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domingo, 9 de agosto de 2026

LUGARES: Sacra Capilla del Salvador | Úbeda



LUGARES: Sacra Capilla del Salvador
Plaza Vásquez de Molina, Úbeda
Horários | De segunda-feira a sábado, das 09h30 às 14h30 e das 16h30 às 20h00; domingos, das 12h00 às 14h30 e das 16h30 às 20h00
Ingressos | € 7,00, bilhete normal


Perante a magnífica Capela do Salvador, em Úbeda, é inevitável que o visitante se interrogue sobre o monumental edifício que tem à sua frente. Não se trata apenas de uma jóia renascentista, antes de uma igreja através da qual Francisco de los Cobos quis contar a sua própria história. Façamos o exercício de imaginar a cidade medieval que foi a Úbeda do século XVI, apertada entre ruas e casas erguidas de forma desordenada e, entre os seus habitantes, este homem que, vindo de uma família fidalga mas sem grande fortuna, irá ascender ao lugar de secretário principal de Carlos V, seu conselheiro e homem da maior confiança. Quando viaja com o Imperador por Itália, Cobos descobre uma arquitectura nova, inspirada na Antiguidade clássica, e percebe que o poder também se demonstra através da pedra. Começa então a transformar uma zona da cidade que lhe é particularmente querida: amplia o palácio familiar, intervém no hospital e decide erguer aqui o seu enorme panteão. Se repararmos na posição da Capela, vemos que está isolada, diante de uma grande praça, como se de um palco se tratasse. Mais do que ser sepultado, Cobos queria ser lembrado. Queria que a sua família, o seu poder e a sua ligação ao Imperador ficassem inscritos na paisagem de Úbeda. É com essa ideia em mente que nos propomos franquear a portada lateral. Tudo o que veremos daqui em diante - a arquitectura, as esculturas, os símbolos, a própria forma como o olhar é conduzido - é parte decisiva de uma enorme encenação da memória.

Entremos, pois, e deixemos o espaço falar. Ao atravessarmos a nave, sentimo-nos atraídos para um grande abertura que domina o fundo. Trata-se da rotonda, o espaço funerário dos fundadores, e é aqui que o arquitecto Diego de Siloé nos prepara uma das grandes surpresas da Capela do Salvador. A planta junta dois modelos muito antigos: a basílica, representada pela nave onde estão os fiéis, e a construção circular, associada ao mundo funerário e ao Panteão de Roma. Siloé conhecia a arquitectura italiana e trouxe para Úbeda esse gosto pela geometria, pela proporção e pelos grandes espaços clássicos. Reparemos nas colunas coríntias e nos arcos que percorrem a igreja. Tudo parece muito ordenado, muito racional. Mas, ao mesmo tempo, há aqui um certo sentido de espectáculo. A nave parece estreitar-se e, depois, a rotonda abre-se diante de nós. É quase um efeito teatral do século XVI. E se olharmos para cima, veremos como a grande cúpula de caixotões reforça essa sensação. Estamos, de certa forma, perante uma versão ubetense do Panteão de Roma. Mas há ainda outro detalhe curioso: aquele entablamento que percorre as paredes não servia apenas para criar beleza. Tinha uma função prática, permitindo a circulação no alto e até a instalação de músicos. Ou seja, esta arquitectura magnífica era também uma máquina muito bem pensada para funcionar.

Agora que já percebemos o espaço, comecemos a ler as paredes. E digo “ler” de propósito, porque esta capela está cheia de mensagens. O homem que ajudou a definir este grande programa foi o deão Fernando Ortega, e o seu pensamento estava profundamente marcado pelo humanismo do Renascimento. Aqui encontramos uma tentativa fascinante de aproximar o mundo clássico, a tradição judaica e o cristianismo. Veja-se, por exemplo, a porta que conduz à sacristia. É uma das grandes obras-primas da arte do corte da pedra de Andrés de Vandelvira. Nas portadas encontramos referências à Lei, aos Profetas, à religião judaica e à fé cristã. Na sacristia, sibilas e figuras da Antiguidade misturam-se com anjos e imagens do fim dos tempos, formando um enorme puzzle teológico, político e cultural. E olhemos depois para o conjunto superior: César Augusto, a Virgem e a Sibila Cumana. A história contada é curiosa: Augusto, depois de conquistar o mundo, pergunta à Sibila se poderá existir alguém superior a ele. E a resposta é uma visão da Virgem com o Menino. A mensagem é clara: até o imperador romano deve reconhecer a superioridade de Cristo. Mas há aqui uma pequena provocação visual. Se olharmos para Augusto com atenção, perceberemos que a coroa, o manto e o colar do Tosão de Ouro fazem lembrar Carlos V. É como se o primeiro grande imperador de Roma tivesse encontrado o seu sucessor ideal no Imperador do século XVI.

