um filme que começa onde “Azul” termina. Intenso, excessivo, nele o “work in progress” é matéria e desejo. Ágata de Pinho e Jo Castro escrevem o filme na pele, nos fluidos, nos gestos, fazendo do exercício interpretativo uma experiência sensorial capaz de dissolver as fronteiras entre o ser e o estar, entre um corpo e outro corpo. Em “Crua + Porosa”, o sentir precede o pensar, a imagem torna-se quase táctil. Amar é desafiar os próprios limites, é substituir o ardor por uma ideia de fusão. Performativo, orgânico, visceral, o filme escapa a todas as formas de classificação. Do fascínio da cor à beleza dos enquadramentos, dos códigos implícitos a uma estética provocadora, das referências ao sempiterno David Cronenberg às visitas ao universo de Nagisa Oshima, mas também de Julia Ducournau, “Crua + Porosa” não se explica. Oferece-se apenas, num convite a que o habitemos. Um momento extraordinário de cinema, a provar que vale a pena correr riscos.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

CINEMA: "Azul"



CINEMA: “Azul”
Realização | Ágata de Pinho
Argumento | Ágata de Pinho
Fotografia | Leonor Teles
Montagem | Ágata de Pinho, Alexander David, Tiago Siopa
Interpretação | Ágata de Pinho, Diana Sá, Maria Gil, Maria Alice de Pinho, Íris -
Produção | Ágata de Pinho, Filipa Reis
Portugal | 2022 | Drama | 20 Minutos | Maiores de 12 Anos
Auditório Correia de Campos, Centro de Reabilitação do Norte
13 Fev 2025 | qui | 17:30


Desde 2020 que acompanho com regularidade as sessões de curtas-metragens do Shortcutz Ovar. Através delas, tenho tido o privilégio de ver algum do melhor cinema que se faz em Portugal e de aprender com os muitos agentes ligados ao mundo da sétima arte, entre realizadores, directores de fotografia, argumentistas, editores, produtores, directores de arte e intérpretes, entre outros. Tem sido uma viagem com tanto de convívio e diversão, como de enriquecimento de conhecimentos, que procuro verter nas páginas do blogue com a expressão do meu sentir. Quem já leu essas crónicas muito particulares, sabe que eu “ofereço” um parágrafo a cada filme, sendo justamente a este ponto que eu quero chegar. Dos mais de cem filmes que vi ao longo das últimas temporadas, houve um que, pela primeira vez, me fez ver que um parágrafo seria muito pouco, tanto pela qualidade intrínseca enquanto objecto artístico, quanto pelo turbilhão de emoções que em mim despertou. É de “Azul” que falo, curta-metragem de ficção, escrita, realizada e interpretada por Ágata de Pinho, uma primeira obra na carreira da realizadora, centrada em parte no Centro de Reabilitação do Norte, assim como no vasto mar que se abre à sua frente. O mesmo “Azul” a quem se destina tudo aquilo que já disse e o mais que irei dizer.

Diria que foi fácil articular com Ágata de Pinho a exibição do filme no Centro de Reabilitação do Norte e foi mais fácil ainda falar dele a uma plateia atenta e interessada, na qual pessoas com perturbações físicas a muitos níveis, acompanhadas de familiares e amigos, se mostraram em franca maioria. No conjunto de mais de vinte locais onde já foi exibida, esta sessão revelou-se “muito especial”, de acordo com a realizadora, até porque o filme aborda, directamente ou de forma subliminar, processos ligados à doença e à recuperação, tão significativos para todos os presentes. Uma cicatriz que parece querer abrir-se, uns olhos enormes e sempre vivos, um céu muito azul, uma ecografia como prova material de um ser cujo coração já palpita, a relação íntima dos vários elementos naturais, um mar cujas ondas enrolam para dentro ou um combóio em marcha invertida, foram apontamentos que o público referiu como tendo chamado a sua atenção e que serviram de tema de conversa para uma abordagem mais consistente à história de uma jovem mulher que acredita que vai desaparecer no dia em que fizer 28 anos. São os instantes que faltam para que o dia aconteça que preenchem o filme, conferindo-lhe uma nota de angústia, mas que acabará por ter um final a todos os níveis feliz.

Lembro-me de ter visto o filme numa primeira vez, no início do Verão de 2023, e de ter sido invadido por uma nota de estranheza (isto antes de ver o genérico final e de perceber a familiaridade de tudo aquilo). Numa segunda visão - a propósito da conquista do prémio para Melhor Primeira Obra da 7.ª temporada do Shortcutz Ovar -, o meu olhar terá privilegiado o primor da interpretação e da fotografia (de Leonor Teles), bem como as eventuais influências de grandes nomes do cinema, nomeadamente David Cronenberg e David Lynch. Vê-lo agora, neste contexto, foi realmente único, pelo que o filme tem para oferecer de reflexão sobre a doença e a incapacidade. Podemos invocar a magia do cinema em múltiplas sequências do filme, mas não podemos falar de trabalho de caracterização, por exemplo, numa cicatriz que se estende ao longo das costas da protagonista. Lidar com memórias traumáticas e particularmente dolorosas, fazendo do cinema objecto catártico, um meio de exorcizar fantasmas e aprender a viver com as transformações que se impõem ao nosso próprio corpo e a aceitá-las,  foi a melhor mensagem que se poderia passar a quem enfrenta um quotidiano de desafios e superação. Um momento de cinema essencial, assente num trabalho de rara sensibilidade e alcance de Ágata de Pinho, ao qual ninguém consegue ficar indiferente.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #73



