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quarta-feira, 11 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO: “A Revolução das Marionetas: 1970-1980”



EXPOSIÇÃO: “A Revolução das Marionetas: 1970-1980”
Bienal Internacional de Marionetas de Évora
Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo
18 Abr > 15 jun 2025


A Arte e a Liberdade dão-se as mãos com “A Revolução das Marionetas: 1970 - 1980”, exposição patente até ao próximo dia 15 de junho no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo e que resulta de uma parceria com o Museu da Marioneta, o CENDREV - Centro Dramático de Évora e a BIME - Bienal Internacional de Marionetas de Évora. “Um acontecimento pioneiro, e também uma revolução, um Museu Nacional convidar a arte da marioneta para se apresentar numa das suas salas”, assim expressa o seu entusiasmo Ana Paula Rebelo Correia, Directora do Museu da Marioneta, na Folha de Sala que acompanha a exposição, acrescentando que “as marionetas que agora se expõe abriram um novo caminho no teatro de marionetas: audaciosas, deram voz a dramaturgias inspiradas na mitologia greco-romana, em Gil Vicente, Cervantes, António José da Silva, entre muitos outros, inovaram a sua expressão plástica, multiplicaram as possibilidades de manipulação, colocaram o poder de comunicador privilegiado da marioneta ao serviço de uma educação pela arte.

A partir de finais dos anos 60 do século XX, a arte da marioneta em Portugal é agitada pelo sopro de mudança que se começa a fazer sentir no campo das artes em geral. A marioneta começa a suscitar interesse junto de uma classe com formação académica, que olha para o poder de comunicação da marioneta do ponto de vista antropológico, social, artístico, pedagógico e sobretudo como um potencial mediador na construção de uma democracia cultural. Investiga-se o tema, o teatro de marionetas passa da rua para a sala, vai às escolas abre-se à dramaturgia. Em vinte anos desenvolve-se um interesse crescente pela arte da marioneta: recuperam-se repertórios antigos, reinventam-se tipologias de marioneta, investigam-se novos processos de criação plástica e de manipulação. A concepção plástica do espectáculo, mais elaborada, parte de um projecto, de um desenho e de um pensamento artístico. Trabalha-se com músicos e com orquestra, encontram-se novos públicos, de todas as faixas etárias e de vários estratos culturais. Nos anos 80 surgem os primeiros festivais de marionetas, nacionais e internacionais.

Esta exposição dá ao visitante a possibilidade de absorver a verdadeira “revolução das marionetas” num dos períodos mais férteis, criativos e originais do teatro de marionetas do século XX. Numa altura em que a televisão se tornou a principal forma de entretenimento dos portugueses, a primeira referência vai para as figuras de Maria Emília Perestrelo que passavam no pequeno ecrã e que representavam figuras reconhecidas de todos os portugueses, de Amália Rodrigues a José Saramago, de Mário Soares a Álvaro Cunhal ou Ramalho Eanes. Do Teatro de Branca-Flor e do trabalho pioneiro de Lília da Fonseca, entre 1962 e 1982, podemos ver um conjunto de peças que serviram de base a um ciclo de contos tradicionais portugueses. As personagens do elenco do “Auto da Barca do Inferno”, marionetas de varão e fio criadas por José Carlos Barros, ocupam um lugar destacado na sala, à semelhança das peças de “Dom Quixote e Sancho Pança”, com marionetas do mesmo autor, mas com a particularidade de os materiais utilizados - cobre, latão, zinco e ferro - representarem as classes sociais dos vários protagonistas.

Os Bonecos de Santo Aleixo não podiam faltar nesta mostra, sendo as marionetas apresentadas as mais antigas presentes na exposição, com os seus mais de cem anos. Também aqui se encontra a “Tourada” do Teatro Dom Roberto, uma forma de teatro itinerante, de cariz popular, com origem provável em finais do século XVIII e que tem na palheta e no característico som dos Robertos um dos seus elementos identitários. “As Histórias de Hakim”, uma das peças de teatro de Norberto de Ávila mais representadas, ocupa igualmente um lugar de destaque, do “elenco” sobrando apenas cinco marionetas de vara e fios, desenhadas e construídas por Salem Assef e restauradas em 2024 por José Carlos Barros. Outros pólos que chamam a atenção do visitante centram-se no trabalho da Companhia Marionetas de São Lourenço e o Diabo - Teatro de Ópera, no espectáculo “História mais ou menos verdadeira de um senhor e dos seus dois criados”, de Carlos Chagas Ramos, e ainda nalgumas fotografias dos anos 50 e 60 que mostram a arte da marioneta como arte de rua, itinerante e popular, permitindo pensar que nas aldeias mais afastadas dos centros urbanos, onde o acesso à cultura era praticamente inexistente, a actuação destes marionetistas era o único contacto que se tinha com uma ideia de teatro.

