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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Fun ist ein Stahlbad” | Anne Imhof



EXPOSIÇÃO: “Fun ist ein Stahlbad”,
de Anne Imhof
Curadoria | Inês Grosso
Museu e Parque de Serralves
12 Dez 2025 > 19 Abr 2026


“Fun ist ein Stahlbad” marca a primeira apresentação de Anne Imhof em Portugal e afirma-se como uma exposição de contenção e tensão, com tanto de silenciosa como de espectacular. Concebida maioritariamente para o espaço de Serralves, a mostra parte da célebre formulação de Adorno — “o divertimento é um banho de aço” — para interrogar a proximidade entre lazer, disciplina e controlo na contemporaneidade. A artista apropria-se dessa crítica à indústria cultural e actualiza-a num presente dominado pela aceleração, pela economia da atenção e pela promessa ilusória de liberdade. Desde o início do percurso, o visitante é confrontado com espaços que suspendem o tempo e corpos que não se movem, criando uma atmosfera de inquietação difusa que espelha um mundo saturado de estímulos e, paradoxalmente, esvaziado de escolha real. Imhof não denuncia de forma panfletária; constrói antes um campo de forças onde a sensação de autonomia convive com a internalização de rotinas, normas e expectativas. A exposição propõe-se assim como uma reflexão crítica sobre o modo como o entretenimento, longe de funcionar como pausa, se tornou a continuação do trabalho por outros meios.

No centro simbólico da exposição está “Stahlbad” (2025), uma piscina vazia em ferro negro instalada no exterior do museu. Privada de água e de qualquer possibilidade de uso, a escultura funciona como um negativo do imaginário moderno do lazer. A forma permanece, mas a função desaparece, transformando a piscina num corpo pesado e severo, mais próximo de um vestígio arqueológico do que de um equipamento recreativo. A obra convoca tanto a memória das piscinas públicas do pós-guerra europeu, ligadas a ideais de racionalidade e bem-estar colectivo, como de imagens de infra-estruturas abandonadas, promessas falhadas de progresso. A referência ao “banho de aço” adquire aqui densidade material e aquilo que prometia revitalização converte-se em endurecimento. Esta lógica prolonga-se na plataforma de saltos instalada no interior do museu, inspirada na piscina abandonada de Pripyat, em Chernobyl. Subida, impulso e mergulho são apenas imaginados, nunca realizados. O corpo é convocado, mas mantido em suspensão. Entre piscina e torre, Imhof constrói um sistema fechado onde o gesto previsto não acontece, expondo a falência da promessa de recreação.

Esse vocabulário de estruturas subtraídas ao uso estende-se a “Arena” (2025), composta por barreiras metálicas que desenham um anel fechado logo à entrada. Reconhecíveis do espaço público - concertos, eventos, controlo de multidões -, estas estruturas transportam consigo uma lógica disciplinar mesmo quando desligadas da sua função original. O visitante ajusta o corpo, mede distâncias, regula a velocidade: a experiência torna-se física antes de ser conceptual. Piscina, plataforma e arena formam um tríptico rigoroso que trabalha a profundidade, o impulso e a circulação, sem permitir a sua realização plena. Entre estas esculturas surgem relevos em bronze com corpos andróginos, presos à parede, e um conjunto de pinturas atmosféricas que introduzem outro ritmo no percurso. Ondas, explosões e superfícies líquidas surgem suspensas, como acontecimentos interrompidos. Estas obras aliviam o peso da matéria, mas não oferecem redenção; mantêm-se, tal como as esculturas, num tempo intermédio, melancólico, onde a energia permanece latente e o devir não se cumpre.

O percurso culmina com “Citizen”, filme que prolonga a performance “Doom – House of Hope” e introduz corpos em movimento num espaço que parecia até então dominado pela imobilidade. Aqui, dança, canto e fala surgem como gestos de resistência num enquadramento que expõe, subtilmente, os mecanismos de visibilidade e exclusão próprios da cultura contemporânea. A promessa de acesso universal revela-se condicionada por arquitecturas físicas e simbólicas que filtram e hierarquizam. A crítica de Adorno ressoa com particular nitidez: o lazer tornou-se produtivo, mensurável, optimizado. O “banho de aço” já não é choque, mas atmosfera. Sem recorrer ao excesso visual que marcou outros momentos do seu percurso, Imhof apresenta em Serralves uma exposição depurada, quase austera, que testa os limites da ideia de liberdade num mundo onde o entretenimento opera segundo a mesma lógica do trabalho. Não há facilidades nem consolo, mas há insistência. Entre formas duras e corpos obstinados, “Fun ist ein Stahlbad” deixa em aberto a possibilidade de outro tempo. Frágil, sem brilho, mas ainda assim objecto de reflexão.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

CINEMA: "Orwell: 2 + 2 = 5" | Raoul Peck



CINEMA: “Orwell: 2 + 2 = 5”
Realização | Raoul Peck
Argumento | Raoul Peck
Fotografia | Benjamin Bloodwell, Stuart Luck, Julian Schwanitz
Montagem | Alexandra Strauss
Interpretação | Damian Lewis, George Orwell, U Win Khine, Min Aung Hlaing, Augusto Pinochet, Ferdinand Marcos, Yoweri Museveni, Vladimir Putin, Viktor Orbán, George W. Bush, Colin Powell, Victor Otto, Ida Blair, Richard Blair, Donald Trump, Vyacheslav Molotov
Produção | George Chignell, Alex Gibney, Raoul Peck, Nick Shumaker
2025 | França, Estados Unidos | Biografia, Documentário | 119 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
24 Jan 2026 | sab | 18:15

Prolongando uma filmografia coerente e reconhecível, marcada pela vontade de ler o presente à luz das fracturas do passado, “Orwell: 2 + 2 = 5” traz-nos o melhor cinema de Raoul Peck. À semelhança de “I Am Not Your Negro” ou do mais recente “Ernest Cole: Perdido e Achado”, o cineasta estrutura o documentário a partir dos escritos de um autor, neste caso Eric Arthur Blair (George Orwell é pseudónimo), transformando a biografia numa lente para observar a degradação política e moral do mundo contemporâneo. Peck não procura revelar um Orwell desconhecido, mas antes reafirmar a sua dimensão profética, e visionária, sublinhando que nada do que é dito é verdadeiramente novo, neste paradoxo residindo a força do filme. A vida de Orwell surge condensada em momentos-chave da sua formação social e política - o colonialismo britânico na Birmânia, a Guerra Civil de Espanha, a passagem pela BBC - que lhe permitiram compreender, por dentro, os mecanismos de dominação, propaganda e manipulação da linguagem. A narração grave de Damian Lewis confere unidade e intimidade a um discurso composto exclusivamente por palavras de Orwell, reafirmando a ideia de que o escritor continua a falar directamente para o nosso tempo.

Formalmente, o documentário aposta numa montagem frenética e associativa, cruzando arquivos históricos, excertos de adaptações de um grande conjunto de filmes, com destaque para “1984” e “Animal Farm”, imagens da actualidade e fragmentos televisivos, para ilustrar conceitos como a novilíngua, o duplipensamento ou a vigilância total (“Big Brother is Watching You”). A célebre equação “2+2=5”, extraída da cena de tortura em “1984”, torna-se o eixo simbólico do filme, reaparecendo em múltiplas versões para mostrar até onde pode ir a persuasão autoritária. Peck examina, um por um, os slogans do romance - “War is Peace”, “Ignorance is Strength”, “Freedom is Slavery” -, associando-os a conflitos recentes, à desinformação, ao apagamento da memória histórica e à erosão das liberdades nas democracias ocidentais. A presença de figuras como Donald Trump, Benjami, Netanyahu, Viktor Orban ou Vladimir Putin ( e também Georges Soros e Elon Musk, Jeff Bezos, Silvio Berlusconi e os patrões da Globo) bem como o recurso a imagens de vigilância tecnológica e reescrita visual da história, de “deep fakes”, instrumentalização das redes sociais e inteligência artificial, actualizam o universo orwelliano e dão força a uma narrativa baseada nas vivências do escritor.

