segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

CINEMA: "Cafarnaum"



CINEMA: “Cafarnaum” / “Capernaum”
Realização | Nadine Labaki
Argumento | Nadine Labaki, Jihad Hojeily, Michelle Keserwany
Fotografia | Christopher Aoun
Montagem | Konstantin Bock
Interpretação | Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw, Boluwatife Treasure Bankole, Kawsar Al Haddad, Fadi Yousef, Alaa Chouchnieh
Produção | Michel Merkt, Khaled Mouzanar
Líbano, França | 2018 | Drama | 126 Minutos | M/12
UCI Arrábida 20 | Sala 7
18 Fev 2019 | seg | 16:05


Todos os filmes de Nadine Labaki constituem um olhar sobre o multi-facetado Líbano. Quer seja na belíssima crónica social “Caramel” (2007) ou no grito de denúncia das tensões religiosas “E Agora, Onde Vamos?” (2011), a realizadora filma o seu país em toda a sua complexidade. Situado há longas décadas no cerne de alguns dos maiores conflitos à escala mundial, este pequeno Estado é hoje um anexo do desastre sírio, recebendo o embate desmesurado de refugiados a cada dia. Um drama que potencia os excessos inerentes a todas as grandes megacidades: os maus tratos na infância, a imigração ilegal, a miséria extrema, a delinquência, a escravatura ...

No submundo de Beirute, Zain nunca soube o que era ser criança. Procurando escapar à miséria que o cerca, parte sem destino acabando por descobrir que a sordidez, o despudor e a imoralidade estão por todo o lado. Nadine Labaki observa esta miséria de perto. Durante mais de dois anos, mergulhou nos bairros de lata de Beirute, testemunhando o destino de muitas crianças que aqui vivem abandonadas à sua sorte. Em busca de autenticidade, muitos dos intérpretes de “Cafarnaum” foram recrutados nos locais onde o próprio filme se desenrola. A história é ficcionada, mas a origem daquelas pessoas e o seu destino é bem real (uma das personagens foi mesma presa durante as filmagens por se encontrar na situação de clandestina e, não fora a intervenção da realizadora, teria acabado por ser deportada).

Impulsionado pelas vivências dos actores, este drama moderno agarra o espectador pelas tripas desde as primeiras imagens. Reflexivo e preciso, o filme impõe a força do documentário mas mantém uma enorme elegância na linha narrativa que adopta. Inteligentemente construído, o argumento denuncia uma raiva fria que nunca abandona o olhar do pequeno Zain. Um olhar atento, através duma lente que acompanha o sujeito em vez de o espiar, que o respeita em vez de o julgar. Somos então espectadores cativos e profundamente emocionados com a determinação deste rapazinho que, do alto dos seus doze anos, se bate como um leão para salvar a pele e, sobretudo, a dos mais fracos que o rodeiam. Esta personagem, visceralmente incarnada por um talentoso jovem refugiado sírio, revela-se brutal na sua verdade, valorizando ainda mais um produto cinematográfico apurado e sensível. Galardoado com o Prémio do Júri no 71º Festival de Cannes, “Cafarnaum”, este é um dos mais extraordinários filmes produzidos em 2018, sendo de visão absolutamente obrigatória!

domingo, 17 de fevereiro de 2019

LIVRO: "Quando as Girafas Baixam o Pescoço"



LIVRO: “Quando as Girafas Baixam o Pescoço”,
de Sandro William Junqueira
Ed. Editorial Caminho, Setembro de 2017


“A girafa possui pernas longas, sendo as dianteiras mais altas do que as traseiras. E o pescoço mais comprido de todo o reino animal. Na girafa, devido ao comprimento do seu intransigente pescoço, o coração situa-se demasiado longe da cabeça. Só quando a girafa se baixa para beber água é que a cabeça se aproxima do coração. E só devido a um excecional e complexo sistema vascular é que a cabeça não se lhe rebenta quando volta a erguer o pescoço”. Quarto romance de Sandro William Junqueira, “Quando as Girafas Baixam o Pescoço” está longe de ser um olhar sobre as alterações adaptativas das girafas e das suas particularidades anatomo-fisiológicas, antes adopta-o a título de exemplo para nos dar a ver o homem, esse outro mamífero, na sua luta diária para que o cérebro não expluda, quando e sempre que tem de baixar a cabeça. E são demasiadas as vezes em que isso acontece.

De gente desempregada, mulheres gordas, jovens anoréticas, homens que gostam de livros, bocas sedutoras de lábios vermelhos, adolescentes musculados, velhos que dormem com as pistolas debaixo da almofada ou profetas que entoam obscenos fins de mundo a troco de algumas moedas ou restos de comida, se tece a trama de “Quando as Girafas Baixam o Pescoço”. Mas também de sementes que se lançam à terra com as mãos trémulas da esperança, de blocos onde as notas escritas ajudam a pôr a vida nos devidos lugares ou de cães que levam homens não castrados em passeio e os trazem de regresso a casa. Deste amontoado de vidas entrecruzadas, incapazes de perceber o efeito que produzem umas nas outras e fazendo o seu caminho numa solidão que se adensa a cada passo, se constrói “Quando as Girafas Baixam o Pescoço”.

Tal como as girafas, também as personagens deste romance vivem em comunidade, ocupando um território geograficamente bem definido, marcado por códigos sociais que, de certa forma, as hierarquizam. Todas elas avançam de cabeça erguida, mas todas elas travam, todos os dias, a batalha da sobrevivência, tantas as vezes em que são obrigadas a baixar-se, uma centelha de esperança conservada nas pequenas adaptações que vão desenvolvendo mas que mais não garantem do que a possibilidade de viverem um dia de cada vez, sem grandes ilusões quanto àquilo que o futuro lhes reserva. É notável a forma como Sandro William Junqueira prova não haver espaço para milagres felizes e nos apresenta a vida como essa grande prestidigitadora, nunca falhando nos seus truques e conseguindo iludir-nos sempre. A ler, absolutamente!

sábado, 16 de fevereiro de 2019

CINEMA: "A Quimera do Ouro"



CINEMA: “A Quimera do Ouro” / “The Gold Rush”
Realização | Charles Chaplin
Argumento | Charles Chaplin
Fotografia | Roland Totheroh
Montagem | Charles Chaplin
Musica | Charles Chaplin (1942), com arranjo de Timothy Brock (2007) e interpretação ao vivo da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, dirigida pelo maestro Jayce Ogren
Interpretação | Charles Chaplin, Mack Swain, Tom Murray, Henry Bergman, Malcolm Waite, Georgia Hale, Heinie Conklin, James Dime
Produção | Charles Chaplin
Estados Unidos | 1925 | Aventura, Comédia, Drama | 96 Minutos | M/6
Casa da Música, Sala Suggia
16 Fev 2019 | sab | 18:00


Alasca em plena febre do ouro. Soldados da fortuna de todo o mundo convergiam na região e Charlot, o pequeno vagabundo, está no centro da acção à procura de ouro. Depois de muitos desapontamentos, perigos e privações, a sua persistente busca por riqueza e felicidade acaba por ser recompensada. Pelo caminho confrontar-se-á com a brutalidade de outros garimpeiros, sentir-se-á atraído por uma jovem e bela mulher, montará um banquete com uma bota cozida e com a ajuda de dois garfos e pedaços de pão, construirá uma dança naquela que permanecerá, para sempre, como uma das mais hilariantes sequências da história do cinema.

Charles Chaplin construiu “A Quimera do Ouro” a partir das fontes mais improváveis da comédia. A ideia inicial surgiu quando via imagens em estereoscópio da febre do ouro do Klondike (noroeste do Canadá), em 1896, e chamou-lhe a atenção a imagem de uma fila interminável de garimpeiros serpenteando pelo Chilkoot Pass, a pota de entrada para a região do ouro. Ao mesmo tempo, leu por acaso um livro sobre o Desastre da Expedição Donner de 1846, quando um grupo de imigrantes, preso na Serra Nevada, teve de comer o seu próprio calçado e os cadáveres dos seus camaradas. Chaplin – provando a sua crença de que a tragédia e o ridículo nunca estão muito distantes – decidiu transformar estas histórias de provação e horror em comédia. A sua familiar personagem do vagabundo tornou-se um garimpeiro, juntando-se à massa de bravos optimistas e enfrentando o frio, a fome, a solidão e a incursão ocasional de um urso pardo.

