EXPOSIÇÃO: “A Revolução das Marionetas: 1970-1980”
Bienal Internacional de Marionetas de Évora
Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo
18 Abr > 15 jun 2025
A Arte e a Liberdade dão-se as mãos com “A Revolução das Marionetas: 1970 - 1980”, exposição patente até ao próximo dia 15 de junho no Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo e que resulta de uma parceria com o Museu da Marioneta, o CENDREV - Centro Dramático de Évora e a BIME - Bienal Internacional de Marionetas de Évora. “Um acontecimento pioneiro, e também uma revolução, um Museu Nacional convidar a arte da marioneta para se apresentar numa das suas salas”, assim expressa o seu entusiasmo Ana Paula Rebelo Correia, Directora do Museu da Marioneta, na Folha de Sala que acompanha a exposição, acrescentando que “as marionetas que agora se expõe abriram um novo caminho no teatro de marionetas: audaciosas, deram voz a dramaturgias inspiradas na mitologia greco-romana, em Gil Vicente, Cervantes, António José da Silva, entre muitos outros, inovaram a sua expressão plástica, multiplicaram as possibilidades de manipulação, colocaram o poder de comunicador privilegiado da marioneta ao serviço de uma educação pela arte.
A partir de finais dos anos 60 do século XX, a arte da marioneta em Portugal é agitada pelo sopro de mudança que se começa a fazer sentir no campo das artes em geral. A marioneta começa a suscitar interesse junto de uma classe com formação académica, que olha para o poder de comunicação da marioneta do ponto de vista antropológico, social, artístico, pedagógico e sobretudo como um potencial mediador na construção de uma democracia cultural. Investiga-se o tema, o teatro de marionetas passa da rua para a sala, vai às escolas abre-se à dramaturgia. Em vinte anos desenvolve-se um interesse crescente pela arte da marioneta: recuperam-se repertórios antigos, reinventam-se tipologias de marioneta, investigam-se novos processos de criação plástica e de manipulação. A concepção plástica do espectáculo, mais elaborada, parte de um projecto, de um desenho e de um pensamento artístico. Trabalha-se com músicos e com orquestra, encontram-se novos públicos, de todas as faixas etárias e de vários estratos culturais. Nos anos 80 surgem os primeiros festivais de marionetas, nacionais e internacionais.
Esta exposição dá ao visitante a possibilidade de absorver a verdadeira “revolução das marionetas” num dos períodos mais férteis, criativos e originais do teatro de marionetas do século XX. Numa altura em que a televisão se tornou a principal forma de entretenimento dos portugueses, a primeira referência vai para as figuras de Maria Emília Perestrelo que passavam no pequeno ecrã e que representavam figuras reconhecidas de todos os portugueses, de Amália Rodrigues a José Saramago, de Mário Soares a Álvaro Cunhal ou Ramalho Eanes. Do Teatro de Branca-Flor e do trabalho pioneiro de Lília da Fonseca, entre 1962 e 1982, podemos ver um conjunto de peças que serviram de base a um ciclo de contos tradicionais portugueses. As personagens do elenco do “Auto da Barca do Inferno”, marionetas de varão e fio criadas por José Carlos Barros, ocupam um lugar destacado na sala, à semelhança das peças de “Dom Quixote e Sancho Pança”, com marionetas do mesmo autor, mas com a particularidade de os materiais utilizados - cobre, latão, zinco e ferro - representarem as classes sociais dos vários protagonistas.
Os Bonecos de Santo Aleixo não podiam faltar nesta mostra, sendo as marionetas apresentadas as mais antigas presentes na exposição, com os seus mais de cem anos. Também aqui se encontra a “Tourada” do Teatro Dom Roberto, uma forma de teatro itinerante, de cariz popular, com origem provável em finais do século XVIII e que tem na palheta e no característico som dos Robertos um dos seus elementos identitários. “As Histórias de Hakim”, uma das peças de teatro de Norberto de Ávila mais representadas, ocupa igualmente um lugar de destaque, do “elenco” sobrando apenas cinco marionetas de vara e fios, desenhadas e construídas por Salem Assef e restauradas em 2024 por José Carlos Barros. Outros pólos que chamam a atenção do visitante centram-se no trabalho da Companhia Marionetas de São Lourenço e o Diabo - Teatro de Ópera, no espectáculo “História mais ou menos verdadeira de um senhor e dos seus dois criados”, de Carlos Chagas Ramos, e ainda nalgumas fotografias dos anos 50 e 60 que mostram a arte da marioneta como arte de rua, itinerante e popular, permitindo pensar que nas aldeias mais afastadas dos centros urbanos, onde o acesso à cultura era praticamente inexistente, a actuação destes marionetistas era o único contacto que se tinha com uma ideia de teatro.
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