O efeito final é o de um filme contundente e deliberadamente desconfortável, que funciona menos como um alerta do que como um diagnóstico tardio. “Orwell: 2 + 2 = 5” instala no espectador a inquietante sensação de que habitamos já a distopia imaginada por Orwell, não como resultado de uma ruptura súbita, antes de um processo lento, gradual e amplamente normalizado. A erosão da verdade, a corrosão da linguagem e a diluição da responsabilidade política surgem como fenómenos quotidianos, aceites com uma mistura de fadiga cívica e resignação. Peck não oferece saídas fáceis nem momentos de catarse: a acumulação de imagens de violência simbólica e real, de discursos manipulados e de tecnologias usadas como instrumentos de controlo, gera um sentimento de asfixia, reforçado por metáforas visuais como os bacilos da tuberculose que se expandem ou o som recorrente da respiração ofegante de um Orwell tomado pela doença. A esperança final, ancorada na confiança do biografado nas “proles” como força histórica capaz de vencer os extremismos, surge mais como um gesto de fidelidade ao pensamento do escritor do que como uma convicção do próprio filme. Nesse sentido, o documentário encerra com uma nota ambígua e profundamente perturbadora: se ainda existe alguma possibilidade de resistência, ela parece depender menos da lucidez dos sistemas políticos do que da capacidade individual de preservar valores morais, quando alguém persiste em fazer crer que 2 + 2 = 5.

domingo, 25 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Momento Polaroid" | Filipe Carneiro



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Momento Polaroid”,
de Filipe Carneiro
Curadoria | Joaquim Margarido 
iNstantes - Propostas Fotográficas #140
Centro de Reabilitação do Norte
22 Fev > 21 Mar 2026


A história da fotografia Polaroid confunde-se com uma das promessas mais sedutoras da modernidade: a possibilidade de assistirmos ao nascimento de uma imagem. Fundada em 1937 por Edwin Land e popularizada desde 1948 com a introdução da fotografia instantânea, a Polaroid alterou radicalmente a relação entre o fotógrafo, o tempo e a imagem. Num mundo habituado à espera - dias ou semanas até à revelação -, a fotografia passou a acontecer diante dos olhos, quase como um pequeno milagre doméstico. Essa instantaneidade não era apenas técnica, mas também emocional, transformando a Polaroid num objecto tão pessoal quanto artístico. Ao longo das décadas, a singularidade material da imagem e a sua irrepetibilidade atraiu figuras do mundo das artes como Andy Warhol, David Hockney ou Robert Mapplethorpe, capazes de encontrarem na imperfeição um território fértil para a experimentação e a intimidade. O seu desaparecimento e o subsequente renascimento, impulsionado pelo polaco Wiaczesław Smołokowski e pelo projecto comercial “Polaroid Originals”, inscreveram a Polaroid num ciclo de nostalgia activa: um revivalismo que não se limita à recuperação de um objecto do passado, mas que revaloriza a atitude de fotografar mais pausadamente, aceitar o acaso e celebrar o erro como linguagem.

É nesse território entre herança e reapropriação que se inscreve “Momento Polaroid”, de Filipe Carneiro, exposição patente no Centro de Reabilitação do Norte e inserida nas “Propostas Fotográficas” da iNstantes – Associação Cultural. Entendendo a polaroid não como mera curiosidade, mas como campo expressivo pleno, o artista mostra um conjunto de trinta imagens dialogantes entre si e unidas por afinidades subtis, dos temas recorrentes aos jogos formais, das variações de luz e cor à especificidade dos diferentes tipos de filme utilizados. Esta disposição convida o visitante a uma leitura atenta, quase táctil, no sentido de perceber a relevância de cada imagem tanto na sua autonomia como na relação com o conjunto. É tempo de reconhecer as potencialidades da Polaroid, mas também as suas limitações, e perceber que o foco suave, as dominantes cromáticas inesperadas, as margens por vezes instáveis, longe de empobrecerem a imagem, acabam por lhe conferir um carácter único e densidade poética. Filipe Carneiro trabalha precisamente nesse limiar, explorando a chamada “beleza da imperfeição” como valor estético e conceptual. As falhas eventuais - fugas de luz, enquadramentos instintivos, nuances do processo químico - não são ocultadas, antes assumidas como parte integrante do gesto fotográfico.

Num tempo marcado pela abundância infinita de imagens e pela sua correcção obsessiva, que privilegia o instantâneo apenas enquanto descartável, a fotografia Polaroid ocupa um lugar quase filosófico de resistência. Ao olharmos uma Polaroid, confrontamo-nos com a fotografia enquanto objecto palpável, que rejeita a nuvem. Ela volta a mostrar-se como algo que se segura, que obriga a que lhe avaliemos volume e peso, cujo processo de envelhecimento guarda marcas do tempo e da memória. Numa relação fértil, terna e sensível entre forma e afecto, há nela tanto de sentimental como de artístico. O gesto de aguardar que a imagem se revele, de a proteger da luz, de aceitar aquilo em que decide tornar-se, contrasta com a lógica de controlo absoluto e perfeição do digital. A estética imperfeita torna-se, assim, um refúgio e um manifesto: um elogio do erro, do acaso, da finitude. Guardar um momento em papel, com todas as suas fragilidades e riscos, é cada vez mais um capricho, mas que concorre para a construção de um espaço de aconchego, uma pausa num mundo cada vez mais acelerado e impessoal. E esse é o grande desígnio da exposição de Filipe Carneiro, o de nos lembrar que a fotografia, mais do que consumo visual, pode ser presença, memória e matéria.

sábado, 24 de janeiro de 2026

LIVRO: "Quantas Madrugadas Tem a Noite" | Ondjaki



LIVRO: “Quantas Madrugadas Tem a Noite”,
de Ondjaki
Ed. Editorial Caminho, 2004 (5.ª edição, Fevereiro de 2018)


“Ando a pensar estes dias: tanta coisa anda a me acontecer na minha vida, mesmo incluindo esta minha conversa contigo aqui, que ficas só a me deitar olhares desses, tipo eu sou maluco de ficar a te contar bué de mambos, várias direcções da conversa, às vezes num captas, né?, pensas que eu avario, mudo sulinorte nos poentes e nascentes, trocadilhos dos personagens, é isso? Calma só, muadiê, como eu digo: pra saber q’a maré tem quatro comportamentos, é preciso olhar o mar um dia inteiro, estás a captar? O que eu te ponho aqui, dica ou recordação, vais precisar pra entender tudo. Portanto, desculpa só, eu sei: meus devaneios todos, minhas outras lembranças, mas tá tudo ligado, num dá pra fugir, os assuntos tão todos aqui, minha cabeça cansada, minha sede também. Sai mais uma birra?”

Está o leitor convidado a sentar-se à mesa de um bar de Luanda e a aceitar uma cerveja atrás de outra, não tanto para matar a sede, mas para afinar a escuta. É desse espaço nocturno e suspenso que rompe “Quantas Madrugadas Tem a Noite”, história de contornos surrealistas narrada por uma figura cujo nome só nas últimas páginas viremos a conhecer, grande amante de “birras” fresquinhas e de uma boa e longa conversa. Dirigindo-se a nós, “avilos”,  transforma-nos em cúmplices de um relato que avança aos solavancos, cheio de parêntesis, desvios e “eteceteras”, como toda a conversa verdadeiramente humana. O fio condutor é a morte improvável de AdolfoDido, mordido por uma carraça de um cão quase mitológico, mas o enredo rapidamente se multiplica: o cadáver que não descansa, as ex-mulheres que disputam o estatuto de viúva do Estado, o processo judicial que se adensa, os amigos chamados a testemunhar.

Misturando humor, suspense e uma certa melancolia que só a madrugada sabe trazer, Ondjaki constrói a narrativa como um novelo que se desenrola sem pressas, mais interessado no prazer do contar do que na urgência da resolução. A grande força do livro reside, porém, na linguagem. Escrito num registo profundamente oral e popular, “Quantas Madrugadas Tem a Noite” assume sem pudor o calão, o erro gramatical, o desvio sintático e a contaminação do português pelo umbundu e pelo kimbundu. O que à primeira leitura pode causar estranheza - e até alguma resistência - acaba por se entranhar, revelando-se uma das experiências mais fascinantes do romance. Ondjaki eleva a fala de um homem comum de Luanda à categoria de literatura, mostrando como a língua portuguesa, longe de ser um bloco fixo, é matéria viva, em permanente aculturação. O glossário no final funciona mais como rede de segurança do que como muleta indispensável: rapidamente o leitor aprende a ouvir mais do que a traduzir, deixando-se levar pelo ritmo, pela musicalidade e pela lógica interna desse falar.

