EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO: “Breviário Ilustrado do Tempo Contado”,
de Sara Feio, Abigail Ascenso, Rachel Caiano, Uma Joana, Anabela Dias, Bárbara R., Mantraste, Helena Zália, Danuta Wojciechowska, Ricardo Ladeira, Sara Bandarra, Gonçalo Viana, Fedra Sandra, Carlo Giovani, Marta Torrão, Mafalda Milhões, Teresa Cortez, Cátia Vidinhas, Alex Gozblau, André Neves, Marta Madureira, Sebastião Peixoto, Margarida Botelho, Ana Biscaia, Tiago Galo
Curadoria | Mafalda Milhões
Rota Olhares e Contares do Lado de Lá
Festival Literário Correntes d'Escritas
Cine-Teatro Garrett, Póvoa de Varzim
21 Fev > 28 Fev 2026
Há projectos que nascem de uma pergunta simples e acabam por redesenhar um território inteiro. “Breviário Ilustrado do Tempo Contado” parte desse gesto inaugural de imaginar que as estátuas que habitam praças, rotundas e jardins poderiam, afinal, falar. Assim sendo, que histórias contariam sobre os espaços que guardam? Que memórias recolheram ao longo de anos ou décadas de silêncio? A partir dessa hipótese quase literária, o projecto da curadora Mafalda Milhões constrói uma proposta singular de mediação cultural: transformar monumentos quotidianos em matéria narrativa e visual. No centro desta ideia está também o território — Pombal, Castanheira de Pera e Sertã — reunido sob o signo sensorial do chamado Território 5 Sentidos. Em regiões marcadas pela baixa densidade populacional e por uma oferta cultural frequentemente intermitente, iniciativas como esta funcionam como pequenos faróis, convocando artistas, escritores e comunidades para reimaginar os lugares onde vivem. O processo é simples e ao mesmo tempo profundamente simbólico: primeiro os autores escrevem o território, depois vinte e cinco ilustradores escutam essas palavras e devolvem-nas na forma de imagens, transformando o património em experiência sensível.
A trajectória de Mafalda Milhões ajuda a compreender a dimensão deste gesto. Ilustradora, editora, livreira e mediadora de leitura, o seu trabalho tem insistido na ideia de que a cultura pode nascer longe dos grandes centros e irradiar a partir deles. Este “breviário”, mais do que um catálogo de imagens, torna-se assim um atlas afectivo onde o desenho funciona como forma de escutar os lugares e de devolver às comunidades uma narrativa visual sobre si próprias. As obras reunidas na exposição percorrem esse território imaginado como quem folheia um caderno de memórias partilhadas. Cada ilustrador aproxima-se de uma estátua ou monumento como quem se aproxima de uma personagem silenciosa, tentando adivinhar-lhe a respiração interior. Em torno do Soldado Desconhecido de Pombal, por exemplo, Anabela Dias transforma a memória da Guerra Colonial numa evocação íntima. Já Margarida Botelho olha para o Pelourinho da Sertã como quem observa um pequeno cosmos. Noutra latitude sensível, Ana Biscaia aproxima-se da figura do padre Manuel Antunes com um gesto quase meditativo. Há ainda a delicadeza poética de Tiago Galo, que imagina as estátuas a escutar as conversas dos pássaros, ou o olhar de André Neves, que convida o espectador a ver para além da cegueira das esculturas e a ouvir aquilo que apenas o coração reconhece.
Entre pelourinhos reinventados, monumentos ao emigrante carregados de ausência, cravos que se transformam em pássaros de liberdade ou heróis de pés de barro observados por pequenas criaturas irónicas, o conjunto constrói um mosaico onde história, memória e imaginação se entrelaçam. Cada ilustração acrescenta uma camada de humanidade à pedra, lembrando que os monumentos não são apenas marcas no espaço público, mas depósitos de vidas, partidas, regressos e sonhos colectivos. Apresentado no contexto das Correntes d’Escritas “Breviário Ilustrado do Tempo Contado” encontrou na Póvoa de Varzim um lugar deveras significativo. Um encontro literário dedicado à palavra torna-se também espaço para a imagem e para a ideia de que ler um território pode acontecer através de muitas linguagens. O projecto regressa à sua própria origem: nasceu do encontro entre escritores e ilustradores, vindo a abraçar um festival onde a literatura continua a ser ponto de partida para novas formas de criação. Há também um gesto simbólico neste movimento geográfico. Se o projecto nasce em territórios afastados dos grandes centros culturais, a sua presença num evento internacional como as Correntes d’Escritas amplia essa voz periférica, fazendo chegar ao litoral histórias vindas do interior. Quando alguém decide escutar o silêncio dos lugares, até as estátuas acabam por contar histórias.