domingo, 16 de junho de 2019

EXPOSIÇÃO: "Livre Mente"


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EXPOSIÇÃO: “Livre Mente”
Mostra colectiva, com curadoria de Sérgio Almeida
5ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2019
Quinta de Fiação de Lever
24 Abr > 20 Jul 2019


A história da arte está repleta de situações em que duas ou mais expressões artísticas se fundem num mesmo trabalho. Mussorgsky foi beber à pintura para compor a obra sinfónica “Quadros de Uma Exposição”, o teatro, o cinema ou a dança alimentam-se, em grande medida, de adaptações de grandes obras literárias e ainda recentemente um músico foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura pela qualidade dos seus poemas, para citar apenas alguns exemplos. É mais nesta vertente do artista que reparte o seu trabalho por várias formas de arte – mas também na junção de várias expressões num único trabalho, como é inevitável que assim seja -, que deve ser vista “Livre Mente”, exposição que congrega um conjunto de trabalhos de artistas que têm em comum o facto de serem conhecidos do grande público como figuras ligadas à Literatura. Com curadoria de Sérgio Almeida, jornalista e escritor, “Livre Mente” é uma mostra dentro dessa mostra maior que dá pelo nome de 5ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2019, podendo ser apreciada na Quinta de Fiação de Lever.

Em “Livre Mente”, o visitante tem a oportunidade de se cruzar com Teolinda Gersão, Álvaro Domingues, Gonçalo M. Tavares, Pedro Chagas Freitas, João Reis, Afonso Cruz e tantos outros escritores, percebendo o quanto a sua arte vai muito além dessa coisa dos livros. De Afonso Reis Cabral, temos uma pintura que parece inspirada no “Trolley Hunters”, de Banksy, os carrinhos de supermercado substituídos aqui por um livro. A Arte Urbana serve de inspiração a Manuel Andrade, enquanto Filipa Leal, Minês Castanheira ou Paulo M. Morais viram o seu olhar para a fotografia. Pedro Vieira revela, com humor (sempre!), a sua faceta de caricaturista, tal como Valter Hugo Mãe, que aqui nos oferece uma belíssima homenagem a algumas das suas referências literárias. E há ainda, entre muitos outros autores, Aurelino Costa, com uma lindíssima aguarela que Miró não desdenharia “perfilhar”, uma colagem de Mário Cláudio, uma pintura a pastel de Richard Zimler retratando o “seu” Benjamin Zarco, um óleo de Daniel Maia-Pinto Rodrigues e uma preciosa instalação textil - “Mandala de Histórias” -, de Clara Haddad.

O que há de mais estimulante em “Livre Mente” é precisamente o olhar para o “objecto acabado” e perceber como ele representa um ciclo que se fecha sobre si próprio. Isto é, de como a literatura é o objecto unificador e de como se assume como expressão máxima de liberdade. Liberdade que se oferece e se reclama na fotografia que Rui Machado nos apresenta e que se intitula “O Voo dos Silenciosos”. A esse propósito, o autor escreve: “À luz da liberdade de expressão, pode-se esquecer a penumbra dos que ainda são silêncio. Mesmo aqueles que são maus em contas, constatam que “ser livre” são duas palavras; (…). Antes de ser livre é preciso ser. A liberdade precisa de um corpo e de uma voz para ser tudo aquilo que é. Para se falar é condição primeira dar voz. Existe um conjunto de portugueses que ainda não a tem, por permanecerem na sombra e na invisibilidade, sem lhes ser concedida a extraordinária oportunidade de ser, de existir. Eu sei que estão prontos para LivreMente experimentarem a inteireza da vida.” Só por si, este “grito” do autor já seria suficiente para que visitar a exposição fosse uma obrigação. Mas há mais gritos a clamar por nós!

sábado, 15 de junho de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Imagem / Técnica: Os Inventários de Emílio Biel”


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Imagem / Técnica: Os Inventários de Emílio Biel”,
de Emílio Biel
Pavilhão de Exposições da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Ci.CLO Bienal Fotografia do Porto
30 Mai > 20 Jul 2019


A Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto tem patente, no seu belíssimo Pavilhão de Exposições, a mostra fotográfica "Imagem/Técnica: Os Inventários de Emílio Biel”, apresentando ao público os álbuns fotográficos de grande formato que Emílio Biel publicou para a Associação dos Engenheiros Civis Portuguezes, bem como uma série de reproduções em grande formato e ainda um conjunto de imagens que vão sendo desvendadas através da sua projecção por dois equipamentos distintos. Trata-se de um conjunto de álbuns exclusivos do fotógrafo, editor e empresário alemão - responsável por um dos mais extensos levantamentos iconográficos do território português no final do século XIX -, cedidos pela Ordem dos Engenheiros à Faculdade de Belas Artes para esta exposição. Neles se conservam as imagens das grandes obras para as ligações viárias, ferroviárias e marítimas que haveriam de mudar a face do país, revelando a revolução da mobilidade e a reorganização política e económica do território neste período.

Resultado de uma colaboração com o Ci.CLO Bienal de Fotografia do Porto, a exposição recupera um raro conjunto de nove álbuns fotográficos, parte dos quais expostos pela primeira vez na Exposição Universal de Chicago (1893) e na Exposição Universal de Paris (1900) e nos quais se destacam as imagens dos Caminhos de Ferro do Douro, Minho e Beiras, a construção da Ponte Maria Pia e do Porto de Leixões. São imagens que datam do período entre 1884 e 1892 e que revelam uma paisagem acabada de ser ocupada pela tecnologia, preenchida de detalhes cenográficos feitos com as personagens que nela se movem a vapor pela primeira vez. São imagens com enorme valor documental, profundamente encenadas, que a par das transformações induzidas na paisagem, deixam entrever o impacto destas obras na vida das populações. Daí que falar de Emílio Biel e da sua obra seja falar da fotografia como testemunho de um tempo.

