LUGARES: Medina Azahara
Carretera Palma del Río, km 5, Córdoba
Horário | De terça-feira a domingo, das 09h00 às 18h00
Ingressos | € 32,00 (bilhete normal, inclui transporte de ida e volta a partir de Córdova, autocarro entre o Centro Interpretativo e o início da visita, entrada no conjunto arqueológico e guia)
É no ponto mais elevado dessa extraordinária cidade palatina que é a Medina Azahara, declarada Património Mundial pela UNESCO em 2018, que tem início a nossa visita. Erguida a partir de 936 por ordem do califa Abd-al Rahman III, nas encostas da Serra Morena, a escassos quilómetros de Córdova, a antiga Madinat al-Zahra continua a revelar a ambição política de um soberano que quis transformar a capital do Califado do al-Andalus numa afirmação monumental de poder, riqueza e prestígio. Com cerca de 112 hectares - dos quais apenas uma pequena percentagem se encontra escavada - é hoje a segunda maior jazida arqueológica da Europa, apenas ultrapassada por Pompeia. É daqui, da chamada Dar al-Mulk, a “Morada do Poder”, que o olhar alcança o vale do Guadalquivir e compreende a lógica desta cidade desenhada em socalcos: no topo, a residência privada do califa, as dependências da família real e o centro do governo; mais abaixo, a cidade administrativa e, finalmente, as zonas de serviço e de apoio, o todo ligado por ruas, terraços e pátios que se estendem harmoniosamente pela encosta.
Descendo pelas antigas vias empedradas, o silêncio das ruínas deixa adivinhar o ritmo de uma cidade que, durante pouco mais de setenta anos, concentrou o coração político e administrativo do mais poderoso Estado da Península Ibérica. Entre muros de arenito cuidadosamente aparelhado, surgem os vestígios das residências dos altos dignitários, dos corpos da guarda, das cavalariças, das cozinhas, dos armazéns e das dependências onde se organizava o complexo funcionamento da corte. Por aqui circulavam funcionários, soldados, artesãos, criados e emissários vindos de todo o Mediterrâneo e da Europa Central, recebidos segundo um protocolo rigoroso que fazia da própria arquitectura um instrumento de exaltação do califa. A água, conduzida através de antigos aquedutos romanos adaptados aos novos tempos, alimentava fontes, tanques e jardins, enquanto três grandes pontes asseguravam a ligação permanente entre a Medina e Córdova, integrando a cidade num território cuidadosamente planeado.
À medida que o percurso prossegue, percebem-se pátios luminosos, terraços escalonados e jardins que outrora combinavam a imponência da pedra com o verde das árvores, o perfume das flores e o reflexo da água. As colunas de mármore branco vindas de Estremoz, os capitéis delicadamente esculpidos, os pavimentos polidos e os estuques pintados testemunham o requinte artístico atingido pelos mestres califais, capazes de transformar cada espaço numa demonstração de sofisticação e requinte. A abundância de motivos vegetalistas, os célebres atauriques, parecem prolongar a natureza pelas paredes dos edifícios, criando uma ilusão de continuidade entre arquitectura e paisagem. Não admira que as crónicas árabes tenham envolvido Medina Azahara em lendas de salões cintilantes, lagos de mercúrio e coberturas de ouro. Apesar do exagero literário, basta percorrer estas ruínas para perceber que poucas cidades medievais terão impressionado tanto os seus contemporâneos.
A visita culmina no célebre Salão Rico, a verdadeira jóia arquitectónica da Medina Azahara e um dos mais extraordinários testemunhos da arte islâmica ocidental. Reconstruído com rigor a partir das escavações conduzidas por Félix Hernández, este espaço de recepção conserva uma decoração esculpida de espantosa delicadeza, onde praticamente não existem dois motivos iguais. Diante do grande jardim e do espelho de água que lhe serviam de cenário, aqui se desenrolavam as cerimónias oficiais que projectavam a autoridade do califa perante embaixadores estrangeiros e representantes das mais diversas regiões do mundo conhecido. Tudo obedecia a uma encenação minuciosa: a disposição dos dignitários, a abertura das portas para os jardins, os discursos, os poemas e os gestos cuidadosamente regulados pelo protocolo. Poucas décadas depois, a guerra civil que destruiu o Califado Omíada condenaria Medina Azahara ao abandono, ao saque e ao esquecimento. Mas é precisamente esse contraste entre o esplendor efémero e a permanência das suas ruínas que continua hoje a fazer desta cidade um lugar de beleza irreal e fascínio ímpar.
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