domingo, 16 de dezembro de 2018

CONCERTO: "Uma Noite de Natal no Alentejo"



CONCERTO: “Uma Noite de Natal no Alentejo”,
com António Zambujo e Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento
Cine-Teatro de Estarreja
15 Dez 2018 | sab | 21:30


Em plena quadra natalícia, não poderia ser mais adequada a proposta do Cine-Teatro de Estarreja para assinalar este momento festivo. Com “Uma Noite de Natal no Alentejo”, António Zambujo e o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento ofereceram ao público que lotou completamente o Cine-Teatro de Estarreja um serão fantástico, de tradição e emoção feito. À voz e aos acordes da guitarra de António Zambujo, juntou-se a força e harmonia de um dos mais carismáticos representantes do Cante Alentejano, para uma noite que irá ficar para sempre na memória de todos.

“Fui à fonte beber água / Achei um raminho verde / Quem o perdeu tinha amores / Quem o achou tinha sede”. Do cancioneiro tradicional alentejano se bebeu esta “Gota de Água”, tema que abriu o concerto, colocando desde logo a fasquia num nível muito alto. Zambujo retirou-se de seguida e, com o Rancho de Cantadores em palco, celebrou-se verdadeiramente o Natal no Alentejo, não apenas com temas de louvor ao Deus Menino mas também com temas mais mundanos, segundo a tradição. “O Menino”, “Quais são os Três Cavalheiros” ou “Janeiras” foram momentos marcantes, as vozes telúricas, no ponto ou no alto, a evocarem a quadra e, ao mesmo tempo, a transportarem os presentes ao âmago mais profundo do Ser Alentejano. Com Zambujo de novo no palco, cantou-se “O que é Feito Dela”, um tema composto por Miguel Araújo e gravado originalmente com o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento.

Preenchido maioritariamente pela música e pela voz de Zambujo, agora sozinho em palco, a segunda parte do concerto pôs o público a cantar alguns dos temas mais populares do cantor, de “O Pica do 7” a “Flagrante”, de “Zorro” a “Lambreta”. Introduzindo nos acordes das suas canções um cheirinho a Natal com temas como “Jingle Bells” ou “A Todos um Bom Natal”, António Zambujo deu uma nota do seu virtuosismo, ao mesmo tempo que arrancou saborosas gargalhadas ao público. Tempo ainda para um “cheirinho” do seu novíssimo trabalho “Do Avesso”, com “Moda Antiga” e “O Catavento da Sé” a abrirem o apetite e a sugerirem um CD no sapatinho. O concerto terminaria com “Trago Alentejo na Voz”, um tema recuperado do primeiro álbum do cantor, “O Mesmo Fado” (2002) e cantado em conjunto com o Rancho de Cantadores.

Zambujo e o Côro seriam “obrigados” a regressar ao palco graças à insistência do público, dando as despedidas com os deliciosos “A Moda do Meu Chapéu” e “Fui Colher Uma Romã”, esta última a fazer recuar aos primórdios de Vitorino e a “Os Malteses”, álbum icónico do cantor, editado em 1977. O Rancho de Cantadores ainda interpretaria uma das suas cantigas, de forma informal, já no foyer do Cine-Teatro de Estarreja, enquanto António Zambujo autografava, para os interessados, exemplares do seu último trabalho. O final em beleza dum noite memorável!

sábado, 15 de dezembro de 2018

TEATRO: "Verdade ou Consequência"



TEATRO: “Verdade ou Consequência”
Direcção Artística | Gonçalo Amorim
Dramaturgia, pesquisa e criação | Catarina Barros, Gonçalo Amorim, Marta Bernardes, Rui Pina Coelho
Direcção plástica| Catarina Barros
Artistas-performers | Nils Meisel, Joana Mesquita, Marta Bernardes, Patrícia Gonçalves, Catarina Barros, Tânia Dinis, Susana Paixão, Gonçalo Amorim, Paulo Mota, Pedro André, Daniel Seabra, Camila Muñoz
Produção | Teatro Experimental do Porto, TNSJ
Teatro Nacional S. João | 80 minutos | M/12
12 Dez 2018 | qua | 19:00


Verdade E Consequência! No princípio há aquela disposição dos lugares no centro da sala, a aleatoriedade dos números, a sua eventual desadequação em relação ao lugar onde decorre momentaneamente a acção. Perceberemos rapidamente que este artifício cénico não é um mero capricho do encenador, antes a primeira verdade da peça. Através dele somos obrigados a sentar num lugar que não aquele que seria suposto, enfrentamos o incómodo de termos de nos levantar ou deslocar para melhor apreciarmos a acção, sentimos o desconforto de acompanharmos a turba no aplauso injustificado, na interjeição despropositada, no “passeio dos tristes” que nada diz, nada acrescenta. Consequentemente, pede-se ao espectador que invista o seu tempo e os seus recursos numa realidade com a qual acabará por se identificar, por muitas reservas e distância que queira marcar. Pede-se que olhe à sua volta e perceba o quanto de verdade há numa sociedade em profunda mutação. E quais as consequências sobre o próprio eu.

E eis-nos chegados ao cerne duma peça que se desenvolve como se de um jogo se tratasse, “um espectáculo em doze versos, um bolo em doze fatias”. Pequenos palcos para representações isoladas, os doze espaços em torno dos espectadores vão sendo ocupados, espelhando a futilidade de comportamentos e gestos, o vazio das acções que arrastam meio mundo, a idolatria e a alienação. Nesta roda da fortuna, tiro de partida de uma maratona de proporções inimagináveis e onde a maioria é obrigada a alinhar, “os cavalos também se abatem”. Lutar contra a corrente é sempre um acto isolado e que resulta numa estéril pregação no deserto (extraordinário o monólogo da actriz que “nada sabe”). No final, verdade e consequência resultarão numa e na mesma coisa, tal como a história do homem que está seguro que ao chegar a casa terá uma festa surpresa à sua espera e, pondo a chave à porta, descobre que afinal não há surpresa nenhuma e isso deixa-o... surpreendido!

Concluo dizendo que a verdade é que, no decorrer da peça, se revelou inglório o meu esforço para me agarrar a algo que fizesse sentido, que não vi grande mérito no trabalho dos actores (à excepção do já referido monólogo e que resulta num extraordinário momento de teatro), que no final não reagi com as habituais palmas e que saí do teatro sem olhar para trás e com a firme intenção de esquecer rapidamente um momento que, pensei eu, me tinha trazido mais insatisfação do que prazer. A consequência é que se instalou em mim uma tremenda dúvida quanto ao propósito ou à mensagem da peça e que acabei por me sentir na obrigação de dar dois passos atrás para melhor perceber se, na verdade, não haveria ali algo que se pudesse aproveitar. Consequência: Da revisão da matéria dada resulta a percepção de que há muito de bom numa peça que importa ver sem reservas.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

CINEMA: "Girl: O Sonho de Lara"



CINEMA: “Girl: O Sonho de Lara” / “Girl”
Realização | Lukas Dhont
Argumento | Lukas Dhont e Angelo Tijssens
Fotografia | Frank van den Eeden
Montagem | Alain Dessauvage
Interpretação | Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart, Tijmen Govaerts, Katelijne Damen, Valentijne Dhaenens, Magali Elali, Alice de Broqueville, Alain Honorez, Chris Thys
Produção | Dirk Impens
Holanda, Bélgica | 2018 | Drama | 109 minutos | M/14
Cinema Dolce Espaço
14 Dez 2018 | sex | 16:00


Estar como que aprisionado no próprio corpo é um sentimento bastante familiar para a maioria dos adolescentes. Mas o caso muda de figura quando se trata da formação da identidade num corpo que se sente como completamente estranho, despertando tensões na escola e na família e convertendo o despertar da sexualidade num desafio inimaginável de conflitualidade e violência. Na sua ânsia de descobrir, viver e sentir esta fase da vida, é precisamente com este desafio que Lara (Victor Polster) se depara, enquanto prepara o seu futuro como bailarina e como mulher.