domingo, 19 de julho de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #5



1. Em 2020, o Eixos - Ciclo de Teatro de Marionetas foi repensado e muda de casa, deixando o Cineteatro António Lamoso e o périplo pelas escolas concelhias e levando as histórias das marionetas aos espaços públicos e museus feirenses. De 1 a 16 de agosto, propõe-se um conjunto de eventos de enorme interesse, que inclui uma exposição retrospectiva, uma oficina de construção de marionetas e mais de uma dezena de espectáculos com cinco companhias de teatro, três portuguesas e duas galegas. Fora dos Eixos é uma aposta do Município de Santa Maria da Feira na retoma das actividades culturais programadas que tinham sido suspensas devido à pandemia. O ciclo de marionetas apresenta-se como programação de Verão para as famílias, distribuída por seis espaços públicos e equipamentos culturais. Atendendo às recomendações da Direcção-Geral da Saúde, a participação nos espectáculos exige inscrição prévia, ficando asseguradas questões como a segurança de distanciamento e a higienização dos espaços. Programa completo e inscrições em https://cm-feira.pt/web/guest/fora-dos-eixos.

2. Pelo quarto ano consecutivo, o FFIL – Freixo Festival Internacional de Literatura instala-se na vila manuelina de Freixo de Espada à Cinta para um fim de semana dedicado aos livros e à leitura. Promovida pela Editorial Novembro e pelo Município local, a iniciativa arranca às 21h00 do dia 24 de julho, no jardim do Museu da Seda e do Território, com a entrega do Prémio Literário Guerra Junqueiro à poeta Ana Luísa Amaral. Esta quarta edição vai oficializar a realização do FFIL Lusofonia, que terá lugar em Novembro deste ano, em Cabo Verde. Para assinalar este momento solene, estarão presentes Berta Nunes, secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, o Embaixador da República de Cabo Verde em Portugal, Eurico Correia Monteiro, e a Embaixatriz Manuela Jorge Brito, em representação do município da Cidade da Praia, anfitriã do Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia 2020. Completa o programa a conversa que juntará, na Congida, os escritores Lídia Praça e José Manuel Barata-Feyo, cujo encontro está marcado para as 11 horas do dia 25 de julho. Saiba mais em https://www.facebook.com/Freixo-Festival-Internacional-de-Literatura-216506098842164/.

3.  Entre os dias 22 a 26 de Julho tem lugar a 24ª edição do Avanca Film Festival – Encontros Internacionais de Cinema, Televisão, Vídeo e Multimédia. Organizado em parceria pelo Cine-Clube de Avanca e pela Câmara Municipal de Estarreja, o certame reúne um conjunto de 111 obras cuja exibição será distribuída por Avanca, Estarreja e Ovar. A pequena mas acolhedora sala do Cinema Dolce Espaço, em Ovar, começou já a exibir os filmes mais marcantes da edição anterior e prepara-se, a partir de amanhã, para dividir as atenções entre as mostras de cinema de Itália, Japão, Croácia e Bósnia-Herzgovina (sempre às 16h00) e os filmes em competição (dias 23, 24 e 25, às 18h15 e 21h15), onde se percebe uma fortíssima presença do cinema português. Já esta noite, em modo antecipação, a longa-metragem “Sonhos”, que Joaquim Pavão rodou entre Santo Tirso e o Festival de Avanca do ano passado, abre mais cedo o espaço de competição, com exibição agendada para as 21h30 no Cine-Teatro de Estarreja. As Avanca Pitch Sessions e o Cinentertainment 9 completam o programa que pode ser consultado em http://www.avanca.com/.