Tal como em Guimarães Rosa, a língua aqui não serve apenas para contar a história — ela é a própria história. Nesse universo verbal exuberante desfilam personagens memoráveis e quase surrealistas: o anão BurkinaFaçam, empreendedor de esquemas; Jaí, o professor albino de uma honestidade luminosa; a KotaDasAbelhas, rainha improvável de uma colmeia doméstica; e O Cão, criatura temida, tratada como sultão. Entre cheias diluvianas, memórias de guerra, fraudes burocráticas e mortes mal resolvidas, o romance desenha também um retrato socio-cultural de Angola, sem peso académico, mas com uma ternura adulta que observa, ri e reflecte. Sob uma capa cuja leveza é apenas aparente, abrigam-se os temas mais densos: o peso do passado, a precariedade do quotidiano, a astúcia como forma de sobrevivência, o tempo que se dilata numa única noite. No fim, percebemos que a pergunta do título não pede uma resposta exacta. Numa boa história - como numa boa madrugada - o tempo mede-se pela intensidade de uma boa conversa.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Zona da Meia-Noite" | Maria Constanza Ferreira



EXPOSIÇÃO: “Zona da Meia-Noite”,
de Maria Constanza Ferreira
Curadoria | Constança Pupo Cardoso
Centro Português de Fotografia
08 Nov 2025 > 08 Mar 2026


“Zona da Meia-Noite”, misto de exposição fotográfica e vídeo-instalação da autoria de Maria Constanza Ferreira, ocupa duas enxovias do Centro Português de Fotografia, transformando-as num espaço de suspensão entre a luz e a penumbra, entre o corpo e a memória. Num primeiro momento, o azul profundo dos cianótipos — resultado de um processo fotográfico tão químico quanto ritual — envolve doze corpos-imagem que parecem flutuar fora do tempo. São formas devocionais, fragmentos de ausência, objectos que já não existem, mas insistem em permanecer. Nestes trabalhos, a artista convoca uma temporalidade expandida nos quais a fotografia deixa de ser mero registo para se transformar em testemunho espiritual, mediando a tensão entre presença e desaparecimento. Num outro momento, a vídeo-instalação “Alminha” funciona como rito de passagem, um gesto de cuidado que liga o mundo dos vivos ao dos mortos e conduz o visitante até “Midnight Zone”, obra em dois canais que combina película de 16 mm e vídeo digital, revelando-se como uma pintura em movimento, marcada por rituais, práticas populares e uma escuta atenta do incorpóreo.

O conceito de “Zona da Meia-Noite”, tomado da oceanografia - o lugar onde a luz solar já não chega -, é aqui reapropriado como metáfora de um território liminar, onde “ver” implica outros modos de percepção. Tal como os seres bioluminescentes das profundezas marinhas, capazes de gerar a sua própria luz, Maria Constanza Ferreira procura iluminar o que escapa ao olhar directo: crenças, gestos, saberes e histórias transmitidas no interior de uma comunidade. A artista ancora esta pesquisa numa genealogia pessoal iniciada em 2022 e no território específico do Repolão, em Oliveira do Bairro, onde o sagrado se infiltra no quotidiano através de alminhas do purgatório, procissões, romarias, flores, orações e trabalhos manuais. A meia-noite deixa então de ser apenas um ponto científico ou cronológico e torna-se um lugar de divisão e encontro: entre vida e morte, céu e inferno, peso e leveza, matéria e espírito.

Neste espaço intermédio, encontra a exposição a sua força mais sensível. O purgatório, entendido como estado de espera e cuidado, atravessa todo o corpo de trabalho, tanto nos materiais — ferro, mármore, cera, fio, água, luz — como nos gestos documentados no filme: mulheres que limpam túmulos, preparam altares, benzem corpos, cuidam da memória. A dimensão doméstica e feminina surge como guardiã de um saber ancestral, onde o ritual se confunde com a rotina e o afecto com a devoção. O croché, em particular, ganha um papel simbólico central, tornado objecto íntimo, herdado, repetitivo, que marca ciclos de vida e luto e que a artista reinventa ao colocá-lo em diálogo com o movimento e a instabilidade do cianótipo. Assim, “Zona da Meia-Noite” constrói-se como um ensaio visual sobre o tempo e a persistência, um trabalho que não procura respostas, mas permanece atento, no escuro fértil onde é possível encontrar a luz.

[Texto baseado na Folha de Sala, com redacção de Constança Pupo Cardoso]

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Paulo M. Morais



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Paulo M. Morais
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Jan 2026 | qui | 17:00


À entrada de um novo ano, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um momento de pura magia à roda dos livros e da leitura. Numa sessão aguardada com enorme expectativa, Paulo M. Morais foi um interlocutor perfeito, trazendo para a tertúlia uma coloquialidade rica e sedutora e uma generosa partilha de histórias e memórias. Numa mesa onde pontificou grande parte da obra do autor, a primazia foi dada a “A Glória Efémera”, a sua última publicação. Biografia do Nobel da Medicina Egas Moniz, o livro e a conversa proporcionada geraram no público uma admiração e cumplicidade imediatas. Para os presentes, escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um curto espaço de tempo, mergulhar no mundo das letras e seguir os caminhos da arte e da ciência de mãos dadas com Egas Moniz e o seu tempo - entre uma conturbada carreira política, os desafios da investigação científica e uma riquíssima vida interior – revelou-se precioso. Daí que todos tenham deixado a sessão de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, sentissem que, por um momento, o cinzentismo da doença se viu vestido de tantas quantas as cores de que a vida é feita.

“Eu, que já passei muito tempo num contexto hospitalar a ser tratado a um cancro, devo dizer que a leitura foi das coisas que mais me ajudou a ultrapassar esse período”, começou por referir Paulo M. Morais ao dirigir-se aos presentes a quem saudou de forma calorosa, realçando a importância de existirem espaços como este, dedicados aos livros e à leitura em ambientes improváveis. Falando de “A Glória Efémera”, o escritor lembrou a relutância que teve em aceitar o desafio do editor Rui Couceiro e o reconhecimento de alguma “dose de loucura”, no momento de dar o sim a tão grande empreitada. Ter tido um avô médico pesou certamente na decisão: “Sempre falei muito com o meu avô sobre Medicina, mais no sentido da humanidade que o médico teria que ter, do tempo a dispensar aos seus doentes e de como isso se estava a perder. Acho que o legado dessas conversas e a memória do meu avô acabou por ser muito importante, até para me identificar com o biografado e meter-me na loucura de escrever o livro.”

O trabalho de investigação tomou conta do escritor ao longo de três anos, entre 2020 e 2023, com o labor da escrita a estender-se pelos dois anos seguintes. Entretanto, uma constatação antes de arregaçar as mangas: “Tinha de analisar o que já estava escrito [sobre Egas Moniz] para ver se havia espaço para uma coisa diferente. Li a biografia escrita pelo João Lobo Antunes e achei que era uma biografia feita por um médico. Percebi que, no que respeita à parte médica, nunca conseguiria fazer melhor do que aquilo, mas também percebi que havia outras partes da vida de Egas Moniz que não estavam tão bem exploradas.” Agora que o livro já passeia pelas mãos dos leitores, importa dizer que o resultado é pautado por um notável equilíbrio, revelador do cuidado em ir ao encontro de Egas Moniz na sua vertente de investigador e médico, mas também de um aguerrido e astuto político, um tribuno vibrante, um coleccionador, escritor e empresário, um amante da tranquilidade do lar e das coisas boas da vida.