Nascido em Annaberg, Saxónia, em 18 de Setembro de1838 e falecido no Porto em 14 de Setembro de 1915, Emílio Biel é um dos pioneiros da fotografia e da fototipia em Portugal. Foi fotógrafo da Caza Real, na época do rei D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, também de nacionalidade alemã e colaborador fotográfico na revista Illustração Portugueza, entre outras. Personalidade multifacetada e um apaixonado por todas as inovações tecnológicas, conduziu o primeiro eléctrico que fez a carreira da Praça da Batalha às Devesas, introduziu a primeira instalação de luz eléctrica no Porto e o primeiro telefone, entre outras actividades a que esteve ligado. Também se dedicou à horticultura, à floricultura, bem como à colecção de borboletas, que se encontra hoje no Museu de Zoologia da Universidade do Porto e é considerada uma das maiores do mundo. Com a entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, em 1916, a colónia alemã foi forçada a abandonar o país em cinco dias e os bens de Emílio Biel - entretanto já falecido - foram confiscados, o que viria a originar a perda irremediável de grande parte do seu espólio fotográfico. Até aos nossos dias chegam agora estes álbuns que podem ser vistos até ao próximo dia 20 de Julho.

CONCERTO: Tó Trips & João Doce



CONCERTO: Tó Trips & João Doce
WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã
Escadinhas do Castelo, Covilhã
09 Jun 2019 | dom | 22:30


Foi em casa do tio Francisco, ali mesmo, na Covilhã, que Tó Trips terá tido um primeiro contacto com a guitarra, “quando era puto e vinha aqui passar as férias grandes”. Se isto é verdade ou não e que importância poderá ter tido no seu percurso musical, não o sabemos. Sabemos, isso sim, que o domínio que hoje tem do instrumento, a sua capacidade de lhe arrancar sonoridades únicas e distintas, é absolutamente ímpar. O que faz dele um músico muito especial na cena musical portuguesa, desde os tempos convulsivos dos “Amen Sacristi”, ainda no Liceu Pedro V, e dos “Santa Maria Gasolina em Teu Ventre!”, até ao recente “Dead Combo”, com Pedro Gonçalves, passando pelos “Lulu Blind”, nos anos 90, e por uma série de projectos a solo.

Na Covilhã, Tó Trips apresentou-se em palco ao lado do percussionista João Doce, músico angolano que reside actualmente em Esmoriz e que é sobejamente conhecido por integrar projectos como os Wray Gunn ou Legendary Tigerman. Do entendimento, cumplicidade e profunda amizade entre os dois músicos – que vem desde um primeiro encontro, durante uma tour dos Wray Gunn, em 2004 – nasceu e cresceu este espectáculo entusiasmante, oferecido ao público em noite de festa, “à boleia” do WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã. Assente nos trabalhos “Guitarra Makaka – Danças A Um Deus Desconhecido”, que Tó Trips gravou a solo em 2015, e “Sumba”, registo de 2016 em parceria com João Doce, o concerto propôs uma viagem exploratória pelos recantos desta imensa ilha que habitamos, ao encontro das suas peculiaridades sonoras, da sua musicalidade intrínseca, dos segredos e enigmas que esconde e que só a música permite desvendar.

Tocadas em sequência, “Danças a Um Deus Desconhecido”, “Baía das Negras”, “Cuca”, “Makumba das Foncas”, “Pedra Lume” e “Migratória”, músicas extraídas de “Guitarra Makaka”, levaram o público a viajar por Bolonha e pelo intenso repicar dos seus sinos num quente final de tarde, a ser “heróis do mar” a caminho do Oriente, a assistir à vingança do forasteiro de “Era Uma Vez no Oeste” sobre um renegado Frank, a viúva Jill McBain à espreita, a dançar em êxtase no terreiro da macumba ou a contemplar do alto Lisboa com as suas sete colinas. “Primitiva” e “Suva Blues”, do recente trabalho da dupla, encerraram o concerto e reforçaram o fascínio da viagem, uma viagem profundamente interior e imaginária, tornada real pelas memórias convocadas e pela certeza da melodia e dos ritmos que abraçam os cinco continentes. Genial!

sexta-feira, 14 de junho de 2019

CERTAME: 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho


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CERTAME: 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho
Museu Municipal de Espinho
25 Abr > 22 Jun 2019


Está a chegar ao fim a 5ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho, certame que, ao longo de dois meses, juntou na extraordinária galeria de exposições do Museu Municipal de Espinho criadores de ambos os sexos - recorde-se que as quatro edições anteriores, designadas “Bienal Internacional Mulheres d’Artes”, faziam uma certa distinção de género, algo que foi agora, muito justamente, abolido. Importa desde já partilhar uma ideia que mais não é do que uma repetição daquilo que afirmei no espaço do blogue sobre a Bienal de Gaia, há duas semanas atrás: É que não é todos os dias que, num mesmo espaço, qualidade e quantidade se oferecem aos nossos olhos sob a forma de arte. Foi, pois, imerso em criações de enorme interesse e beleza que percorri o espaço que acolhe este certame, ao encontro do muito que de bom se vai fazendo entre nós.

Mário Vitória, Isabel e Rodrigo Cabral e Sofia Areal foram os artistas convidados desta mostra, apresentando os seus trabalhos ao lado de um conjunto de obras de 41 artistas nacionais e estrangeiros, selecionados a partir de 268 candidaturas de criadores de 17 países. O peso dos nomes dos convidados, porém, não toldam aqueles dos concorrentes, alguns porque também já conquistaram o seu espaço no meio artístico e têm o “seu público”– citaria Balbina Mendes e Maria Beatitude a título de exemplo –, e outros que, por via de trabalhos magníficos e que o júri desta Bienal viria a distinguir, se revelam plenos de genialidade e talento.

