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segunda-feira, 18 de junho de 2018

TEATRO: "Provisional Figures"



TEATRO: “Provisional Figures”
Texto | Isabela Figueiredo e Gonçalo M. Tavares
Encenação e Dramaturgia | Marco Martins
Cenografia | Fernando Ribeiro
Interpretação | Ana Moreira, Ivan Ammon, Maria do Carmo Ferreira, Pedro Cassimo, Pete Dewar, Richard Raymond, Robert Elliot, Sérgio Cardoso de Pinho, Victoria River
Produção | CCTAR – Centro de Criação para o Teatro e Artes de Rua
Teatro Rivoli – Palco do Grande Auditório
16 Jun 2018 | sab | 19:00
FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


“Um pela agonia,
Dois pela alegria,
Três pela menina,
Quatro pelo menino,
Cinco pela prata,
Seis pelo ouro,
Sete pelo segredo
Seguro num tesouro.
Oito pelo desejo,
Nove pelo beijo,
Dez pela ave
Mais bela que vejo.
Pega.”

O espectáculo está prestes a começar. O público vai tomando o seu lugar e de imediato se dá conta que irá partilhar os assentos na plateia com os actores, cujas cadeiras, dispersas pela sala, estão reservadas. Enquanto se espera pelo início do espectáculo, o som de fundo é o de entrevistas gravadas que remetem para experiências de vida particularmente duras em contexto laboral, a integridade e a própria dignidade da pessoa feridas em nome desse “bem maior” que é o ter trabalho, seja a que preço for. Na verdade a peça já começou e é Marco Martins a colocar-nos um nó na garganta ao dizer-nos que a Ana ou o Robert, o Sérgio, a Victoria, a Carmo ou qualquer um dos outros, somos nós. Um nó que se aperta à medida que os (não) actores vão surgindo em palco e expondo o provisório das suas vidas, a precariedade e a humilhação, o dinheiro escasso e a família longe, a felicidade e o amor eternamente adiados.

Culminando um processo de dois anos de investigação junto da comunidade portuguesa de Great Yarmouth e baseando-se nos testemunhos individuais de quem viveu de perto este período de incerteza, “Provisional Figures” propõe-nos uma reflexão sobre os problemas da identidade e da emigração num contexto urbano fortemente abalado pela crise económica e consequentes convulsões sociais. É um trabalho que mergulha numa realidade relativamente desconhecida em Portugal e que nos fala da emigração no auge da crise económica (2009-2014), em particular para a região de Norfolk, outrora destino balnear de eleição para os britânicos, agora reconvertido em centro da indústria de transformação alimentar.

Com “Provisional Figures”, Marco Martins volta a privilegiar o teatro do real, oferecendo-nos uma peça de enorme significado e alcance, em nome da crise, uma verdade que não pode ser esquecida. Uma crise que se revelou tremenda para milhões de pessoas sobretudo nos países do Sul da Europa, desestruturou famílias, comunidades inteiras, levou ao desemprego em massa, encerrou milhares de micro, pequenas e médias empresas... mas que deu muito jeito a alguns. E que pode estar aí ao virar da esquina, doa a quem doer, porque pode vir a dar jeito a alguns outros, afinal os mesmo de sempre. A presença dos não actores em palco reforça a mensagem, espicaçando recorrentemente o público com essa ideia tão querida ao encenador de que “todo o mundo é um palco”. E é, finalmente, o homem que está em causa, enquanto indivíduo dito superior, a revelar-se pior do que qualquer outro animal, o mais cruel para os outros e para si próprio.


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