“Con dinero y sin dinero, hago siempre lo que quiero. Olha para o neto e vê-se no passado, o neto olha para ele e não se vê no futuro. Por isso o pequeno está só alegre e ele está alegre e triste. E raivoso, porque poderia aparecer o Ambipur, o cabrão que anda sempre as deslocar os marcos de pedra para cultivar um pedaço que não é dele. O que o Quasegiro não sabe é que neste preciso instante o Ambipur aproveita o facto de ele não estar para carregar uma a uma todas as garrafas de tutano e cortar todos os cabos do quadro elétrico da garagem que ele deixou aberta. O Quase giro não sabe, não, mas olha para o ato e sente pena e alívio porque ele não tem problemas como o seu, que hoje poderia acabar à pancada com um vizinho em plena Festa. Mas oferece outra rodada. E, quando a acaba, vai até ao centro do prado e, sem pedir licença ao neto, que faz uma coreografia em círculo com os seus amigos, agarra-o pela cintura, levanta-o e dá-he um abraço e um beijo com cheiro a genebra.”
“Orquestra”, de Miqui Otero, funda-se numa ambição rara na narrativa contemporânea: a de capturar, num só gesto, o pulso íntimo de uma pequena comunidade, fazendo dela espelho do mundo inteiro. Longe de ser um mero artifício, a escolha de uma voz narradora difusa - essa “música” que atravessa corpos, tempos e consciências - assume-se como dispositivo central de um romance que pretende dissolver fronteiras entre o sujeito e o colectivo, a memória e o presente. Mais do que geográfico, o lugar de Valdeplata, fulcro da acção, é apresentado como espaço simbólico onde a ressaca de uma noite de festa expõe a vasta trama de vestígios físicos e emocionais que cruzam espaços e gentes. Miqui Otero ergue, assim, uma espécie de fresco social que recusa facilitismos, preferindo antes uma tessitura densa de afectos, segredos e tensões. Do Conde agonizante ao camionista Ventura, é de ecos de uma tradição oral reinventada que a trama se constrói, cada personagem transportando consigo uma narrativa própria, inevitavelmente contaminada pelas demais.
O que faz de “Orquestra” um objecto único não é apenas a multiplicidade das suas vozes, mas a forma como estas se entrelaçam sob a égide de uma sensibilidade musical que organiza o caos aparente. A metáfora do tempo como um lenço amarfanhado, no qual coexistem infância, idade adulta e velhice, traduz bem a lógica interna do romance: uma recusa da linearidade em favor de uma simultaneidade emocional. O autor demonstra uma particular destreza na articulação de episódios que, podendo resvalar para o fragmentário, acabam por compor uma unidade orgânica, ainda que por vezes desigual. Se, por um lado, a profusão de personagens enriquece o retrato colectivo, por outro, gera momentos de dispersão que se transformam num verdadeiro desafio à atenção do leitor. Ainda assim, é precisamente nesse excesso de histórias, nesse caos de referências musicais e de camadas temporais, que reside a força do livro, evocando uma memória partilhada que ultrapassa o espaço ficcional e convoca experiências reconhecíveis no tecido social.
Há, finalmente, uma dimensão profundamente nostálgica que atravessa o romance, sem cair nunca numa idealização ingénua do passado. A festa popular, com os seus cheiros, refrões e rituais, as suas barracas de comes e bebes, o seu palco precário onde toca a Orquestra, surge como campo privilegiado de revelação: é ali, sob a aparência de comunhão, que se expõem fracturas, desejos reprimidos e fantasmas comuns. Simultaneamente narradora e personagem, a “música” funciona como fio condutor dessa revelação, lembrando que a identidade individual é sempre permeável ao outro. “Orquestra” é, nesse sentido, uma celebração e um lamento, um gesto de pertença e de perda. Miqui Otero afirma-se como um autor capaz de transformar o quotidiano em matéria literária de uma grande intensidade e emoção, embora se deva reconhecer que nem sempre consegue domar plenamente a força e amplitude do seu projecto. O resultado é uma obra que peca por irregular, mas, a espaços, vibrante e que perdura no íntimo do leitor muito depois de virada a última página.
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