Mais do que expôr o bullying ou a intolerância que Lara vivencia, o realizador faz questão de abordar a luta interior e as inquietações desta jovem. Dhont faz-nos mergulhar no interior das rotinas de Lara, das suas descobertas, temores, inquietações, conquistas e derrotas. Fá-lo, quase sempre, recorrendo a pequenos episódios que alimentam a trama e enriquecem a personagem. São momentos que contribuem não apenas para dar a ver a protagonista e o seu quotidiano, mas que concorrem para a criação de um forte vínculo entre o espectador e a adolescente, com a qual é compelido a partilhar as emoções.

Integrando o elenco do Ballet Vlaanderen (Real Ballet da Flandres), Victor Polster interioriza e caracteriza na perfeição o papel transgénero de Lara, tanto física como mentalmente. Com uma interpretação delicada e precisa, o actor consegue tocar profundamente o espectador na forma como representa esta adolescente que não sabe ou não pode verbalizar os complexos sentimentos que tomam conta de si. Tratando o tema da transexualidade com enorme delicadeza e subtileza, Lukas Dhont oferece-nos um excelente filme, justamente reconhecido ao vencer a secção “Un Certain Regard” do Festival de Cannes, assim como o prémio FIPRESCI, os prémios de melhor interpretação e melhor primeira obra e ainda a indicação para o Óscar de melhor filme estrangeiro em 2019.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

CONCERTO: "Viviane Canta Piaf"



CONCERTO: “Viviane Canta Piaf”
Casa da Criatividade
07 Dez 2018 | sex | 22:00


Depois de um mês fantástico dedicado por inteiro ao Jazz, a Casa da Criatividade mudou de registo neste início de Dezembro, convidando o seu público a escutar Viviane e, através da sua voz, a recordar Edith Piaf. Publicado há sensivelmente um ano, o álbum “Viviane Canta Piaf” serviu de referência a um programa preenchido integralmente por temas da lendária cantora, naquilo que constituiu uma emocionante viagem através dos momentos mais significativos duma carreira riquíssima e que fez dela uma das maiores embaixadoras da língua francesa de sempre. Tirando o máximo partido do virtuosismo de um naipe de cinco instrumentistas – Filipe Valentim no piano, Tó Viegas na guitarra acústica e guitarra portuguesa, João Gentil no acordeão, Bruno Vítor no contrabaixo e João Vitorino na guitarra elétrica –, Viviane transfigurou por completo a Casa da Criatividade, ora dando-lhe o cunho intimista dum café no Quartier Latin, ora conferindo-lhe a animação duma concorrida praça em Montmartre ou o luxo dum sumptuoso salão da Opera de Paris.

Senhora de uma voz extraordinariamente versátil, plena de graciosidade na pose e no gesto e com um francês límpido, Viviane encantou a plateia ao interpretar temas que são hoje verdadeiros ícones da “chanson française”. Interagindo com o público, a cantora lembrou episódios marcantes da vida de Edith Piaf, de “La Vie En Rose”, escrita pela própria Piaf e esquecida na gaveta até ser resgatada por um produtor, à noite de 28 de Outubro de 1949 em que a francesa cantou perante o seu público depois de saber que o pugilista Marcel Cerdan, o grande amor da sua vida, acabara de falecer num desastre aéreo nos Açores. Ao mesmo tempo, provou o quanto o mundo deve a Piaf e à imortalidade da sua música, trazendo à memória de todos um vasto leque de poemas que julgávamos esquecidos e melodias que tiveram o condão de convocar episódios de vida invariavelmente felizes.

De forma simples e subtil, Viviane soube conquistar o coração do público, ganhando a sua cumplicidade, a sua voz e as suas palmas a compasso em temas como “Je Ne Regrette Rien”, “Milord”, “Padam Padam” ou “Johnny Tu N'Est Pas Un Ange”. Realce-se a intensidade e a emoção que Viviane pôs na interpretação de “Comme Moi”, o “dueto” arrepiante que manteve com a própria Edith Piaf (projectada no ecrã, a sua voz em fundo) na canção “Mon Dieu” e ainda a sua própria e inspirada versão de “La Vie En Rose”, já no “encore”, a colocar um ponto final no programa. Bastariam estes três momentos para classificar com nota bem alta este concerto. Mas muitos outros houve a merecer destaque, nomeadamente os diálogos com o acordeão em “L'Accordeoniste” ou com o piano em “Le Noël De La Rue”. Sob o céu de S. João da Madeira, foi esta uma “soirée” única de celebração à vida e ao amor!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

CINEMA: "Shoplifters - Uma Família de Pequenos Ladrões"



CINEMA: “Shoplifters – Uma Família de Pequenos Ladrões” / “Shoplifters”
Realização | Hirokazu Koreeda
Argumento | Hirokazu Koreeda
Fotografia | Ryûto Kondo
Montagem | Hirokazu Koreeda
Interpretação | Lily Franky, Sakura Ando, Mayu Matsuoka, Jyo Kairi, Miyu Sasaki, Sosuke Ikematsu, Yuki Yamada, Moemo Katayama, Daisuke Kuroda, Kazuaki Shimizu
Produção | Kaoru Matsuzaki, Hijiri Taguchi, Akihiko Yose
Japão | 2018 | Crime, Drama | 121 Minutos | M/14
Cinema Dolce Espaço
07 Dez 2018 | sex | 16:00


Vencedor da Palma de Ouro na edição deste ano do Festival de Cannes, “Shoplifters – Uma Família de Pequenos Ladrões” aborda as dinâmicas muito próprias criadas em torno de um grupo de pessoas próximas entre si. A história tem o seu epicentro em Tóquio, onde descobriremos um homem e uma criança (pai e filho?) que vivem do pequeno furto em supermercados. No regresso a casa - um barraco miserável sufocado pelos imponentes arranha-céus da grande metrópole -, há uma mulher à espera deles, a avó, bem como duas raparigas. A “família” irá crescer com a chegada da pequena Yuri, abandonada pelos pais e resgatada pelos dois delinquentes.

Embora atípica, a família volta a ser o instrumento de que Hirokazu Koreeda se serve para pensar os grandes temas da existência humana. No caso concreto, um pequeno núcleo funciona como refúgio em situações de aperto, o realizador a dizer-nos que, mais do que os laços naturais, o acolhimento e a solidariedade são palavras-chave na forma como os seus membros se comportam. São muitos os momentos que sustentam esta visão ao longo do filme, nomeadamente a cena em que, perante a proximidade da morte, a avó sussurra um “obrigada” que incorpora uma enorme gratidão apesar de toda uma vida vivida à margem da sociedade.

É surpreendente o que Koreeda consegue dizer num filme que se pode considerar minimalista, a acção praticamente resumida a ambientes fechados, que tanto podem ser reais, como a casa de habitação, ou metafóricos, como a unidade familiar. A partir dum argumento muito simples, o realizador constrói uma crítica severa a uma sociedade que se mostra incapaz de entender as relações que verdadeiramente contam. Os momentos de felicidade resultantes da viagem que a família faz até à beira mar, por exemplo, depressa serão abafados pela legião de assistentes sociais, juízes e policias que se apressam a restabelecer a (sua) ordem. Porque importa não revelar muito mais, restará dizer que estamos perante um dos grandes filmes de 2018, devidamente recompensado com um dos prémios de cinema de maior prestígio e, talvez mais importante do que isso, com as opiniões elogiosas dum vasto público.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

CONCERTO: Harlem Gospel Choir



CONCERTO: Harlem Gospel Choir
Cine-Teatro de Estarreja
01 Dez 2018 | Sab | 21:30


Há uma década que os Harlem Gospel Choir elegem Portugal para uma série de concertos nesta altura do Natal. Voltaram a fazê-lo este ano, numa digressão que incluiu na sua agenda o Cine-Teatro de Estarreja, propondo um momento único de festa e celebração da música através de um repertório cuidadosamente escolhido entre os seus temas mais conhecidos e aclamados. Mantendo um diálogo constante com o público e convidando a uma participação activa nos vários temas interpretados, o Harlem Gospel Choir contagiou os presentes e pôs a sala a dançar, literalmente, ao longo de quase duas horas, derramando magia nas suas vozes e nos seus gestos e ritmos.

