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quinta-feira, 13 de junho de 2019

TEATRO DE MARIONETAS: "Hullu"



TEATRO DE MARIONETAS: “Hullu”,
Criação e interpretação | Johanna Ehlert, Loïc Apard, Matthieu Siefridt
Co-criação e encenação | Dominique Habouzit
Assistente | Elise Nicod
Iluminação | Thomas Maréchal
Som e composição musical | Sébastian Guérive
Figurinos | Sabrina Marletta
Produção | Blick Théâtre
60 Minutos | Maiores de 10 anos
FIMO 2019 – Festival Internacional de Marionetas de Ovar
Centro de Artes de Ovar
07 Jun 2019 | sex | 22:30


Nunca, até hoje, terá passado pelo Festival Internacional de Marionetas de Ovar um espectáculo com tanta qualidade como “Hullu”, que os franceses do colectivo Blick Théâtre apresentaram no palco do Centro de Artes, nas noites de sexta e sábado passados. É, da minha parte, uma ousadia fazer esta afirmação e devo admitir que corro o risco de ser acusado de parcialidade, sobretudo porque não vi todos os espectáculos que passaram pelo FIMO naquilo que leva de tempo de vida ao longo de treze edições. Mas a peça é de tal forma genial, tanto na sua construção, como nas dimensões técnica e interpretativa e, ainda, na mensagem que veicula, que certamente esta minha verdade é a verdade de todos quantos tiveram a oportunidade de poder apreciá-la e de com ela se deliciarem.

“Hullu” fala-nos desse mundo que habita o interior de cada um de nós, um mundo construído com a precária argamassa das ilusões e no qual buscamos refúgio sempre que o peso da realidade se torna insustentável. Mas o tempo prova-nos que esta fuga para o interior de nós próprios é sinónimo de clausura, nela se adivinhando o muro que, aos poucos, ameaça erguer-se e tornar-se intransponível. Cabendo, por definição, no universo das marionetas, “Hullu” é um espectáculo cuja dimensão e alcance vai muito para além disso. Inventivo e engenhoso, ele reparte-se entre a ilusão mágica, o assombro acrobático, a expressividade mímica e o humor refinado, oferecendo uma hora da mais pura diversão, onde o teatro de marionetas, o teatro físico, a dança e as artes circenses se misturam e confundem.

Mestres da ilusão, os actores mostram-se exímios em criar ambientes que baralham as fronteiras entre o real e o fantástico, entre o arquetípico e o indecifrável. Aqui, as marionetas ganham vida própria, tornam-se autónomas, deixando no ar a dúvida de quem manipula quem. Em “Hullu”, marionetas e seres de carne e osso passam a ser uma e a mesma coisa, pondo à prova a capacidade do espectador em percepcionar o real. A linguagem do disfarce na qual assenta toda a encenação de “Hullu” faz-nos mergulhar num mundo mágico e desconcertante e que é, no limite, o nosso próprio mundo interior. Original, excêntrico, envolvente, inquietante e profundamente imaginativo, “Hullu” é uma daquelas peças que nos transporta de volta à infância e nos devolve, em doses generosas, a magia e o sonho de acreditar naquilo que está para além de nós.

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