Um corredor que se abre para uma sala ampla e, perante o visitante, o excesso: cerca de cinquenta pinturas onde figuras, animais, navios, divindades, monstros, paisagens e arquitecturas se atropelam numa espécie de delírio organizado. Não há lugar para a paisagem vazia, para a figura isolada ou para o gesto que se oferece à contemplação silenciosa. Tudo acontece ao mesmo tempo. O olhar corre de uma cena para outra, apanha uma sereia, detém-se num barco, reconhece um fragmento de mitologia, tropeça num episódio da história da pintura e logo é devolvido ao tumulto cromático da tela. É este o primeiro efeito de “A Ilha Púrpura”, a exposição de Manuel João Vieira no MAAT Gallery, uma pintura que não se contempla propriamente, percorre-se. As obras parecem querer contar histórias, mas recusam a disciplina da narrativa. São paisagens habitadas, palcos onde o passado e o presente, o sublime e o grotesco, o erudito e o popular entram em cena sem que ninguém tenha sido chamado a ordenar o elenco. A água, omnipresente, dá alguma continuidade a este arquipélago de imagens, mas não o pacifica. Pelo contrário: é nela que tudo parece flutuar.
Vieira sabe que está a pintar depois de tudo ter sido pintado. É dessa impossibilidade que retira boa parte da sua liberdade. O maneirismo, o barroco, o rococó, o romantismo, o simbolismo, o surrealismo e a pintura metafísica são ferramentas de uma apropriação sem reverência. O artista mistura épocas e linguagens com a desenvoltura de quem desmonta um museu para voltar a montá-lo segundo regras próprias. O resultado pode ser hilariante, desconcertante ou simplesmente excessivo. Há momentos em que a pintura ameaça afundar-se sob o peso das próprias imagens, mas essa ameaça faz parte do jogo. O artista parece querer levar a figuração ao ponto em que ela se torna quase ilegível, obrigando o espectador a escolher entre procurar significados ou deixar-se arrastar pelo espectáculo. A erudição está lá, sem dúvida, mas nunca é apresentada como uma lição. As citações servem a paródia, e a paródia serve, por sua vez, uma espécie de melancolia: a sensação de que habitamos um mundo feito de ruínas culturais, onde só nos resta recombinar aquilo que herdámos.
Aqui, ganha a exposição uma dimensão que ultrapassa o prazer da invenção. A “Ilha Púrpura” não é apenas um lugar imaginário; é um estado de espírito e, talvez, uma imagem do próprio presente. Num tempo saturado de representações, Manuel João Vieira responde com uma saturação ainda maior. À velocidade das imagens corresponde a velocidade do pensamento. O cérebro “a 200 à hora”, como escreve o próprio artista. A pintura transforma-se numa máquina de produzir relações, uma fuga em frente onde o acaso é cuidadosamente encenado e onde cada figura pode desencadear outra. Essa lógica aproxima o pintor das outras personagens que Vieira tem construído ao longo de décadas - o músico, o performer, o candidato presidencial, o provocador profissional -, todas elas variantes de uma mesma vontade de transformar o mundo num palco e o palco num instrumento de crítica. “A Ilha Púrpura” é divertida, mas não é uma exposição alegre. É demasiado consciente do absurdo para o ser. Por detrás das cores exuberantes e das criaturas impossíveis, percebe-se uma desconfiança profunda em relação às grandes narrativas, às instituições e à própria ideia de realidade. Manuel João Vieira não procura escapar ao caos: pinta-o. E, ao fazê-lo, transforma o excesso em método e o disparate numa forma séria de liberdade.
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