“O que senti ao avançar com a biografia é que, provavelmente, o Egas Moniz ficou demasiado afunilado ao Nobel que lhe calhou, entre aspas. Porque poderia ter ganho o Nobel pela descoberta da angiografia e, neste caso, talvez a glória não fosse tão efémera”, referiu o convidado ao explicar o porquê do título do livro. Foi o momento de falar das questões éticas relacionadas com a leucotomia, do contexto de toda uma época na qual a Psiquiatria tentava fugir ao estigma de ser o “parente pobre” das especialidades médicas, mas também de que “o próprio Egas Moniz, no final da sua vida, terá percebido que a descoberta que lhe tinha dado o Nobel já estava a cair em desuso, levando-o a temer que já não fosse ficar para a história da forma como gostaria.” De romancista a biógrafo adivinha-se um processo de transição quase natural: “O romancista está habituado a urdir a sua trama de forma prática e fluida”, diz Paulo M. Morais, acrescentando que “ajuda escrever romances e depois adoptar o princípio de ver o biografado como se fosse uma personagem e nunca lhe perder o centro. Importa dar um contexto histórico, naturalmente, mas sobretudo não nos esquecermos de que o centro é aquele homem. A premissa que utilizei foi a mesma, com a diferença de que numa biografia não se pode inventar, os factos não podem ser alterados”, disse.

Da Fundação Mário Soares à Biblioteca Nacional, dos arquivos municipais à Casa do Marinheiro e ao legado escrito do Nobel, o trabalho de pesquisa bibliográfica foi-se adensando: “Começamos a meter canas de pesca em tudo quanto é sítio. De repente percebe-se que aquela picou qualquer coisa, aquela também já deu qualquer coisa, que esta é para esquecer…”. Fruto dessa recolha, o escritor destaca a surpresa de se ter visto confrontado com os excessos da vida política nos finais da monarquia e primeira república, “a linguagem bélica dos debates parlamentares”, fazendo com que os políticos de hoje, se comparados com os de ontem, pareçam “meninos de coro”. Ainda que as qualidades de Egas Moniz enquanto homem político se pautassem pela combatividade, argúcia, capacidade de argumentação e calculismo - e Paulo M. Morais demonstra à saciedade todas essas qualidades, apoiando-se na imprensa da época -, há um particular momento da vida política do Nobel que surpreendeu o biógrafo: “A relação de Egas Moniz com Salazar nunca foi fácil e o Nobel acabou por servir de capa para as posições que viria a tomar de oposição ao Estado Novo. As entrevistas que fui encontrando de Egas Moniz são de alguém que diz abertamente que vivíamos num estado sem liberdade de expressão, que as eleições eram uma fantochada e que se sentia preso no seu próprio país.”

Aberta a tertúlia às questões do público, foi tempo de falar do processo de investigação e de um hipotético recurso à Inteligência Artificial, tentação à qual Paulo M. Morais resistiu. Caso para dizer que “A Glória Efémera” foi “o último livro que o escritor Paulo M. Morais escreveu sem recorrer à Inteligência Artificial”. Só quando o livro já estava na gráfica se permitiu o biógrafo explorar questões tão banais como “livros escritos por Egas Moniz” e enumerados pelo chat gpt, percebendo, com grande alívio, que os livros que desconhecia afinal nunca existiram. Foi também tempo de abordar as questões que envolveram a justiça do Nobel, com o escritor a lembrar o grande problema social e de saúde pública que os doentes do foro psiquiátrico representavam na altura - com oito tiros desferidos por um louco à queima-roupa, nem o próprio Egas Moniz terá sabido muito bem como escapou com vida -, as terríveis condições de internamento dos alienados em asilos, os tratamentos “horripilantes” a que eram sujeitos, aos quais se deve acrescentar o pioneirismo da Psicocirurgia, o que cauciona, na opinião de Paulo M. Morais, a atribuição do Prémio Nobel. “Uma coisa tenho a certeza: Egas Moniz era um médico profundamente humanista e eu acho que nunca teria avançado para uma intervenção se não tivesse a certeza absoluta de que aquela era a melhor solução ao seu alcance”, conclui.

Já na recta final, a conversa olha agora Egas Moniz no ambiente íntimo do lar e da família. Mas antes, uma questão “provocadora” a uma participante muito especial nesta sessão das Tertúlias Literárias, a escritora Isabel Rio Novo. Foi ela a primeira leitora de “A Glória Efémera” - “nós somos sempre o primeiro leitor um do outro” - e deixou-nos uma opinião que considera isenta: “Escrever uma biografia não é pegar em tudo aquilo que já se escreveu, ler muito bem, baralhar de novo e voltar a escrever. E o Paulo não se conformou com o muito que já existia, com o muito que já se sabia, e aí ele foi original ao descobrir coisas que ainda não tinham sido vistas.” Referindo que o livro não é um romance, mas lê-se como um romance”, Isabel Rio Novo remata com o melhor elogio que um escritor pode receber: “Sou uma grande leitora de biografias e esta é a melhor biografia que eu já li”. Paulo M. Morais falou então do ambiente da Casa do Marinheiro - “quando todos estiverem melhor, aconselho muito uma visita à Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca” -, de um bucolismo romântico muito presente e cuja ruralidade servia de contraponto ao cosmopolitismo das vivências sociais do médico.  Enfim, a partilha de uma última revelação: “No meio de tanta correspondência que faz parte do seu espólio não se encontra uma carta entre marido e mulher. Mesmo nos escritos autobiográficos, a relação com a Dona Elvira, companheira de uma vida, é tratada em dois ou três parágrafos. Embora, como biógrafo, consiga perceber a intenção de Egas Moniz de preservar uma certa intimidade, acho estranho que alguém que guarda tanto não tenha encontrado uma ou outra carta que valesse a pena deixar para a posteridade.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

CERTAME: Ambiente Imagens Dispersas - Encontro de Fotografia Cidade de Ovar



CERTAME: Ambiente Imagens Dispersas - Encontro de Fotografia Cidade de Ovar
Vários artistas
Organização | Associação Juvenil Amigos do Cáster
Centro de Artes de Ovar
06 Dez 2025 > 06 Mar 2026


O “Ambiente Imagens Dispersas 2025/26 – 21.º Encontro Internacional de Fotografia de Natureza Cidade de Ovar” surge como uma das expressões mais visíveis da missão dos Amigos do Cáster, Associação Juvenil que, desde 1993, ano da sua fundação, tem procurado unir ambiente, cultura e cidadania activa. Nascido do impulso inicial de sensibilizar a população para os graves problemas ecológicos que afectavam o Rio Cáster, o grupo evoluiu ao longo das últimas décadas, consolidando um trabalho assente na educação ambiental, na denúncia de ameaças ao território e na dinamização de projetos de intervenção comunitária. O Ambiente Imagens Dispersas - Encontro de Fotografia Cidade de Ovar ocupa, assim, um lugar central neste percurso, funcionando como um espaço de celebração da natureza e, simultaneamente, como instrumento pedagógico. Ao fazer incidir o olhar sobre a “Fauna”, a “Flora ou Fungos” e a “Paisagem Natural e Habitats”, o seu muito participado concurso de fotografia promove um olhar consciente sobre a biodiversidade, incentivando os participantes a captar imagens que testemunhem não só a beleza dos ecossistemas, mas também a sua fragilidade.

A importância deste concurso manifesta-se não apenas na diversidade de temáticas abordadas, mas também na forma como mobiliza diferentes comunidades. O Prémio “Ovar” e o Prémio “Escolas de Ovar” aproximam o evento da população local, estimulando uma relação mais profunda com o território e com a conservação ambiental. Já o Prémio do “Público” reforça a dimensão participativa, convidando a comunidade online a envolver-se no processo e a reconhecer imagens que, pela emoção ou impacto visual, se destacam na percepção colectiva. Ao mesmo tempo, o concurso insere-se numa rede mais ampla de intercâmbios que os Amigos do Cáster têm vindo a desenvolver ao longo dos anos, envolvendo parceiros regionais, nacionais e internacionais. Esta articulação contribui para a projeção de Ovar como ponto de encontro de fotógrafos e amantes da natureza, tornando o AMBID num evento que supera fronteiras geográficas e disciplinares. Assim, cada edição do encontro reafirma a fotografia como ferramenta de conhecimento e de sensibilização, capaz de documentar transformações ambientais e de inspirar novas práticas de respeito pelos ecossistemas.