Composto por nove elementos e dois instrumentistas – teclados e percussão -, o Harlem Gospel Choir é uma espécie de “globetrotter” da música coral, aliando ao virtuosismo e qualidade vocal um sentido único do espectáculo, fazendo de cada concerto um momento de júbilo. Em Estarreja, o coro arrancou com “I Love to Praise Him” e “Jesus Is His Name”, dois temas evangélicos entoados com uma alegria e uma energia transbordantes, dando o mote para o muito de bom que estava para vir. Seguiu-se um momento de tributo a Aretha Franklin, recordando a “rainha da soul” recentemente desaparecida e vincando a importância do seu exemplo na génese e essência deste grupo. “Take My Hand, Precious Lord”, “You Make Me Feel (Like a Natural Woman)” ou “Respect” foram hinos sentidos nas vozes do grupo, Aretha lembrada com intensidade, respeito e uma profunda emoção.

Interpretada de forma magistral por uma das vozes femininas do coro, num solo de arrepiar, “Amazing Grace” surgiria imediatamente após o intervalo, mostrando o porquê de ser este um dos temas mais amados pelos americanos e um dos preferidos da quadra natalícia. Houve ainda lugar a um “duelo de pandeireta”, momento divertido e de enorme virtuosismo à volta deste popular instrumento, bem como uma interpretação extraordinária de “Oh Happy Day”, abrilhantada pela presença em palco de Cátia, uma jovem “repescada” na assistência e que deu uma réplica com tanto de fantástico como de absolutamente inesperado. Vibrante e arrebatada, “Celebration” foi o “grand finale” dum concerto que perdurará na memória daqueles que tiveram o privilégio de o viver e sentir.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

LIVRO: "Perguntem a Sarah Gross"



LIVRO: “Perguntem a Sarah Gross”,
de João Pinto Coelho
Ed. Publicações Dom Quixote, Abril de 2015


A mim, como certamente a muitos outros leitores, o Prémio LeYa atribuído no ano passado a João Pinto Coelho fez virar as atenções sobre “Os Loucos da Rua Mazur”. Do prazer que retirei da sua leitura e do qual, em devido tempo, dei conta AQUI no Blogue, resultou a curiosidade em conhecer o livro de estreia deste autor, “Perguntem a Sarah Gross”, finalista do mesmo Prémio em 2014. A oportunidade surgiu agora, no final de um ano repleto de tantas e tão boas leituras, a cujo conjunto este livro acaba, necessariamente, por se juntar.

São vários os pontos de contacto entre os dois romances do autor, nomeadamente a acção centrada na Polónia em plena Segunda Guerra Mundial, as motivações religiosas e políticas como fonte de conflito entre católicos e judeus, a construção da narrativa em tempos paralelos e separados algumas décadas entre si ou mesmo uma enorme capacidade descritiva que confere a ambos um cunho marcadamente cinematográfico. Num aspecto, porém, eles divergem: Enquanto “Os Loucos da Rua Mazur” lança o olhar sobre um episódio muito particular, mostrando que o mal está em cada um de nós, em “Perguntem a Sarah Gross” esta questão do mal é circunstancial e tem implicações diversas, desde logo ideológicas. É como se, com a escrita do primeiro livro, tivessem ficado coisas por dizer e o autor sentisse a necessidade de as particularizar numa nova abordagem, provando assim a universalidade do mal.

João Pinto Coelho revela aqui a sua faceta de corredor de fundo. Mostra-se “prudente” nos capítulos iniciais, mas vai “abrindo a passada” com o avançar das páginas para terminar de forma avassaladora, num arrebatamento apenas alcançável pelos maiores. Nesta história que, no cenário improvável de um colégio da Nova Inglaterra, junta duas mulheres marcadas pelo passado e portadoras de segredos terríveis, são muitas as feridas abertas pelo mal que teimam em não sarar. O mérito do autor está em saber segurar as pontas duma história que é, sobretudo, uma viagem aos mistérios da alma humana e ao modo como consegue conviver com os demónios do passado, ao mesmo tempo que nos fala de momentos felizes, de amor incondicional, de amizades, de cumplicidades, de superação. Dizer muito mais seria revelar as extraordinárias surpresas que o livro encerra, pedindo-se ao leitor que embarque nesta aventura de olhos fechados e de coração aberto, deixando-se levar pela emoção.

domingo, 2 de dezembro de 2018

CONCERTO: Orquestra de Jazz de Matosinhos com João Paulo Esteves da Silva



CONCERTO: “Bela Senão Sem”
Orquestra de Jazz de Matosinhos com João Paulo Esteves da Silva
Novembro Jazz 2018
Casa da Criatividade
30 Nov 2018 | sex | 22:00


Ponto final na primeira edição do Novembro Jazz. “Bela Senão Sem”, projecto que em 2011 juntou a Orquestra de Jazz de Matosinhos e o pianista João Paulo Esteves da Silva, foi a proposta de eleição para o encerramento de um certame recheado de excelente música, ao encontro de um publico que, como nos anteriores concertos, praticamente esgotou a sala. É para esse público e para o entusiasmo com que correspondeu às valiosas ofertas desta muito auspiciosa edição inaugural do Novembro Jazz, que vai a primeira nota de apreço, visto caucionar, com o vigor da sua presença e o calor das suas palmas, esta nova aposta cultural do Município de S. João da Madeira. Longa vida, pois, ao Novembro Jazz!

Do público para o palco, o programa deste concerto incidiu exclusivamente num álbum cujo nome, jogando com os mesmos elementos, subverte um trocadilho. Na prática, isto corresponde à ideia de pegar em material composto por João Paulo Esteves da Silva, trabalhá-lo com arranjos do próprio e ainda de Pedro Guedes e de Carlos Azevedo, os dois directores musicais da OJM, para daí resultar um conjunto de oito composições que se distinguem pela harmonia dos seus temas e pelo seu carácter genuinamente português. O piano de João Paulo Esteves da Silva esteve em plano de evidência, tanto nos diálogos prolixos que manteve com a orquestra como nos eloquentes e inspirados solos, reveladores dum apurado domínio musical e dum extraordinário bom gosto. Foi assim em “Candeia”, o primeiro tema interpretado, como nos seguintes “Moché Salyó de Misraim” - um casamento perfeito entre o tradicional e o jazz -, “Fado Chão” e “Bela Senão Sem”, neste último a concertina a “roubar” ao piano o lugar de excelência.

Terna e generosa, “Canção Açoreana” constituiu um momento único de emoção e beleza, as notas dedilhadas ao piano ao encontro do saxofone tenor de Mário Santos para um “voo nas asas do sonho” que, para gáudio do público, viria a repetir-se no encore (que quase esteve para não acontecer). “Tristo” foi outro momento de enorme inspiração, vivendo em grande medida do diálogo entre o piano e a guitarra de Nuno Ferreira, seguindo-se “Fantasmas” - a erudição à flor da pele, num exercício colectivo de improviso que resulta fascinante no virtuosismo de intérpretes como Daniel Dias ou Andreia Santos, Ricardo Formoso ou Javier Pereiro – e “Pode Ser Uma Serra”, a concertina num diálogo requintado com a guitarra, com a bateria de Marcos Cavaleiro e com o contrabaixo de Demian Cabaud. Verdadeiro “standard” do jazz português, como fez questão de referir Pedro Guedes, o maestro nesta noite em S. João da Madeira, “Certeza” constituiu o fecho perfeito de um delicioso concerto e de um Festival que colocou a fasquia a um nível particularmente alto. A repetir no próximo ano!

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

CONCERTO: Miguel Araújo e Tiago Nacarato



CONCERTO: Miguel Araujo e Tiago Nacarato
Cine-Teatro de Estarreja
24 Nov 2018 | sab | 21:30


Estou convencido que a “família” da música portuguesa será suficientemente restrita para que todos se conheçam a todos. E se nuns casos as afinidades são mínimas, resultando num natural “virar de costas”, noutros verifica-se uma total empatia entre os músicos e os respectivos projectos, daí resultando trabalhos em conjunto deveras interessantes, a merecer a atenção e aclamação do grande público. Terá sido esta a base do concerto que juntou no palco do Cine-Teatro de Estarreja, na noite do passado sábado, Miguel Araújo e Tiago Nacarato. Ao facto de serem quase vizinhos e de terem frequentado a mesma escola, embora com mais de uma década de vida a separá-los, junta-se a admiração que sentem pelo trabalho um do outro e o prazer em tocarem juntos. Daí este concerto que se pretendeu intimista e, sobretudo, de partilha de interesses, estendendo-se a uma sala completamente lotada e que foi convidada a participar activamente mediante pedido das músicas que mais gostaria de ouvir.