“It Was Yesterday”, um óleo sobre tela do jovem vimaranense Rafael Oliveira representando o interior em ruínas de uma habitação, é um trabalho notável, o enorme rigor da composição a remeter para a fotografia e a prender o visitante pela sua beleza intrínseca. Ombreando com ele, podemos ver “Salomé”, outro óleo sobre tela da autoria de Manuel Rodrigues Almeida, “Oscilações”, uma composição de Fábio Araújo sobre pano cru cosido, “Ninho”, de Carmo Diogo, usando técnica mista sobre lençol de linho e o sublime “Composição com Tecidos 4-18”, um trabalho em acrílico sobre juta e lona de algodão cosidos, da autoria de Daniela Ribeiro, isto para citar apenas alguns dos trabalhos expostos. Mas o melhor é passar pelo Museu Municipal de Espinho e fazer a sua própria avaliação. A mostra encerra a 22 de Junho.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

TEATRO DE MARIONETAS: "Hullu"



TEATRO DE MARIONETAS: “Hullu”,
Criação e interpretação | Johanna Ehlert, Loïc Apard, Matthieu Siefridt
Co-criação e encenação | Dominique Habouzit
Assistente | Elise Nicod
Iluminação | Thomas Maréchal
Som e composição musical | Sébastian Guérive
Figurinos | Sabrina Marletta
Produção | Blick Théâtre
60 Minutos | Maiores de 10 anos
FIMO 2019 – Festival Internacional de Marionetas de Ovar
Centro de Artes de Ovar
07 Jun 2019 | sex | 22:30


Nunca, até hoje, terá passado pelo Festival Internacional de Marionetas de Ovar um espectáculo com tanta qualidade como “Hullu”, que os franceses do colectivo Blick Théâtre apresentaram no palco do Centro de Artes, nas noites de sexta e sábado passados. É, da minha parte, uma ousadia fazer esta afirmação e devo admitir que corro o risco de ser acusado de parcialidade, sobretudo porque não vi todos os espectáculos que passaram pelo FIMO naquilo que leva de tempo de vida ao longo de treze edições. Mas a peça é de tal forma genial, tanto na sua construção, como nas dimensões técnica e interpretativa e, ainda, na mensagem que veicula, que certamente esta minha verdade é a verdade de todos quantos tiveram a oportunidade de poder apreciá-la e de com ela se deliciarem.

“Hullu” fala-nos desse mundo que habita o interior de cada um de nós, um mundo construído com a precária argamassa das ilusões e no qual buscamos refúgio sempre que o peso da realidade se torna insustentável. Mas o tempo prova-nos que esta fuga para o interior de nós próprios é sinónimo de clausura, nela se adivinhando o muro que, aos poucos, ameaça erguer-se e tornar-se intransponível. Cabendo, por definição, no universo das marionetas, “Hullu” é um espectáculo cuja dimensão e alcance vai muito para além disso. Inventivo e engenhoso, ele reparte-se entre a ilusão mágica, o assombro acrobático, a expressividade mímica e o humor refinado, oferecendo uma hora da mais pura diversão, onde o teatro de marionetas, o teatro físico, a dança e as artes circenses se misturam e confundem.

Mestres da ilusão, os actores mostram-se exímios em criar ambientes que baralham as fronteiras entre o real e o fantástico, entre o arquetípico e o indecifrável. Aqui, as marionetas ganham vida própria, tornam-se autónomas, deixando no ar a dúvida de quem manipula quem. Em “Hullu”, marionetas e seres de carne e osso passam a ser uma e a mesma coisa, pondo à prova a capacidade do espectador em percepcionar o real. A linguagem do disfarce na qual assenta toda a encenação de “Hullu” faz-nos mergulhar num mundo mágico e desconcertante e que é, no limite, o nosso próprio mundo interior. Original, excêntrico, envolvente, inquietante e profundamente imaginativo, “Hullu” é uma daquelas peças que nos transporta de volta à infância e nos devolve, em doses generosas, a magia e o sonho de acreditar naquilo que está para além de nós.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

LIVRO: "A Vida Oculta das Coisas"



LIVRO: “A Vida Oculta das Coisas”,
de Cláudia Cruz Santos
Ed. Bertrand Editora, Março de 2019


Literatura e liberdade são conceitos que se encontram intimamente ligados. Uma e outra não são dádivas caídas dos céus, antes resultam duma consciencialização individual e de uma concepção alargada do mundo que nos rodeia, substantivos que evoluem e se transformam com o nosso pensamento e as nossas atitudes. Cláudia Cruz Santos tem a perfeita noção de que há tempos em que assumir um compromisso com o nosso tempo se torna essencial, tempos esses em que é impossível continuar a calar a indignação. Denunciar, expôr à evidência os males que viciam e corrompem as sociedades e gritar “basta” é uma emergência. É por isso que escreve, assim afirmando, de maneira ímpar, a sua própria liberdade.

A verdade que não se pode calar deu origem a “Nenhuma Verdade Se Escreve No Singular”, o primeiro romance da autora, e volta a ser a força motriz deste “A Vida Oculta das Coisas”. Mas as semelhanças entre os dois romances não se ficam por aqui. Há toda uma estratégia narrativa comum a ambos que passa por eleger uma personagem principal – Viriato no livro mais recente, Amália no primeiro romance -, nela se cruzando toda uma série de histórias paralelas que dão sentido à trama e lhe conferem solidez. Percebe-se também que todas estas personagens secundárias, ainda que ficcionadas, configuram casos reais e são o veículo para fazer passar a mensagem de que não há mundos perfeitos. Há, todavia, uma clara diferença entre os dois romances, essa diferença residindo no tempo da escrita, na sua cadência. Cláudia Cruz Santos soube aplacar a ansiedade que se percebia em “Nenhuma Verdade Se escreve No Singular”, aquela urgência em contar a(s) sua(s) história(s) e que levava a que, não raras vezes, se desviasse do essencial, para encontrar o ritmo perfeito neste seu segundo romance, tornando-o mais explícito, mais autêntico e mais verdadeiro.