Sobretudo porque o programa oferecido na tarde de hoje pela Casa da Música juntava o melhor de dois mundos – o cinema e a música -, é forçoso que falemos duma banda sonora escrita por Chaplin em 1942, depois de uma compilação de partituras de 1925 (por Carli Elinor e Charles Chaplin) terem acompanhado as exibições iniciais, até o filme deixar de ser programado com frequência após o advento do cinema sonoro. Tal como na maior parte da obra de Chaplin, a música tem como função principal servir as imagens. Aqui se encontra música de tempestade, luta, amor dança. Mas há também música escrita meticulosamente para soluços, fome, sono, comida, alucinações, lutas de bolas de neve, suspeições, indignidade, orgulho e indiferença. A isto responde a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, dirigida pelo maestro Jayce Ogren, de forma magistral, sendo particularmente evidente a fluidez das expressões e do movimento e os estados de espírito e de temperamento em constante mutação. Nas passagens de cordas sombrias e melancólicas, como nos solos coloridos de oboé e fagote, na omnipresente harpa ou na força bruta dos metais, percebe-se uma forte cumplicidade entre a música interpretada pelo agrupamento e a imagética de Charles Chaplin. Será aquilo a que chamaremos o “dois em um” perfeito, a "cereja no topo do bolo"  de um programa de eleição absolutamente inesquecível!

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores”


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Olhar de Compromisso com os Filhos dos Grandes Descobridores”,
de Gérald Bloncourt
iNstantes 2019 – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Junta de Freguesia de Avintes
01 Fev > 03 Mar 2019


“(...) Em vida vive-se a morte
Se o trabalho não dá fruto
Morre-se em cada minuto
Se o fruto nunca se alcança
Porque lhe foi dura a sorte
Vai para terras de França (...)

Excerto de “Trova do Emigrante”, de Manuel Alegre


A emigração de portugueses para França, a partir de finais da década de 1950, é um dos episódios mais marcantes da nossa história. A sua natureza é determinada por uma profunda descrença nas capacidades de desenvolvimento do país, sob o jugo de uma ditadura que se prolonga no tempo e que mantém as condições dos que aqui vivem e trabalham em níveis degradantes. Entre 1958 e 1974, cerca de um milhão de portugueses instalam-se em França, dispostos a trabalharem no que lhes apareça, suportando a custo todo o tipo de humilhações. Com este acto de partir, em massa, clandestinamente, “a sua oposição é revolucionária, mesmo que a sua consciência não o seja”, como escreve Herbert Marcuse. Há, portanto, movimento. É o “salto”. Parte-se silenciosamente, às escondidas. Em primeiro lugar, os homens, sozinhos. Em seguida, as mulheres, depois as crianças. Em poucos anos despovoam-se regiões inteiras abrindo-se profundas rupturas na suas estruturas económicas, sociais e culturais. Nada voltará a ser como dantes!


Acompanhando gerações de portugueses que fugiam das condições miserabilistas que o país tinha para lhes oferecer, Gérald Bloncourt estabeleceu com eles um forte compromisso social. Mergulhando no coração dos gigantescos oceanos de lama em que os bidonvilles se convertem quando chove, Bloncourt mostra que aqueles homens que vemos caminhar com um passo vivo, a caminho do trabalho, estão, com toda a evidência, acima da lama com que tiveram de contemporizar durante demasiado tempo. Mas o fotógrafo não escolhe apenas denunciar a miséria em que viviam os imigrantes em França, apostando também em transmitir a sua determinação em sair dela. As suas imagens são disso a prova, retratando homens e mulheres que, apesar de viveram num despojamento quase total, ostentam uma enorme dignidade e orgulho na afirmação dessa vontade em oferecer um futuro melhor aos seus filhos.

Prodigioso poder esse, o da fotografia de Bloncourt, que nos revela o mundo tal como ele é. No seu livro, editado em 2004, “Le Regard Engagé”, escreve: “Lénine disse que podemos acelerar a História. Esta seria a minha maneira de tentar fazê-lo”. Este olhar comprometido de Bloncourt com os portugueses, que o fotógrafo, agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra francesa e com o de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, identifica como os descendentes dos grandes descobridores do mundo, pode ser agora apreciado no edifício da Junta de Freguesia de Avintes. No seu conjunto, são duas dezenas de preciosos documentos que nos devolvem imagens duras, mas de uma enorme determinação e firmeza no coração daqueles que, lá fora, foram ainda e sempre Portugal. A não perder!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

CINEMA: "Todos Sabem"



CINEMA: “Todos Sabem” / “Todos lo Saben”
Realização | Asghar Farhadi
Argumento | Asghar Farhadi
Fotografia | José Luis Alcaine
Montagem | Hayedeh Safiyari
Interpretação | Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín, Eduard Fernández, Bárbara Lennie, Inma Cuesta, Elvira Mínguez
Produção | Álvaro Longoria, Alexandre Mallet-Guy
França, Itália, Espanha | 2018 | Crime, Drama, Thriller | 132 minutos | M/12
Cinema Dolce Espaço
15 Fev 2019 | sex | 18:30


Desenganem-se aqueles que vão à espera do Asghar Farhadi de “Uma Separação” (2011) ou de “O Vendedor” (2016), obras que valeram ao realizador iraniano os Óscares de Melhor Filme Estrangeiro. Mas mesmo não tendo a profundidade dos filmes referidos, “Todos Sabem” mantém muito do estilo do director e não deixa de ser um thriller interessante, com os intrincados relacionamentos entre as diferentes personagens a darem ao filme a sua nota de qualidade. Embora se reconheça em Farhadi a habilidade necessária para ir revelando o passado dos protagonistas e as suas dúvidas morais de forma adequada, soa estranho vê-lo pisar caminhos que não se encontram assim tão longe do enredo telenovelesco.

As interpretações são, sem dúvida, fundamentais no efeito alcançado por Farhadi, Javier Bardem (Paco) assumindo gradualmente a posição central do filme e a distanciar-se qualitativamente do restante elenco principal. Um dos grandes trunfos do filme reside nos vários actores secundários. as suas interpretações a revelarem-se indispensáveis na forma coerente como o todo é conduzido, sendo aqui de realçar a excelente prestação de Barbara Lennie no papel de Bea, a esposa de Paco. Menos conseguido é o papel de Ricardo Darín (Alejandro), ficando a dúvida se estamos perante um erro de casting ou se é apenas falha de um argumento que limita o espaço e o peso que a personagem exigia. Neste particular contexto, o realizador deveria ter feito aqui muito mais e muito melhor.

Embora Asghar Farhadi tenha provado ser um mestre na exploração da psicologia humana, construindo dramas intensos e poderosos, este seu mais recente trabalho parece indicar haver nele, igualmente, uma propensão muito forte para explorar os caminhos do thriller. Apesar de tudo, embora consiga um resultado absorvente e dedique uma boa parte do filme às suas personagens, fica a nota de um certo desconsolo por ser demasiado leve a resolução do enredo, cotando "Todos Sabem" bastante abaixo de seus trabalhos anteriores. Apesar de tudo, aqueles que investirem um par de horas neste filme não darão, certamente, o seu tempo por mal empregue.

