“Esses breves encontros renovavam seu ânimo para as batalhas cotidianas: trabalhar para ganhar o necessário para a vida, guiar seus filhos por bons caminhos, manter alguma integridade diante da desesperança. Acreditar num mundo mais justo, que talvez não desponte pleno nesta geração ou na seguinte, mas que algum dia desabrochará, assim como tudo o que é semeado. Um mundo que não se pareça com o sonho dos alienados, mas que possa mais unir do que dividir.”
Copiosa, repentina, a chuva cai sobre a cidade, apanhando desprevenidas as muitas pessoas que, àquela hora, se dirigem para o trabalho. Entre elas vamos encontrar Rita Preta, operadora de caixa de um supermercado, dividida entre a necessidade de enfrentar a intempérie rumo ao emprego e a vontade de regressar a casa. Enquanto espera que a chuva abrande, os olhos acompanham a força da correnteza que forma autênticos rios à sua frente. O fluxo torna-se então o rio da sua infância, local de brincadeiras, mas também de tragédia. Ali começam a formar-se os lugares de Água Negra, Caxangá, Chapada Velha ou Paraguaçu e as figuras do velho Zeca Chapéu Grande, de Donana e Carmelita, das irmãs Bibiana e Belonísia, de Luzia e Moisés. É “Torto Arado” e “Salvar o Fogo” que se insinuam, os dois primeiros volumes da “Trilogia da Terra” que agora se fecha com este “Coração Sem Medo”, obra do multipremiado escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior. Com habilidade rara, o autor tece neste seu livro uma forte ligação entre passado e presente, ao mesmo tempo que “pensará nos que ficaram pelo caminho, nos que sofreram para viver dia após dia, nos que cantaram e dançaram para afastar o destino, nos que se ergueram para defender o considerado justo.”
Em “Coração Sem Medo”, Itamar Vieira Junior desloca a terra para o asfalto e, nesse gesto, amplia o mapa afectivo e político da sua já incontornável obra literária. Se em “Torto Arado” o chão era rasgado por enxadas, aqui ele pulsa nos pavimentos escaldantes da cidade de Salvador, onde, como em tantas outras cidades do Brasil, a periferia é território de luta e vertigem. A estranheza inicial - ver um Itamar “urbano” – converte-se muito rapidamente em assombro fértil: o autor mantém intacta a subtileza e elegância da sua linguagem, mas faz com que ela reverbere por entre autocarros sobrelotados, corredores de supermercado, esquadras de polícia, hospitais, necrotérios ou becos esconsos, perdidos numa noite eterna. É num cenário de caos que a figura de Rita Preta emerge como força motriz de um romance que funciona quase como um thriller social, não pelo suspense artificioso, mas pelo medo estrutural que se infiltra como personagem. O desaparecimento de Cid, o filho mais velho de Rita Preta, não inaugura apenas uma busca desesperada; escancara um país onde as suspeitas antecedem os facto e a culpa tem menos a ver com os actos e mais com a cor da pele. A cada novo desenvolvimento, percebemos o quanto a engrenagem racista normaliza este e outros crimes e faz das muitas ausências um ruído ensurdecedor.
Rita Preta, caixa de supermercado, mãe que cria sozinha os seus três filhos, carrega no corpo os genes da perda e da resistência. Neta e bisneta de mulheres que aprenderam a sobreviver, nela se condensa a memória de um Brasil que atravessa o tempo sem conseguir libertar-se da violência fundadora. A cada porta que se fecha na sua cara, a cada agente da polícia que a desacredita, a cada político que a ignora, a narrativa cose passado e presente, mostrando que, para as mães da periferia, as pobres e desvalidas, os tempos da ditadura nunca deixaram de existir. Há algo de épico nessa odisseia íntima: não a epopeia dos heróis celebrados, mas a das mulheres anónimas que ousam enfrentar a insensibilidade de sistemas altamente burocratizados, instituições corrompidas e comunidades silenciadas. Sem concessões, Itamar Vieira Júnior constrói personagens densas e oferece-lhes uma linguagem com tanto de lirismo como de acidez. O romance é sufocante porque é real; dói porque tudo nele é reconhecível. O medo do desconhecido, o não ter um corpo para enterrar, o saber-se pequeno diante de um sistema corrupto, tudo isso é narrado sem melodrama, com uma poesia que não pretende suavizar a ferida, antes iluminá-la. Convidado a acreditar - ou não (!) - na inocência de Cid, o leitor percebe-se cúmplice de um imaginário social que culpabiliza e pune, antes de acolher e entender.
Nos capítulos finais, a recusa de um desfecho pacificador transforma-se em gesto ético. Não há justiça plena, apenas a insistência radical em prosseguir o caminho. Rita Preta aprenderá que sobreviver é também negar ao ódio a última palavra. É retirar do peito a lama espessa do rancor para que a violência não a consuma por dentro. A ambiguidade que paira sobre a sua trajectória, essa espécie de suspensão entre morte e permanência, tem o condão de ampliar a sua dimensão simbólica: Rita Preta torna-se memória activa, presença que resiste. A educação dos filhos que ficam, a descoberta tardia de uma neta, o trabalho de casa em casa como podologista, todos os pequenos movimentos que compõem o seu quotidiano, são peças que trazem sentido ao que antes foi apenas vazio. A terra, agora coração, é espaço inviolável e ainda assim ferido. Itamar Vieira Júnior encerra a trilogia sem curar as feridas; como Donana e Zeca Chapéu Grande, ele prefere semear perguntas. Num país que normaliza o desaparecimento dos seus jovens negros, “Coração Sem Medo” é denúncia e oração, é luto e ressurgimento. Lê-lo é aceitar o desconforto de encarar um Brasil na sua essência mais crua e reconhecer que, enquanto houver Ritas, haverá também a teimosa esperança de que possamos dar um novo rumo à História.
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