“A Vida Oculta das Coisas” é um livro que prende o leitor da primeira à última página. A forma como a autora gere a acção, como empresta emoção à narrativa e faz respirar o livro, torna-o particularmente apelativo e prova-nos estarmos perante uma exímia contadora de histórias. E há, depois, esse lado sombrio da história e que aqui recai sobre o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual. Há nisto tudo um crime que ultrapassa o entendimento humano, há nisto uma tristeza que o pranto não consegue simbolizar e há um malogro que opõe barreiras a qualquer tentativa de libertação. Mas ainda que duro e incómodo, este é um livro profundamente humano e que acaba por abrir lugar à esperança num mundo melhor. Um livro que nos torna cúmplices de Luba, Asali e Alma e que nos diz que, enquanto as nossas sociedades não conseguirem erradicar o crime organizado, o tráfico de pessoas e a violação reiterada dos direitos humanos, serão sempre sociedades doentes.

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Desempacotar a Cultura"


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EXPOSIÇÃO: “Desempacotar a Cultura”,
de Maria do Carmo Vieira
3ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2019
Quinta de Fiação de Lever
24 Abr > 20 Jul 2019


Dessa extraordinária manifestação artística que é a Bienal Internacional de Arte Gaia 2019 já aqui falei anteriormente [ver CRÓNICA], pelo que hoje me debruçarei em exclusivo sobre uma das duas mostras individuais que integram o certame. Para além de uma exposição antológica do escultor Zulmiro de Carvalho, a quem a Bienal presta nesta edição uma muito justa homenagem, tem o visitante a possibilidade de apreciar um extraordinário conjunto de obras da autoria de Maria do Carmo Vieira, intitulado “Desempacotar a Cultura”, onde se cruzam duas expressões artísticas que são particularmente gratas a esta transmontana de Vila Pouca de Aguiar: a literatura e a pintura.

O percurso lógico de visita às várias exposições que se estendem por dois imensos pavilhões da Quinta de Fiação de Lever começa na mostra dedicada a Zulmiro de Carvalho e vai terminar com Maria do Carmo Vieira, precisamente. Pelo meio, porém, há “Paz e Refugiados”, uma exposição que, pela sua temática, prende a atenção do visitante, nela se podendo ter um primeiro contacto com o trabalho da artista. Em “Piedade”, pintura a óleo sobre tela datada de 2017, Maria do Carmo Vieira evidencia o seu enorme talento artístico, ao mesmo tempo que se mostra uma mulher preocupada e envolvida nas causas que afligem o nosso tempo.

Esta faceta de “mulher de causas” está fortemente vincada no projecto “Desempacotar a Cultura”, conjunto de obras representando algumas das mais emblemáticas figuras do universo literário do nosso país. De Camilo Castelo Branco ou Raúl Brandão a Agustina Bessa-Luís, José Saramago ou Natália Correia, passando pela geração mais jovem, aqui representada por Valter Hugo Mãe ou Gonçalo M. Tavares, é todo um manancial de recordações que acorre à memória do visitante, motivada pelos autores genialmente figurados e pelo que se conhece de cada um deles. Um aspecto determinante para justificar o enorme significado e impacto alcançado por esta exposição prende-se com o suporte escolhido para cada uma das peças, nada mais nada menos do que pacotes de leite vazios. Para além da vertente ecológica ligada à reutilização – e duma eventual ideia de marketing para uma colecção que ninguém desdenharia possuir -, há essa mensagem de enorme significado que nos diz que os livros, tornados alimento para o espírito, são tão essenciais à sobrevivência da espécie como o leite nos primeiros tempos de vida. Basta desempacotá-los!

terça-feira, 11 de junho de 2019

VISITA GUIADA: WOOL - Festival de Arte Urbana da Covilhã


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CERTAME: WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã
Covilhã, vários locais
01 > 10 Jun 2019


Exemplo peculiar de uma “cidade de montanha”, rara no urbanismo português, a Covilhã é hoje um núcleo dos mais pulsantes de toda a região da Serra da Estrela. Historicamente, a cidade nunca deixou de apontar caminhos ao mundo. Foi berço de descobridores e exploradores, beneficiou da presença duma comunidade judaica forte no seu seio e, sob a acção do Marquês de Pombal, tornou-se no maior centro de produção de lanifícios de todo o país. Este ascendente manteve-se ao longo de mais de dois séculos, mas a crise dos têxteis, nos anos 90, ditou a falência de muitas fábricas e a deslocalização de muitas outras, daí resultando uma onda de desemprego que atingiu mais de oito milhares de trabalhadores, sobretudo mulheres. Perante este autêntico flagelo, a Covilhã foi obrigada a redesenhar-se, a ir em busca de novos caminhos, a reinventar-se. A Universidade da Beira Interior – que acolhe actualmente sete mil estudantes do mundo inteiro, distribuídos por cinco Faculdades – foi fundamental para uma certa dimensão cosmopolita que a cidade hoje detém. Mas depois há todo um conjunto de iniciativas – da reabilitação urbanística ao alojamento local, da oferta gastronómica aos eventos culturais -, muitas delas da esfera privada, que se têm revelado determinantes para que esta chama revivificante não esmoreça.

O WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã é uma destas iniciativas. Fruto do dinamismo e desassombro dos irmãos Lara e Pedro Seixo Rodrigues e da espanhola Elisabet Carceller, o certame conheceu a sua primeira edição em Novembro de 2011 e, com uma ou outra vicissitude pelo meio, chega aos nossos dias pleno de vitalidade, continuando a somar ideias, a congregar interesses e a cativar novos adeptos para o fascinante mundo da Arte Urbana. Contando com os apoios do Município da Covilhã e da Águas da Covilhã, como principais financiadores do projecto, aos quais se somam um conjunto enorme de parceiros, a edição deste ano voltou a convidar quatro criadores - dois nacionais e dois estrangeiros - para enriquecerem o espólio de Arte Urbana que a cidade já possui. No intuito de dar a conhecer melhor todo este vasto espólio e, em particular, as novas peças, a Organização promoveu um conjunto de Visitas Guiadas, no decurso das quais foi possível perceber que, mais do que um Festival, o WOOL é um projecto artístico que tem mudado a face da cidade, trazendo um novo encanto ao seu centro histórico e, ao mesmo tempo, espalhando mensagens plenas de significado e às quais ninguém fica indiferente.