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Code of Silence", de Robert Nil Reed


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Code of Silence”,
de Robert Nil Reed
Leica Gallery Porto
12 Jan > 30 Mar 2019

Descemos os poucos degraus que nos conduzem à sala de exposições da Leica Gallery Store, no Porto, e somos surpreendidos, de súbito, por um conjunto de fotos que nos obrigam a olhá-las com redobrada atenção. É imediata a atracção que se sente por aquelas imagens, rapidamente identificáveis como “nossas”, de tal maneira as rochas, a areia e aquele mar, aqueles sobreiros ou as figueiras da índia, a casa decrépita num cenário melancólico ou a estacaria palafítica que resiste às aguas revoltas do rio, remetem para uma espécie de referencial colectivo, para o que de mais íntimo se esconde debaixo da nossa pele e que guarda as cicatrizes do tempo e da inclemência do ar e da terra, da água e do fogo. Tudo isto envolto no bramido dos ventos ou no ruído das ondas a desfazerem-se na praia, os sons penetrantes como “códigos” dum silêncio que habita aqueles lugares.

É convocando os sentidos que o fotógrafo austríaco Robert Nil Reed nos oferece “Code of Silence”, um conjunto de 22 magníficas fotos, guardando a autenticidade imaculada de umas e povoando outras com o elemento humano na sua dimensão mais pura, os corpos muito belos de mulheres fundindo-se com a paisagem. Interpretando momentos e estados de alma, o artista encena com rigor cada um dos seus trabalhos (umas botas cor de rosa ou um cabelo “suturado” por uma dezena de ganchos adquirem uma importância que ultrapassa, em muito, a do mero adereço), escapando com elegância ao rótulo de “fotógrafo de moda”, de tal forma se torna evidente que os modelos existem como forma de valorizar o cenário e não o seu contrário.

Desta trilogia “fotógrafo – modelo – paisagem”, resulta um trabalho profundo e sensível que envolve, directa e intensamente, o espectador, de tal forma as imagens, na sua aparente simplicidade e fragilidade, se revelam poderosas na mensagem que transmitem de unidade, de perfeita simbiose entre o homem e a natureza. O trabalho de Robert Nil Reed reforça a ideia da fotografia como um recorte, um ponto de vista, uma história isenta de objectividade, aberta a múltiplas interpretações. Ao espectador, oferece as emoções captadas naquele momento mágico em que se funde a arte da fotografia com a sensibilidade da natureza humana. Tudo o resto, já é connosco!...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

CINEMA: "Um Guia Para a Vida"



CINEMA: “Um Guia Para a Vida” / Green Book”
Realização | Peter Farrelly
Argumento | Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly
Fotografia | Sean Porter
Montagem | Patrick J. Don Vito
Interpretação | Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini, Sebastian Maniscalco, Dimiter D. Marinov, Mike Hatton, P. J. Byrne
Produção | Jim Burke, Brian Hayes Currie, Peter Farrelly, Nick Vallelonga, Charles B. Wessler
Estados Unidos | 2018 | Biografia, Comédia, Drama | 130 minutos | M/12
UCI Arrábida 20 | Sala 1
11 Fev 2019 | seg | 16:15


No início dos anos 60, a luta pelos direitos civis na sociedade americana centrava-se sobretudo na questão racial, a discriminação e o segregacionismo a marcarem o quotidiano de distintos grupos étnicos, em particular os afro-americanos. Os limites estavam muito bem estabelecidos e quem ousasse quebrar a norma sabia com o que podia contar. Estes momentos difíceis, de enormes tensões sociais e políticas e que dividiram fortemente a América, constituem um filão praticamente inesgotável de histórias e memórias e que o cinema tem sabido explorar, ainda que nem sempre com os melhores resultados. É nesta linha que se insere “Um Guia Para a Vida”, filme de Peter Farrelly baseado em factos reais e que narra a história dum motorista italo-americano que, ironicamente, trabalha para um pianista negro, naquilo que pode ser visto como uma versão invertida de “Driving Miss Daisy”.

A história tem início em 1962, com o o encerramento temporário da discoteca onde Tony Lip (Viggo Mortensen) trabalhava como segurança, lançando-o no desemprego. Disposto a aceitar qualquer trabalho, conhece Don Shirley (Mahershala Ali), um famoso pianista negro que procura alguém que, durante a digressão de oito semanas que está prestes a fazer pelo Sul do país, ocupe simultaneamente os cargos de motorista e de segurança. Mas os temperamentos de cada um, diametralmente opostos, irão transformar a viagem num verdadeiro desafio. É uma viagem conturbada através duma América intolerante e profundamente racista, mas é também uma viagem de descoberta interior, com momentos hilariantes e situações de verdadeira catarse que resulta redentora para ambos.

Metáfora intensa sobre a utópica igualdade entre dois indivíduos que têm, à partida, tudo a separá-los, o filme prova que há barreiras que podem ser vencidas e que a amizade nada tem a ver com a cor da pele. Entre o drama biográfico e a comédia, “Um Guia Para a Vida” expõe a ignomínia do racismo e a estereotipificação dos emigrantes, ao mesmo tempo que exalta o multiculturalismo graças às excelentes interpretações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali. É forçoso reconhecer que o argumento é simplista, se encontra carregado de “clichés” e cai, com frequência, no convencionalismo, mas chega a ser tocante a honestidade posta na forma como a história é contada, sem lugar a falsos moralismos, como o título em português pretende fazer crer. Sem deslumbrar, é um filme correcto, o que nos dias que correm não é coisa de somenos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

CONCERTO: "Aqui Está-se Sossegado", por Camané & Mário Laginha



CONCERTO: “Aqui Está-se Sossegado”,
por Camané & Mário Laginha
Centro de Artes de Águeda
09 Fev 2019 | sab | 21:30


Com mais de três décadas de carreira, Mário Laginha foi sendo conotado com o domínio do jazz, até por ter sido um dos fundadores do Sexteto de Jazz de Lisboa (1984), por ter criado o Decateto Mário Laginha (1987) e por liderar, ainda hoje, um trio com o seu nome. Mas o universo musical que construiu, nomeadamente com a cantora Maria João, é também um tributo às músicas que sempre o tocaram, das sonoridades brasileiras, indianas e africanas, à pop e ao rock, sem esquecer as bases clássicas que presidiram à sua formação académica. Todavia, depois do que ouvimos na noite do passado sábado, no Centro de Artes de Águeda, parecem não restar dúvidas de que é chegada a hora do fado, de tal forma é sentida a sua interpretação da “canção nacional” ao piano, apoiada na cumplicidade estabelecida em palco com Camané – fadista com lugar cativo no muito restrito clube dos grandes intérpretes portugueses e, em particular, no difícil, exigente e concorrido mundo fado.

Não foi a primeira que os dois artistas trabalharam juntos, pelo que se percebe que as colaborações esporádicas entre ambos proporcionaram o inevitável aprofundamento dessa simbiose. O resultado final chama-se “Aqui está-se sossegado” e foi pensado de raiz para dar mais brilho a uma voz e a um piano que se descobriram cúmplices. Perante uma sala praticamente lotada, Camané puxou da sua voz, do seu enorme talento interpretativo, do fado que carrega consigo e, embalado nas teclas de Mário Laginha, ofereceu momentos sublimes da melhor música e que viriam a causar uma forte emoção no público. Do incontornável “Não Venhas Tarde”, a “Triste Sorte”, já no “encore” final, foram quase uma vintena os temas interpretados com o maior rigor, passando em revista o melhor de Camané mas também alguns temas de enorme beleza e harmonia da autoria de Mário Laginha.