Na edição de 2025/26, o concurso distinguiu obras que juntam a qualidade técnica à sensibilidade e criatividade dos participantes. O “Grande Prémio” foi atribuído a “Amantes”, de Hugo Amador, imagem que se destacou entre todas as classes como a representação mais poderosa e emotiva do espírito do AMBID. Na categoria “Fauna”, venceu “White hills”, de Javier Lafuente, autor que também conquistou o Prémio na categoria “Paisagem Natural & Habitats”, com “Badlands tree”, numa demonstração da sua versatilidade e de um olhar particularmente apurado sobre a beleza e diversidade dos espaços naturais e dos que neles habitam. O Prémio “Flora ou Fungos” distinguiu “Edge of a Dream”, de Tibor Litauszki, enquanto no Prémio Ovar se destacou “Cogumelo Mágico”, de Ricardo José Bastos da Silva, valorizando a ligação entre criadores e território. O “Prémio do Público” foi para “A Força do Colo”, de André Borges, e o Prémio “Escolas de Ovar” foi atribuído a “Range Rover”, de Guilherme Gomes, demonstrativo dos talentos emergentes no contexto escolar. Conjuntamente, estes trabalhos formam um mosaico de olhares que traduzem a essência do AMBID 2025/26: celebrar a natureza, sensibilizar a comunidade e reforçar a fotografia como linguagem universal na defesa do ambiente. Exposições para ver na Galeria do Centro de Artes de Ovar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

TEATRO: “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos”



TEATRO: “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos”
Texto | “Já passaram quantos anos, perguntou ele”, de Rui Pina Coelho
Adaptação, encenação, desenho de luz e cenografia | Leandro Ribeiro
Fotografia | Manuel Vitoriano
Interpretação | Patrícia Quintino, Marco Nunes, António Alves, Joana Alves Sousa, Clara Oliveira, Luís Rola, Diana Coutinho, Maria João Melo, Jorge Azevedo, Flávia Krishina, Tiago Alves, Palmira Baptista, Otília Borges, Sara Almeida, Sara Moreira, Hernâni Sá
Produção | Sol d'Alma - Associação de Teatro
Auditório Sol d'Alma
18 Jan 2026 | dom | 16:00


Comecemos pelo texto. Da autoria de Rui Pina Coelho, intitula-se “Já passaram quantos anos, perguntou ele” e nasce de uma sensação estrutural: a experiência de suspensão, adiamento e exaustão de uma geração que foi educada para acreditar numa carreira e acordou num mundo carregado de promessas por cumprir. Embora situado no contexto muito concreto do pós-2008 e da precarização dos jovens licenciados portugueses, o texto resiste ao passar dos anos e vai ganhando espessura histórica, podendo hoje ser lido não apenas como retrato de uma crise, mas como o prenúncio de um estado normativo de permanente instabilidade, ansiedade e desorientação. Não é um texto profético no sentido lato; é-o porque o autor cedo percebeu que a excepção iria resultar em regra. Em boa hora Leandro Ribeiro e o elenco do Sol d’Alma decidiram trabalhar o texto e levá-lo à cena. “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos” resulta num exercício completo de teatro, oferecendo-nos um significativo momento que oscila entre o humor e a ternura, a revolta e uma funda melancolia.

A peça acompanha de perto a escrita de Rui Pina Coelho no que tem de fragmentário e de profundamente teatral no sentido do tempo, do ritmo e da repetição. A narrativa avança por acumulação, por variações mínimas sobre os mesmos gestos, frases e situações, das entrevistas de emprego às contas por pagar, das notícias do fim do mundo às pequenas humilhações quotidianas. Leandro Ribeiro sabe explorar uma dramaturgia do cansaço, em que a linguagem se esgota como os corpos e as expectativas. O uso insistente da enumeração, da sobreposição de vozes, do coro informal ou da passagem dos dias, cria uma sensação de ruído constante, muito próxima da experiência contemporânea de vivermos rodeados de informação sem sabermos o que fazer com ela. Os valores em jogo são, paradoxalmente, simples e devastadores, centrados na dignidade e no trabalho, no tempo, no amor e no futuro. É palpável a frustração sem saída à vista, sem que haja a possibilidade de identificação de um inimigo claro, apenas sistemas difusos, entrevistas absurdas, chefes prepotentes e promessas vazias.

O encenador revela o seu engenho ao pegar numa peça para quatro actores, fazendo subir ao palco quatro vezes este número. Acrescentar a personagem interpretada por Clara Oliveira ao “núcleo duro” da peça é particularmente inteligente, sobretudo pelo que acrescenta de dinâmica intergeracional, com tudo o que acarreta de incompreensão, injustiça, confronto e culpa. As referências à música, aos filmes de catástrofe ou aos discursos sobre o fim do mundo funcionam como espelhos distorcidos de um colapso íntimo que já aconteceu. O verdadeiro apocalipse não é cósmico, é interior: é deixar de saber quem se é, o que se quer, para quê se vive. A precariedade não surge apenas como situação económica, mas como condição existencial. Tudo é provisório, até os afectos. A gravidez de Alice, o desejo de ter filhos, as relações entre os amigos e o medo constante do colapso (económico, ambiental, simbólico) revelam um mundo em que a vida adulta foi adiada indefinidamente. Não é uma peça cínica; é uma peça ferida. E é precisamente essa ferida, a de quem acreditou, que lhe dá força ética.

É chegada a altura de olhar nos olhos os dezasseis actores e de lhes dar os parabéns pelo excelente momento de teatro proporcionado. A cena final de despedida, autêntico inventário de pequenas coisas banais - o gesto de enumerar tornado gesto de resistência - é um dos momentos mais comoventes do texto ao afirmar que a vida, mesmo diminuída, será sempre merecedora do nosso abraço. Este facto reforça a premência e actualidade da peça, ou não se mostrassem os horizontes ainda mais carregados do que há quinze anos atrás. Alargou-se a precariedade, normalizou-se a ansiedade e multiplicaram-se os discursos catastrofistas em torno do clima, da política, da civilização. Não sendo uma peça datada, “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos” revela-se uma peça “cansada”. Tal como cada um de nós. A sua importância está em recusar soluções fáceis e em insistir na busca de uma resposta para a dúvida que mói cada vez mais, a de como viver quando tudo parece adiado. A decisão do Sol d’Alma e de Leandro Ribeiro em abraçar estas questões está longe de ser um exercício nostálgico. É antes um gesto crítico que nos vem lembrar que o mal-estar não passou, que apenas mudou de forma. E que, enquanto não for enfrentado, continuaremos a repetir, com ironia e medo, a mesma pergunta: “O que é que eu estou aqui a fazer?”

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/soldalma]

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

CONCERTO: Ricardo Ribeiro



CONCERTO: Ricardo Ribeiro
Com | Ricardo Ribeiro (voz), Manuel Oliveira (teclados)
Centro das Artes e do Espetáculo de Sever do Vouga
17 Jan 2026 | sab | 21:30


Depois de um inoportuno adiamento, o Centro das Artes e do Espectáculo de Sever do Vouga abriu-se finalmente a uma das vozes mais singulares e respeitadas da música portuguesa contemporânea. Reconhecido como um dos expoentes máximos do fado, Ricardo Ribeiro subiu ao palco com o peso sereno de quem, há mais de duas décadas, vem construindo uma carreira sólida, feita de rigor e verdade e não isenta de risco artístico. Num alinhamento plural, pontuado por intervenções bem humoradas e sábias reflexões no intervalo das músicas, ao longo de uma hora o cantor mostrou a forte apetência em ultrapassar fronteiras, tanto estéticas quanto geográficas, levando a sua música a estender-se a uma grande variedade de géneros e a abraçar os mais diversos públicos. Com seis álbuns editados e um sétimo “na calha”, Ricardo Ribeiro provou na bonita sala de Sever do Vouga que não se limita a interpretar música, antes interroga-a, expande-a e devolve-a ao público com uma intensidade que convoca tanto os signos da tradição quanto a urgência do presente. “Precisamos de cantar a poesia. Vivemos momentos muito estranhos e aquilo que os artistas podem fazer é trazer ao público algo de belo e profundo”, disse, justificando o lado intimista da música, nos seus mundos interiores, “como uma necessidade”.

