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sexta-feira, 27 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO: “Tecendo Música: A Iconografia Musical na Tapeçaria de Portalegre”



EXPOSIÇÃO: “Tecendo Música: A Iconografia Musical na Tapeçaria de Portalegre”
Curadoria | Cláudia Sousa
Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino
16 Mai > 31 Out 2025


Das tapeçarias de Portalegre conhecemos-lhes a história longa de mais de oito décadas ao serviço da arte e da cultura, a sua originalidade e enorme poder decorativo, a peça no tear vertical a crescer a partir da base, o trabalho de “formiguinha” das laboriosas tecedeiras. No rigor de uma técnica integralmente manual, capaz de traduzir na perfeição o cartão do pintor, abraçamos as obras de Nadir Afonso, Manuel Cargaleiro, Graça Morais, Luís Pinto-Coelho, Almada Negreiros, Vieira da Silva, Guilherme Camarinha, Joana Vasconcelos e tantos outros artistas, como se dos seus originais a óleo ou acrílico se tratasse. Mas as narrativas em torno de cada uma destas peças verdadeiramente assombrosas não se esgotam na sua qualidade e originalidade, na técnica invulgar ou na preservação de uma arte com tanto de saber como de paixão. É isto que “Tecendo Música: A Iconografia Musical na Tapeçaria de Portalegre” vem demonstrar, ao combinar elementos que reconhecemos como pertencentes ao universo da música, com a evocação de práticas sociais, culturais e performativas, gestos ou estruturas simbólicas próprias do som, da escuta e do acto musical.

Com curadoria de Cláudia Sousa, a exposição propõe um olhar sobre as presenças musicais, visíveis tanto em instrumentos e músicos, como na composição rítmica das formas ou na evocação sensorial de práticas e ambientes. Nesta ligação dos universos musical e pictórico, a arte da tapeçaria surge como um meio onde som e imagem se cruzam, o ritmo do fio e o silêncio da lã repletos de memórias e gestos que falam também de música. De forma subtil, mas intensa e viva, a exposição é um desafio aos sentidos do visitante, convidando-o a perceber na destreza e minúcia com que a tecedeira trabalha a trama, o suave dedilhar das cordas de uma harpa ou o leve pousar dos dedos sobre as teclas de um piano. Esta forte ligação do que se vê ao que se ouve é reforçada por um conjunto de propostas musicais surpreendentes, nas quais imperam a elegância e o bom gosto. Prova disso é a harmonização de composições sonoras realizadas por um conjunto de alunos da Escola de Artes do Norte Alentejano, inspiradas nas tapeçarias expostas de, entre outros, José de Guimarães, Siza Vieira, Júlio Pomar, Cruzeiro Seixas ou Le Corbusier.

O projecto “Mil e uma Noites”, do grupo UmColetivo e vozes de Ana Lua Caiano e Cátia Terrinca, integra igualmente a exposição. Através dele, o visitante tanto é receptor das músicas que as imagens convocam, como tem a possibilidade de criar música a partir das tapeçarias que se abrem ao seu olhar. No convite a fechar os olhos e ouvir de imaginação aberta, hão-de soar teares e estórias de quem partilhou com eles a vida, bem como poemas de artistas plásticas e mulheres que contribuíram para que a arte da tapeçaria de Portalegre seja, afinal, capaz de atravessar os tempos. Na reunião de artistas de diferentes gerações, sensibilidades e linguagens visuais, encontra esta mostra a expressão maior do dar(-se) a ouvir, incentivando o visitante a descobrir não apenas a presença da música na tapeçaria, mas a diversidade de interpretações que dela podem emergir. “Tecendo Música: A Iconografia Musical na Tapeçaria de Portalegre” é, por isso, mais do que uma exposição sobre a música como tema. É uma viagem pela escuta silenciosa da tapeçaria. Um convite a ver com os olhos... e a ouvir com o olhar.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO: “Alguém ‘Passa Cartão’?”