Profundamente intimista, este concerto foi também uma homenagem a alguns dos nossos maiores poetas. De Fernando Pessoa escutou-se “O Amor Quando Se Revela” ou “Aqui Está-se Sossegado”, este último sendo o pretexto para Camané homenagear o seu bisavô, “natural aqui de perto, da Murtosa, o homem que trouxe o fado para a nossa família”. Pedro Tamen veio a palco com “Redond/Ilha”, Álvaro de Campos e “Ai Margarida” lembraram o primeiro tema que Mário Laginha musicou para Camané, de Alain Oulman cantou-se “Te Juro” e o precioso “Sei De Um Rio”, Se Amanhã Fosse Domingo trouxe-nos João Monge e David Mourão Ferreira marcou presença com “Madrugada de Alfama”. O enorme Luís de Camões também não foi esquecido, dele se cantando “Com Que Voz” e “Amor É Um Fogo Que Arde Sem Se Ver”, assim como o próprio Camané, com dois dos seus maiores sucessos, “Ela Tinha Uma Amiga” e “A Guerra das Rosas”. Concerto esmagador, “Aqui Está-se Sossegado” é um hino de amor à música. Resta-nos esperar que Camané e Mário Laginha o possam publicar em disco e que, de alguma forma, os momentos únicos vividos em Águeda possam ser recordados como bem merecem.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

EXPOSIÇÃO: "A Monarquia do Norte em Estarreja"


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EXPOSIÇÃO: “A Monarquia do Norte em Estarreja”
Biblioteca Municipal de Estarreja
19 Jan > 16 Fev 2019


Entre 19 de Janeiro e 13 de Fevereiro de 1919, um movimento revolucionário pró-restauração da monarquia dominou o norte de Portugal, acontecimento que ficou conhecido por “Monarquia do Norte”, também chamado “Monarquia do Monte Pedral”, o local da sua proclamação, ou “Reino da Traulitânia”, devido à acção violenta dos trauliteiros monárquicos que perseguiram os republicanos, nos vinte e cinco dias que durou este movimento.. No seguimento deste levantamento militar, instalou-se um governo provisório no Porto encabeçado pelo militar exilado Paiva Couceiro, cuja Junta Governativa começou logo a legislar, sendo de referir as medidas de ordem simbólica, numa tentativa de “apagar a República”, substituindo o hino, a bandeira e a moeda. Do movimento fez parte um ministro natural de Estarreja, o Conde de Azevedo, filho do conhecido político local Francisco Barbosa, o qual abraçou a pasta da Agricultura, Comércio, Indústria e Trabalho. No rio Vouga situou-se a zona de fronteira entre monárquicos e republicanos, ficando Estarreja ocupada por tropas partidárias da monarquia de 24 de Janeiro a 11 de Fevereiro, período durante o qual esteve sediado na Vila um centro regional de operações militares e um quartel general, mantendo-se cortadas as ligações com o sul, nomeadamente Aveiro.

Nos primeiros dias de Fevereiro a tropas leais à República conquistaram sucessivamente diversas posições a norte do Vouga, vindo a tomar Salreu no dia 10. Finalmente, a 11 de Fevereiro, travou-se um combate decisivo para a vitória dos republicanos. As tropas instaladas a sul do Antuã, com maior poder de fogo concentrado na Senhora do Monte, bombardearam Estarreja, onde resistiam os monárquicos, maioritariamente barricados na Câmara Municipal. A Câmara e diversos edifícios do centro da vila ficaram parcialmente destruídos, bem como algumas casas da zona da estação de caminho de ferro, onde eram alvo dois comboios que preparavam a retirada de armas e munições. Com a chegada de um hidroavião carregado com duas bombas, largadas sobre Estarreja, os combatentes da monarquia bateram em retirada, o que fez com que a tropa republicana atravessasse o rio Antuã e consumasse a vitória. No final, além da destruição parcial das casas da actual Praça Francisco Barbosa e da zona da estação de caminho de ferro, houve a lamentar quatro mortos do lado monárquico e alguns feridos de ambas as partes, às quais se somou uma morte civil de uma rapariga local, apanhada acidentalmente pelo fogo cruzado.

Assinalando o centenário deste movimento, com a colaboração do historiador Marco Pereira, a Biblioteca Municipal de Estarreja abriu ao público uma exposição intitulada “A Monarquia do Norte em Estarreja”, conjunto de documentos e imagens que ilustram este acontecimento marcante da história de Estarreja e do próprio país e que estará patente até ao próximo dia 16 de Fevereiro. Incluída na iniciativa, a tertúlia "O Reino da Traulitânia também conhecido por Monarquia do Norte" teve lugar na tarde de ontem, no Auditório da Biblioteca Municipal de Estarreja, nela tendo tomado parte Dom Duarte de Bragança e Marco Pereira, sobre o movimento revolucionário pró-restauração da monarquia, que dominou o norte de Portugal há precisamente cem anos. Perante uma vasta plateia, discorreu-se sobre os meandros do movimento, aventaram-se hipóteses para o seu fracasso, contaram-se algumas histórias interessantes e particularizou-se o caso da Batalha de Estarreja, acontecimento que, segundo Marco Pereira, “talvez tenha sido decisivo para a manutenção da república em Portugal ou para um regresso à monarquia”.  

LIVRO: "A Amante Holandesa"



A Amante Holandesa”,
de J. Rentes de Carvalho
Ed. Quetzal Editores, 1ª edição Julho de 2010 (reimpresso em Fevereiro de 2016)


“A Amante Holandesa” marca, em termos pessoais, o reencontro com a prosa de José Rentes de Carvalho naquilo que nela há de mais duro e cru. É um livro que nos fala de uma amizade baseada nas recordações de uma vida, nos laços que se criam e que permitem abrir ao outro aquilo que de mais importante se guarda, mas onde se percebe também que uma relação bem assente pode não passar, afinal, de uma ilusão, um fortuito raio de luz a revelar de súbito aquilo que permanecia na sombra, daí sobrevindo o desencanto, o desapontamento, o fim.

O livro fala-nos de Amadeu, o Gato, pastor em Trás-os-Montes depois duma vida de trabalho como estivador no porto de Amsterdão e das conversas que vai mantendo com um amigo de infância, professor em Bragança em final de carreira. As memórias da aventura fugaz e fatal com uma bela mulher estrangeira e rica são o assunto mais frequentemente aflorado, causando uma viva impressão no professor, cuja existência se resume a um casamento gasto e uma história de vida com contornos obscuros e que o mantêm nas bocas do mundo. Entre o real e o fantasioso, os relatos do Gato farão vir ao de cima o que de pior existe em cada um dos amigos, emergindo em ambos o sentimento de que tudo falhou na sua vida.

Na linha de “O Meças” ou “Montedor”, este é um livro que revela como o ser humano, na sua aparente simplicidade e bonomia, pode ser tão imprevisível, capaz de, sem razão que se adivinhe, passar do bom modo à bruteza, da mansidão à selvajaria. É um livro que nos pega pela mão e nos convida a passear pelas serranias transmontanas, a sorver a serenidade e o bucolismo da paisagem, para logo nos pôr em sobressalto com emoções tão rudemente contratantes com toda aquela calma aparente. Incómodo, ácido, agreste, “A Amante Holandesa” é uma viagem a esse interior pequenino e mesquinho, onde se mata por uns metros quadrados de terra ou por um rego de água, onde não há lugar para ser ou pensar diferente. Com o despudor que o caracteriza, José Rentes de Carvalho volta a mostrar-se avesso a finais felizes, lembrando-nos que, afinal, debaixo da pele dum país para turista ver, continuamos a ser um país de gente retrógrada, preconceituosa e profundamente atrasada.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

CONCERTO: Bia Ferreira



CONCERTO: Bia Ferreira
Café Concerto do Cine-Teatro de Estarreja
08 Fev 2019 | sex | 22:00


Chama-se Bia Ferreira, tem 25 anos e faz da música e da palavra um meio de elevar bem alto a bandeira do movimento anti-racismo no Brasil. Decerto que a cantora preferiria não tocar em assuntos tão incómodos, mas quando um jovem preto é morto no Brasil a cada 23 minutos às mãos da polícia, não há como calar a revolta. “É porque o meu povo está morrendo que eu escolhi falar sobre isso, para que mais pessoas queiram lutar junto comigo e estas mortes absurdas possam acabar”, diz, olhos nos olhos, com a determinação e a força de quem tem a plena consciência de que o seu corpo paga o preço por ser preto. Como um murro no estômago, estas primeiras palavras de Bia Ferreira colheram de surpresa o público que se juntou na noite de ontem no Café Concerto do Cine-Teatro de Estarreja, predispondo-o para um espectáculo que chamou para a primeira linha as questões sociais, contagiando a plateia pela força das mensagens e pela frontalidade, sinceridade e energia desta cantora, compositora e activista brasileira.