quarta-feira, 11 de março de 2020

LUGARES: Museu da Marioneta


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LUGARES: Museu da Marioneta 
Convento das Bernardas, Lisboa 
Horário | de terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00 
Preçário | Geral 5,00 €; 13-25 anos (não residentes em Lisboa) 2,50 € 
Site | https://www.museudamarioneta.pt


O Museu da Marioneta é o primeiro museu nacional inteiramente dedicado ao universo da marioneta, à sua história e interpretação e à divulgação do teatro de marionetas. As suas colecções são constituídas por distintas tipologias de máscaras e marionetas, oriundas das mais diversas partes do mundo e ilustrativas das suas funções sociais e culturais, bem como das variadas formas de manipulação: marionetas de luva, marionetas de varas e de fios, teatro de sombras, máscaras, marionetas de água e outras. Ao passar a cortina e entrar na primeira galeria onde estão expostas marionetas e máscaras oriundas da Ásia, o visitante é projectado para uma casa de histórias. Olhar cada um destes objectos é mergulhar nos enredos que têm para nos quer contar, nos significados e naquilo que representam, no impulso da nossa imaginação em querer dar-lhes vida. Ao longo das várias salas, a história repete-se e as emoções também.

Do Brasil ao Mali, do México ao Vietname, sem esquecer o nosso país, o visitante é convidado a viajar entre a tradição e a contemporaneidade desta forma de expressão artística cujas origens remontam à antiga Grécia, quando pequenas estatuetas articuladas – “neropastos”, em grego – eram utilizadas nas cerimónias religiosas. É fácil perceber a componente cultural e geográfica duma máscara japonesa, por exemplo, mas já não é tão fácil, perante uma marioneta do Mali, descobrir onde acaba o teatro de marionetas e começa um estudo antropológico. E há depois as marionetas europeias, mais próximas do nosso imaginário, nas quais se incluem, naturalmente, os bonecos D. Roberto, um tipo de teatro que esteve quase extinto há cerca de duas décadas e que, nos últimos anos, se revitalizou graças ao trabalho de algumas companhias portuguesas.

Veja-se, por exemplo, logo no início da visita, a “Anantareja” ou “Antareja”, em pele de búfalo, osso e fio de algodão, proveniente da Indonésia e parte integrante da colecção dedicada ao teatro de sombras. E que dizer de um “Rinaldo”, figura típica do imaginário italiano, em ferro e madeira e com mais de um metro de altura. Ou do “Deus Antílope”, manipulado por vara por baixo, em madeira e proveniente do Mali. Ou ainda do Dr. Fausto alemão, do Polichinelo francês, do Woltje belga, do Karagöz turco ou do Punch e da Judy britânicos, isto falando apenas do teatro de marionetas com raízes na Europa. Bem, o melhor é programar uma visita, mas tome nota que vai precisar de tempo e a sua atenção será constantemente posta à prova. São muitas as marionetas e máscaras de enorme perfeição no detalhe, que nos surpreendem pela sua criatividade e beleza.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

TEATRO DE MARIONETAS: "Hullu"



TEATRO DE MARIONETAS: “Hullu”,
Criação e interpretação | Johanna Ehlert, Loïc Apard, Matthieu Siefridt
Co-criação e encenação | Dominique Habouzit
Assistente | Elise Nicod
Iluminação | Thomas Maréchal
Som e composição musical | Sébastian Guérive
Figurinos | Sabrina Marletta
Produção | Blick Théâtre
60 Minutos | Maiores de 10 anos
FIMO 2019 – Festival Internacional de Marionetas de Ovar
Centro de Artes de Ovar
07 Jun 2019 | sex | 22:30


Nunca, até hoje, terá passado pelo Festival Internacional de Marionetas de Ovar um espectáculo com tanta qualidade como “Hullu”, que os franceses do colectivo Blick Théâtre apresentaram no palco do Centro de Artes, nas noites de sexta e sábado passados. É, da minha parte, uma ousadia fazer esta afirmação e devo admitir que corro o risco de ser acusado de parcialidade, sobretudo porque não vi todos os espectáculos que passaram pelo FIMO naquilo que leva de tempo de vida ao longo de treze edições. Mas a peça é de tal forma genial, tanto na sua construção, como nas dimensões técnica e interpretativa e, ainda, na mensagem que veicula, que certamente esta minha verdade é a verdade de todos quantos tiveram a oportunidade de poder apreciá-la e de com ela se deliciarem.