“Tempo”, o segundo single daquele que será o álbum de estreia de Tiago Nacarato, com edição prevista para 2019, marcou de forma feliz o início do concerto, com a dupla a mostrar-se em grande forma e a interpretar, sentidamente, esta balada que fala de um homem que reconhece não ser o melhor partido para a mulher e, “antes que o apego se apegue ainda mais”, a aconselha a buscar a felicidade noutra pessoa. A partir daqui, porém, esgotaram-se praticamente as surpresas. “Sampa” de Caetano Veloso, “No Rancho Fundo” de Ary Barroso, “Reader’s Digest” e “José”, ambas de Miguel Araújo, remeteram de forma clara para os concertos que Miguel Araújo e António Zambujo deram em 2016 e que esgotaram os Coliseus de Lisboa e do Porto ao longo de 28 apoteóticas noites. Mas a sensação de “déjà-vu” viria a adensar-se em mais uma mão cheia de músicas, sobretudo para aqueles que marcaram presença no Coliseu do Porto no “Cidade Grande Ao Vivo” ou que, em algum momento da digressão de “Giesta” (2017), tiveram a oportunidade de escutar Miguel Araújo em palco. Sobretudo esses perceberam que, em Estarreja, faltou o piano a “Ai Margarida”, faltaram Os Kappas a “Like a Rolling Stone”, faltou Ana Moura a “E Tu Gostavas de Mim” e faltou António Zambujo ao “Pica do 7”.

Muito do concerto foi cantado em brasileiro, percebendo-se numa voz educada a predilecção de Nacarato pelos ritmos do país irmão. Ao lado de composições como “O Mundo é um Moinho” - um tema de Cartola, do álbum homónimo (1976) e que Gisela João integrou em “Nua”, o seu último trabalho -, “Tô” de Tom Zé, “Sorri” (“Smile”) de Charlie Chaplin, adaptado por Djavan, ou “A Rita”, dos primórdios de Chico Buarque enquanto cantautor, o público recordou ainda “Onde Anda Você”, um tema de Vinicius de Moraes que terá tornado conhecido o jovem cantor e arrebatado corações na quinta edição do “The Voice Portugal”, dando mesmo lugar a um vídeo que se tornou viral na internet. Ao piano, Miguel Araújo fez questão de lembrar o Natal que se avizinha, interpretando “The Christmas Song” de Bob Wells e Mel Tormé, e houve lugar ainda a uma surpresa com “O Catavento da Sé”, um tema da autoria de Araújo e que António Zambujo incluiu no seu novíssimo álbum, “Do Avesso”. Uma última palavra para “A Dança”, composição escrita e interpretada por Tiago Nacarato e que foi o primeiro single do disco que se avizinha. À semelhança de “Tempo”, este foi um dos poucos momentos que valeram realmente a pena num concerto “lindinho, limpinho e bonzinho”. Mas que não foi além disso!

terça-feira, 27 de novembro de 2018

TEATRO: "Veneno"




TEATRO: “Veneno”,
de Cláudia Lucas Chéu
Direcção | Albano Jerónimo
Assistente de encenação | Cláudia Lucas Chéu
Concepção plástica | António MV
Interpretação | Albano Jerónimo, Luís Puto
Participação especial | Leonor Devlin
Voz off | Francisca van Zeller
Produção | teatronacional21
Centro de Artes de Ovar
23 Nov 2018 | sex | 22:00


Até seria cómico se não fosse tão terrivelmente trágico. “Veneno”, peça escrita por Cláudia Lucas Chéu em 2015 e levada agora à cena num quase monólogo dirigido e interpretado por Albano Jerónimo – Luis Puto tem duas ou três intervenções esporádicas em palco -, é toda ela um olhar impiedoso e cáustico sobre uma sociedade fracassada, onde a intolerância, a discriminação, a prepotência e a violência duma estreita minoria que detém o poder se reflecte, de forma inclemente e cruel, na vida dos mais fracos e vulneráveis. Agitar consciências e obrigá-las a mergulhar numa estrutura social profundamente abalada e em completa desagregação, no interior do próprio indivíduo como na instituição família ou de forma ainda mais lata, foi o objectivo de uma hora e meia de excelente teatro apresentado na noite da passada sexta feira, para uma mancha de público que quase preencheu a sala do Centro de Artes de Ovar.

O início da peça é revelador a todos os títulos: Uma “jovem”, coleante e produzida, liga o palco e a plateia em frenéticos passos de dança e gestos provocantes. Estamos no Portugal pimba, caucionado desde logo pelos espectadores que não cessam de bater palmas a compasso e de, nalguns casos, juntar ao riso alarve os piropos a (des)propósito. É nesta particular “geografia” que se insere o protagonista desta peça, um homem de meia idade que acaba de perder o emprego e se percebe perdido de si próprio. Estirado no sofá da sua sala, o álcool solta-lhe a língua e estimula o palavrão fácil. Berra com os filhos, amaldiçoa a mulher e o brasileiro com quem ela fugiu, insulta o patrão. Desfeitos que estão os laços sociais, morais, afectivos e emocionais que o vinculavam ao “status”, uma vida vazia de tudo desfila agora na primeira pessoa ante o olhar atónito do espectador. O discurso sobe de tom, as revelações são chocantes, o desfecho adivinha-se.

Não descurando o mérito de Cláudia Lucas Chéu no desenvolvimento duma narrativa crua e implacável, com tanto de intenso como de actual, é para Albano Jerónimo que vai uma enorme ovação pela forma como encarna a personagem principal. Metamorfoseando-se na figura dum homem desequilibrado e doente, que se refugia na bebida para escapar de si próprio e dos seus fantasmas, ele é o vínculo vivo entre o texto, as directivas do encenador (no caso o próprio actor) e o olhar e sentir do público. À sua capacidade interpretativa se deve a forma como a peça se derrama sobre o espectador, desarmando-o, primeiro, para de seguida o arrasar com uma sequência precisa e inclemente de murros no estômago. Visceral, abjecta, violenta, intensa, obscena, corrosiva, a peça é todo um desdobrar de emoções que nos confrontam com o nosso próprio eu e nos apontam o dedo face àquilo em que nos tornámos. Um nó na garganta e um rosto amargo e fechado são os primeiros sintomas dum “Veneno” que alastra nas veias e corrói a alma.

[Foto: José Caldeira / descla.pt]

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

CONCERTO: Danças Ocultas com Jacques Morelenbaum e Dora Morelenbaum



CONCERTO: Danças Ocultas com Jacques Morelenbaum e Dora Morelenbaum
Misty Fest 2018
Casa da Música
21 Nov 2018 | qua | 21:00


Quando todos pensavam que, com o sublime “Amplitude” - álbum lançado em 2016 e que contou com a participação da Orquestra Filarmonia das Beiras -, os Danças Ocultas tinham atingido o topo duma carreira de duas décadas de enorme sucesso e já pouco mais teriam para dar, eis que surgem agora, com redobrado “fole”, oferecendo uma nova pérola à qual deram o nome de “Dentro Desse Mar”. Um mar que é o vasto e imenso Atlântico, esse mar que abraça, com mãos ambas, Portugal e o Brasil. Foi para nos dar conta desse “abraço” que Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel, quarteto de Águeda que trata as concertinas como ninguém, subiram ao palco da Casa da Música, trazendo na bagagem mil histórias para contar e mil imagens para mostrar. Mas não vieram sós. No seu seio, acolheram o violoncelista Jacques Morelenbaum – igualmente produtor deste novo trabalho -, Dora Morelenbaum e Carminho, que emprestaram a voz a quatro temas interpretados ao longo do concerto, um quarteto de cordas composto por Mafalda Vilan, Tiago Afonso, João Tiago Dinis e Raquel Andrade e ainda Quiné Teles nas percussões e Marco Figueiredo nas teclas.