“Grito Das Bee” foi o pontapé de saída dum concerto memorável, Bia Ferreira a reforçar a mensagem inicial e assumindo-se a voz daqueles que não têm voz: “Pela tia que é silenciada / E dizem que só a pia é o seu lugar / Pela menina que é da favela / É violentada e não pode estudar / Pela preta objectificada / Gostosa, sarada, que tem que sambar / A dona de casa limpa, lava e passa / Mas fora do lar não pode trabalhar”. O tema seguinte, “De Dentro do Ap”, fala da desigualdade e da diferença de oportunidades dadas a brancos e pretos, denunciando a hipocrisia e a passividade com que este estado de coisas é aceite e gritando que não é possível continuar a adiar o inadiável. No tema seguinte, Bia Ferreira abordou a questão da orientação sexual vindo-nos dizer que “quando vemos a guerra por tudo quanto é lugar, o ódio por tudo o que é lugar, a maldade por tudo quanto é lugar, não faz sentido julgarmos alguém que está amando”. E acrescenta: “Eu devo ser uma pessoa muito desonesta porque eu sou homossexual”. Daí “Levante a Bandeira do Amor”, as palavras como carícias: “Então ame, e que ninguém se meta no meio / O belo definiu o feio pra se beneficiar / Ame e que ninguém se meta no meio / Por que amar não é feio, o feio é não amar”.

O concerto prosseguiu com a cantora a chamar ao palco Doralice, sua companheira na vida de todos os dias, e juntas a interpretarem “Só Você Me Faz Sentir”, “Preta em Movimento” e “Miss Beleza Universal”, três temas mais intimistas mas não menos impactantes, muito belos e cantados de forma particularmente sentida, Marielle Franco e Chico Science presentes: “Miss beleza universal / É ditadura! / Quanta opressão / Não basta ser mulher / Tem que estar dentro do padrão / Foda-se o padrão!”. De incómodo em incómodo, “Diga Não” fala do “genocídio do povo preto, que é um genocídio institucionalizado e estrutural no Brasil”, as palavras a darem conta da terrível realidade: “Eu não aguento mais / Ver meus irmãos pretos estampados mortos nos jornais / Eu não aguento mais / Ver meus irmãos com cento e onze tiros dados por policiais”.

O concerto caminha para o final e é agora a vez de Bia Ferreira chamar ao palco Michele Mara, “a maior imitadora de Aretha Franklin na América Latina”, um título que teve oportunidade de comprovar num fabuloso improviso que pôs toda a gente a dançar na sala. De novo com Doralice em palco, as três mulheres fecharam o concerto em beleza com “Cota Não É Esmola”, um tema lançado no ano passado e sobre o qual Caetano Veloso disse ter ficado “com vontade de pedir a todos os brasileiros para ouvirem Bia Ferreira”. Nele, a cantora vem em defesa do sistema de quotas raciais, reforçado pelo governo de Lula da Silva, que permitiu aumentar o acesso à universidade de estudantes negros, mulatos e indígenas de classes mais baixas e que é agora posto em causa pelo governo de Jair Bolsonaro. Numa espécie de “encore”, Bia Ferreira cantou ainda “Eu Boto Fé”, o público aplaudindo de pé, a certeza de que ninguém sairia da sala igual ao que entrara. “A cantiga é uma arma de pontaria”, cantava José Mário Branco. A pontaria de Bia Ferreira é certeira ao coração e à mente dos que a escutam. Valeu a pena passar uma hora assim, debaixo de fogo!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Banksy's Dismaland and Others"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Banksy’s Dismaland and Others”,
de Barry Cawston
Alfândega do Porto
19 Jan > 31 Mar 2019


No pátio fronteiro ao edifício da Alfândega do Porto, uma cabine telefónica tipicamente britânica, deitada sobre o pavimento, o topo dobrado como se da proa dum barco se tratasse e pintada de cor de rosa, dá as boas-vindas aos visitantes. Ao seu lado, numa piscadela de olho a Magritte, um letreiro avisa-nos que “isto não é uma obra de Banksy”. “Isto”, na verdade, deve ser entendido como o todo da exposição “Banksy’s Dismaland and Others”, conjunto de 44 fotografias de grande formato e que ocupa, desde o passado dia 19 de janeiro, o espaço da furnas da Alfândega do Porto. Embora os trabalhos expostos conduzam o visitante ao encontro do universo daquele que é o expoente máximo da arte urbana actual, esta é, entenda-se (!), uma exposição fotográfica da autoria de Barry Cawston, o homem que muitos consideram como o “fotógrafo oficial” de Banksy.

A abrir a exposição o visitante é confrontado com uma série de imagens que ilustram “Dismaland”, uma instalação temporária de Banksy, aberta durante os meses de Agosto e Setembro de 2015 e que constituiu uma clara sátira aos parques temáticos da Disney. Entre a estranheza e o desconforto, estes são retratos que transmitem, de forma intensa, o espírito lúgubre – “dismal”, em inglês – dum lugar descrito pelo próprio Banksy como “inadequado para crianças”, bem como “uma exposição de arte e entretenimento para anarquistas principiantes”. Nele pudemos observar escorregas montados em carrinhas de assalto, insufláveis carregados de migrantes, o carro da Cinderela capotado ou vigilantes com cara de poucos amigos. Em justaposição à Dismaland, Barry Cawston oferece-nos a sua visão de Weston-super-Mare, localidade inglesa que acolheu este evento. Com uma especial agudeza, a lente deste fotógrafo capta momentos do ambiente circundante, cenas banais do quotidiano, que reforçam o espírito deprimente desta estância balnear.

Outro dos destinos favoritos de Banksy é a cidade de Belém, na Palestina, onde o artista inaugurou em 2017 o “Walled Off Hotel”, conhecido como o hotel com a pior vista do mundo. Uma vez mais ressalta na sua obra o forte pendor de crítica social, com Barry Cawston a documentar a força do trabalho de Banksy em novo conjunto de imagens extraordinárias, onde se destacam “Dove and Flak Jacket”, “Bethlehem Angels and Oxygen Masks” e o icónico “Throwing Flowers”. O núcleo final da exposição abre as portas aos trabalhos de arte urbana de oito artistas portugueses que representam um pouco da enorme história deste movimento que nasceu em Portugal por volta da década de 90 do século passado. Adres, Hazul, RAM, +MaisMenos+, MAR, Mosaik, Nomen e Tamara Alves são os protagonistas deste núcleo derradeiro, dando provas do seu talento em trabalhos de enorme impacto visual e, também eles, com uma forte crítica social implícita. Em suma, “Banksy's Dismaland and Others”, de Barry Cawston, é uma exposição poderosa que nos leva numa viagem pelos meandros da arte urbana e em particular pelo trabalho fenomenal de um artista que há mais de 25 anos usa o seu talento para questionar os valores da sociedade. A não perder!

CINEMA: "À Porta da Eternidade"



CINEMA: “À Porta da Eternidade” / “At Eternity’s Gate”
Realização | Julian Schnabel
Argumento | Jean-Claude Carrière, Julian Schnabel, Louise Kugelberg
Fotografia | Benoît Delhomme
Montagem | Julian Schnabel
Interpretação | Willem Dafoe, Rupert Friend, Oscar Isaac, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Niels Arestrup, Anne Consigny, Vincent Perez, Amira Casar
Produção | Jon Kilik
Grã-Bretanha, Suiça, Irlanda, França, Estados Unidos | 2018 | Biografia, Drama | 111 minutos | M/12
Cinema Dolce Espaço
08 Fev 2019 | sex | 16:00


Há aspectos da vida de Van Gogh que são de todos conhecidos: as suas perturbações mentais, o ter cortado a orelha esquerda em 1888, a falta de reconhecimento em vida (é sabido que apenas logrou vender um dos seus mais de 2.000 quadros) ou uma existência discreta e muito pouco próspera. Ora, não é propriamente disto que nos fala “À Porta da Eternidade”, com Julian Schnabel a distanciar-se do convencional ‘biopic’ com fins comerciais, sem com isso deixar de nos oferecer um olhar autêntico e sensível da personagem. Estamos perante uma obra que tenderá a não despertar um particular interesse no espectador que busque simplesmente um momento bem passado, com uma certa nostalgia de permeio e uma sensação final de bem-estar. Neste filme não há qualquer tipo de redenção, antes sobressaem as inquietações, delírios e frustrações de um artista incompreendido, particularmente sensível e a quem a felicidade decidiu voltar as costas.