Com Manuel Oliveira ao seu lado nos teclados, o cantor apresentou-se num formato onde cada nota se mostrou essencial, os gestos oferecidos em carícia, as pausas prenhes de emoção e sentido. Como um jogo de sedução subtil, o concerto construiu-se entre a contenção inicial e as explosões súbitas de força e dramaticidade, entre um lirismo quase frágil e a aspereza cortante no verso seguinte. Solidários na beleza e no amor de cada música, os dois artistas em palco mostraram uma respiração comum e uma escuta cúmplice, o que permitiu a cada um dos temas revelar as suas múltiplas camadas, ora de modo íntimo e confessional, ora de uma forma muito física, intensamente visceral. Num registo dúplice e particularmente versátil, a voz de Ricardo Ribeiro soube percorrer emoções extremas com uma naturalidade comovente. “Há fados que dão cabo da gente. É uma cantiga terrível, parece que não tem nada e depois tem tanta coisa que a gente fica cansado e com uma coisa cá dentro”, confessou, depois de interpretar magistralmente “De Loucura em Loucura”, com letra de João Dias, do fado “Cravo” de Alfredo Marceneiro.

Tema após tema, o público foi convidado a entrar nesse movimento pendular, a beleza nascida da tensão entre o que existe e o que se rasga de novo. De “Cinquenta e Um”, com letra de A garota não e que integrará o novo álbum do cantor, nos escaparates a partir do próximo mês, ao inevitável “Mondadeiras” que fechou o concerto num “encore frouxamente reclamado - não sei se por timidez do público, depois de um momento vivido de forma quase reverencial -, o concerto trouxe consigo marcas profundas das raízes alentejanas do cantor, bem como influências do canto árabe, da herança sefardita e de uma ibericidade assumida que atravessa toda a sua identidade artística. O que se ouviu em Sever do Vouga foi um meio-termo fascinante entre o fado que conhecemos e o fado que ainda está por vir, pontuado por temas como “Atraso”, de João Paulo Esteves da Silva, “Lembra-me um Sonho Lindo”, de Fausto Bordalo Dias ou “Por La Mar Chica Del Puerto”, de Manuel Alcantara. Um território onde a tradição não é passado, mas matéria viva, e o presente se faz futuro da melhor música. Um concerto que prendeu e emocionou não pelo excesso, mas pela verdade: uma verdade cantada de corpo inteiro, a confirmar que Ricardo Ribeiro é referência maior e uma voz necessária no rico e complexo universo da melhor música portuguesa.

domingo, 18 de janeiro de 2026

TEATRO: "Um Inimigo do Povo" | Marco Martins



TEATRO: “Um Inimigo do Povo”
Conceito, direcção e dramaturgia | Marco Martins
Investigação jornalística | Joana Pereira Bastos, Raquel Moleiro
Assistência de encenação e apoio à dramaturgia | Rita Quelhas
Cenografia | Isabel Cordovil, João Romão
Interpretação | Amin Nurul, Dil Bahadur Ale, Janit Fernandes, Kamal Chowdhury, Kamal Sardar, Niraj Khadka, Rajib Al Mamun, Sabera Parvin, Sharker Nasrin, Shoehl Rana, Rita Cabaço, Rodrigo Tomás
Produção | Arena Ensemble
120 Minutos | Maiores de 16 Anos
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
16 Jan 2026 | sex | 19:30


“ (…) Os agentes da PSP também são suspeitos de terem algemado uma mulher na esquadra do Rato como num crucifixo. 'Já no interior da esquadra, algemaram a ofendida a um banco, de braços abertos, como se estivesse pendurada num crucifixo, e largaram todos os seus pertences no chão, que acabaram pisados e danificados pelos demais agentes que por ali passaram', lê-se na acusação, dando conta que a ‘vítima rezou em voz alta um Pai Nosso, por não acreditar no que estava a passar, na medida em que se encontrava numa esquadra rodeada de polícias’ (…)”.
Susete Henriques, in Diário de Notícias (publicado a 15 de Janeiro de 2026)

No preciso momento em que sai a público a notícia de que dois agentes da PSP estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de tortura e violação de indivíduos, na sua maioria imigrantes, e depois do recente caso da rede com dez militares da GNR liderada por um português que controlaria cerca de 500 imigrantes a trabalhar em explorações agrícolas do distrito de Beja ou da aparatosa operação policial em larga escala no Martim Moniz, em Lisboa, a 19 de Dezembro de 2024, a peça de Marco Martins, mais do que necessária, revela-se verdadeiramente urgente. Tendo como ponto de partida o episódio da Rua do Benformoso - a imagem de cerca de sessenta corpos indefesos, privados de dignidade, encostados à parede, com as mãos sobre a cabeça, obrigados a manter uma posição fisicamente extenuante e, simultaneamente, a esconder os rostos durante cerca de duas horas -, o encenador propõe uma reflexão sobre a forma como os media e os partidos políticos de várias esferas manipulam a imagem destas pessoas sem jamais lhes dar verdadeiramente voz.

Ora, é precisamente isso que Marco Martins faz, lançando a discussão em torno da fabricação contemporânea do inimigo. Se o texto homónimo de Ibsen desmontava os mecanismos de uma maioria que se diz liberal para silenciar verdades incómodas, esta nova peça desloca o foco para um presente onde o conflito surge a partir de imagens, discursos políticos e operações policiais de grande escala. A fotografia da Rua do Benformoso, captada furtivamente por uma mulher imigrante, condensa esse gesto fundador: dezenas de homens encostados à parede, braços no ar, transformados num corpo coletivo suspeito. Criar um inimigo é uma tarefa sofisticada”, diz Lucrécia Martel: “Mais complexa do que ir à Lua”. Aqui, o inimigo nasce da divisão, da abstracção e da retirada de contexto. A imagem não fala, mas é trabalhada até à exaustão por uma gramática do ódio que dispensa factos e exclui vozes. O teatro surge, então, como contra-campo: um espaço de grau zero onde a imagem é devolvida à carne, ao tempo e à palavra, por uma vez a história a ser escrita também pelos vencidos.

A Rua do Benformoso não é um acaso geográfico, mas um palimpsesto de segregações sucessivas. Da comuna moura medieval ao gueto implícito da imigração contemporânea, o bairro foi sendo marcado pela ideia de confinamento do outro. Hoje, ali vivem e trabalham comunidades do Bangladesh, do Nepal, da Índia e do Paquistão, ocupando empregos essenciais e invisíveis, habitando casas sobrelotadas, esperando por um reagrupamento familiar adiado até à eternidade. A operação policial de 19 de dezembro de 2024 expôs essa ferida: uma acção desproporcionada, sem fundamentação clara, que tratou trabalhadores como suspeitos colectivos. A Provedoria da Justiça viria a confirmar a violação da dignidade e dos direitos fundamentais, mas o dano simbólico estava consumado. Aqueles corpos perfilados tornaram-se a prova visual de uma narrativa pré-existente: a de que os migrantes são a origem da insegurança, da degradação urbana, do medo difuso. O espectáculo parte dessa violência inaugural para a desmontar, recusando a lógica do número e devolvendo espessura humana a quem foi reduzido a uma ameaça e tornado num número.

Essa devolução faz-se, antes de mais, pelos nomes: Amin, Dil, Janit, Kamal, Niraj, Rajib, Sabera, Sharker, Shohel. Dizer nomes é um gesto político. Cada um traz consigo uma infância reconhecível, feita de sons, cheiros e rituais que nos são estranhamente familiares: a voz da mãe, a chuva no telhado, o mercado, a música, a oração. Essas memórias comuns desmontam a ficção da alteridade radical. Mas o percurso de vida que se segue é marcado pela violência estrutural, pela pobreza, pela morte e pela perda. A travessia, a que chamam “O Jogo”, é uma metáfora cruel: um jogo de vida ou morte onde se aposta tudo num futuro possível chamado Europa. Desertos, mares, fronteiras e máfias compõem esse caminho. No palco, os corpos sabem disso antes das palavras: abrigam-se instintivamente, movem-se como quem está dentro de água, falam sozinhos para não desaparecer. A saudade, mais do que o medo, atravessa-os. De uma réstia de confiança no outro emerge, numa confissão, uma palavra que fere mais do que mil facas: Medo.

