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sábado, 8 de agosto de 2026

LIVRO: "A Península das Casas Vazias" | David Uclés



LIVRO: “A Península das Casas Vazias”,
de David Uclés
Título original | “La península de las casas vacías”, © 2024, David Uclés
Tradução | J. Teixeira de Aguilar
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2026 (2.ª edição, Maio de 2026)


“A caminhada foi longa e fastidiosa, como acontecia com as procissões noturnas. Embora o cortejo terminasse no campo-santo, o costume era poisar antes disso o ataúde na igreja, onde o padre celebrava uma missa corpore insepulto, mas como o templo tinha sido destruído pelas chamas na noite anterior, e estando a igreja pequena a abarrotar com os santos e o material litúrgico que se tinham conseguido salvar de entre as ruínas da igreja maior, decidiram ir diretamente para o cemitério. Parara a meio do caminho, num terreno que pertencia à Igreja, uma eira povoada de figueiras selvagens, e ali improvisou Don Robustiano um breve ofício à luz dos círios que os familiares levavam. Eram tantos os brandões, e tão juntos entre si, que os corpos, de respirar o ar cálido daquelas pequenas chamas, começaram a suar cera.”

É uma felicidade podermos abraçar um livro e ver como é capaz de tocar todas as cordas da nossa essência, ao mesmo tempo que se revela, mais do que uma história, um espelho, um refúgio e um sinal que, do alto, nos acompanha e nos guia. “A Península das Casas Vazias” pertence a esta casta rara de livros. Tomando como pano de fundo a Guerra Civil de Espanha, o romance é uma reflexão sobre a persistência invisível da guerra muito para além do calar das armas. David Uclés escolhe uma família de camponeses andaluzes como se escolhesse um grão de areia para falar do deserto inteiro: na lenta desagregação dos Ardolento espelha-se a fragmentação de uma Península que nunca mais voltará a reconhecer-se plenamente. Os grandes episódios da guerra cruzam-se com figuras históricas, escritores, militares e artistas, sem que David Uclés perca de vista o modo como a violência modifica o destino dos homens e transforma as casas em ruínas antes mesmo de ver derrubadas as suas paredes. O título revela-se, por isso, de uma admirável justeza simbólica. As casas vazias não o são apenas porque perderam os seus habitantes; são também aquelas onde a palavra deixou de o ser, onde a memória se viu substituída pelo medo e onde o esquecimento se tornou numa outra forma de morte.

“A Península das Casas Vazias” nasce desse intervalo entre a memória e o silêncio. A história da família Ardolento, perdida entre os olivais de Jándula - lugar imaginário que, por isso mesmo, é uma representação de todos os lugares -, é apenas a superfície visível de um movimento muito mais profundo: o da lenta desagregação de uma comunidade que descobre, demasiado tarde, que uma guerra civil nunca divide apenas dois exércitos. Divide uma língua, uma leira, um cortiço, uma infância, uma amizade, uma forma de habitar o mundo. Não se trata aqui de reconstituir o passado ou de o julgar, já que o passado não deixa de se fazer presente. É vê-lo inscrito nas casas abandonadas, nas palavras que deixaram de ser pronunciadas, nos gestos herdados sem que perceba a sua origem. A Península que David Uclés percorre é mais do que um território: é uma consciência fragmentada em permanente busca de reconciliação consigo própria, certa de que a História não se faz apenas de datas e batalhas, mas sobretudo de ausências, juntando vencedores e vencidos num mesmo cadinho que uma tragédia maior se encarregou de amalgamar.

O realismo mágico surge aqui mais como necessidade ontológica do que como filiação literária. Há acontecimentos que o realismo, sozinho, não seria capaz de nomear. Quando a História atinge uma intensidade extrema, a realidade parece deslocar-se para uma zona onde o impossível deixa de constituir excepção. Assim, homens que permanecem décadas suspensos num instante, gravidezes que duram toda uma guerra, lágrimas que possuem a cor da emoção ou vulcões que rasgam a Península, deixam de ser imagens fantásticas para se tornarem metáforas de uma verdade mais funda. O maravilhoso e o fantástico não corrigem a História; revelam antes aquilo que nela permanece invisível. A imaginação converte-se, paradoxalmente, na forma mais rigorosa de fidelidade ao real. Aquilo que destrói uma comunidade não é apenas a violência dos factos, mas também a incapacidade da linguagem para os conter. Aquilo que David Uclés faz não é inventar um mundo alternativo, antes mostrar-nos que o mundo conhecido é ainda mais estranho do que supúnhamos.

Mas aquilo que verdadeiramente distingue este romance tem a ver com a forma como o narrador escolhe posicionar-se. Há muito que a literatura contemporânea desconfia da figura de uma voz omnisciente. David Uclés recupera-a para a transformar noutra coisa. O narrador sabe que conta uma história, sabe que a constrói, sabe que interfere no destino das personagens e, mais surpreendente ainda, permite que elas o saibam também. Não se trata de um simples jogo metaliterário. Ao entrar na narrativa, não reivindica autoridade; aceita a fragilidade de quem sabe que nenhuma versão da História é definitiva. Também por isso, o romance deixa de ser apenas uma narrativa sobre a Guerra Civil de Espanha para se converter numa reflexão sobre a condição peninsular. David Uclés parece compreendê-lo quando substitui discretamente a ideia de Espanha pela de Península, como se procurasse um espaço anterior às fronteiras políticas e mais próximo de uma memória partilhada. As casas vazias deixam de ser apenas as casas destruídas pela guerra. São as moradas interiores que abandonamos sempre que a História prefere o esquecimento à compreensão, a identidade ao encontro, a certeza à dúvida. Porque nenhuma civilização sucumbe apenas quando desaparecem os seus vivos. Ela começa a desaparecer no momento em que decide ignorar as perguntas que os mortos não cessam de lhe dirigir.