Ciceroneada por Lara Seixo Rodrigues, a visita começou por uma das quatro peças de grande formato que marcaram o arranque do WOOL, em 2011, num trabalho com assinatura da ARM Collective, de Miguel Caeiro e Gonçalo Ribeiro que joga nas dinâmicas criadas entre a bela fachada azulejada da Igreja de Santa Maria e um conjunto de murais que nos falam da agonia da indústria dos lanifícios e da deslocalização de muitas fábricas para o sudoeste asiático. Seguiu-se “Olhos de Coruja”, do hoje mundialmente famoso Bordalo II, mas que dava em 2014 os primeiros passos, alcançando com este trabalho – que foi considerado nesse ano um dos 25 melhores murais a nível mundial – uma enorme projecção. Regressando a 2011, foi possível apreciar, no Largo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o trabalho da espanhola BTOY que retrata um pastor da Serra da Estrela, enquanto no outro lado do largo, a fachada de um edifício oferece a visão do artista Mr. Dheo sobre a crise que tomou conta do país e atingiu o auge em 2014, ao representar uma jovem remendando a bandeira nacional.

O percurso prosseguiu com a apreciação do gigantesco mural criado pelo artista espanhol KRAM, em 2012, e que nos fala duma lenda sobre um terrível monstro, com os olhos na ponta do nariz, que aterrorizava as populações mal caía a noite. De seguida, tempo para ver “Covilhã Cidade Neve”, um belíssimo trabalho de “lettering” dos HalfStudio, de 2017, inspirado no fado com o mesmo nome de Amália Rodrigues e, a dois passos deste, o mural do espanhol Pastel, criado no ano passado e baseado na flora local. A caminho de outro espectacular mural, desta feita da autoria do português Frederico Draw, também do ano passado, e que representa o engenheiro, escritor, crítico, ensaísta e artista plástico Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro, nascido na Covilhã em 1932, tempo para apreciar dois trabalhos de pequeno formato, um do holandês Pfff (2012) e outro do português Adres – considerado por muitos como o Banksy português – de 2011 e onde se pode ler “quando for grande quero ser feliz”. Felicidade foi o que todos sentiram ao ver “Arrebatamento”, um trabalho do argentino Bosoletti (2017) com um cunho marcadamente realista e evocativo da mulher trabalhadora, que se une às outras mulheres e juntas travam uma luta desigual contra aqueles que as exploram e oprimem.

No regresso à Igreja de Santa Maria, deu-se início à segunda metade da visita com a apreciação de uma peça bordada, executada em 2018, através da qual a portuguesa Aheneah quis homenagear a sua avó. Já na Rua das Portas do Sol, tempo para ver a homenagem de Samina a um dos símbolos vivos da cidade, o Sr. Viseu, operário desde criança na indústria dos lanifícios e emblemático jogador de futebol no Sporting da Covilhã. “Orfão Selvagem”, obra de 2014 da autoria de Tamara Alves e que mostra uma mulher a bordar o seu próprio vestido em rendas de bilros e “Fio Condutor”, do português Regg Salgado (2017), representando umas mãos a coser uma peça de tecido, ocupam estrategicamente o espaço junto ao miradouro das Portas do Sul e impressionam pela sua dimensão e beleza. Baixando através duma vereda íngreme e muito estreita, chega-se à Rua de S. Tiago, onde um coração tridimensional feito de maquinaria de tecelagem, da autoria do português Third (2017), convive com o mural Lata 65, um projecto que traz para a rua e para o universo da Arte Urbana criadores com 65 anos de idade ou mais.

A parte final da visita é dedicada às novas peças, mas pelo meio há ainda tempo para apreciar o notável mural do açoriano Pantónio, inspirado no voo dos andorinhões. Assim, a portuguesa Kruella d'Enfer dá-nos a sua visão da Covilhã a partir da janela manuelina que orna o espaço nas traseiras do edifício da Câmara Municipal, recorrendo aos elementos vegetalistas que lhe são característicos e não esquecendo as estrelas, que aqui têm um brilho certamente muito diferente daquele que têm em Lisboa. O espanhol Sebas Velasco traz-nos um pouco da noite da Covilhã, tanto no rosto duma jovem como nas luzes dum candeeiro que incidem sobre um automóvel antigo. Finalmente, na escadaria que envolve a Fonte das Três Bicas, o português Mário Belém fala-nos da água e da sua importância na perpetuação dos ciclos vitais, através de quatro intervenções de enorme beleza, como se de um conto ilustrado para crianças se tratasse.