Com o som e o ritmo de “Azáfama” a colorirem uma sala bem composta de público, dir-se-ia que o concerto não poderia ter tido melhor começo. Trata-se dum tema alegre e cheio de vida, que remete para sonoridades do centro da Europa, mais propriamente para os Balcãs (quem viu “Gato Preto, Gato Branco” e é fã de Emir Kusturica perceberá muito bem a particular geografia desta música). Entre “S. João”, a música seguinte, e o intimista e muito belo “Oniris” (também aqui podemos associar o cinema e a geografia a este tema, situando-o na Grécia e invocando “A Eternidade e um Dia”, um filme de Theo Angelopoulos com música de Eleni Karaindrou), Dora Morelenbaum marcou presença no palco para interpretar magistralmente “Dessa Ilha”, um poema de Arnaldo Antunes, e “As Viajantes”, com letra de Carlos Rennó. Seguiu-se “Esse Olhar”, um dos temas icónicos do trabalho anterior, e ainda duas músicas de cariz bem popular, “Moda Assim ao Lado” e “Queda d'Água”, do álbum de estreia que tomou o nome do grupo. Embora sem intervalo, devemos aceitar que “Sorriso” marcou o fim da primeira parte do concerto, revelando-se preciosa a forma como o grupo recuperou um tema surgido em 2004 com o álbum “Pulsar”, transformando-o, quiçá, no mais bem acabado exemplo desta ponte musical entre os dois países irmãos.

E se “Sorriso” fechou a primeira metade do concerto, “O Teu Olhar” deu o “pontapé de saída” para a segunda parte, na voz inigualável de Carminho. O resto do concerto foi um saltitar constante entre sons e ritmos, fazendo alternar temas como “Bailar em Silêncio” ou “Soldado”, do álbum mais recente, com autênticos clássicos dos Danças Ocultas, como “Bulgar” (do álbum “Ar”, de 2011), “Tristes Europeus” e “Casa do Rio”, ambos do já referido “Pulsar”, ou ainda “Dança II”, do álbum “Danças Ocultas”. Tempo ainda para um momento de erudição verdadeiramente inesquecível onde se fizeram sentir, um arrepio na pele, os acordes de “Summertime”. Já nos encores, com duas longas ovações e outras tantas vindas ao palco, o público teve o privilégio de voltar a escutar Carminho, recordando a sua participação em “Amplitude” com “O Diabo Tocador”. A finalizar, “No(c)Turno das 7”, talvez aquele que é o tema mais bonito de todos quantos os Danças Ocultas escreveram até hoje e que nos é oferecido logo no álbum de estreia. O mais belo final de todos, um bálsamo para o espírito e com ele a certeza de ter sido este um dos mais fantásticos concertos do ano!

[Foto: dn.pt]

domingo, 25 de novembro de 2018

CINEMA: "Não Deixeis Cair em Tentação"



CINEMA: “Não Deixeis Cair em Tentação” / “La Prière”
Realização | Cédric Kahn
Argumento | Fanny Burdino, Samuel Doux, Cédric Kahn
Fotografia | Yves Cape
Montagem | Laure Gardette
Interpretação | Anthony Bajon, Damien Chapelle, Alex Brendemühl, Louise Grinberg, Hanna Schygulla, Antoine Amblard, Maïté Maillé, Colin Bates, David Campagna
Produção | Sylvie Pialat, Benoit Quainon
França | 2018 | Drama | 107 Minutos | M/12
Cinema Dolce Espaço
25 Nov 2018 | dom | 16:00


Na sequência dum enorme susto provocado por uma overdose de heroína, Thomas concorda em receber ajuda num centro de desintoxicação. A princípio, a dificuldade em cumprir as regras estritas da instituição católica, localizada no ambiente austero das montanhas, é tremenda, levando a que a frustração e a raiva tomem conta do jovem e, com elas, o desejo de fugir de regresso à sua cidade natal. Mas o encontro com Sybille, uma jovem arqueóloga, fá-lo-á mudar de ideias a ponto de, com o tempo, Thomas começar a considerar a hipótese de ingressar no Seminário e vir a ser ordenado padre.

Não se afirmando, necessariamente, como um filme religioso, “Não Deixeis Cair em Tentação” debruça-se, de forma clara, sobre as questões da fé. Apesar do ascetismo formal que caracteriza a obra de Cédric Kahn, o realizador francês mostra que sabe organizar-se num campo de acção suficientemente vasto para não fazer do filme um mero repositório de receitas rumo à desintoxicação e à cura. A carga de ambiguidade colocada pelo protagonista em cada palavra, em cada gesto, dá-nos a dimensão desse esforço de dar sentido à vida por intermédio de um lento e doloroso processo de criação de uma nova identidade em plena adolescência. Thomas, o jovem viciado em drogas que transforma miraculosamente a sua raiva incorrigível e silenciosa num mar de paz interior com vista ao sacerdócio, é tudo menos um santo. As múltiplas contradições no seu percurso levantam sérias dúvidas quanto à sinceridade da sua vocação.

Mas o filme propõe igualmente uma reflexão sobre o fenómeno social actual duma comunidade fechada sobre si mesma, efectiva nos seus pressupostos imediatos em virtude duma vigilância apertada e dum reforço do encorajamento enquanto forma de terapia, mas condenada ao fracasso na hora de devolver ao mundo exterior aqueles que acolheu e procurou tratar. Percebe-se um certo fatalismo nesta visão do mundo, onde mesmo os mais exemplares sobreviventes do inferno das drogas se mostram incapazes de conquistar a necessária capacidade de se manter à tona da água no tormentoso caudal da existência. Cédric Kahn não é, realmente, o tipo de apóstolo eufórico que abre novas perspectivas filosóficas através do cinema. A sua abordagem e estilo são demasiado pragmáticos e friamente pensados para negarem a existência de artificialismos que preencham o vazio inerente a cada pessoa e afastar qualquer ilusão numa cura milagrosa desta grande praga civilizacional. “Não Deixeis Cair em Tentação” é isto e é, também, o melhor filme visto até à data em 2018. Absolutamente imperdível!

VISITA GUIADA: "O Porto Regenerado"


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VISITA GUIADA: “O Porto Regenerado”
Orientada por | César Santos Silva
Organizada por | Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos
24 Nov 2018 | sab | 10:00


De acordo com os Census 2011, o Porto foi a capital de distrito com maior quebra da população residente nos últimos 35 anos, passando das 328.778 pessoas em 1981 para as 233.061 em 2011 e para uma população estimada de pouco mais de 214 mil em Dezembro de 2017. São dados que, se olhados friamente, vêm contrariar aqueles que apontam o turismo como o grande causador da debandada, pedindo que se recue aos anos 80 e 90 para se perceber o que mudou na economia portuguesa, a quantidade gigantesca de negócios que encerraram devido à proliferação dos centros comerciais, a forma como o património se degradou e o quanto se agravou o problema da segurança. É verdade que, a partir do momento em que o conjunto formado pelo Centro Histórico do Porto, a Ponte Luis I e o Mosteiro da Serra do Pilar foi classificado como Património Mundial pela UNESCO, a pressão colocada pelo turismo tem contribuído para acelerar este processo, aconselhando a olhar o fenómeno à luz duma nova variável cujo valor se aproxima já dos 4 milhões de hóspedes por ano e um crescimento percentual sustentado na casa dos dois dígitos. Porém, não é menos verdade que o Porto está a abandonar, rapidamente, o seu ar fechado, elistista, burguês e provinciano e vive hoje dias mais felizes, devolvendo-se ao mundo com um cunho marcadamente cosmopolita e apresentando-se como um lugar de convívio, de fraternidade e de liberdade.

