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quarta-feira, 1 de julho de 2026

LUGARES: Museu Picasso | Málaga



LUGARES: Museu Picasso, Málaga
Palacio de Buenavista, Calle San Agustín 8, Málaga
Horários | Todos os dias, das 10:00 às 19:00
Ingressos | € 13,00 (bilhete normal); € 11,00 (preço reduzido)


Entrar no Museu Picasso de Málaga representa um regresso às origens de um dos maiores nomes da arte do século XX. Instalado no Palácio de Buenavista, um edifício renascentista erguido sobre vestígios romanos e árabes, o Museu convida o visitante a compreender como a cidade natal marcou profundamente o percurso de Pablo Picasso. Embora o pintor tenha passado grande parte da sua vida entre Paris, Barcelona e a Côte d'Azur, Málaga permaneceu como uma memória constante, feita de luz mediterrânica, de touradas, de pombas e de cenas populares que atravessam a sua obra. O início da visita é marcado por esse diálogo profícuo, as paredes seculares a acolherem uma colecção que não pretende impressionar pela quantidade, antes pela capacidade de revelar a permanente inquietação criativa do artista. À medida que se percorrem as primeiras salas, percebe-se que Picasso nunca permaneceu imóvel. Cada pintura, desenho, gravura ou escultura representa uma etapa de uma investigação incessante sobre a forma, a cor e a representação figurativa, oferecendo ao visitante uma leitura cronológica, mas também emocional, da sua extraordinária evolução artística.

Prosseguindo o percurso, o Museu mostra como a reinvenção foi a verdadeira assinatura de Picasso. Das primeiras experiências académicas aos períodos mais experimentais, cada núcleo evidencia a facilidade com que o artista abandonava soluções já dominadas para explorar linguagens completamente novas. Ao lado de esculturas de surpreendente simplicidade, encontra o visitante pinturas de grande delicadeza, cerâmicas que revelam um espírito lúdico e gravuras onde o traço parece condensar décadas de reflexão artística. Um dos grandes méritos da exposição reside precisamente nessa diversidade de suportes, permitindo compreender que Picasso sempre rejeitou quaisquer fronteiras entre disciplinas. Ao longo da visita, sobressai igualmente a influência de mestres como Velázquez, Goya ou El Greco, reinterpretados através de um olhar profundamente moderno. Em vez de romper com a tradição, Picasso apropriou-se dela para construir uma linguagem singular, onde convivem o cubismo, o classicismo, o simbolismo e uma permanente vontade de experimentação. Cada sala convida a observar demoradamente os detalhes, porque quase todas as obras escondem referências, citações ou jogos visuais que recompensam um olhar atento.

A visita termina com a sensação de que o Museu não procura apenas celebrar um génio universal, mas explicar o processo criativo de um artista incapaz de repetir fórmulas. Mais do que uma sucessão de obras-primas, o percurso constitui uma narrativa sobre a liberdade artística e sobre a coragem de transformar continuamente a própria linguagem. Ao sair para o pátio interior do Palácio de Buenavista, vale a pena recordar que este museu nasceu graças ao desejo da família de Picasso de devolver parte da sua obra à cidade onde tudo teve o seu início, vincando uma ligação afectiva entre Málaga e aquele que se tornou um dos seus maiores embaixadores culturais. Para quem visita a cidade, esta não é apenas uma etapa obrigatória do roteiro artístico andaluz; é uma oportunidade para compreender que a verdadeira dimensão de Picasso reside menos na criação de um estilo do que na permanente recusa de qualquer limite. É precisamente essa inquietação, patente em cada sala e em cada obra, que faz do Museu Picasso uma experiência capaz de surpreender tanto os conhecedores da sua produção como quem a descobre pela primeira vez.

sábado, 20 de julho de 2019

EXPOSIÇÃO DE GRAVURA: "Suite Vollard"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE GRAVURA: “Suite Vollard”,
de Pablo Picasso
Palácio das Artes, Porto
30 Mai > 11 Set 2019


Desenganem-se aqueles que pensam ter já visto tudo de Pablo Picasso, do período azul ao período africano, do período rosa ao cubismo analítico ou sintético. Encomenda do negociante de obras de arte e editor Ambroise Vollard e realizada entre 13 de setembro de 1930 e março de 1937, a “Suite Vollard” é um conjunto de 100 gravuras com tiragens reduzidas e que, no seu formato mais pequeno, se encontra actualmente disperso, com muito poucas colecções integrais destas gravuras a puderem ser vistas. As excepções são o British Museum, o MoMA de Nova Iorque, o Museu Picasso de Paris, a National Gallery of Art de Washington ou esta série, detida pela fundação MAPFRE e que pode ser agora apreciada no Palácio das Artes, no Porto, até ao próximo dia 11 de Setembro.

A série completa inclui três Retratos de Vollard, cinco gravuras relativas à “Batalha do Amor” – também designadas “Violação” – quarenta e seis gravuras sobre “O Atelier do Escultor”, quatro gravuras sobre “Rembrandt”, quinze gravuras sobre “O Minotauro” e “O Minotauro Cego” e vinte e sete composições referentes a “Temas Diversos”. As gravuras não seguem nenhuma sequência lógica nas suas imagens, a sua cronologia obedeceu antes a acontecimentos externos e pessoais do artista. O cromatismo exuberante de Picasso é aqui substituído pelo traço negro, declinado, ora em espirais delicadas ora num turbilhão de sombras e músculos – entre a pose e o movimento, a ternura e o frémito, oferecendo-nos um conjunto de enorme beleza e coerência formal.

A “Suite Vollard” expõe plenamente a dialética picassiana que oscila entre a ordem e a violência, o classicismo e a modernidade. Embates vigorosos e terríficos alternam com paisagens povoadas por criaturas da mitologia e do bestiário espanhol, muito centrado no mundo da tourada. Rembrandt, visto como figura algo rude, também marca presença neste trabalho de Picasso, tal como Chagall, apenas invocado em figuras que rasgam os céus, contemplando a acção. Motivos para uma deslocação à cidade Invicta não faltam, sendo este, seguramente, um deles. Apesar do espaço expositivo não ser o mais adequado – pelas dimensões acanhadas e pela deficiente iluminação das obras –, uma visita à “Suite Vollard” é uma oportunidade única e imperdível.