Isto não significa que “À Porta da Eternidade” seja um filme duro ou indiferente. Chega a ser comovente o viver e o sentir deste génio da pintura tão tardiamente reconhecido, bem como a evidência do seu talento, plasmado em numerosas obras e exibido de maneira convincente por Schnabel, também ele um pintor reconhecido e bastante cuidadoso nos temas que aborda, como ficou bem demonstrado nos notáveis “Basquiat” (1996) e “O Escafandro e a Borboleta” (2007). Todavia, o aspecto mais conseguido do filme tem a ver com o modernismo da linguagem cinematográfica - a câmara à mão, os cortes abruptos - na abordagem a um retrato “de época” que se quer sério e desprovido de artificialismos. Schnabel ultrapassa este desafio de forma assaz notável, transmitindo na perfeição as emoções duma mente febril e as derivas duma doença mental indefinida, colocando-as na génese duma obra transcendente e que faz de Van Gogh um dos grandes percursores da Arte Moderna.


O retrato dos sonhos de Van Gogh sai reforçado graças ao magistral desempenho de Willem Dafoe, cuja intensidade radiante preenche o filme por inteiro. O seu discurso pode até soar pretensioso nos ruidosos pronunciamentos que faz sobre a sua arte ou a dos outros - gostava de encontrar uma nova luz, de pintar o que ainda ninguém viu, o brilho das imagens, a luz do sol -, mas essa sensação de desconforto apenas dura até nos darmos conta de que foi exactamente isso que Van Gogh fez e que alguns planos de Schnabel, magistralmente valorizados pela fotografia de Benoît Delhomme, surgem emoldurados como recriações modificadas dos quadros do pintor, trazendo essa verdade ao de cima. Todos aqueles amarelos crepusculares dum campo de girassóis surgem perfeitamente traduzidos nas nossas canecas de chá, nos magnetos pregados no frigorífico lá de casa ou em mil e uma reproduções de todos os tipos. Mas Schnabel lembra-nos que elas eram, de facto, as cores da vida de um homem.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

TEATRO: "Alice no País das Maravilhas"



TEATRO: “Alice no País das Maravilhas”
Encenação | Maria João Luís, Ricardo Neves-Neves
Adaptação | Ricardo Neves-Neves, a partir de Lewis Carroll
Cenografia | Ângela Rocha
Interpretação | Ana Amaral, Beatriz Frazão, Beatriz Maia, Helena Caldeira, Inês Dias, Joana Campelo, José Leite, Leonor Wellenkamp Carretas, Márcia Cardoso, Maria João Luís, Patrícia Andrade, Pedro Lacerda, Rafael Gomes, Sílvia Figueiredo
Produção | Teatro da Terra, Teatro do Eléctrico
Duração aproximada | 90 minutos, M/12
Teatro Nacional de S. João
06 Fev 2019 | qua | 19:00


“Alice no País das Maravilhas” é a obra mais conhecida de Charles Lutwidge Dodgson, publicada em 1865 sob o pseudónimo de Lewis Carroll. Navegando nas águas do nonsense e do absurdo, o livro acompanha as aventuras de uma menina chamada Alice que, atraída pela curiosidade para uma toca de coelho, cai e é transportada para um lugar fantástico, povoado por criaturas particulares e onde impera uma lógica absurda e paralela à do nosso quotidiano. Mas isto já todos nós sabemos (ou, pelo menos, quase todos). Graças à riqueza descritiva de Lewis Carroll, com os olhos da imaginação já demos por nós a cair em câmara lenta, vezes sem conta, naquele buraco que parece não mais ter fim, a dar de caras com coelhos brancos sempre apressados, a escutar os conselhos de lagartas dengosas, a tomarmos um chá de loucos, a passearmos no meio de baralhos de cartas ou a ouvirmos um “cortem-lhe a cabeça” por tudo e por nada. Havia, pois, uma dúvida legítima a pairar na mente do espectador à entrada na sala: Será que isto vai funcionar em palco?

Foi este tremendo risco de desafiar uma história intemporal no reino da fantasia, tão presente nas mentes de tantos desde que são gente, que Maria João Luís e Ricardo Neves-Neves aceitaram correr. Pegaram na palavra (falada e cantada) e fizeram dela, como convém, a base da peça. Trabalharam com enorme cuidado e bom gosto a componente visual, privilegiando o cenário – genial o artifício cénico de ir transformando o estrado num espelho, dando ao espectador a possibilidade de apreciar a peça em planos distintos –, isto sem esquecer as luzes e o som, as imagens em vídeo e os deliciosos figurinos. Reuniram um extraordinário naipe de actores, acrescentando-lhes nove músicos em palco, a fazerem pulsar a peça de energia e vibração. E misturaram o todo com doses generosas de criatividade, imaginação e muita diversão. Brincaram, brincaram, brincaram... e abriram a brincadeira a um público que não se fez rogado!

Independentemente das mensagens subliminares que a peça possa conter – percebemos que o original constitui um retrato crítico da Inglaterra Vitoriana, numa época em que começavam a aparecer mulheres fortíssimas, com pensamento, com atitude -, esta “Alice no País das Maravilhas” é, acima de tudo, um divertimento extraordinário para miúdos e graúdos. É impossível ficar indiferente ao tom fantasioso da peça e não mergulhar no seu universo, tão ricos os detalhes, tão intrinsecamente ritmada a acção. A partir daqui, é fácil entrar no jogo, estar em palco ao lado de Alice, mandar um chuto no rabo do Coelho Branco, gozar com a gaguez do Dodô e, de nariz empinado, mandar bugiar a Rainha de Copas. Tão fácil como sermos minúsculos ou gigantes como reflexo das nossas acções.

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Estação Imagem 2018"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Estação Imagem 2018”
Vários autores
Centro Português de Fotografia
17 Nov 2018 > 10 Fev 2019


Criada em 2007, a “Estação Imagem” é uma associação cultural que tem como finalidade estudar, debater e divulgar todos os aspectos ligados à imagem, com particular incidência na fotografia. Entre as várias iniciativas levadas a cabo pela instituição, conta-se a organização anual de um prémio internacional de fotojornalismo, aberto à participação de fotojornalistas portugueses, dos PALOP e da Galiza, bem como aos estrangeiros aí residentes, com o objectivo de promover a reportagem fotográfica. Assim foi uma vez mais em 2018, com o júri desta nona edição do Prémio Estação Imagem – presidido por Santiago Lyon, Presidente do World Press Photo 2013 e actual director de conteúdos editoriais da Adobe – a distinguir várias séries de reportagens de enormíssimo nível em categorias que vão dos assuntos contemporâneos ao ambiente, passando pela vida quotidiana, arte e espectáculos ou desporto, entre outros. São as imagens premiadas que podem agora ser vistas no Centro Português de Fotografia, no Porto, numa mostra de grande qualidade e interesse, a provar que o fotojornalismo em Portugal e na Galiza está vivo e recomenda-se.

O grande destaque vai, naturalmente, para Patrícia Melo Moreira que, com “Verão Negro”, arrebatou o Prémio Estação Imagem 2018. Trata-se de uma série de dez imagens que nos fazem recuar a 2017, ano em que o nosso País foi devastado pelos incêndios mais fatais da sua história, deixando cerca de 440.000 hectares de área ardida e o trágico balanço de mais de cem mortos entre Junho e Outubro. São imagens de grande impacto, que evidenciam o desamparo e impotência das populações, face ao avanço das chamas que tudo destroem à sua passagem. Destaque também para Gabriel Tizón que, com “O Frío dos Refuxiados”, conquistou o Prémio Fotografia do Ano. A imagem mostra um jovem refugiado ao anoitecer sob uma ponte junto à fronteira da Sérvia com a Croácia, num dia de inverno e com uma temperatura a rodar os 0º C. Por detrás da qualidade intrínseca desta fotografia, percebe-se a chamada de atenção para a situação dos refugiados que vivem aqui sem recursos e que sofrem a perseguição policial diária, desde que a União Europeia se decidiu pelo fecho das suas fronteiras em Fevereiro de 2016.