Foi ao encontro do fenómeno turístico e das suas repercussões na imagem do “novo” Porto que a Confraria das Almas do Corpo Santos de Massarelos propôs, para a manhã de ontem, uma Visita Guiada conduzida pelo historiador César Santos Silva e que tomou o nome de “O Porto Regenerado”. Ao longo de duas horas e meia, os participantes foram convidados a olhar com atenção os edifícios e equipamentos que integram o coração da cidade e puderam perceber as enormes transformações sofridas ou em curso. Não é necessário um grande esforço para ver que as marcas deste processo estão por todo o lado: Nos bares e cafés que se estendem para a rua, na oferta de alojamento local em doses reforçadas, nas ouriversarias que viram casas de chá, nos bancos que são hoje hotéis, nas outrora fábricas que vão dando lugar a conjuntos de apartamentos, nas papelarias transformadas em galerias, nos cafés tradicionais que abrigam novos restaurantes “da moda” onde a comida de plástico é rainha ou nos belíssimos palacetes que albergam agora boutiques e lojas de toda a espécie.

Entre o antigo e o novo (ou renovado) mas sempre atento aos “pormaiores”, o grupo saiu dos Leões rumo à Praça de Carlos Alberto, seguiu pela Rua das Oliveiras e José Falcão, fez um pequeno desvio até ao Largo do Moinho de Vento, desceu a Rua da Fábrica até aos Aliados, cruzou Sampaio Bruno até Sá da Bandeira, atravessou S. Bento e percorreu a Rua das Flores até concluir esta visita no Largo de S. Domingos. Viu-se que os afectos ainda marcam a toponímia da cidade - no Piolho como na Praça de Santa Teresa, nos Leões como no Túnel de Ceuta - e que as mudanças não destroem o que a memória conserva. Que locais como o Cinema Lumière, o “showroom” da Fábrica de Cerâmica das Devesas, o quarteirão do Conde de Vizela, a Real Fábrica de Tabaco Portuense, o Banco Pinto de Magalhães ou o Restaurante Regaleira desapareceram, mas não a sua identidade. Tão pouco as suas histórias, que César Santos Silva, conversador incansável e profundo conhecedor da cidade, fez questão de associar aos locais visitados, recordando figuras como as do Rei Carlos Alberto ou Aurélio da Paz dos Reis, do escultor Henrique Moreira ou do arquitecto Marques da Silva, de Carlos Alberto Cabral e Madame Blanche, de D. Maria Borges e de muitos outros.

Paredes entaipadas, andaimes a perder de vista, empenas escoradas, interiores em profunda remodelação, tarjas que publicitam lojas e condomínios, reclames de gabinetes de arquitectura e hostels, montras que anunciam os seus produtos em várias línguas, alguns “gritos” de resistência e protesto e, sobretudo, muita gente, rua abaixo, rua acima, gente jovem e divertida que se exprime em espanhol, francês, inglês, russo, grego, mandarim ou swahili são as marcas do Porto regenerado. “Para o bem e para o mal”, como referiria, muito a propósito, o Professor César Santos Silva. É este o resumo de mais uma fantástica visita onde “tudo tem a ver com tudo” e da qual se retira o conselho a estar atento às marcas e aos efeitos da pequena-grande revolução que, por estes dias, acontece na cidade do Porto. Mas há mais marcas e revoluções prometidas para as próximas iniciativas da Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos, algumas das quais decorrerão ainda este ano. Basta estar atento e ir consultando a página http://confrariacorposantomassarelos.pt/.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

CONCERTO: Avishai Cohen Trio



CONCERTO: Avishai Cohen Trio
Misty Fest 2018
Casa da Música
20 Nov 2018 | ter | 21:00


Após a épica digressão de apresentação de “1970”, o seu mais recente trabalho, Avishai Cohen “regressou à calma”, subindo ao palco da Casa da Música, na noite de ontem, para um concerto que viria a revelar-se memorável. Ao longo de uma hora e meia, o contrabaixista, vocalista e compositor israelita mostrou o porquê de ser uma das grandes figuras do jazz contemporâneo, convidando um entusiástico público que esgotou completamente a sala a uma viagem autêntica e meditativa através duma música que, respeitando a tradição, não se coibiu de mostrar novos e improváveis caminhos.

Dando provas dum virtuosismo inexcedível, Cohen revelou-se insaciável na hora de extrair do contrabaixo tudo o que ele pode dar, estabelecendo com o instrumento uma fisicalidade intensa, a roçar o erotismo. No frenético dedilhar das cordas, nos golpes seguros do arco ou na batida ritmada da caixa de ressonância, foi muito mais do que apenas musica aquilo que o público pôde receber, num exercício único de paixão e superação. Justo será dizer, no entanto, que a dimensão superior destes momentos exaltantes foi enormemente potenciada graças aos dois músicos que acompanharam em palco o líder. Elchin Shirinov fez do piano um interlocutor privilegiado dos diálogos com o contrabaixo enquanto Itamar Doari conseguiu a extraordinária proeza de pôr uma bateria a gritar bem alto sem quase se fazer ouvir.

Parco em palavras – retenho pouco mais do que essa novidade que quis partilhar com o público, a de que estará prestar a conseguir a cidadania portuguesa -, Avishai Cohen omitiu o nome dos temas que fizeram parte do alinhamento deste concerto. Resumiram-se a uma dúzia, o que permite afirmar, com toda a certeza, que uma enorme fatia da obra discográfica do artista ficou de fora. Aquilo que ouvimos, porém, é o melhor e mais significativo estímulo para a descobrirmos em toda a sua plenitude. Harmoniosa e delicada, plena de sonoridades reveladoras de influências múltiplas – do Leste Europeu ao Médio Oriente, dos ritmos africanos às ambiências urbanas do Novo Mundo –, a música de Avishai Cohen é um dos mais perfeitos lenitivos para a alma. Em suma, um concerto memorável, daqueles que valem por uma vida, que nos reconciliam com o mundo e connosco próprios!

[Foto: Jos L. Knaepen / avishaicohen.com/imggallery]

domingo, 18 de novembro de 2018

CINEMA: "Utoya, 22 de Julho"



CINEMA: “Utoya, 22 de Julho” / “Utøya 22. Juli”
Realização | Erik Poppe
Argumento | Siv Rajendram Eliassen, Anna Bache-Wiig
Fotografia | Martin Otterbeck
Montagem | Einar Egeland
Interpretação | Andrea Berntzen, Aleksander Holmen, Solveig Koløen Birkeland, Brede Fristad, Elli Rhiannon Müller Osbourne, Jenny Svennevig, Ingeborg Enes, Sorosh Sadat
Produção | Finn Gjerdrum, Stein B. Kvae
Noruega | 2018 | Drama | 93 Minutos | M/14
Cinema Dolce Espaço
18 Nov 2018 | dom | 18:30


Sete anos volvidos sobre os atentados terroristas de Oslo, perpetrados pelo extremista Anders Breivik, chega agora ao grande ecrã “Utoya, 22 de Julho”, com assinatura do realizador Erik Poppe. Descrevendo, de forma realista, o ataque ao acampamento de jovens da “Universidade de Verão” do Arbeiderpartiet, o Partido Trabalhista Norueguês, o filme debruça-se sobre os 72 intermináveis minutos que durou o ataque e cujo saldo trágico se estima em 69 mortos.

Desenvolvido a partir do olhar de uma vítima fictícia da tragédia, o filme acompanha, em tempo real, os momentos de terror vividos na ilha de Utøya, conseguindo essa extraordinária proeza técnica de ser, todo ele, filmado num único plano. Perseguindo freneticamente as vítimas, a câmara transmite ao espectador a sensação de estar, também ele, no meio dos acontecimentos, multiplicando por mil o teor de autenticidade do filme e oferecendo momentos de fazer gelar o sangue. Aqui reside o grande predicado desta obra, ao retratar o medo naquilo que ele tem de mais profundo e doentio. O desespero crescente das personagens é o mesmo do espectador ao não conseguir perceber-se de onde poderá surgir o atacante e quem serão as suas próximas vítimas.