“Hullu” fala-nos desse mundo que habita o interior de cada um de nós, um mundo construído com a precária argamassa das ilusões e no qual buscamos refúgio sempre que o peso da realidade se torna insustentável. Mas o tempo prova-nos que esta fuga para o interior de nós próprios é sinónimo de clausura, nela se adivinhando o muro que, aos poucos, ameaça erguer-se e tornar-se intransponível. Cabendo, por definição, no universo das marionetas, “Hullu” é um espectáculo cuja dimensão e alcance vai muito para além disso. Inventivo e engenhoso, ele reparte-se entre a ilusão mágica, o assombro acrobático, a expressividade mímica e o humor refinado, oferecendo uma hora da mais pura diversão, onde o teatro de marionetas, o teatro físico, a dança e as artes circenses se misturam e confundem.

Mestres da ilusão, os actores mostram-se exímios em criar ambientes que baralham as fronteiras entre o real e o fantástico, entre o arquetípico e o indecifrável. Aqui, as marionetas ganham vida própria, tornam-se autónomas, deixando no ar a dúvida de quem manipula quem. Em “Hullu”, marionetas e seres de carne e osso passam a ser uma e a mesma coisa, pondo à prova a capacidade do espectador em percepcionar o real. A linguagem do disfarce na qual assenta toda a encenação de “Hullu” faz-nos mergulhar num mundo mágico e desconcertante e que é, no limite, o nosso próprio mundo interior. Original, excêntrico, envolvente, inquietante e profundamente imaginativo, “Hullu” é uma daquelas peças que nos transporta de volta à infância e nos devolve, em doses generosas, a magia e o sonho de acreditar naquilo que está para além de nós.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

CERTAME: Festival Internacional de Marionetas de Ovar FIMO 2019


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CERTAME: Festival Internacional de Marionetas de Ovar FIMO 2019
Ovar, vários locais
07 > 09 Jun 2019


Ao longo de três dias, o Festival Internacional de Marionetas de Ovar FIMO 2019 voltou a espalhar magia, colorido e muita animação pelas salas, praças e fontes da cidade, oferecendo ao público um total de 65 espectáculos por 21 companhias de 14 diferentes países. Promovido pela União de Freguesias de Ovar, São João de Ovar, Arada e São Vicente de Pereira Jusã, o certame arrancou na noite de sexta-feira com “Chinese Tradition”, um espectáculo da companhia Sky Bird Puppet Group que ofereceu ao público alguns belíssimos exemplos de diversidade de marionetas e das técnicas inerentes à sua animação existente em Hong Kong. O momento em que Cheung Chun Fai mostrou à plateia um vislumbre do que está por detrás da manipulação - partilhando com os espectadores alguns exercícios de aquecimento a exigirem destreza, coordenação e uma enorme concentração -, revelou-se único, tanto pela interacção com a assistência como pelo seu carácter formativo.

No átrio da Escola dos Combatentes, Maru Fernández e Gerardo Martínez, do colectivo uruguaio Coriolis, apresentaram “Tropo”, uma peça na qual Julián e Ramiro, dois intrépidos amigos, tratam de devolver aos habitantes de uma comunidade rural tudo quanto perderam numa devastadora tempestade. De manipulação directa, marionetas de luva, luz negra e sombras se fez este espectáculo, recriando um ambiente quixotesco e oferecendo algumas rábulas deveras divertidas. Para o final deixo propositadamente “Hullu”, a peça que os franceses do Blick Theatre levaram ao Centro de Artes de Ovar. Tratou-se dum espectáculo absolutamente à parte neste Festival, destacando-se de todos os outros pela sua inventividade, qualidade técnica e momentos absolutamente surpreendentes, oferecidos ao longo de uma hora de pura magia. A “Hullu” e ao Blick Theatre voltarei brevemente neste espaço, em análise crítica separada.