Ao colocar estes migrantes no centro da cena, Marco Martins inverte a acusação inscrita no título. O inimigo do povo não são eles, mas a maioria que precisa de os transformar numa ferida para fugir aos seus problemas e não se ver na obrigação de encarar as suas próprias contradições. Em Portugal, os factos desmentem o discurso populista: os imigrantes contribuem mais do que recebem, sustentam setores-chave da economia e tornam possível o modo de vida que a maioria defende. Ainda assim, são alvo de slogans, insultos e operações exemplares. O espetáculo não moraliza nem absolve: Expõe. Olhos nos olhos, obriga-nos a reconhecer a massa humana que, na sua diversidade, preferimos não ver. Como em Ibsen, não há heróis puros. Há indivíduos frágeis, contraditórios, solitários. Mas há também uma certeza incómoda: enquanto continuarmos a confundir imagem com verdade e maioria com razão, iremos continuamente entregarmo-nos à construção de mais e mais inimigos para justificar a violência. O teatro, aqui, não oferece soluções, mas devolve-nos a responsabilidade de olhar. E de agir!


sábado, 17 de janeiro de 2026

LIVRO: “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” | Luísa Sobral



LIVRO: “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”,
de Luísa Sobral
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2025 (12.ª edição, Novembro de 2025)


“Há plantas que rasgam o asfalto. Deixam para trás uma fissura como prova da sua força, do caminho percorrido, da agonia que sufoca antes da golfada de ar. Com o passar do tempo, a planta que fura o asfalto torna-se também ela asfalto. Fica a fissura para nos relembrar de que é possível dançar em contramão. É possível a terra ser o início e não o fim.”

A estreia de Luísa Sobral na ficção com “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” diz-nos que a sua voz autoral vai além do território da música, encontrando na literatura um espaço igualmente firme, expressivo e livre. Figura mediática consagrada enquanto compositora e intérprete, Luísa Sobral tem para oferecer um romance intimista, narrado na primeira pessoa, de revisitação de um dos períodos mais sombrios da História do século XX: A divisão da Alemanha no contexto da Guerra Fria. A construção do Muro de Berlim surge não apenas como acontecimento histórico, mas como ferida simbólica que atravessa gerações e condiciona destinos individuais. A protagonista, identificada apenas por M., cresce na Alemanha de Leste, separada da mãe e da tia, num espaço político e emocional delimitado pela propaganda do regime socialista. Sem recorrer a excessos didácticos, a autora inscreve o drama pessoal no quadro mais vasto da oposição entre Leste e Ocidente, mostrando como as grandes decisões geopolíticas se refletem silenciosamente na vida quotidiana dos cidadãos comuns.

O romance distingue-se pela forma como retrata a experiência de viver sob uma ditadura, sob vigilância constante da polícia política e sentindo de que forma a repressão do pensamento crítico condiciona comportamentos, afectos e relações familiares. A máquina ideológica do Estado exalta os valores do colectivo e demoniza o capitalismo ocidental, criando uma realidade paralela que M. aceita como única possível durante grande parte da sua vida. Este choque de culturas, omnipresente mas nunca ostensivo, é trabalhado com subtileza narrativa, permitindo ao leitor apreender o absurdo e a violência do sistema sem que esse seja o tema explícito do livro. A meio da obra, a introdução de cartas trocadas entre personagens funciona como um dispositivo narrativo eficaz para preencher silêncios, expandir pontos de vista e aprofundar conflitos interiores. Embora não seja um recurso inovador, revela-se particularmente feliz numa história que atravessa várias décadas e exige uma gestão rigorosa do ritmo e da progressão psicológica das personagens.

Outro elemento singular do romance tem a ver com a presença recorrente de um vasto conjunto de plantas medicinais, cujos desenhos abrem cada um dos capítulos e que remetem para a preparação de tisanas e remédios caseiros. Aparentemente decorativo, este detalhe ganha densidade simbólica, associando-se à ideia de cuidado, resistência e sobrevivência em ambientes de uma grande hostilidade. Tal como as árvores evocadas no título, nem todas resistem de pé, mas algumas persistem, adaptam-se e encontram formas de continuar a viver. Luísa Sobral demonstra uma notável capacidade de construir personagens psicologicamente consistentes, em especial figuras femininas marcadas pela desilusão, pela perda e pelo silêncio imposto. O resultado é um romance contido, empático e maduro, que evita o maniqueísmo e convida o leitor a refletir sobre memória, identidade e liberdade. Uma estreia literária segura, que transforma a história recente num exercício de escuta atenta das vidas que ficaram presas entre muros, as mais das vezes invisíveis.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Beleza Apesar de Tudo” | Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Beleza Apesar de Tudo”,
de Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus
Curadoria | Nuno Crespo
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Siza Vieira
27 Nov 2025 > 19 Abr 2026


“Construímos casas para acolher intimamente o bocado do mundo – feito de coisas, pessoas, animais, plantas, atmosferas, eventos, imagens e lembranças – que torna a nossa felicidade possível.”
Emanuele Coccia, Filosofia da casa

A exposição “Beleza Apesar de Tudo” não se apresenta como uma retrospectiva da obra dos arquitectos Aires Mateus, mas como uma investigação aprofundada sobre as ideias que têm orientado o seu pensamento ao longo de duas décadas. Mais do que mostrar edifícios concretos, a exposição propõe uma imersão nas pesquisas espaciais, materiais e conceptuais que estruturam o trabalho do atelier. Reunindo noventa e uma representações espaciais, o projecto expositivo assume-se como um verdadeiro laboratório sensorial, marcado por intensas variações de escala, diversidade de materiais e experiências tácteis. Organizada em cinco áreas - jardim, matéria, tempo, lugares e geografias -, a exposição não propõe um percurso linear nem pretende representar realidades reconhecíveis. Cada espaço funciona como uma composição autónoma, formada por objectos, imagens e desenhos que criam tensões e relações abertas à experimentação. O visitante é convidado a penetrar nestes ambientes como um “explorador inesperado”, testando sensações e percepções num conjunto de experiências espaciais que privilegiam a dimensão física, sensível e poética da arquitectura.

Cada elemento exposto - maquetes, desenhos, imagens ou objetos - desempenha uma dupla função. Por um lado, questiona de forma radical o estatuto da representação em arquitectura, sem abdicar dos seus formatos tradicionais. Esse questionamento estende-se à própria capacidade das representações de dizer o real. Por outro lado, esses elementos não são entendidos como substitutos de obras ausentes, mas como experiências de pensamento, instrumentos para explorar possibilidades no campo disciplinar. Como sublinham os próprios arquitectos, “o trabalho da arquitectura é pensar”. Embora seja possível reconhecer referências a projectos emblemáticos do estúdio, das casas de Alenquer e Azeitão ao Centro de Investigação das Furnas, da sede da EDP aos museus em Lausanne e Tours, a exposição não pretende revisitar essas obras. O objectivo é antes revelar um léxico arquitectónico em construção, feito de volumetrias, escalas e ritmos que reaparecem sem se repetirem, configurando um modo de pensar que ultrapassa a obra dos Aires Mateus e contribui para o debate mais amplo da arquitectura contemporânea.