Uma palavra ainda para o excelente naipe de actores reunidos em torno deste drama perturbador, em particular para a actriz principal, Andrea Berntzen, que brilhantemente personifica Kaja. Embora ficcionadas, as personagens são baseados nas histórias verdadeiras dos sobreviventes e esse é ainda um mérito de Erik Poppe, uma vez que o argumento é baseado numa história sua. Não é, seguramente, um filme de visão fácil, mas é um filme importante na medida em que traz de volta as lembranças dum acontecimento terrível e que nos aconselha a manter a guarda alta contra toda e qualquer espécie de extremismos. Um filme a não perder!

CONCERTO: Dead Combo



CONCERTO: Dead Combo
Cineteatro António Lamoso, Santa Maria da Feira
17 Nov 2018 | sab | 22:00


Apesar da doença que continua a impedir Pedro Gonçalves de dar o seu contributo à banda que ajudou a criar, os Dead Combo prosseguem com a digressão de promoção do seu mais recente álbum, “Odeon Hotel”. Ao aportarem na noite de ontem ao Cineteatro António Lamoso, tinham à sua espera uma sala repleta de fãs incondicionais, que vibraram incessantemente com o alinhamento escolhido para duas horas de concerto e que, se incidiu sobretudo no novo trabalho, não deixou de fora os clássicos duma banda a soprar dezasseis velas e com seis álbuns de originais no seu currículo. Em palco, ao lado do “cangalheiro” Tó Trips (guitarras), António Quintino (guitarras, contrabaixo e melódica) mostrou-se à altura da espinhosa tarefa de substituir Gonçalves, Gui, dos Xutos & Pontapés - “um puto novo”, diria Tó Trips –, trouxe mais força ao conjunto atrás do saxofone e das teclas, Gonçalo Leonardo foi um gigante no contrabaixo e Guilherme Melo brilhou bem alto num lugar normalmente ocupado por esse “monstro” da bateria que dá pelo nome de Alexandre Frazão.

Retirados os panos brancos que escondiam os instrumentos, abriu-se a magnífica sala de baile deste “Hotel” bem cosmopolita. Tocados de uma assentada, “Deus Me Dê Grana”, “Mr. & Mrs. Eleven”, “The Egyptian Magician” e “As Quica As You Can” foram o fôlego inicial do novo trabalho, no qual se percebe um maior apuro das guitarras e uma maior vibração da bateria, o todo temperado pelo calor da “voz” do saxofone, num sopro que abraça, com igual enlevo, a morna e o bolero, o merengue e o fado. Fazendo a ponte com os seus trabalhos anteriores, a banda interpretou de seguida “Rumbero”, recuperando uma das faixas emblemáticas de “Vol. 1”, o seu álbum de estreia, ao qual se seguiu “Waits” e “Cuba 1970”, dos álbuns “A Bunch of Meninos” e “Lusitânia Playboys”, respectivamente, numa música muito Buena Vista Social Club e plena de sugestões cinematográficas.

Na segunda metade do concerto manteve-se a mesma toada, com a banda a oferecer ao público mais quatro temas do seu novo trabalho - “In a Mellotron”, “Dear Carmen Miranda”, “Desassossego” e “Theo's Walking” - e a prosseguir na revisitação dos seus álbuns anteriores, recuperando clássicos como “Quando A Alma Não É Pequena”, “Mr. Eastwood”, “Rodada” e “A Menina Dança”, do álbum “Quando a Alma Não é Pequena Vol. II”, “Povo Que Cais Descalço” e “Miúdas e Motas”, do álbum “A Bunch of Meninos”, ou ainda “Lusitânia Playboys”, do álbum com o mesmo nome. Em batidas vigorosas ou por acordes refreados, os Dead Combo trouxeram-nas a marca inconfundível da sua música, ligando Lisboa a La Habana ou à Cidade da Praia em mais um abraço sentido à diáspora. No ar fica a certeza de que a viagem prossegue e vale a pena embarcar nela!

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

TEATRO: "Do Alto da Ponte"




TEATRO: “Do Alto da Ponte”,
de Arthur Miller
Encenação | Jorge Silva Melo
Cenografia e Figurinos | Rita Lopes Alves
Interpretação | Américo Silva, Joana Bárcia, Vânia Rodrigues, António Simão, Bruno Vicente, André Loubet, Tiago Matias, Hugo Tourita, Gonçalo Carvalho, João Estima, Hélder Braz, Inês Pereira/Sara Inês Gigante, Romeu Vala, Miguel Galamba
Produção | Artistas Unidos, Teatro Viriato, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Nacional S. João
14 Nov 2018 | qua | 19:00


Recordado como um gigante do teatro contemporâneo americano, Arthur Miller é considerado um dos grandes retratistas da América do pós-guerra. A ele se devem clássicos como “A Morte de Um Caixeiro Viajante” (1949), “As Bruxas de Salém” (1955), o argumento de “Os Inadaptados”, obra-prima da sétima arte assinada por John Huston (1961) ou este “Do Alto da Ponte” (1955), a primeira incursão dos Artistas Unidos na obra do dramaturgo e que chega agora ao Teatro Nacional S. João, no Porto.

Baseada em factos reais, a peça debruça-se sobre a conflitualidade que estala em casa dos Carbone, uma família constituída por Eddie, estivador num dos muitos portos de Brooklyn, na margem esquerda do East River, a esposa Beatrice e a sobrinha Catherine, que o casal criou após a morte da mãe desta. O precário equilíbrio no seio familiar vê-se mais abalado ainda com a vinda de Itália de dois primos, emigrantes ilegais, sobretudo quando o mais novo dos dois, solteiro, fixa as suas atenções na sobrinha do casal. Dá-se então início a um jogo marcado pela imoralidade de sentimentos como a suspeição, o ciúme, a delação e a traição, o qual terminará da forma mais trágica, sob o manto da vingança.

Estendendo-se da família ao espaço lato da sociedade, este drama moderno remete, ainda que indirectamente, para a sinistra figura do macartismo. É, nessa medida, um pedaço do mundo de Arthur Miller que se abre em palco, sentido de forma intensa por um homem que foi, ele mesmo, vítima da famigerada caça às bruxas. As emoções que percorrem “Do Alto da Ponte” são devidas à mestria de Miller, que tão bem soube construir as histórias de vida da família Carbone e dos que com ela se relacionam, numa parábola que acaba por se revelar extraordinariamente actual. Jorge Silva Melo soube dosear a peça entre o contido e o impulsivo, preenchendo de emoção um palco praticamente despido de adereços. O resultado salda-se em duas horas de excelente teatro, ancorado nas interpretações dum belíssimo naipe de actores, com destaque para a figura de Beatrice, numa notável composição de Joana Bárcia. Para ver até 25 de Novembro.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

LIVRO: "Doida Não e Não!"



LIVRO: “Doida Não e Não!”,
de Manuela Gonzaga
Ed. Bertrand Editora, Fevereiro de 2018


No meu percurso de leitor assíduo e atento, devo confessar que não encontro em biografias um apelo particularmente sedutor. Passam-me pelas mãos de longe em longe, sempre por manifesto interesse em aprofundar o meu conhecimento sobre a vida dos biografados, mas fica-me, normalmente, um sabor a desilusão, ora porque a obra se embrenha em considerandos “técnicos” que a tornam fastidiosa e de difícil entendimento, ora porque se revela demasiado ligeira, a ficção a assomar aqui e ali, retirando-lhe a necessária credibilidade. Daí que comece, desde já, por tirar o chapéu a “Doida Não e Não!”, de Manuela Gonzaga, obra que se configura como honrosa excepção à particular regra da minha experiência pessoal, trilhando com rigor e determinação caminhos de risco e sabendo evitar os muitos escolhos que, seguramente, lhe foram surgindo pela frente. O que é uma virtude!

Não caindo em excessos de qualquer ordem, a autora oferece-nos uma narrativa intensa e rica de imagens, ao encontro de Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma mulher “presa num manicómio por um crime de amor”, como se pode ler na própria capa do livro. O caso desta mulher da alta sociedade do início do século passado, que se vê legalmente privada de liberdade apenas por dar livre curso aos ditames do seu coração, configura um dos mais lamentáveis erros da história da justiça portuguesa, sobretudo porque assente em “doutos” pareceres médicos e confirmado por decreto. Mas ele é também a imagem dum País pequenino e mesquinho, que menorizava o papel da mulher na sociedade e fazia tábua-rasa dos seus direitos, um estigma que, desgraçadamente, vingou até aos dias de hoje.