Guiado pelos domínios arcaizantes de montanhas e planaltos que ligam o Minho a Trás-Os-Montes, Luís Preto explora em “Maciço Antigo” a relação entre a persistência das condições naturais e a continuidade do esforço humano para nos falar das gentes e dos lugares. São igualmente dez fotografias de forte pendor simbólico, com as quais conquistou o Prémio na categoria “Assuntos Contemporâneos”. Rui Oliveira chamou “O Bairro Esquecido” ao Bairro do Aleixo, no Porto, aí recolhendo um conjunto impactante de imagens que lhe valeram o Prémio na categoria “Vida Quotidiana”. De novo os incêndios de 2017 a proporcionarem a Rui Duarte Silva e a Mariline Alves duas séries de poderosas imagens, designadas “Um País em Luto” e “Incêndios Florestais em Portugal” e que lhes valeram, respectivamente, os Prémios nas categorias “Notícias” e “Ambiente”. Rui Duarte Silva foi também o vencedor do Prémio na categoria “Prémio Europa”, fazendo recair o seu olhar sobre os estudantes de hoje, a “Geração X”. Na categoria “Desporto”, o Prémio foi atribuído a António Pedro Santos com o notável conjunto de imagens “À prova de Água” que nos fala de pessoas com deficiência e da sua luta pela igualdade de oportunidades.

Ainda no âmbito do “Estação Imagem 2018”, num espaço próprio, Leonel de Castro apresenta “Minhotos de Pele Salgada”. Este é o resultado de uma bolsa anual destinada à realização de um projecto documental sobre o Alto Minho e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo. Ao longo de um ano, o fotógrafo acompanhou as gentes do mar, saindo com eles para a faina, fotografando-os no quotidiano do trabalho, da família, das manifestações culturais e da religiosidade, devolvendo-nos agora trinta imagens que, em si mesmas, testemunham a viagem por essa linha de costa que, descendo do Rio Minho – fronteira natural que nos separa de Espanha mas também nos junta à Galiza -, dá forma a uma região e a um modo de vida. Mas esta reportagem é também um grito contra as políticas económicas da União Europeia e o impacto negativo que têm tido sobre o sector das Pescas. Eis uma excelente proposta para os amantes da fotografia (e não só), pelo que se recomenda vivamente uma visita ao Centro Português de Fotografia.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

CONCERTO: "Informal", de Paulo de Carvalho



CONCERTO: “Informal”, de Paulo de Carvalho
Casa da Criatividade
02 Fev 2019 | Sáb | 22:00


De Paulo de Carvalho se pode dizer que “quem canta assim canta para a terra inteira”. É este sentimento de cumplicidade fraterna a unir gerações, que mais toca aqueles que o escutam e que percebem a sua música com a emoção de quem a traz inscrita na alma. Uma música que se constitui como parte do nosso património genético e se encontra indissociavelmente ligada a muitos dos acontecimentos marcantes das nossas vidas. Foi isto que se viveu e sentiu, uma vez mais, na Casa da Criatividade, em S. João da Madeira, perante uma sala cheia de gente ávida de recordar temas icónicos e saudar, calorosamente, aquela que é uma das vozes mais carismáticas da música portuguesa. Fazendo dupla pela primeira vez em palco com o pianista Hélder Godinho – “vão pondo o olho no menino, que daqui a uns tempos se calhar vão conhecê-lo melhor” -, Paulo de Carvalho passou em revista muitos dos seus maiores sucessos, intervalados pelo relato de episódios de vida, contados pelo próprio, em ambiente intimista e de forte proximidade com o público. 

Sem seguir propriamente uma linha cronológica definida, o cantor começou por recuar a 1971 e ao Festival RTP da Canção, oferecendo uma intemporal “Flor Sem Tempo” e, saltando um ano apenas, manteve-se nesta linha “festivaleira” com um tema da autoria de Pedro Osório, “Maria Vida Fria”. Estas duas canções permitiram perceber, de imediato, que o alinhamento do concerto iria ao encontro do álbum “Duetos”, lançado com enorme sucesso em finais de 2017, o que viria a confirmar-se. Foi assim com as quatro canções seguintes - “O Cacilheiro”, “O Homem das Castanhas”, “Os Putos” e “Lisboa Menina e Moça”, os seios como colinas, varina, cidade, mulher da minha vida! -, homenageando o autor das suas letras, José Carlos Ary dos Santos, mas também quem as popularizou, Carlos de Carmo. “Um Beijo à Lua” e “Uma Cantiga de Amor” - “(…) que nunca a força falte em nossa mão” - trouxeram o concerto para um tom mais introspectivo, tom esse reforçado com “O Meu Mundo Inteiro”, um tema “dum gajo que lá em casa é o Bernardo, mas que para vocês é o Agir”, esclareceu o cantor. 

Mudando de agulha, Paulo de Carvalho brindou o público com “Sodade”, um verdadeiro hino com sabor a África, popularizado na voz de Cesária Évora. Ainda antes do eterno “E Depois do Adeus”, foi possível escutar um tema tradicional da Beira Baixa, “José Embala o Menino” e também aquele que foi um dos momentos altos do concerto, a “leitura” de um excerto de um poema de Agostinho da Silva, só voz e adufe, “E posto que viver me é excelente / cada vez gosto mais de menos gente”. Para os momentos finais do concerto, Paulo de Carvalho reservaria duas das músicas mais esperadas do público, um novo pulo a África com “Mãe Negra” e “Os Meninos de Huambo”, toda uma plateia à volta da “fogueira” do palco, a aprender “coisas de sonho e de verdade”. Após uma longa ovação de tributo ao cantor, Paulo de Carvalho regressaria ao palco para um único encore com dois novos trunfos na manga, deixando a sala a cantar “Gostava de Vos Ver Aqui” e, sobretudo, “Nini dos Meus Quinze Anos”, o final perfeito duma noite inesquecível. O resto? Bom, o resto é o resto de sempre, as músicas mil vezes trauteadas a rodopiarem na cabeça em turbilhão, muito tempo depois do final do concerto. E muito tempo mais rodopiarão, pela felicidade que convocam, pelo prazer da grande música!

domingo, 3 de fevereiro de 2019

CINEMA: "Nunca Deixes de Olhar"



CINEMA: “Nunca Deixes de Olhar” / “Werk Ohne Autor”
Realização | Florian Henckel von Donnersmarck
Argumento | Florian Henckel von Donnersmarck
Fotografia | Caleb Deschanel
Montagem | Patricia Rommel
Interpretação | Tom Schilling, Sebastian Koch, Paula Beer, Saskia Rosendahl, Oliver Masucci, Cai Cohrs, Ina Weisse, Evgeniy Sidihkin
Produção | Quirin Berg, Christian Henckel von Donnersmarck, Florian Henckel von Donnersmarck, Max Wiedemann
Alemanha | 2018 | Drama, História, Thriller | 188 minutos | M/14
UCI Arrábida 20, Gaia
03 Fev 2018 | Dom | 18:00


Filme de cariz marcadamente intimista, baseado na história verídica do artista Gerhard Richter, “Nunca Deixes de Olhar” acompanha a vida do pintor Kurt Barnert ao longo de quase três décadas, desde criança até à altura em que encontra o seu próprio tom artístico e logra expor os seus trabalhos. Nesse entretanto, assiste à ascensão do nacional socialismo, ao estalar da II Guerra Mundial e à perseguição movida aos mais débeis que não poupou um elemento da própria família, entra nas Academia de Artes de Dresden, apaixona-se e casa-se, consegue escapar para o lado ocidental da Alemanha, mas antes disso acaba por encontrar, de forma casual o homem que semeou a tragédia e a dor entre os seus.