É chegado o momento em que toda esta história converge: o altar-mor, obra concebida por Alonso Berruguete que nos fala de Cristo e da Transfiguração no Monte Tabor. A escolha do tema é absolutamente fundamental. Segundo o Evangelho, Cristo sobe ao monte acompanhado por Pedro, Tiago e João e, diante deles, revela a sua natureza divina. Surgem Moisés e Elias, representantes da Lei e dos Profetas, e uma voz proclama a identidade de Jesus. Percebemos então a lógica de toda a Capela: Cristo é o Salvador anunciado desde o Antigo Testamento e a Transfiguração é o momento em que essa verdade se revela. Berruguete, que conhecera em Itália a arte de mestres como Miguel Ângelo, não imaginou uma cena tranquila. Pelo contrário: as figuras parecem agitar-se, torcer-se, quase saltar para fora do retábulo. Infelizmente, quando olhamos hoje para o conjunto, estamos também a olhar para uma história de destruição e reconstrução. Durante a Guerra Civil, o retábulo foi praticamente arrasado. Apenas a figura de Cristo sobreviveu. Décadas depois, entre 1955 e 1969, Juan Luis Vassallo reconstruiu as figuras desaparecidas, estudando fotografias e documentos e tentando recuperar o espírito da obra original. E há ainda uma última camada: a decoração barroca do século XVIII. As paredes ganharam dourados, pinturas e esculturas, os caixotões foram pintados e o espaço tornou-se muito mais exuberante. Hoje vemos, portanto, várias épocas sobrepostas - e é precisamente isso que torna esta capela tão interessante.

Antes de sairmos, façamos uma derradeira pausa. Fixemos novamente o olhar na rotonda, na cúpula, nos arcos, na cena da Transfiguração e pensemos no homem que imaginou tudo isto. Francisco de los Cobos morreu em 1547, antes de ver a sua capela concluída. Foi a sua mulher, María de Mendoza, quem continuou a obra e levou o projecto até à consagração, em 1559. Os fundadores acabaram por ser sepultados numa discreta cripta sob o presbitério, o que não deixa de ser curioso. Depois de tanta arquitectura, tanto mármore, tanta escultura e tantos símbolos, os restos mortais de Cobos e María estão depositados debaixo dos nossos pés. O verdadeiro túmulo de Cobos é, afinal, a própria cidade. Basta sairmos para a Praça Vázquez de Molina para percebermos como tudo se articula: a capela, o palácio, o espaço urbano. Cobos quis transformar a sua memória numa paisagem. E conseguiu. Cinco séculos depois, continuamos a entrar aqui, a elevar os olhos para a cúpula, a perguntar quem foram aquelas figuras e porque se encontram ali colocadas. Era exactamente isso que Francisco de los Cobos desejava quando escreveu que os homens procuram perpetuar a sua existência através da memória. Portanto, ao abandonarmos o espaço, não estamos simplesmente a deixar para trás uma igreja. Estamos a sair de dentro de uma ideia - uma ideia muito renascentista, muito ambiciosa e, sobretudo, muito humana: a de que um dia desapareceremos, mas aquilo que construirmos poderá continuar a falar por nós.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

LUGARES: Museu Arqueológico de Úbeda



LUGARES: Museu Arqueológico de Úbeda
Calle Cervantes 6, Úbeda
Horários | De 16 de Setembro a 15 de Junho, de terça-feira a sábado, das 09h00 às 21h00 e domingo, das 09h00 às 15h00. De 16 de Junho a 15 de Setembro, de terça-feira a domingo, das 09h00 às 15h00
Ingressos | Bilhete grátis