Detalhando todo o intrincado processo, enquadrando os vários momentos nos espaços que lhes são devidos, pintando retratos de época de enorme riqueza e contextualizando de forma objectiva cada desenvolvimento – os momentos de clausura no Hospital do Conde de Ferreira são disto um bom exemplo -, Manuela Gonzaga oferece-nos uma narrativa intensa e absorvente, de grande rigor histórico, simultaneamente fascinante e aterradora pelo que encerra de maldade humana, arbitrariedade e prepotência, mas também de força e coragem numa luta desigual pelo direito ao reconhecimento e pela reposição da verdade e dignidade. Particularmente interessante é a estrutura formal da narrativa, afastando-se do eixo central sempre que importa particularizar, a ele regressando com a repetição do que ficara dito anteriormente, num “tomar o fio à meada” inteligente e que o leitor agradece. Um excelente livro e que é, ao mesmo tempo, um importante sinal de alerta numa sociedade que ainda vê a mulher como o “sexo fraco” e tem um problema não resolvido com questões como paridade e igualdade de género, discrepâncias salariais e precariedade e, voltando ao assunto do livro, com a forma discriminatória como a justiça portuguesa continua a olhar para a mulher em pleno século XXI.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

CONCERTO: Beatriz Nunes



CONCERTO: Beatriz Nunes
Misty Fest 2018
Auditório de Espinho – Academia
10 Nov 2018 | sab | 21:30


Há momentos assim, em que tudo parece conjugar-se no sentido da perfeição. Primeiro, uns acordes dispersos que ensaiam uma melodia sussurrada e logo a seguir uma voz muito límpida, cheia de doçura, que nos fala do vai e vem das andorinhas a marcarem o ritmo das estações. Como que por magia, à nossa frente abrem-se, de súbito, memórias duma infância feliz, as brincadeiras naqueles dias que pareciam não mais ter fim, banhos no rio, corridas de bicicleta, campeonatos de caricas, tudo envolto numa morna brisa, debaixo dum céu muito azul, repleto de andorinhas. E assim, escutando “Andorinhas”, permanecemos como que suspensos numa outra dimensão, tal como se nesse instante todo o universo convergisse naquela sala, concentrado na pureza da voz de Beatriz Nunes.

De encantamento se fez o concerto que a cantora ofereceu ao (pouco) público de Espinho, no âmbito do Misty Fest 2018. Do primeiro ao último acorde, a ilusão de caminhar num sonho vívido não se dissipou. Como o mais belo dos livros, que nos surpreende e extasia a cada página volvida, o concerto prosseguiu numa toada crescente de cumplicidade e deslumbramento, primeiro com “Ouroboros”, notável composição em contexto jazz e a prova provada de que a voz é o maior de todos os instrumentos, e depois com “Aurora Tem Um Menino”, com arranjos de Jorge Moniz, numa delicada interpretação que imortaliza esta composição do cancioneiro alentejano.

Seguindo um alinhamento que acompanhou, de forma quase fiel, o seu primeiro álbum, “Canto Primeiro”, Beatriz Nunes homenageou o “seu” Barreiro com “Sul e Sueste”, interpretou de forma sublime a “Canção da Paciência”, do maior de todos, Zeca Afonso, mostrou excepcionais dotes de letrista com os lindíssimos poemas que são “Rio Sem Margem”, “Resistência” e “Pedras”, terminando com “Senhora do Ó”, a partir de um poema maravilhoso de Margarida Vale de Gato. Importa dizer ainda que o reconhecimento por momentos tão especiais é devido, em apreciável medida, aos músicos que acompanharam a cantora em palco, do já referido Jorge Moniz na bateria, ao contrabaixista João Custódio e a esse pianista fabuloso que dá pelo nome de Luis Barrigas. A eles muito fica a dever a enorme amplitude e refinamento de sonoridades que, embora abrigadas sobretudo no aconchegante manto do jazz, não descuraram um distinto toque clássico, em sintonia com a formação da cantora. Em breves palavras, é este o retrato vivido e sentido duma inesquecível noite em Espinho. Ficam as memórias e fica, ainda, este “Canto Primeiro”, uma das mais extraordinárias propostas discográficas de 2018. Garantidamente!

[Foto: Auditório de Espinho - Academia / facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

domingo, 11 de novembro de 2018

CONCERTO: Luisa Sobral



CONCERTO: Luisa Sobral
Novembro Jazz
Casa da Criatividade, S. João da Madeira
09 Nov | sex | 22:00


“Se um dia alguém, perguntar por mim / Diz que vivi para te amar / Antes de ti, só existi / cansado e sem nada para dar”. É aqui, à entrada do refrão de “Amar pelos Dois”, que Luisa Sobral, vendo a plateia sem reacção, interrompe a sua interpretação e, entre o espantado e o indignado, diz que “as pessoas de S. João da Madeira não conhecem esta canção”. À provocação respondeu o público da forma mais assertiva, acompanhando a cantora, com entusiasmo, neste verdadeiro “hino nacional”; mas fazendo-o, digo eu, mais para lhe agradar do que por outra coisa. Por vontade própria, continuaria em silêncio, saboreando um tema que pede para ser ouvido como uma oração, em recolhimento, não apenas pela letra e pela forma sublime como Luisa Sobral o interpreta, mas também porque remete para tão gratas recordações, daquelas que nos fazem ter orgulho em sermos portugueses.

Foi este o mote do concerto: Uma Luisa Sobral com uma voz que é um verdadeiro monumento, os acordes de Mário Delgado, nas guitarras, a vestirem de sonoridades incríveis os lindíssimos poemas e, nos intervalos, o diálogo aberto com o público, revelador do verdadeiro prazer de com ele partilhar a noite em S. João da Madeira. Uma noite especial, diga-se, não apenas pela lotação esgotada da sala, o que é sempre uma motivação extra para qualquer artista, mas também porque aconteceu no dia em que o seu mais recente álbum de originais, “Rosa”, foi editado. Ao longo de uma hora e meia, “Rosa” foi a estrela da noite, mas Luisa Sobral não esqueceu os seus trabalhos anteriores, tendo presenteado o público com “Paspalhão”, do seu álbum anterior “Luísa” (2016), logo a abrir o concerto, aos quais foi acrescentando “Cupido”, do mesmo álbum, o divertido “João”, do álbum “Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa” (2014), o incontornável “Inês”, do seu segundo álbum, “There's a Flower In My Bedroom” (2013), imortalizado em dueto com António Zambujo, e ainda o popularíssimo “Xico”, do primeiro álbum da cantora, “The Cherry On My Cake” (2011), “a minha primeira música a passar na rádio”, lembrou a propósito.

“Rosa” é, contudo, um caso à parte. Foi-o no concerto, cada tema a brilhar de forma intensa e a abrir portas para o mundo pessoal da cantora, e é-o no álbum agora editado, declaradamente um marco na carreira de Luisa Sobral, pela sua força e verdade, pelo notável trabalho ao nível das letras e dos arranjos, pela beleza simples e delicada harmonia que dele emana. É difícil adjectivar temas como “Querida Rosa”, “Benjamim” ou “O Melhor Presente”, nos quais Luisa Sobral releva o amor pelos seus dois filhos – os pequeninos José e Rosa -, oferecendo-lhes um presente de valor inestimável em forma de música. E que dizer de “Nadia”, o tema de abertura deste último trabalho e que reflecte sobre a dura realidade dos migrantes que tentam chegar à Europa a todo o custo? Ou ainda da ternura que se desprende de “Mesma Rua Mesmo Lado”, “O Verdadeiro Amor”, “Dois Namorados” ou “Envergonhado”, este último cantado já no “encore”? Ao contrário do que seria suposto, este foi um concerto completamente à margem do jazz, o que acabou por se revelar um pormenor de somenos, de tal forma a noite se revelou intensa e bela. Imperdoável será, sobretudo para aqueles que perderam a oportunidade duma noite única, não correrem para as bancas a comprar o CD. É verdadeiramente único!