EXPOSIÇÃO: “Alguém ‘Passa Cartão’?”
Vários artistas
Comissariado e textos | Rita Maia Gomes
Museu da Tapeçaria de Portalegre - Guy Fino
31 Mai > 31 Dez 2025


No próximo ano, em 2026, a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre comemorará 80 anos de existência. Celebrar-se-ão 80 anos de um saber-fazer que foi sendo aperfeiçoado ao longo do tempo e que representa um património de atestado valor, de reconhecida qualidade no mundo inteiro e cujo lugar na cultura portuguesa é inquestionável. Contudo, o futuro da Manufactura está comprometido pela falta de encomendas que garantam a continuidade - a continuidade que assegure a passagem de testemunho, isto é, a transmissão dos modos de fazer, da técnica e da sensibilidade necessárias para atingir o patamar de excelência que a Tapeçaria de Portalegre alcançou. “Alguém ‘Passa Cartão’?”, a exposição temporária que, por estes dias, pode ser vista no Museu da Tapeçaria de Portalegre - Guy Fino, surge, assim, como uma oportuna chamada de atenção para o risco, sobretudo, de extinção de uma marca identitária, um património em vias de desaparecer. Nela se mostram 45 cartões de de 19 artistas nacionais e internacionais, que passaram pela primeira fase de selecção do “Prémio Tapeçaria de Portalegre: a Tapeçaria de Portalegre como Expressão de Arte Contemporânea” e que, após a realização de uma imersão artística, foram convidados a apresentar propostas originais em pintura ou desenho, pensadas para a possível transposição em tapeçaria.

Um núcleo introdutório configura um apontamento histórico sobre a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, sublinhando a diversidade de propostas plásticas que foi integrando na sua produção. Para isso, apresenta-se um conjunto de cartões de alguns dos artistas que mais valorizaram a tecnologia da tapeçaria - Júlio Pomar, Cruzeiro Seixas, Nuno de Siqueira, Eduardo Nery, Vieira da Silva -, potenciando as suas propriedades e os seus propósitos. Pretende-se destacar o cartão não como uma obra ‘per si’, mas como o ponto de partida para o fabrico de uma tapeçaria. É nesse sentido que surge em lugar de destaque o cartão “Mouraria” de Maria Helena Vieira da Silva, através do qual se alude ao processo de trabalho das desenhadoras e tecedeiras da Manufactura, sendo o visitante convidado a apreciar o desenho de tecelagem e a respectiva tapeçaria. Num texto de 1996 a propósito deste cartão, Rui Mário Gonçalves referia: “É claro que os espaços de Vieira da Silva constituem um desafio para a técnica do tapeceiro. A Manufactura de Portalegre tem porfiadamente vencido este desafio, mas tanto os mestres da oficina como a própria pintora perceberam que não interessa muito imitar em tapeçaria os seus próprios guaches ou óleos. Ela própria encomendou uma vez a prévia passagem de uma sua pintura para a técnica de colagem, para que a frontalidade de cada área de cor e sua delimitação nítida lhe trouxesse a disciplina necessária para corresponder a encomendas de tapeçaria.”

O cerne da exposição traz-nos os cartões dos artistas apurados para a segunda fase do “Prémio Tapeçaria de Portalegre”, cujas obras abordam as temáticas propostas — Justiça, Paz, Produção Sustentável e Consumo Sustentável — refletindo o diálogo entre tradição e arte contemporânea. De notar que responderam à primeira fase do concurso cinquenta artistas, apresentando os seus portefólios. O juri de candidatura seleccionou vinte artistas para a segunda fase do concurso. Nesta galeria estão expostos os 45 trabalhos submetidos a concurso, com vista à atribuição de cinco prémios. O processo de avaliação e classificação contará com o parecer de um júri de selecção (80%) e com a votação do público numa plataforma online [AQUI] criada para o efeito (20%). Seleccionados para o prémio estão os artistas Beatriz Santa-Rita, Conceição Abreu, Dileydi Florez, Heather Chontos, Inês Cannas, Inês Pargana, João Gomes Gago, João Concha, Karen Karp, Luis Félix, Maísa Champalimaud, Mariana Gomes, Patrícia Sumares, René Tavares, Sílvia Patrício, Sofia Cruz, Stefanie Pullin, Tim Madeira, Valerie Aboulker, Vera Fonseka e Zory. Durante o período de 31 de maio a 30 de junho, o público poderá visitar e votar nas suas obras preferidas. Os cinco trabalhos finalistas serão anunciados a 12 de julho, durante as comemorações do 24.º aniversário do Museu. A exposição estará patente ao público até ao final do ano.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