Há museus cujas colecções contam a história de um território. Em Úbeda, porém, é o próprio edifício que inaugura essa narrativa. Instalado desde 1973 numa notável casa mudéjar dos séculos XIV e XV, descoberta durante obras na década de 1960 e cuidadosamente restaurada para acolher o Museu Arqueológico, este espaço constitui um dos mais interessantes exemplos da arquitectura doméstica medieval da cidade. O pátio central, em torno do qual se distribuem as diferentes salas, as galerias abertas, a elegante arcaria de entrada e os numerosos elementos reaproveitados de outros edifícios históricos conferem ao conjunto um carácter singular. Situado no antigo bairro de San Pablo, onde ainda se preserva o traçado urbano mudéjar, o museu revela desde o primeiro momento que a visita começa muito antes da observação das peças expostas.

O percurso é necessariamente compacto, acompanhando a própria configuração da antiga habitação. A entrada faz-se sob o alpendre mudéjar, onde grandes recipientes cerâmicos, entre eles um dolium romano, introduzem o visitante ao universo arqueológico. Daí segue-se para a sala dedicada à Pré-História, onde se encontram utensílios de pedra provenientes de jazidas paleolíticas da província de Jaén e objectos metálicos de espólios funerários da Idade do Bronze descobertos em Úbeda. No pátio, entre colunas e galerias, surgem esculturas, estelas funerárias e elementos arquitectónicos de época romana, entre os quais sobressai uma portada mudéjar do século XIII. A disposição das peças acompanha, tanto quanto o espaço permite, uma leitura cronológica da ocupação humana deste território.

Subindo ao piso superior, a viagem prossegue através das culturas ibérica, romana, visigótica e muçulmana. Urnas cinerárias, recipientes cerâmicos, objectos do quotidiano e materiais provenientes de escavações realizadas em Úbeda e em sítios arqueológicos vizinhos testemunham a longa continuidade da presença humana nesta região da Andaluzia. A colecção resulta, em grande parte, dos fundos do Museu de Jaén, complementados por doações particulares, pelas peças reunidas pelo fundador Rafael Vañó Silvestre e pelos materiais recuperados em sucessivas campanhas arqueológicas. Curiosamente, foi o espaço expositivo que teve de se adaptar às características da antiga casa, preservando a autenticidade do edifício e transformando cada divisão numa extensão da própria narrativa histórica.

Entre as obras mais emblemáticas destacam-se a Dama com Manto - escultura romana associada ao modelo iconográfico da “pudicitia” e provavelmente pertencente a um monumento funerário -, uma expressiva cabeça ibérica, uma estela funerária muçulmana e uma invulgar maqueta em pedra de um castelo ameado, cuja minúcia continua a surpreender investigadores e visitantes. Merecem igualmente atenção as madeiras policromadas com lacerias mudéjares preservadas na galeria superior, testemunho da decoração original da casa. No Museu Arqueológico de Úbeda, cada sala, cada coluna e cada objecto contribuem para reconstruir séculos de história, tornando esta pequena instituição num dos espaços mais reveladores para compreender a evolução cultural de uma cidade cujo centro histórico é, desde 2003, Património Mundial da UNESCO.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

LUGARES: Sinagoga del Agua



LUGARES: Sinagoga del Agua
Calle Roque Rojas, 2 - Úbeda (Jaén)
Horários | Todos os dias, das 10:30 às 13:30 e das 17:00 às 19:15
Ingressos | € 6,00, bilhete normal


No coração do centro histórico de Úbeda, cidade andaluza Património Mundial da UNESCO, encontra-se um dos espaços mais surpreendentes da herança judaica espanhola: a Sinagoga da Água. A sua descoberta, em 2007, ocorreu de forma completamente fortuita, quando o empresário Fernando Crespo iniciou obras de reabilitação em vários imóveis antigos com o objectivo de os transformar em apartamentos, lojas e parques de estacionamento. À medida que os trabalhos avançavam, começaram a surgir elementos arquitectónicos inesperados: arcos medievais ocultos por paredes posteriores, uma galeria feminina, poços de água e um banho ritual judaico. Perante a importância do achado, o projecto imobiliário foi abandonado e deu lugar a um cuidadoso processo de recuperação patrimonial. Desde 2010, o conjunto está aberto ao público, atraindo visitantes de todo o mundo. Embora alguns especialistas continuem a discutir a classificação definitiva do monumento, muitos dos elementos identificados correspondem claramente à tipologia das sinagogas medievais da Península Ibérica. O ambiente convida a imaginar a intensa vida comunitária que aqui decorreu antes da expulsão dos judeus em 1492. As sucessivas ocupações cristãs e muçulmanas deixaram igualmente marcas visíveis, criando um espaço onde diferentes épocas e culturas dialogam entre si. Cada detalhe parece revelar uma nova camada da história de Úbeda, cidade que durante séculos guardou este património quase em segredo.

