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quinta-feira, 25 de julho de 2024

CONCERTO: Dee Dee Bridgewater | We Exist!



CONCERTO: Dee Dee Bridgewater | We Exist!
FIME – 50.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
22 Jul 2024 | seg | 22:00


Há uma gargalhada a romper o silêncio. Há um punho que se ergue contra a intolerância e o preconceito. Há palavras que são expressão de raiva e de dor. E há um grito que afirma a vontade de todas as mulheres: Nós Existimos! [“We Exist!”] Sim, o quarteto de Dee Dee Bridgewater trouxe a Espinho a sua música, naquele que foi um dos momentos mais aguardados do FIME e que colocou um ponto final numa edição memorável. Mas, mais do que “o timbre quente, a dicção impecável e o swing irrepreensível” desta autêntica lenda viva do jazz e das suas três acompanhantes, o concerto constituiu uma declaração de princípios no reconhecimento daquilo que nos distingue e uma tomada de consciência das lutas que mulheres como Bridgewater travaram e continuam a travar em sociedades onde o racismo, a xenofobia e a misoginia são autênticas feridas abertas nos ideais de liberdade, igualdade e justiça que dizem defender.

Oferecer terá sido, porventura, a palavra mais escutada em duas horas (!) de concerto. À dádiva da música juntou-se a dádiva da palavra e da voz, vertida em gratas memórias de uma geografia afetiva onde não faltou um inesquecível jantar de marisco e as palavras apaixonadas de quem lamenta a iminente separação e vive na esperança do reencontro. Ao lado das muito jovens Carmen Staaf (direcção musical, piano, teclados), Rosa Brunello (contrabaixo, baixo eléctrico) e Evita Polidoro (bateria), Dee Dee Bridgewater revisitou alguns temas icónicos das chamadas “canções de protesto”, lembrando o impacto do activismo e da música no curso da História e apelando à consciencialização social. Ainda antes de começar, a cantora mencionou o seu quarteto como a certeza da presença das mulheres no mundo do jazz [“we exist!”] e saudou a (possível) candidata do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos da América, Kamala Harris, dizendo-se “excitada”.

“People Make The World Go Round”, tema de 1971 da banda “The Stylistics”, deu o mote a uma noite inesquecível, chamando para primeiro plano as injustiças num mundo dominado pelo poder do dinheiro. Percy Mayfield e Ray Charles subiram à cena com “The Danger Zone”, extraordinário blues que olha a realidade histórica da América no início dos anos 1960, expressando medo e decepção pela discriminação e pelo ódio racial que teimavam em manter-se. No momento seguinte, foi a vez de Roberta Flack e Donny Hathaway se mostrarem em “Trying Games”, um grito de denúncia com o dedo apontado a cada um de nós: “People always talking about man's inhumanity to man / But what is you tryin' to do to make this a better land?”. Pegando no seu instinto em busca das suas raízes africanas, algures no Mali, Dee Dee Bridgewater acrescentou palavras suas à música de Wayne Shorter e ofereceu-nos “Long Time Ago / Footprints”, dando a ver as pegadas como algo passível de nos fazer recuar no tempo e abraçar as mais gratas recordações.

Espontânea e natural, com uma gargalhada desarmante e um apurado sentido de humor, Dee Dee Bridgewater voltou ao jantar de marisco e ao delicado ofício de descascar gambas – um momento que definiu como uma experiência gastronómica “orgasmática” –, antes de prosseguir com “Mississippi Goddam”, um hino activista da causa negra escrito por Nina Simone em 1964, um grito de revolta contra o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham, no estado do Alabama, no ano anterior. “My skin is black / My arms are long / My hair is woolly / My back is strong / Strong enough to take the pain / Inflicted again and again” são palavras de Nina Simone e do forte e poderoso “Four Women”, talvez o momento mais alto da noite. Até ao final do concerto ouve ainda tempo para escutar “Afro Blue”, um tema de Mongo Santamaria que Bridgewater dedicou a uma das traves mestras da organização do Festival, André Gomes, e ainda “Compared to What” e, já no encore, “Spain”, temas evocativos de nomes tão importantes como Les McCann e Eddie Harris, Al Jarreau e Chico Korea. No final, a artista reafirmou a sua raiva, insatisfação e desapontamento com a política do seu país e deixou-nos aquilo que deve ser interpretado como um pedido e, sobretudo, como um conselho: “Keep your country safe!”

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

CONCERTO: Harlem Gospel Choir



CONCERTO: Harlem Gospel Choir
Cine-Teatro de Estarreja
01 Dez 2018 | Sab | 21:30


Há uma década que os Harlem Gospel Choir elegem Portugal para uma série de concertos nesta altura do Natal. Voltaram a fazê-lo este ano, numa digressão que incluiu na sua agenda o Cine-Teatro de Estarreja, propondo um momento único de festa e celebração da música através de um repertório cuidadosamente escolhido entre os seus temas mais conhecidos e aclamados. Mantendo um diálogo constante com o público e convidando a uma participação activa nos vários temas interpretados, o Harlem Gospel Choir contagiou os presentes e pôs a sala a dançar, literalmente, ao longo de quase duas horas, derramando magia nas suas vozes e nos seus gestos e ritmos.

Composto por nove elementos e dois instrumentistas – teclados e percussão -, o Harlem Gospel Choir é uma espécie de “globetrotter” da música coral, aliando ao virtuosismo e qualidade vocal um sentido único do espectáculo, fazendo de cada concerto um momento de júbilo. Em Estarreja, o coro arrancou com “I Love to Praise Him” e “Jesus Is His Name”, dois temas evangélicos entoados com uma alegria e uma energia transbordantes, dando o mote para o muito de bom que estava para vir. Seguiu-se um momento de tributo a Aretha Franklin, recordando a “rainha da soul” recentemente desaparecida e vincando a importância do seu exemplo na génese e essência deste grupo. “Take My Hand, Precious Lord”, “You Make Me Feel (Like a Natural Woman)” ou “Respect” foram hinos sentidos nas vozes do grupo, Aretha lembrada com intensidade, respeito e uma profunda emoção.

Interpretada de forma magistral por uma das vozes femininas do coro, num solo de arrepiar, “Amazing Grace” surgiria imediatamente após o intervalo, mostrando o porquê de ser este um dos temas mais amados pelos americanos e um dos preferidos da quadra natalícia. Houve ainda lugar a um “duelo de pandeireta”, momento divertido e de enorme virtuosismo à volta deste popular instrumento, bem como uma interpretação extraordinária de “Oh Happy Day”, abrilhantada pela presença em palco de Cátia, uma jovem “repescada” na assistência e que deu uma réplica com tanto de fantástico como de absolutamente inesperado. Vibrante e arrebatada, “Celebration” foi o “grand finale” dum concerto que perdurará na memória daqueles que tiveram o privilégio de o viver e sentir.