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #73
Com | Beatriz de Sousa, Ágata de Pinho, Pedro Neves Marques
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
29 Jun 2023 | qui | 21:30


Numa altura em que a temporada Shortcutz Ovar suspende a sua actividade por conta de umas merecidas férias, seria de esperar que esta última sessão trouxesse com ela o sabor do sol e do mar. Uma sessão leve e descomprometida, feita de risos e beijos, a cruzar aventuras inocentes e amores de Verão. Na noite de ontem na Escola de Artes e Ofícios, porém, mostrou-se o oposto de tudo isto. A ser Verão, os dias foram de duração incerta e carregados de sombras, esmagaram-se os frutos com as mãos ou fecharam-se em sacos de plástico, o mar tornou-se violento e ameaçador e os espaços resumiram-se, com frequência, a um quarto ou a um consultório médico onde a tensão foi latente. Espelho de mundos pessoais, as curtas-metragens a concurso falaram do que se cala e mostraram aquilo que, por norma, se prefere esconder. De forma ousada e corajosa, os três realizadores trouxeram para primeiro plano um conjunto de assuntos que continuam a ser tabu na nossa sociedade, lançando o espectador no desconforto. Todos assumiram o risco de ver os seus filmes escrutinados numa escala de extremos, entre o ódio e o amor. Juiz soberano, o público deu mostras que o amor prevaleceu por larga margem.

Salto “Mesa Posta” e começo por falar de “Azul”, irmão do meio na tríade de curtas exibidas. Seja pelo ritmo, pelos ambientes, pela estética, pelo desempenho de um actor ou por um particular momento, há filmes que nos prendem de uma maneira que não conseguimos explicar e que sentimos como “nosso”. O filme de Ágata de Pinho teve em mim esse efeito. Só em conversa com a realizadora, no final da sessão, descortinei o porquê de o filme se ter feito em mim tão presente, a sua história carregada de tamanha intensidade, de tanta crueza e violência, num processo de afastamento entre uma mãe e uma filha. Primeira obra de uma realizadora que respira cinema, o filme é revelador de uma maturidade incomum, colocando o dedo em muitas feridas, da maternidade compulsória à rejeição filial. À força da narrativa juntam-se efeitos belíssimos – o rasto de um avião, a água que se escoa numa poça, um comboio de mercadorias em marcha atrás – e uma interpretação incrível de Ágata de Pinho no seu próprio papel. Um filme que David Cronenberg gostaria de ter feito.

Pedro Neves Marques trouxe-nos “Tornar-se um Homem na Idade Média”, a sua quarta curta-metragem. Trata-se de uma distopia que se insinua na sensível área da bioética para questionar assuntos como a maternidade masculina, as barrigas de aluguer, a infertilidade, as questões de género ou os problemas da adopção de crianças. Desta história de dois casais que, independentemente do que os aproxima ou afasta, lutam na esperança de virem a ter filhos, sobressai a verdade de que o corpo não é uma máquina infalível. O querer não basta quando não está nas nossas mãos controlar processos biológicos, sobretudo em tempos que se mostram avessos aos conceitos de normalidade. Pseudo-ficcional, o filme retira enorme força da verdade que se pressente nas situações e nos diálogos, aos quais não será alheia a própria vivência do realizador. Ao pôr a correr as histórias paralelas de um casal gay e um casal hétero [Pedro Almodóvar parece andar por aqui], o realizador mais não faz do que alertar-nos para os riscos de tentarmos comparar o que não tem comparação, mesmo que as tensões se assemelhem no intensificar das pequenas violências domésticas.

Termino com “Mesa Posta”, primeira obra de Beatriz de Sousa, uma curta-metragem realizada em contexto escolar e, também ela, espelho de vivências pessoais e familiares marcantes a muitos títulos. Nesta história de violência doméstica, sobressaem a impunidade do agressor e a submissão da vítima. Com uma carga emocional fortíssima, o filme alerta para um problema que atravessa gerações e se perpetua no seio das famílias tradicionais. Beatriz de Sousa sentiu a necessidade de alertar para uma situação que mantém uma alarmante prevalência na nossa sociedade. Fá-lo recorrendo a um conjunto de planos animados, espécie de quadros vivos que se vão preenchendo no sublinhar da história. O texto é narrado em off e revela-se particularmente rico na exploração que faz do linguajar do quotidiano, dos nossos provérbios e expressões idiomáticas. Entre o marido e a mulher (…), o trunfo na manga, o caldo entornado, os pezinhos de lã ou a gota de água, surgem aqui com um sublinhado não isento de humor que vinca, com toda a clareza, a ideia de um mal que importa cortar. Pela raíz!