A visita começa na chamada Sala do Inquisidor, um espaço cujo nome evoca uma das maiores ironias da história local: numa das fachadas vizinhas conserva-se ainda o brasão do Santo Ofício, instituição responsável pela perseguição dos judeus após a sua expulsão dos reinos espanhóis. Este primeiro compartimento, juntamente com o pátio, a adega e os fornos, poderá ter integrado a antiga residência do rabino da comunidade. Prosseguindo o percurso, o visitante alcança o pátio central, verdadeiro eixo de distribuição de todo o complexo. Aqui destacam-se duas colunas originais perfeitamente preservadas, ornamentadas com motivos vegetais que recordam a palmeira ou Árvore da Vida, uma das imagens mais recorrentes na simbologia judaica. Nos capitéis surgem alusões à Menorá, o candelabro de sete braços que constitui um dos símbolos mais antigos do Judaísmo. É também neste espaço que se encontra a chamada Porta da Alma, acesso principal à área de cultos. Parte dos seus elementos — colunas, degraus e segmentos do arco — são originais, enquanto outros tiveram de ser reconstruídos após a localização das peças dispersas em paredes erguidas durante séculos de transformações arquitectónicas. Sobre o arco sobressai uma estrela de David esculpida em pedra, reforçando a identidade do lugar.

A partir da Porta da Alma entra-se na grande sala sinagogal, organizada em três naves separadas por arcos ogivais originais que permaneceram escondidos durante séculos no interior das habitações construídas posteriormente. O espaço apresenta a sobriedade característica das sinagogas medievais espanholas, concebidas não apenas para a oração, mas também para o estudo, a administração da comunidade e a resolução de questões jurídicas sob orientação do rabino e dos anciãos. Um dos elementos mais interessantes encontra-se na parte superior de uma das naves: a Galeria das Mulheres. Sustentada por quatro colunas originais e parcialmente oculta por portadas de madeira, era o local reservado às mulheres durante as cerimónias religiosas. O tecto de madeira pintada conserva ainda vestígios da decoração antiga, contribuindo para a atmosfera de recolhimento que caracteriza o conjunto. Ao longo do percurso surgem diversos poços, num total de sete, testemunhando a importância da presença de água subterrânea na concepção do edifício. Dois deles conservam ainda água e os seus rebordos originais. Os guias costumam chamar a atenção para esta relação entre arquitectura e recursos hídricos, um aspecto fundamental na tradição judaica, onde a água assume um papel central nos rituais de purificação e renovação espiritual.

O ponto culminante da visita encontra-se no Mikveh, o banho ritual de purificação, acessível através de um estreito corredor escavado na rocha. Escondido sob aquilo que durante muito tempo se julgou ser apenas uma antiga adega, este espaço revela uma das descobertas mais impressionantes de todo o complexo. Coberto por uma discreta abóbada de pedra, o Mikveh possui uma escadaria talhada directamente na rocha que conduz a uma nascente de água natural, corrente e permanente, condição indispensável para a validade ritual deste tipo de edifícios. Homens e mulheres utilizavam este banho em momentos específicos da vida religiosa, desde a preparação para festividades até acontecimentos familiares marcantes. A visita prossegue depois pela adega e pelos fornos, onde ainda se observam grandes recipientes semi-enterrados destinados ao armazenamento de azeite, vinho kosher e outros alimentos. Os vestígios da antiga cozinha sugerem a preparação de pão ázimo e a conservação de refeições para o Shabbat. O percurso termina numa pequena exposição de objectos ligados ao culto judaico, entre os quais réplicas da Torá, Menorás, mezuzot e outros símbolos da tradição hebraica. Mais do que um monumento, a Sinagoga da Água oferece uma viagem à memória de uma comunidade desaparecida, permitindo compreender uma dimensão muitas vezes esquecida da história cultural da Andaluzia.