Num plano mais profundo, “Beleza Apesar de Tudo” enfrenta a própria impossibilidade de expor arquitectura. Não apenas porque os edifícios não podem ser transportados para o Museu, mas porque a arquitectura, como defendem os autores, nunca está concluída: é uma plataforma para a vida, permanentemente em aberto. Esta visão aproxima-se do pensamento de Aldo Rossi, para quem falar de arquitetura é falar da vida, da morte e da imaginação. A exposição assume, assim, uma ambição humanista, resgatando a arquitetura de uma leitura estritamente técnica e afirmando-a como saber cultural, estético e social. Num contexto marcado pela crise climática, pela desumanização das cidades e pela crescente desigualdade no acesso ao espaço construído, a arquitectura surge aqui como um gesto de resistência. Ao suspender, ainda que momentaneamente, a lógica da urgência e da destruição, a exposição propõe a beleza como possibilidade de vida. Uma beleza que, apesar de tudo, persiste.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

LUGARES: Mosteiro de Tibães



LUGARES: Mosteiro de Tibães
Rua do Mosteiro, 59 – Mire de Tibães
Horários | De terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
Ingressos | € 4,00 (bilhete normal)


Fundado na Idade Média e profundamente transformado a partir do século XVII, o Mosteiro de São Martinho de Tibães ocupa um lugar central na história do monaquismo português por ter sido, durante mais de um século, a casa-mãe da Congregação Beneditina Portuguesa. Foi essa condição institucional que justificou a vasta campanha de obras que redefiniu o conjunto, adaptando-o às exigências espirituais, administrativas e simbólicas de uma Ordem em plena afirmação. A igreja constitui o ponto de partida natural da visita e o espaço onde essa ambição se manifesta com maior clareza. Reconstruída segundo os cânones do barroco nacional, apresenta uma nave única de grande clareza espacial, pensada para envolver os fiéis numa ampla experiência emocional. No coro alto impõe-se o magnífico cadeiral, executado em madeira de castanho, verdadeira obra-prima da talha barroca portuguesa. As figuras esculpidas — santos, doutores da Igreja e alegorias morais — organizam-se num discurso visual coerente, a arte ao serviço da Regra de São Bento numa exaltação da ordem, da hierarquia e da disciplina. A monumentalidade não é excessiva, antes controlada, reflectindo uma espiritualidade que une a beleza e a contenção.

Da solenidade da igreja passa-se para o claustro, espaço nuclear da vida monástica e elemento estruturante do edificado. É nele que se percebe o equilíbrio fundamental da espiritualidade beneditina entre oração, leitura e trabalho. Arquitectonicamente, o claustro de Tibães revela uma sobriedade estudada: a repetição rítmica dos arcos, a moderação decorativa e as proporções harmoniosas, criam um ambiente de recolhimento e circulação contínua. Este contraste com a exuberância da igreja não é acidental, mas programático. Em torno do claustro organizam-se as principais dependências conventuais, entre as quais se destaca a cozinha, um dos espaços mais surpreendentes do mosteiro. De grandes dimensões e marcada por uma chaminé monumental, a cozinha revela um notável cuidado funcional e uma clara hierarquização dos espaços de trabalho. Pensada para servir uma comunidade numerosa, afirma-se como exemplo de como a arquitectura utilitária, no contexto monástico, assume dignidade formal e expressiva, integrando-se plenamente na lógica global do edifício.

O espólio artístico do Mosteiro de Tibães desempenha um papel decisivo na construção da sua identidade, sendo o azulejar um dos elementos mais expressivos desse património integrado. Distribuídos por corredores, salas e dependências diversas, os painéis de azulejo azul e branco, maioritariamente dos séculos XVII e XVIII, cumprem uma função que vai muito além da decoração. Representando cenas bíblicas, episódios hagiográficos e alegorias morais, estes conjuntos funcionavam como instrumentos de ensino e meditação, acompanhando o quotidiano dos monges. A azulejaria articula-se com a arquitectura de forma exemplar, reforçando ritmos, delimitando espaços e criando sequências narrativas. Em diálogo com a talha dourada, a pedra e a madeira, os azulejos contribuem para uma ambiência visual coerente, onde cada material desempenha um papel específico. Em Tibães, a noção de espólio não pode ser dissociada da arquitectura: trata-se de um sistema unitário, pensado para comunicar valores, ordenar comportamentos e estruturar o tempo monástico.

A compreensão plena do conjunto só se completa com a visita à sua Cerca, elemento essencial da vida beneditina e expressão concreta do princípio “ora et labora”. Este vasto território murado, cuidadosamente organizado, integrava hortas, pomares, vinhas, bosques e complexos sistemas de água, garantindo a autossuficiência da comunidade. A cerca é uma paisagem construída, moldada ao longo de séculos, em cujos limites o trabalho agrícola se articulava com a contemplação e o ritmo das estações. Caminhar por estes espaços é perceber como o mosteiro se estende para além dos seus muros edificados, projectando uma lógica de ordem e racionalidade sobre a natureza envolvente. A escala aqui é diferente, menos monumental, mas igualmente reveladora: a do quotidiano, do esforço físico e da relação directa com a mãe-natureza. Igreja, dependências conventuais e cerca formam, assim, um conjunto de notável coerência, arquitetura, arte e paisagem unidas numa das mais completas expressões do património monástico português.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

CINEMA: "Pai Mãe Irmã Irmão" | Jim Jarmush



CINEMA: “Pai Mãe Irmã Irmão” / “Father Mother Sister Brother”
Realização | Jim Jarmush
Argumento | Jim Jarmush
Fotografia | Frederick Elmes, Yorick Le Saux
Montagem | Affonso Gonçalves
Interpretação | Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Philippe Azoury, Luka Sabbat, Françoise Lebrun, Beatrice Domond, Stephen Ostrowski, Eduardo Hoffman, Dave Murphy, Tom O'Reilly
Produção | Joshua Astrachan, Charles Gillibert, Carter Logan, Atilla Salih Yücer
Reino Unido, Estados Unidos, Itália, França, Irlanda, Alemanha | 2025 | Comédia, Drama | 110 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 8
13 Jan 2026 | ter | 16:15


“Pai Mãe Irmã Irmão” marca o regresso de Jim Jarmusch ao formato do tríptico narrativo para observar, com ironia e alguma melancolia, as fracturas silenciosas no seio das famílias contemporâneas. Dividido em três episódios autónomos - “Pai”, “Mãe” e “Irmã Irmão” - o filme acompanha encontros tardios entre adultos e os seus familiares mais próximos, em três geografias distintas, mas unidos por uma mesma sensação de distanciamento emocional. Fiel ao seu cinema, Jarmusch filma o banal - uma viagem de carro, um brinde com água ou com chá, uma expressão fora de moda - como território de tensões não resolvidas, onde o que não se diz pesa mais do que qualquer revelação explícita. É um cinema de silêncios, de pequenos gestos e de embaraços prolongados, que confirma o realizador como um cronista atento da incomunicabilidade moderna, agora mais interessado na passagem do tempo e na impermanência do que na pose fria e distante que marcou obras anteriores.

No primeiro episódio, Adam Driver e Mayim Bialik interpretam dois irmãos que visitam o pai viúvo, corporizado por um Tom Waits magistralmente esquivo, numa cabana isolada. Convictos de que vive na miséria e na confusão mental, os filhos projectam no pai as suas próprias ansiedades urbanas, num encontro marcado por condescendências e equívocos. O segundo episódio, seguramente o mais corrosivo em matéria de humor, reúne Charlotte Rampling e as filhas Cate Blanchett e Vicky Krieps para um chá anual em Dublin, onde afectos reprimidos se disfarçam de boas maneiras e narrativas de sucesso cuidadosamente ensaiadas. Krieps destaca-se como a filha que mente para sobreviver, enquanto Rampling encarna uma frieza tão elegante quanto devastadora. Mais contido e emocionalmente aberto, o derradeiro episódio acompanha dois gémeos - Indya Moore e Luka Sabbat - na forma como aprendem a lidar com o legado enigmático dos pais falecidos, numa Paris invernosa onde a memória se revela um puzzle incompleto.

No seu conjunto, “Pai Mãe Irmã Irmão” propõe uma contemplação serena sobre o envelhecimento, a herança afectiva e a impossibilidade de conhecer verdadeiramente aqueles que nos são mais próximos, sugerindo que a intimidade plena é muitas vezes um constructo retrospectivo. Num gesto de depuração formal e conceptual, o filme afirma-se como uma das obras mais meditativas de Jim Jarmusch, menos interessada na anedota do que na ressonância dos intervalos, aquilo que se acumula entre frases de circunstância, olhares desviados e silêncios prolongados. A opção por uma encenação assumidamente artificial, visível nos enquadramentos rigidamente compostos, não é um capricho estético, mas uma estratégia de distanciamento que expõe o carácter performativo das relações familiares. Sem a radicalidade de títulos mais experimentais, esta obra revela-se, paradoxalmente, uma das mais generosas e elegíacas de Jarmusch, sobrepondo a melancolia ao cinismo e transformando-a um delicado exercício de escuta.