Com tanto de intensa como de enriquecedora, a visita foi fantástica e permitiu ver a cidade com outros olhos. Peças houve que ficaram por ver e que acabaram por se constituir num motivo acrescido para ir mais além neste intento de descoberta da cidade. Foi desta forma que, por “conta própria”, visitei no edifício dos Bombeiros Voluntários da Covilhã o trabalho de Roc Blackblock (2018) de homenagem aos soldados da paz, apreciei as obras do belga Gijs Vanhee e do português +MaisMenos+, vi os pequenos-formato de Mário Belém e BTOY, deliciei-me com “Oddments”, trabalho de Add Fuel (2014) inspirado nos típicos padrões utilizados na produção dos tecidos locais e, por fim, observei “O Observador”, trabalho do brasileiro Douglas Pereira feito para a edição deste ano e que “olha” para a natureza do ponto de vista de quem a ama e preserva. Esta descrição não ficaria completa sem a “extensão” do WOOL à cidade vizinha do Fundão, onde tive oportunidade de apreciar belíssimos trabalhos de Pantónio, Milu Correch, Nespoon e Bordallo II. Um luxo!

segunda-feira, 10 de junho de 2019

CERTAME: Festival Internacional de Marionetas de Ovar FIMO 2019


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CERTAME: Festival Internacional de Marionetas de Ovar FIMO 2019
Ovar, vários locais
07 > 09 Jun 2019


Ao longo de três dias, o Festival Internacional de Marionetas de Ovar FIMO 2019 voltou a espalhar magia, colorido e muita animação pelas salas, praças e fontes da cidade, oferecendo ao público um total de 65 espectáculos por 21 companhias de 14 diferentes países. Promovido pela União de Freguesias de Ovar, São João de Ovar, Arada e São Vicente de Pereira Jusã, o certame arrancou na noite de sexta-feira com “Chinese Tradition”, um espectáculo da companhia Sky Bird Puppet Group que ofereceu ao público alguns belíssimos exemplos de diversidade de marionetas e das técnicas inerentes à sua animação existente em Hong Kong. O momento em que Cheung Chun Fai mostrou à plateia um vislumbre do que está por detrás da manipulação - partilhando com os espectadores alguns exercícios de aquecimento a exigirem destreza, coordenação e uma enorme concentração -, revelou-se único, tanto pela interacção com a assistência como pelo seu carácter formativo.

No átrio da Escola dos Combatentes, Maru Fernández e Gerardo Martínez, do colectivo uruguaio Coriolis, apresentaram “Tropo”, uma peça na qual Julián e Ramiro, dois intrépidos amigos, tratam de devolver aos habitantes de uma comunidade rural tudo quanto perderam numa devastadora tempestade. De manipulação directa, marionetas de luva, luz negra e sombras se fez este espectáculo, recriando um ambiente quixotesco e oferecendo algumas rábulas deveras divertidas. Para o final deixo propositadamente “Hullu”, a peça que os franceses do Blick Theatre levaram ao Centro de Artes de Ovar. Tratou-se dum espectáculo absolutamente à parte neste Festival, destacando-se de todos os outros pela sua inventividade, qualidade técnica e momentos absolutamente surpreendentes, oferecidos ao longo de uma hora de pura magia. A “Hullu” e ao Blick Theatre voltarei brevemente neste espaço, em análise crítica separada.

O segundo dia do FIMO – para mim o último - teve início ainda durante a manhã, no belíssimo espaço verde do Parque Urbano, com três espectáculos sequenciais e todos eles tendo nas marionetas de fio o elemento em comum. Do Brasil, a Cia Tu Mateixa - cujo nome constitui uma homenagem à casa-oficina de marionetas de Pepe Otal, em Barcelona, onde a actriz Júlia Barnabé fez uma parte significativa da sua formação – trouxe-nos “Laia e o Voo da Imaginação”, um espectáculo delicado e sensível, assente na enorme cumplicidade entre marioneta e marionetista e que nos diz que não precisamos de sair do nosso quarto para viajarmos até muito longe, até onde nos deixarmos levar pelo sonho. Acrescentaria apenas que, se houvesse um prémio para a melhor marioneta, era para Laia que iria com inteira justiça, toda ela trabalhada em madeira, os movimentos assentes num impressionante conjunto de 18 fios, olhos articulados e uma “dimensão humana” verdadeiramente única.

Menos profundo, mas não menos divertido, The Gipsy Marionettist”, do bósnio Rasid Nikolic, teve na interacção com o público um dos seus grandes trunfos, misturando esqueletos que cantam jazz com tigres ferozes, dançarinas do ventre com o homem mais forte do mundo, o mais charmoso e sedutor e ainda o maior acrobata, estes três últimos “voluntários” recrutados entre a assistência. A manhã terminou com “Hanging by a Thread”, dos Di Filippo Marionette, dupla constituída por Remo Di Filippo e Rhoda Lopez. Através dele, ao longo de meia hora, vimos evoluir um violinista, um dançarino de sapateado, uma dona de casa empunhando uma vassoura, dois rappers, um ciclista acrobata e ainda Gino, um menino débil e um tanto envergonhado que encontra um nenúfar. Com um domínio da técnica particularmente apurado e uma presença de enorme expressividade, Rhoda e Remo ofereceram um espectáculo que encantou miúdos e graúdos e viria a conquistar o Prémio do Público deste FIMO 2019.

“A Árvore Cantada”, dos portugueses Cia Bipolar, foi um dos espectáculos que abriu a tarde, trazendo as questões ambientais para a ordem do dia. Lançando mão de um dispositivo cénico muito simples e eficaz e usando a técnica da manipulação directa, Cátia Vieira falou-nos o papel da água ao longo das estações do ano e a sua importância para que os ciclos ligados à natureza se possam repetir e perpetuar. No espaço fronteiro ao edifício da Câmara Municipal, Marta Lorente e Raquel Batet, da Cía. eLe, de Barcelona, ofereceram-nos uma visão possível do eterno conflito de gerações e de como um velho recupera um pouco da sua meninice depois de se cruzar na rua com um rapaz traquinas e de com ele se travar de razões. Da República Checa, Pavel Vangeli apresentou na Fonte dos Combatentes “The Swinging Marionettes”, espectáculo que recorre à técnica do fio para levar o espectador ao encontro dos anjos e demónios que habitam a cidade de Praga, de um espectáculo de circo, de um naufrágio no mar ou de um concerto de esqueletos em pleno cemitério. Quatro histórias divertidas, assentes em marionetas muito belas e numa enorme qualidade técnica do marionestista checo. Finalmente, no Auditório do Orfeão de Ovar, o chileno David Zuazola apresentou “El Juego Del Tempo”, conjunto de “sete peças, de sete minutos cada, de sete realizadores de sete diferentes países”, e que nos fala de bullying duma forma imaginativa e com uma linguagem narrativa que cruza as marionetas com o cinema de terror.

