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quarta-feira, 12 de junho de 2019

LIVRO: "A Vida Oculta das Coisas"



LIVRO: “A Vida Oculta das Coisas”,
de Cláudia Cruz Santos
Ed. Bertrand Editora, Março de 2019


Literatura e liberdade são conceitos que se encontram intimamente ligados. Uma e outra não são dádivas caídas dos céus, antes resultam duma consciencialização individual e de uma concepção alargada do mundo que nos rodeia, substantivos que evoluem e se transformam com o nosso pensamento e as nossas atitudes. Cláudia Cruz Santos tem a perfeita noção de que há tempos em que assumir um compromisso com o nosso tempo se torna essencial, tempos esses em que é impossível continuar a calar a indignação. Denunciar, expôr à evidência os males que viciam e corrompem as sociedades e gritar “basta” é uma emergência. É por isso que escreve, assim afirmando, de maneira ímpar, a sua própria liberdade.

A verdade que não se pode calar deu origem a “Nenhuma Verdade Se Escreve No Singular”, o primeiro romance da autora, e volta a ser a força motriz deste “A Vida Oculta das Coisas”. Mas as semelhanças entre os dois romances não se ficam por aqui. Há toda uma estratégia narrativa comum a ambos que passa por eleger uma personagem principal – Viriato no livro mais recente, Amália no primeiro romance -, nela se cruzando toda uma série de histórias paralelas que dão sentido à trama e lhe conferem solidez. Percebe-se também que todas estas personagens secundárias, ainda que ficcionadas, configuram casos reais e são o veículo para fazer passar a mensagem de que não há mundos perfeitos. Há, todavia, uma clara diferença entre os dois romances, essa diferença residindo no tempo da escrita, na sua cadência. Cláudia Cruz Santos soube aplacar a ansiedade que se percebia em “Nenhuma Verdade Se escreve No Singular”, aquela urgência em contar a(s) sua(s) história(s) e que levava a que, não raras vezes, se desviasse do essencial, para encontrar o ritmo perfeito neste seu segundo romance, tornando-o mais explícito, mais autêntico e mais verdadeiro.

“A Vida Oculta das Coisas” é um livro que prende o leitor da primeira à última página. A forma como a autora gere a acção, como empresta emoção à narrativa e faz respirar o livro, torna-o particularmente apelativo e prova-nos estarmos perante uma exímia contadora de histórias. E há, depois, esse lado sombrio da história e que aqui recai sobre o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual. Há nisto tudo um crime que ultrapassa o entendimento humano, há nisto uma tristeza que o pranto não consegue simbolizar e há um malogro que opõe barreiras a qualquer tentativa de libertação. Mas ainda que duro e incómodo, este é um livro profundamente humano e que acaba por abrir lugar à esperança num mundo melhor. Um livro que nos torna cúmplices de Luba, Asali e Alma e que nos diz que, enquanto as nossas sociedades não conseguirem erradicar o crime organizado, o tráfico de pessoas e a violação reiterada dos direitos humanos, serão sempre sociedades doentes.

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