Em última análise, estamos perante uma história sobre a forma como o passado – relembrado no seu todo ou apenas parcialmente, mas nunca esquecido – subsiste, apesar dos anos que se vão escoando, dos esforços para o apagar ou da forma como as pessoas mudam e se vão adaptando. O filme começa por se debruçar sobre o passado da personagem principal, no que pode ser entendido como um longo prólogo. As sequências trazem-nos o horror que, muito em breve, se irá abater sobre o mundo, bem como aqueles que irão atravessar tão terríveis momentos e, enfim, o pintor, que irá assumir-se como a figura central do filme, ainda que seja nebulosa a consciência que tem da sua ligação ao passado, face às questões prementes que o presente coloca.

Colocando um particular enfoque nos acontecimentos que levaram à prisão e deportação de uma tia de Barnert, com a qual o pintor estabelecera uma relação de cumplicidade assaz forte, o argumento faz pairar sobre o filme, como uma sombra, o terrível capítulo da “solução final” levado a cabo pelo regime nazi em busca do ideal da pureza da raça. Após uma primeira parte sem verdadeiras surpresas, o filme de Florian Henckel von Donnersmarck envereda por caminhos inesperados, visando mais a independência do espírito do que o ajuste de contas com a História. Um filme comovente, com um leve toque poético a pontuar a narrativa e muito bem servido por um elenco de grande nível, cuja justeza interpretativa oferece a nota de credibilidade a uma obra intensa e de grande coragem.

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes


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CERTAME: iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Direcção do Festival | Pereira Lopes
Vários locais
01 Fev > 03 Mar 2019


O iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes abriu as portas na passada sexta feira para a sua 6ª edição. Oferecendo um total de 26 exposições de fotógrafos de onze países, a mostra abarca um conjunto vasto de propostas que vão do fotojornalismo ao experimentalismo, primando uma vez mais pela qualidade e que faz dele um dos eventos incontornáveis no nosso país no campo da fotografia. Concebido e dirigido graças ao esforço e à paixão do fotógrafo Pereira Lopes, o Festival insere-se nas celebrações do “Mês da Vila de Avintes” e é organizado pela Junta de Freguesia local.

Ponto alto do certame, a homenagem prestada a Gérald Bloncourt expressa-se através de um conjunto de fotografias que revelam o olhar de compromisso do fotógrafo haitiano recentemente desaparecido com “os filhos dos grandes descobridores”. Esta mostra acompanha os passos dos portugueses que, nas décadas de 1950 a 70, emigraram a salto para França, focando-se em particular nas condições de miséria extrema da vida nos “bidonvilles” dos arredores de Paris, disso deixando o traço documental em imagens duras, fortemente expressivas, a dor da saudade sempre presente. Outro trabalho de enorme força e actualidade tem por título “O Fumo dos Dias”e é da autoria de Luís Carvalhido. Nele se retrata o viver de uma família de etnia cigana, completamente à margem da sociedade, num quotidiano feito de raiva, violência e dor. São imagens com uma enorme carga emocional, espelho dum tempo mais interessado em erguer muros do que em derrubá-los.

Ainda no âmbito do Certame, tempo para apreciar “Embarcações Mortas”, do grego Theo Kefalopoulos, “Sons Alpinos”, de José Fangueiro e “Paisagens Transversas”, da brasileira Lilian Barbon, trabalhos diferentes nas suas propostas mas com resultados deveras interessantes. Manuela Vaz apresenta-nos o delicadíssimo “Finitude”, folhas mortas conservadas num vetusto bloco de notas trabalhadas cinquenta anos depois com recurso à cianotopia, dando origem a um conjunto de imagens de enorme beleza, poemas visuais a oferecerem-se por inteiro aos sentidos do visitante. Teresa Charlín oferece-nos um olhar feminista no provocador “A Vida Efémera”, projecto conceptual de replicação do “Jardim do Éden” que serve de base de diálogo sobre os valores da autenticidade. Adriano Miranda recupera “Carvão de Aço”, um projecto documental dos idos de 1992 onde é desvendado o quotidiano dos mineiros do Pejão, num mundo escuro e sufocante quatrocentos e vinte metros abaixo do solo. Destaque ainda para os projectos “Pelos Caminhos das Pedras – Lavadores” e “Ausência”, respectivamente de Adelino Marques e Jorge Pedra, o primeiro pela beleza das paisagens retratadas as quais adquirem uma nova dimensão porque expostas ao ar livre na Quinta da Agraceira, num enquadramento natural absolutamente ímpar; o segundo pela associação entre a fotografia e a poesia, as imagens extraordinariamente complementadas pelas palavras de Alfredo Jorge, Ana Filipe, Maria Afonso e Jorge Velhote.

Das restantes propostas visitadas nesta 6ª edição do iNstantes, refira-se o interessantíssimo projecto da colombiana Juanita Gonzalez, “O Que Guardamos em Nós”, e que associa imagens e sons em contexto de pessoas fortemente marcadas por perturbações do foro da depressão. José Luís Santos oferece-nos uma parte da sua visão da “Rota da Seda”, Sofia Mota convida-nos a reflectir sobre os “Mistérios da Fé!?”, José Carlos Costa leva-nos numa viagem pela “Veneza Ilusória” e Teresa Ricca deixa-nos os ambientes de pesca artesanal em Vila Chã, Mira e Laxe (Corunha), numa belíssima colecção de fotografias intitulada “Há Muito Mar, em Terra”. Finalmente, no formoso espaço aberto do Largo do Palheirinho, Tiago Martins expõe “Banco de Pescadores – Aguda”, curioso retrato das gentes do mar daquela pequena localidade piscatória a norte de Espinho. Isto e muito mais para ver no iNstantes 2019.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

LIVRO: "Luanda, Lisboa, Paraíso"



Luanda, Lisboa, Paraíso”,
de Djaimilia Pereira de Almeida
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro 2018


Impõe-se começar esta recensão crítica a “Luanda, Lisboa, Paraíso”, dizendo que a sua leitura é de tal forma absorvente e dela se retira tanto prazer que o livro entra directamente para a restrita galeria dos livros da minha vida. Desde logo, pela ternura duma história que trata, com enorme pudor e delicadeza, a vida simples de pessoas simples. Depois, pela prosa visualmente rica, intensa e muito bela, realçando as emoções que se desprendem de cada gesto, de cada frase. E finalmente pela generosidade e sensibilidade do olhar de Djaimilia Pereira de Almeida, compondo personagens duma enorme riqueza interior, contrastando ironicamente com a miséria extrema em que vivem.

O livro conta a história de Cartola e do seu filho, Aquiles, nascido com uma malformação no calcanhar. Confiados na ajuda de um ortopedista, ambos deixam Luanda assim que o rapaz atinge os quinze anos, tendo Lisboa como a “terra prometida”, onde Aquiles encontrará certamente a cura. As coisas, contudo, não irão correr conforme esperado, e a cidade branca é também aquela onde Cartola e Aquiles irão descobrir-se pai e filho na desventura. Até que num vale emoldurado por um pinhal, nas margens da cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, encontram abrigo e fazem um amigo.

Parábola intemporal duma sociedade polarizada entre “feios, porcos e maus” e “lindos, limpos e bonzinhos”, este é um livro que, de forma poética, evoca o quanto de conformismo e de fatalismo pode haver na condição do ser pobre. Num país com dois milhões de pobres a convocarem a nossa vergonha colectiva, “Luanda, Lisboa, Paraíso” revela-nos de que matéria são feitos os sonhos dos que tão pouco têm, ao mesmo tempo que pesa a coragem que é necessária para levantar tudo em volta uma e outra vez e nos diz, de forma palpável, o quão relativo o tempo se faz, na felicidade ou na dor. Hino à amizade, vibrante e comovente, o livro é sobretudo uma admirável evocação daquilo que, distinguindo-nos, nos torna mais próximos e solidários.