Para a noite do segundo dia estavam reservados dois dos melhores espectáculos deste FIMO. Primeiramente, na Casa da Contacto, Javier Aranda partiu das suas memórias de infância - os tempos passados ao lado da mãe a vê-la costurar, a cesta com agulhas, tesouras, meias velhas e todo um arsenal de sonho e magia -, para nos oferecer “Vida”, uma história muito simples tornada apelativa e particularmente eficaz graças à expressividade, à mímica e à capacidade técnica do espanhol na forma como emprega as mãos para contar a sua história. São mãos que distribuem magia quando se unem para dar vida a formas com as quais nos identificamos, com quem rimos e choramos. Por último, a companhia chinesa Yangzhou Puppetry Institute ofereceu ao muito público presente no Largo do Tribunal o espectáculo “Puppet Collection Highlight”, no qual oito marionetistas fizeram uma demonstração alargada do que de melhor a companhia tem para oferecer no campo das marionetas, manipuladas com a técnica da vara. Um espectáculo que, complementando todos os restantes, permitiu que o público tomasse contacto com a realidade das marionetas a um nível mais alargado e que se mostrou decisivo para elevar esta edição do FIMO a níveis de qualidade nunca antes alcançados.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

CINEMA: "Sinónimos"



CINEMA: “Sinónimos” / “Synonyms”
Realização | Nadav Lapid
Argumento | Nadav Lapid, Haim Lapid
Fotografia | Shaï Goldman
Montagem | Neta Braun, François Gédigier, Era Lapid
Interpretação | Tom Mercier, Quentin Dolmaire, Louise Chevillotte, Uria Hayik, Olivier Loustau, Yehuda Almagor, Gaya Von Schwarze, Gal Amitai, Idan Ashkenazi, Dolev Ohana, Liron Baranes
Produção | Saïd Bem Saïd, Michel Merkt
França, Israel, Alemanha | 2019 | Drama | 123 minutos | M/14
Cinema Dolce Espaço
07 Jun 2019 | sex | 16:00


“Sinónimos” parte de uma ideia muito simples: Yoav, um jovem israelita, chega a Paris na expectativa de que a França e a língua francesa o salvem da loucura em que Israel está mergulhado. Mas nem sempre as coisas, ainda que não sejam verdadeiramente complicadas, são lineares e a sua verdade é assim tão clara. Nadav Lapid não faz qualquer esforço em esconder-se por detrás de uma história que é, em grande medida a sua, embora o filme funcione menos como uma auto-ficção e seja sobretudo o vincar da ideia de que cada vida é uma janela aberta ao mundo, servindo o filme para mostrar aquilo que o realizador observa e pretende transmitir a partir da sua própria janela.

A história de Yoav reveste-se de contornos muito particulares, o mais perturbador dos quais reside na sua recusa em falar hebraico. Tomar um avião e aterrar em França não chega para atingir a necessária distância. É fundamental que o corte com Israel seja radical e isso implica sacrificar a própria língua. Apagar o seu passado e a sua identidade através da língua torna-se uma verdadeira obsessão para o protagonista, visto residir na língua materna a matriz da construção mental de qualquer indivíduo. Porém, mais do que a língua francesa que Yoav declama como se de pura poesia se tratasse, é à palavra que o jovem acaba por se agarrar, às associações de palavras, às aliterações e, claro, aos sinónimos. É através delas que se contam histórias, aqui com um ritmo e uma eloquência que, na realidade, não fazem parte do quotidiano. Paradoxalmente, a linguagem visual do filme é particularmente física, Tom Mercier representando um Yoav que nos oferece uma verdadeira coreografia de atitudes, de movimento e inércia do corpo, de gestos muito estudados.


“Sinónimos” é um filme interessante e ao qual ninguém fica indiferente, o dedo acusador apontado ao mundo e não apenas aos dois países invocados, a França e Israel. Talvez se dispensassem alguns exageros maneiristas na forma como Nadav Lapid desenvolve este trabalho, talvez não seja evidente que a história precisasse de mais de duas horas para ser contada, talvez se aceitem as razões daqueles que contestam a atribuição do Urso de Ouro ao filme na mais recente edição da Berlinale, mas isso não invalida que “Sinónimos” seja um bom filme e que não mereça o tempo de uma ida ao cinema. A ver, portanto!


quinta-feira, 6 de junho de 2019

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Itamar Vieira Junior



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Itamar Vieira Junior
Museu de Ovar
04 Jun 2019 | ter | 21:30


Um dos paradigmas que mais se tem alterado nos últimos tempos tem a ver com uma cada vez maior proximidade entre escritores e leitores, fruto da promoção crescente de iniciativas que vão das apresentações de livros ou das comunidades de leitores, às grandes manifestações como os festivais literários ou as feiras do livro. Em Ovar, as tertúlias à roda dos livros são uma realidade cultivada desde 2013, muito por obra e graça de Carlos Nuno Granja, que teima em remar contra a corrente e em trazer ao encontro dos leitores importantes nomes ligados sobretudo às letras. Aqueles que amam os livros, reconhecem e valorizam este esforço e percebem que trazer às “Conversas Úteis” um autor da craveira de Itamar Vieira Junior, o vencedor do Prémio LeYa 2018, representa a possibilidade única de privar com um dos grandes escritores do nosso tempo.