O segundo dia do FIMO – para mim o último - teve início ainda durante a manhã, no belíssimo espaço verde do Parque Urbano, com três espectáculos sequenciais e todos eles tendo nas marionetas de fio o elemento em comum. Do Brasil, a Cia Tu Mateixa - cujo nome constitui uma homenagem à casa-oficina de marionetas de Pepe Otal, em Barcelona, onde a actriz Júlia Barnabé fez uma parte significativa da sua formação – trouxe-nos “Laia e o Voo da Imaginação”, um espectáculo delicado e sensível, assente na enorme cumplicidade entre marioneta e marionetista e que nos diz que não precisamos de sair do nosso quarto para viajarmos até muito longe, até onde nos deixarmos levar pelo sonho. Acrescentaria apenas que, se houvesse um prémio para a melhor marioneta, era para Laia que iria com inteira justiça, toda ela trabalhada em madeira, os movimentos assentes num impressionante conjunto de 18 fios, olhos articulados e uma “dimensão humana” verdadeiramente única.

Menos profundo, mas não menos divertido, The Gipsy Marionettist”, do bósnio Rasid Nikolic, teve na interacção com o público um dos seus grandes trunfos, misturando esqueletos que cantam jazz com tigres ferozes, dançarinas do ventre com o homem mais forte do mundo, o mais charmoso e sedutor e ainda o maior acrobata, estes três últimos “voluntários” recrutados entre a assistência. A manhã terminou com “Hanging by a Thread”, dos Di Filippo Marionette, dupla constituída por Remo Di Filippo e Rhoda Lopez. Através dele, ao longo de meia hora, vimos evoluir um violinista, um dançarino de sapateado, uma dona de casa empunhando uma vassoura, dois rappers, um ciclista acrobata e ainda Gino, um menino débil e um tanto envergonhado que encontra um nenúfar. Com um domínio da técnica particularmente apurado e uma presença de enorme expressividade, Rhoda e Remo ofereceram um espectáculo que encantou miúdos e graúdos e viria a conquistar o Prémio do Público deste FIMO 2019.

“A Árvore Cantada”, dos portugueses Cia Bipolar, foi um dos espectáculos que abriu a tarde, trazendo as questões ambientais para a ordem do dia. Lançando mão de um dispositivo cénico muito simples e eficaz e usando a técnica da manipulação directa, Cátia Vieira falou-nos o papel da água ao longo das estações do ano e a sua importância para que os ciclos ligados à natureza se possam repetir e perpetuar. No espaço fronteiro ao edifício da Câmara Municipal, Marta Lorente e Raquel Batet, da Cía. eLe, de Barcelona, ofereceram-nos uma visão possível do eterno conflito de gerações e de como um velho recupera um pouco da sua meninice depois de se cruzar na rua com um rapaz traquinas e de com ele se travar de razões. Da República Checa, Pavel Vangeli apresentou na Fonte dos Combatentes “The Swinging Marionettes”, espectáculo que recorre à técnica do fio para levar o espectador ao encontro dos anjos e demónios que habitam a cidade de Praga, de um espectáculo de circo, de um naufrágio no mar ou de um concerto de esqueletos em pleno cemitério. Quatro histórias divertidas, assentes em marionetas muito belas e numa enorme qualidade técnica do marionestista checo. Finalmente, no Auditório do Orfeão de Ovar, o chileno David Zuazola apresentou “El Juego Del Tempo”, conjunto de “sete peças, de sete minutos cada, de sete realizadores de sete diferentes países”, e que nos fala de bullying duma forma imaginativa e com uma linguagem narrativa que cruza as marionetas com o cinema de terror.

Para a noite do segundo dia estavam reservados dois dos melhores espectáculos deste FIMO. Primeiramente, na Casa da Contacto, Javier Aranda partiu das suas memórias de infância - os tempos passados ao lado da mãe a vê-la costurar, a cesta com agulhas, tesouras, meias velhas e todo um arsenal de sonho e magia -, para nos oferecer “Vida”, uma história muito simples tornada apelativa e particularmente eficaz graças à expressividade, à mímica e à capacidade técnica do espanhol na forma como emprega as mãos para contar a sua história. São mãos que distribuem magia quando se unem para dar vida a formas com as quais nos identificamos, com quem rimos e choramos. Por último, a companhia chinesa Yangzhou Puppetry Institute ofereceu ao muito público presente no Largo do Tribunal o espectáculo “Puppet Collection Highlight”, no qual oito marionetistas fizeram uma demonstração alargada do que de melhor a companhia tem para oferecer no campo das marionetas, manipuladas com a técnica da vara. Um espectáculo que, complementando todos os restantes, permitiu que o público tomasse contacto com a realidade das marionetas a um nível mais alargado e que se mostrou decisivo para elevar esta edição do FIMO a níveis de qualidade nunca antes alcançados.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

