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sexta-feira, 24 de abril de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Retrospectiva – 50 anos” | Miguel Louro



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Retrospectiva – 50 anos”,
de Miguel Louro
Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo
07 Mar > 26 Abr 2026


Está a chegar ao fim a exposição que traz a obra fotográfica de Miguel Louro à Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo, a propósito dos seus cinquenta anos de actividade artística. A evocação de Fernando Pessoa - “um barco não se fez para navegar, mas para chegar a um porto” - ecoa subtilmente ao longo das salas, a imagem fotográfica a assumir, em simultâneo, os contornos de viagem e ancoradouro. Captados em geografias diversas, os barcos de Miguel Louro são mais do que objectos flutuantes, antes signos de uma humanidade persistente, marcada pelo labor, pela incerteza e por uma dignidade silenciosa. Neles a cor irrompe com intensidade, matéria viva que sublinha a tensão entre a geometria do esforço colectivo e a fragilidade dos corpos que habitam o mar. Nestas imagens percebemos uma cartografia emocional que atravessa oceanos e culturas, na qual a luz - ora crua, ora diáfana - desenha texturas que parecem tocar o dramatismo. Moldado por décadas de errância e observação, o olhar do fotógrafo transforma cada embarcação em metáfora de sobrevivência, num apelo à sabedoria que só o horizonte oferece.

Se no núcleo dedicado à cor se impõe a vibração do mundo exterior, é na platinotipia que a obra de Miguel Louro atinge uma espécie de recolhimento quase litúrgico. Herdada de um processo oitocentista, esta técnica - celebrada como “o Rolls Royce da fotografia” - encontra no autor um dos seus (raros) cultores contemporâneos em Portugal. As imagens revelam uma profundidade tonal que ultrapassa o visível imediato: cinzentos plurais, sombras densas e uma luz suave que parece emergir de dentro do próprio papel. Cada prova, trabalhada com sais de platina e paládio, transporta uma dimensão de permanência que contrasta com a efemeridade do instante captado. Aqui, os corpos e as paisagens surgem como lugares de pausa e contemplação, convocando o espectador a um gesto de suspensão. A irregularidade dos bordos, as legendas manuscritas, a materialidade do suporte, tudo concorre para uma estética da intimidade, em cujo âmago se fundem técnica e emoção. Há um silêncio nestas imagens que não é ausência, mas densidade: um espaço onde a experiência do médico, habituado à dor e à resistência humanas, se converte em testemunho visual de uma humanidade partilhada.

Entre estes dois pólos - o fulgor cromático das águas e a gravidade quase escultórica da platinotipia -, a exposição desenha um percurso coerente e profundamente sensorial. Outras experiências surgem pelo caminho, como as fotografias pintadas ou as impressões sobre azulejo, expandindo o campo da imagem para territórios híbridos, onde o gesto manual reconfigura o olhar fotográfico. Há também, discretamente, uma arqueologia do próprio acto de fotografar, visível na presença de máquinas fotográficas de diferentes épocas, como se o tempo técnico dialogasse com o tempo vivido. No seu conjunto, esta retrospetiva não é só um balanço de carreira, mas também uma meditação sobre o ver e o permanecer. Ao longo de cinquenta anos, Miguel Louro construiu um universo onde o mundo se apresenta simultaneamente concreto e onírico, documental e transcendente. À medida que a exposição se aproxima do fim, permanece a sensação de que estas imagens não se esgotam no espaço expositivo e continuarão a ressoar no íntimo de quem as contempla. Como maré, num perpétuo vai e vem. 

quinta-feira, 27 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: "Peregrinação" | Graça Morais



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Peregrinação”,
de Graça Morais
Curadoria | António Meireles
Casa-Museu Teixeira Lopes | Galerias Diogo de Macedo
01 Mar > 01 Jun 2025


Graça Morais é uma pintora prodigiosa. Reconhece-se ao conjunto da sua obra o carácter universal e humanista dos grandes criadores, no percurso que iniciou há cinquenta anos. Este percurso cumpre-se como uma peregrinação, em que caminho e caminhante se fundem nos significados gerados e sobretudo, nas inquietações e questões desencadeadas, e nas quais, como cidadãos com espírito crítico e criativo, nos (re)conhecemos. Que exposição é esta que se abre a cada visitante que a percorra? A “Peregrinação” do título não é palavra vã e oferece-se como eixo que estrutura a selecção das obras e o desenho de uma exposição que percorre etapas significativas da vida e obra de Graça Morais. Aqui se encontram obras marcantes que se assumem como marca identitária da artista, pela visibilidade, destaque e materialização de séries temáticas ou áreas de intervenção, mas também obras com pouca exposição pública, porque seguiram outros rumos de menor visibilidade, mas que não deixam de ser, igualmente, marcantes. Umas e outras mostram a enorme capacidade de criação da pintora, rejeitando qualquer receituário de fácil produção e recepção, em favor da integridade do que encontra a ser pintado, como da própria pintura, e do que, ultrapassada a camada superficial, é mais profundo e verdadeiro.