LUGARES: Museu da Tapeçaria de Portalegre - Guy Fino


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

LUGARES: Museu da Tapeçaria de Portalegre Guy Fino
Rua da Figueira, 9 – 7300-139 Portalegre
Horário | de terça a domingo, das 09h30 às 13h00 e das 14h30 às 18h00 (encerra em 1 de Janeiro, sexta feira Santa, Domibgo de Páscoa, 25 de Dezembro e 1º de Maio)


Não exagero se disser que este é um dos mais interessantes e valiosos museus que podemos encontrar em território nacional. Daí o conselho a que reserve duas a três horas para a visita, porque vale a pena demorar-se longamente em cada uma das peças, ao encontro da riqueza do detalhe e da sua enorme beleza decorativa. Aconselho igualmente a tirar partido do espaço que é muito bonito, a não perder os painéis explicativos que vão surgindo ao longo da visita e a prestar a devida atenção ao documentário apresentado numa das primeiras salas e onde se evocam, com enorme paixão, os nomes de Guy Fino e Manuel Celestino Peixeiro, figuras centrais dum projecto nascido em 1946 e que conhece, actualmente, um processo de internacionalização deveras interessante, cativando um número crescente de novos pintores. Ainda um conselho a que procure complementar a visita ao Museu com uma passagem pela Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, também ela um museu-vivo e "estaleiro" das obras expostas no Museu.

Especificamente dedicado à apresentação, conservação e estudo de uma parcela fundamental do património artístico nacional representado pelas Tapeçarias de Portalegre, o Museu da Tapeçaria de Portalegre - Guy Fino é um local de visita obrigatório para todos quantos demandam esta belíssima parcela do território português. Inaugurado em 14 de Julho de 2001 e reintervencionado muito recentemente, o seu nome rende justa homenagem a Guy Fino, o homem que definitivamente integrou Portugal na lista dos grandes produtores internacionais de Tapeçaria. Implantado no Palácio Castelo Branco, edifício barroco situado no centro histórico de Portalegre, o Museu dispõe, para além das áreas de exposição permanente, de uma Galeria de Exposições Temporárias e de um Auditório com capacidade para 150 pessoas. A Cafetaria, o Foyer e o Jardim são espaços complementares de fruição pública, com capacidade de adaptação a diversas actividades de carácter lúdico e cultural.

Distinguindo-se pela sua técnica original e pelo facto de trabalharem com obras de artistas contemporâneos que assinam as peças como obra sua, as Tapeçarias de Portalegre são um trabalho minucioso e moroso, mas também único e original. Ao demandar o Museu, é precisamente essa realidade que salta aos olhos do visitante. Atente-se na primeira sala, ao encontro da “Tapeçaria no Feminino” e daquela que foi a primeira obra de Maria Keil para Tapeçaria de Portalegre, então com 35 anos de idade. “Pescador da Barca Bela” é um exemplo perfeito do génio da autora ao explorar em termos plásticos a poesia homónima de Almeida Garrett, mas também um marco na qualidade exclusiva do “ponto de Portalegre” e no rigor do seu processo artesanal, reconhecido por um leque alargado de artistas portugueses e internacionais que viram nele uma mais valia para as suas criações.

O Museu encontra-se dividido em dois núcleos distintos; no primeiro, correspondente ao piso térreo, apresenta-se a componente histórica relativa à Manufactura de Tapeçarias de Portalegre bem como os processos técnicos de execução deste produto tão particular, enquanto o segundo núcleo, no piso 1, é dedicado à apresentação exclusiva de obras de tapeçaria, tentando seguir, tanto quanto possível, uma linha cronológica que acompanha o desenvolvimento desta arte, desde o seu nascimento em Portalegre, em finais dos anos 40 do século XX, até à actualidade. Ao significado e beleza dos trabalhos de muitos dos maiores autores nacionais e estrangeiros, entre os quais se destacam Almada Negreiros, Guilherme Camarinha, Maria Keil, Júlio Pomar, Vieira da Silva, Maria Velez, Costa Pinheiro, Sá Nogueira, Lurdes de Castro, Eduardo Nery, Menez, Graça Morais, José de Guimarães, Jean Lurçat, Le Corbusier e muitos outros, junta-se a qualidade do bordado, conferindo um carácter único a cada trabalho em exposição, pedindo ao visitante uma atenção redobrada na apreciação de cada uma das peças. O resultado é fascinante!