TEATRO DE MARIONETAS: "Circus"



TEATRO DE MARIONETAS: “Circus”
Direcção, dramaturgia e interpretação | Jordi Bertran
Produção | Companyia Jordi Bertran
4º Festival Internacional de Marionetas de Gondomar
Auditório Municipal de Gondomar
08 Jul 2018 | dom | 18:00


O menino recebeu das mãos do mago a bola imaginária, devolvendo-a de seguida com tanto de certeza como de ilusão que ela foi, à vista de todos, alojar-se direitinha no saco de onde tinha saído. Foi de apontamentos de encantamento e magia como este que se fez “Circus”, espectáculo da responsabilidade da Companyia Jordi Bertran e que encerrou o 4º Encontro Internacional de Marionetas de Gondomar. Reunindo no Auditório Municipal meia plateia de ávidos, interessados e participativos assistentes, o veteraníssimo marionetista catalão desenvolveu todo um espectáculo em torno de um dos grandes génios do século XX, Charlie Chaplin, rendendo homenagem aos artistas e à arte nas suas mais diversas formas, da música ao cinema, da fotografia ao circo.

Primeiro momento do espectáculo, “O Sonho de Charlot” levou-nos ao encontro de “Tempos Modernos” e “Luzes na Cidade”, duas obras primas do cinema de Chaplin, aqui evocadas pelo episódio dos patins e da vendedora de flores. Com “Fratello e Titina”, Jordi Bertran lembrou Chaplin através da música, enquanto dois palhaços demonstravam os seus sentimentos um pelo outro desafiando a morte num arriscado número de funambolismo. Colocando um ponto final na peça, um cantor de heavy-metal exibiu a sua presença excêntrica em palco ao som duma batida que pôs muita gente na sala a “abanar o capacete”. Pelo meio, houve ainda “Toti”, Jordi Bertran a fazer apelo ao palhaço que há em si e a evidenciar, de forma poética e divertida, a sua enorme capacidade de comunicar com o público, particularmente com os mais novos.

Tendo como ponto de partida um conjunto de marionetas de construção perfeita, Jordi Bertran provou uma vez mais a sua maestria na arte de manipular e interpretar a técnica de fios, logrando colocar uma nota de emoção em cada gesto, cada olhar e cada passo destes pequenos bonecos encantados. O resultado prova-se na adesão do público e essa não podia ser mais expressiva. Foi com um sorriso que se viu Charlot adormecer num banco público e descobrir uma flor ao acordar, foi com admiração que se percebeu quanta magia – ohhhhhhhh! – pode haver num simples guardanapo, foi com emoção que se recebeu das mãos de Jordi Bertran a bola mágica para depois a mesma ser energicamente devolvida, o pobre palhaço sem escapatória perante a infinidade de bolas que lhe acertaram na cabeça. Sobretudo, foi com um sentimento de gratidão que se aplaudiu de pé no final, de tão bom que foi este regresso à infância. Ainda que por um pedacinho de tempo, apenas!

terça-feira, 20 de março de 2018

CERTAME: "Eixos - Ciclo de Marionetas de Portugal e da Galiza"



CERTAME: “Eixos – Ciclo de Marionetas de Portugal e da Galiza”
Cineteatro António Lamoso, Santa Maria da Feira
14 Mar > 18 Mar 2018


Cruzar a tradição da marioneta em Portugal e na Galiza foi o objectivo que presidiu à primeira edição do “Eixos - Ciclo de Marionetas de Portugal e Galiza”, certame que, de 14 a 18 de Março, atraiu miúdos e graúdos ao Cineteatro António Lamoso, em Santa Maria da Feira. Ao longo de cinco intensos e divertidos dias, foi dada oportunidade ao público de assistir a espectáculos de marionetas, visitar uma exposição e participar num workshop de construção de marionetas. Espaço ainda para uma tertúlia entre bonecreiros tradicionais de Portugal e da Galiza e que trouxe à tona o folclore destas paragens, reforçado pela rodagem do documentário acerca do Teatro Dom Roberto.