Relacionando-se intimamente com o espaço de exposições da Casa-Museu Teixeira Lopes | Galerias Diogo de Macedo, nas suas três salas e dois andares, abre-se um percurso que tem início na Sala Aureliano Lima. Com obras que se centram nas séries “A Caminhada do Medo” e “As Sombras do Medo”, fortes nos temas que abordam, assim como na expressão do pastel seco com cores saturadas, tem destaque a obra “A Guerra”, de 2003. Graça Morais pinta os inevitáveis resultados de conflitos e guerras, que, independentemente dos campos beligerantes nos muitos espaços e tempos em que têm ocorrido, infligem os maiores danos nas franjas mais frágeis das populações, invariavelmente mulheres, crianças e idosos. Através da estreita escada, acede cada visitante com moderado esforço físico ao piso superior, à Sala Branca. Esta ascensão acompanha um percurso das obras, que dos conflitos e guerras de âmbito mundial e suas consequências das obras do piso inferior, nos traz para o contexto de território de montanha e para a construção das comunidades, sempre em diálogo com o mundo global, que parecendo-nos exterior e distante, tem na obra de Graça Morais importante reflexão sobre as conexões estabelecidas com os mundos locais. É desta conexão exemplo a pintura que abre este espaço, intitulada “20 de Janeiro de 2017”, data da tomada de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América no que foi o seu primeiro mandato.

A Sala Branca compreende importantes etapas da peregrinação-percurso que a artista nos oferece. As paisagens transmontanas, que nas obras de Graça Morais tantas vezes se materializam nos rostos e corpos de quem as trabalha numa atividade rural que ainda é centro da vida deste território, surgem fortes, maciças e assumindo a sua condição de personagens em histórias que constroem o património e identidade das comunidades. A Sala Negra, que sendo escura de luz e cor, é noite profunda no interior do nosso ser, oferece um olhar perscrutante para o interior de cada visitante. As obras expostas nesta sala são sobretudo desenhos, de construção e expressão directas, com uma crueza que não é chocante, mas tocante, porque removendo metaforicamente a camada da carne, entre fundo na estrutura do ser. A obra “Jorge III”, belíssima pintura de técnica mista com tratamento formal e cromático tão sumário quanto completo e expressivo, aborda uma situação de bullying que se verificava na aldeia da pintora, que condoendo-se da situação, agiu, tanto no sentido do seu fim, como assegurando-se da saúde e bem-estar de quem não tinha possibilidade de os ter. São obras fortes as expostas. Não hesitando abordar temas que são difíceis, partilham inquietações e questões fundas que (co)movem Graça Morais e que tocam o nosso mais íntimo, fazendo, através desta exposição, na nossa própria peregrinação, abrirem-se campos de significação e de acção que conferem uma maior importância a cada novo dia.

[Escrito a partir da Folha de Sala da exposição]

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Jaime Isidoro e Vila Nova de Gaia: 50 anos depois dos I Encontros Internacionais de Arte”



EXPOSIÇÃO: “Jaime Isidoro e Vila Nova de Gaia: 50 anos depois dos I Encontros Internacionais de Arte”
Curadoria | Daniel Isidoro e Helena Mendes Pereira
Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo
06 Set > 03 Nov 2024


“Jaime Isidoro e Vila Nova de Gaia: 50 anos depois dos I Encontros Internacionais de Arte” reúne e apresenta documentação de tipologia diversa e obras de arte sobre as actividades dinamizadas por Jaime Isidoro na intitulada “Casa da Carruagem”, em Valadares. A história reforça o papel essencial de Jaime Isidoro na construção de uma narrativa sobre aquilo que foi a promoção das vanguardas artísticas em Portugal ainda antes do 25 de abril de 1974. Jaime Isidoro, que chega ao meio artístico como pintor, funda a Galeria Alvarez em 1954, no Porto, e inicia uma jornada dedicada à divulgação da produção artística e dos criadores contemporâneos, dedicando uma especial atenção à revisitação de alguns importantes nomes do modernismo português que o regime havia abafado. Em 1962, adquire uma propriedade na praia de Valadares e que passa a funcionar como uma espécie de sucursal da Galeria Alvarez. O espaço acolheu diferentes iniciativas, desde exposições a apresentações de livros ou a intervenções artísticas de carácter mais efémero, mas também aquilo a que hoje chamaríamos “residências artísticas”.

No Verão de 1974, à boleia dos primeiros ventos da Liberdade, será em Valadares que se realizarão os I Encontros Internacionais de Arte, respondendo à necessidade de se pensarem novas tendências e vanguardas artísticas de que o país estava distante, na consequência do seu quase meio século de clausura e servidão. Os Encontros Internacionais de Arte – que passaram também por Viana do Castelo, Póvoa do Varzim e Caldas da Rainha – culminam em Vila Nova de Cerveira, dando origem à mais antiga Bienal da Península. A construção desta história faz-se de muitas estórias contidas no precioso arquivo e na coleção da Galeria Alvarez e que foram seleccionadas para esta exposição. Material gráfico, fotografias, vídeos, recortes de jornais e obras de arte, fornecem uma visão global do que foi a actividade na “Casa da Carruagem”, muito marcada pelos encontros entre artistas, críticos, poetas e outros homens de letras que ousaram discutir as vanguardas, experimentar processos e relacionar-se com o mar e a envolvente, tirando o maior partido das condições que Jaime Isidoro proporcionava aos artistas e do seu interesse genuíno pela novidade.

Em outubro de 1972, Espiga Pinto realiza na “Casa da Carruagem”, na Praia de Valadares e na Ponte da Arrábida, duas performances: “Egotemponírico - Homenagem ao Sol” e “Homenagem a uma Mulher Aurora”. É justo atribuir a estas performances de Espiga Pinto o papel fundacional no que à performance em Portugal diz respeito, o que reforça a figura de Jaime Isidoro como central na História da Arte portuguesa e mesmo como uma espécie de “pai” da performance. O trabalho com Espiga Pinto terá sido apenas o primeiro a fazer parte de uma estratégia clara de apoio às vanguardas e a muitos outros artistas que se expressaram através da performance. Este é, naturalmente, um dos aspectos a destacar desta exposição que se constitui como um momento de reescrita da História e que destaca a importância do Norte do país na introdução das vanguardas, contrariando uma visão centralista que tantas vezes domina as narrativas. A mostra está patente na Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo, até 03 de novembro de 2024.


sábado, 29 de abril de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Pintar a Luz, Viver a Cor"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Pintar a Luz, Viver a Cor”,
de Manuel Cargaleiro
Curadoria | Nuno Cardoso
Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo
01 Abr > 18 Jun 2023


Depois de Paula Rego, Amadeo de Sousa Cardoso, Vieira da Silva, Cruzeiro Seixas ou Armanda Passos, a Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo acolhe Manuel Cargaleiro, expondo um conjunto significativo de quadros a óleo de um dos nossos maiores artistas plásticos vivos. Fruto da generosidade de colecionadores particulares na cedência temporária das obras, são cerca de sessenta os trabalhos que integram a mostra, alguns deles totalmente desconhecidos do grande público. Este será, porventura, o aspecto mais surpreendente desta exposição, ao qual se deve acrescentar a consistência e coerência dos trabalhos expostos, absolutamente representativos da obra do Mestre. Apresentados por ordem cronológica, permitem ao visitante perceber a “evolução na continuidade” de uma carreira ímpar, fortemente influenciada pelo abstracionismo e pelo surrealismo que Cargaleiro bebeu “na fonte”, na chamada “Escola de Paris”, onde se radicou em 1954 e onde conviveu com nomes tão significativos da nossa pintura como Lurdes de Castro, René Bertholo, José Escada ou Maria Helena Vieira da Silva.

Título feliz, “Pintar a Luz, Viver a Cor” exprime na perfeição a essência desta mostra. Porque é um banho de luz e cor aquilo que nos espera, mal adentramos a primeira de duas salas pelas quais se distribui a exposição. Ao fascínio que se adivinha no olhar do visitante não é alheia a certeza de estar a viver um momento único, profundo na sua essência, ímpar na sua beleza. Em «Pintar a Luz, Viver a Cor» percebe-se como o carácter radioso de Mestre Cargaleiro se mescla na paleta com a riqueza de contrastes, para ocupar naturalmente o tempo e o espaço de uma tela e dar a conhecer uma realidade não visível, através de uma linguagem singular e irresistivelmente sedutora. Os inícios da década de 60 revelam composições de pequena dimensão, muito inspirados no mundo vegetal, com “fundos” tendencialmente monocromáticos onde depois se inscrevem formas mais estuais, com forte dinamismo e movimento. A viragem para a década de 70 é a “fase das formas”, nela se assumindo a matriz geométrica enquanto recurso estético recorrente em toda a obra do Mestre.

Os inícios dos anos 70 apresentam um “virar” significativo nos temas e nas formas utilizadas. Começa a aparecer a verticalidade na sua pintura e a simbiose entre a natureza e a urbanidade. Há um cada vez maior dinamismo cromático e a representação da mensagem é mais minuciosa. O início dos anos 80 é marcado pelas famosas e muito aclamadas “catedrais”. Assim ficaram conhecidas estas composições pelo meticuloso rigor do seu trabalho e pelo contraste evidente da luminosidade que deixa transparecer harmoniosas estruturas orgânicas, fazendo lembrar pináculos apontados ao céu. Parecendo impossível, conhecendo todo o seu percurso até então, o que é facto é que quase 40 anos depois do início, nos anos 90, é ainda visível a inquietude de Cargaleiro e o desafio constante em introduzir novos elementos no seu trabalho e na sua expressão artística. Cidades, vilas, campos e flores mostram que não há limites ao desenrolar da cor, num hino à vida e à sua essência. Nos anos 2000 dá-se a síntese e a fusão de todo o enredo. Revisitam-se temas e lugares e as telas ganham mais matéria. As camadas de óleo ganham espessura e densidade. É o Mestre a deixar-nos mais de si em cada quadro, para que nos deleitemos na sua serenidade e no conforto que nos passa… ele que sempre esteve, e está, inteiro e de bem com a vida.