Inserida nesse evento maior que é Santa Maria da Feira - Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2018, a iniciativa, a cargo das Marionetas da Feira, permitiu evidenciar a ligação existente entre a raiz popular das marionetas portuguesas e a origem tradicional das galegas, umas e outras evoluindo a partir do Teatro Dom Roberto, surgido em terras lusas no século XVII, em plena época pombalina. Construídas em madeira, as cabeças muito rosadas, o sorriso rasgado e o olhar penetrante das marionetas portuguesas não difere muito daquelas que se encontram na Galiza. Também o Dom Roberto português e o Barriga Verde galego andam de mãos dadas nestas histórias com final feliz mas que, pelo meio, não dispensam uma boa dose de paulada, a arrancar sonoras gargalhadas na assistência. Será, porventura, ao nível do conto - “O Castelo”, “O Barbeiro” ou “A Tourada” são clássicos da marioneta em Portugal – que as diferenças se fazem sentir de forma mais nítida, com os bonecreiros galegos a condensarem, numa só, estas e outras histórias, depois de as terem bebido da nossa tradição.

A encerrar o certame, a Companhia Títeres Cachirulo, de Santiago de Compostela, trouxe-nos um conto clássico - “Branca de neve e os Sete...” -, no qual um marionetista apenas em palco tirou partido dum vasto leque de opções estéticas e cénicas, tendo em coloridos e expressivos bonecos articulados de madeira o seu suporte. Se a história, sobejamente conhecida, é sempre um vector aglutinador de interesses de novos e menos novos, a linguagem corporal e a proximidade dos idiomas permitiram perceber o quão próximos estamos uns dos outros. Com a segunda edição já garantida para 2019, espera-se que este “Eixos” possa continuar a crescer e a dar a ver a riqueza das nossas culturas, ao mesmo tempo sensibilizando para uma vertente teatral que merece, seguramente, toda a atenção.

sábado, 28 de outubro de 2017

TEATRO DE MARIONETAS: "Arcano"





TEATRO DE MARIONETAS: “Arcano” 
Encenação e cenografia | Rui Queiroz de Matos 
Textos | Rui Queiroz de Matos, a partir de Franz Kafka 
Marionetas e ilustração | Júlio Vanzeler 
Interpretação | Micaela Soares, Rui Queiroz de Matos e Vitor Gomes
Coprodução | Teatro de Marionetas do Porto e Teatro Municipal do porto 
Festival Internacional de Marionetas do Porto FIMP'17
Teatro do Campo Alegre – Auditório 
21 Out 2017 | sab | 17:00 



A comemorar 25 anos de existência, o Festival Internacional de Marionetas do Porto teve na estreia de “Arcano”, a nova criação do Teatro de Marionetas do Porto, um dos seus momentos mais altos. Ocupando um espaço algures entre a alucinação e a realidade, o orgânico e o mecânico, a metafisica e a necessidade de a solucionar, "Arcano" convida o público a entrar no insólito universo de Franz Kafka pela mão das marionetas, propondo uma imagem feita de fragmentos da obra de um dos maiores e mais enigmáticos escritores do século XX. 



A roçar a perfeição, tanto do ponto de vista técnico como esteticamente, “Arcano” é um espetáculo intenso e de enorme beleza, que prende o público ao longo de uma hora de representação. Micaela Soares, Rui Queiroz de Matos e Vitor Gomes respondem à exigência e complexidade do texto com interpretações fortíssimas, assentes nas marionetas de Júlio Vanzeler, insólitos e surreais exemplares do bestiário kafkiano. É genial a forma como "Arcano" descreve e integra o universo angustiante e opressivo de Kafka, com as suas regras inverosímeis desafiando a lógica mais natural, levando o espectador, a cada passo, ao encontro de “O Processo” ou de “A Metamorfose”. As opções cénicas, criteriosamente trabalhadas, realçam a brutalidade das situações e a opção de citar o texto em inglês acrescenta estranheza ao todo. Um espetáculo grandioso, ao nível do que de melhor se faz neste mundo de desafio e fascínio que é o teatro de marionetas.