Marcada pela informalidade, esta sessão deu a conhecer Itamar Vieira Junior nas suas dimensões enquanto escritor e enquanto pessoa. Profundamente envolvido com os grandes problemas sociais do nosso tempo, o escritor sabe que a literatura é uma arma poderosa e usa-a em busca da verdade, denunciando os abusos e combatendo as injustiças. É disto que trata o seu romance “Torto Arado”, na verdade a estrela da noite em Ovar. Protagonizado por mulheres, o livro foca-se em comunidades específicas do sertão brasileiro e que o escritor conheceu de perto, quer no âmbito da sua actividade profissional, quer também como parte do seu percurso académico como geógrafo de formação e doutorado em Estudos Étnicos e Africanos. “São comunidades de trabalhadores rurais que descendem de escravos. São pessoas que, apesar da abolição da escravatura, nunca deixaram de ser escravos de facto, indivíduos de terceira classe, sujeitos à servidão”, refere, acrescentando que “havia uma revolta em mim, precisava de contar esta história a partir da realidade destas pessoas, uma realidade ainda muito presente nos dias de hoje no Brasil e que os brasileiros desconhecem”. E conclui: “Este livro é um grito!”

Influenciado por escritores como Guimarães Rosa, Jorge Amado ou João Cabral de Melo Neto, Itamar Vieira Júnior começou a escrever ainda na adolescência. O projecto dum eventual primeiro livro, narrando as venturas e desventuras de duas irmãs, terminou ao fim de oitenta páginas. Dele chegou até hoje apenas o título, “Torto Arado”, que o escritor foi buscar à poesia de Tomás António Gonzaga. Ou talvez tenha chegado também algum pedacinho dessa ideia inicial, sobretudo quando percebemos que (quase) tudo se passa em torno das irmãs Bibiana e Belonísia. Escrito ao longo de um ano e meio, o livro foi submetido a concurso ao Prémio Leya e a expectativa quanto a uma eventual vitória nunca passou pelas cogitações do escritor. Daí que quando Itamar Vieira Junior, depois de ter sido informado da decisão do júri pelo próprio Manuel Alegre, ligou para a mãe a dar a notícia, a resposta não se fez esperar: “Deve ser trote, meu filho”. Não foi “trote” e, daí em diante, foi um nunca mais acabar de emoções, que tiveram o primeiro momento alto com a edição inaugural do livro em Portugal, em Fevereiro passado, e muito recentemente, quando o autor recebeu o Prémio, durante a Feira do Livro de Lisboa. Agora é a vez do Brasil acolher a publicação de “Torto Arado”, já no próximo mês de Agosto, e esse será, quiçá, o momento mais aguardado nesta viagem de sucesso: “Espero que o livro tenha um bom alcance junto dos leitores brasileiros”, diz.

Já na recta final da conversa, o público, que acorreu em número considerável ao Museu de Ovar, não se coibiu de colocar questões ao escritor, dele extraindo um conjunto de ideias que ajudaram a complementar toda a conversa inicial. Quanto ao Prémio LeYa, Itamar Vieira Junior reconhece que “tem uma chancela forte” e que “a responsabilidade quanto a próximas obras que possam vir a público aumenta”. Todavia, “escrever é um projecto de vida e eu continuaria a escrever, independentemente do prémio”, diz. Outro aspecto interessante ventilado pelo escritor refere-se às conexões entre “Torto Arado” e alguns títulos de autores portugueses, dando como exemplo José Saramago e “Levantado do Chão”. A propósito, diz: “Há aspectos comuns a ambos os livros que têm um enorme valor universal – o amor à terra, o pão que dela se extrai – e que acabam, forçosamente, por tocar os leitores”. E falou-se, claro, de política, essa entidade presente em tudo o que fazemos e mesmo no que não fazemos: “Num mundo imediatista, estarmos aqui reunidos, esquecidos da televisão ou do telemóvel, é um acto político. Uma subversão!” Uma bela subversão, diga-se, numa bela noite de conversa que, tão cedo, não se esquecerá.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

CONCERTO: "Encruzilhadas"




CONCERTO: “Encruzilhadas”
Orquestra de Jazz de Espinho com Eduardo Cardinho e José Miguel Moreira
Academia de Espinho – Auditório
01 Jun 2019 | sab | 21:30


Numa altura em que se está a completar uma década sobre a sua primeira apresentação pública, a Orquestra de Jazz de Espinho voltou a subir ao palco do Auditório da Academia de Música para uma grande noite. Uma vez mais não veio sozinha, desta feita trazendo consigo o vibrafonista Eduardo Cardinho e o guitarrista José Miguel Moreira, dois nomes que têm em comum o facto de possuírem percursos intimamente ligados à Academia, o primeiro porquanto faz parte do quadro de professores da casa e o segundo porque foi precisamente aqui que, nos idos de 2002, concluiu o curso de Percussão Clássica. Desta ligação íntima à Academia e do cruzamento de interesses em torno do jazz nasceu “Encruzilhadas”, confluência de composições inspiradas e de orquestrações e interpretações de enorme nível, proporcionando um serão único que o público sorveu com deleite e emoção.

Com um programa construído em torno de temas da autoria de Eduardo Cardinho (“Lua” e “Bipolar Hallucination”) e de José Miguel Moreira (“Airhead” e “Coentros”), aos quais se juntou “LH422”, de Paulo Perfeito - director desta Orquestra em parceria com Daniel Dias -, “Encruzilhadas” apostou sobretudo na originalidade. Ao público coube o privilégio de escutar uma série de temas em estreia absoluta – isto se virmos como um “ensaio geral” o facto de este mesmo programa ter sido tocado algumas horas antes no “Serralves em Festa” -, servindo a proposta para divulgar o trabalho de composição destes jovens músicos, nos quais se deve reconhecer uma enorme qualidade e talento. Características que se estendem por inteiro à Orquestra de Jazz de Espinho e aos seus jovens músicos, de novo o suporte perfeito de dois instrumentistas de eleição.

Entre as frases musicais de grande riqueza harmónica e os momentos mais “free”, a musica a querer saltar das pautas e a clamar pela grande improvisação, o que de melhor há a reter em “Encruzilhadas” é o entendimento perfeito entre o vibrafone de Eduardo Cardinho e a guitarra de José Miguel Moreira. E não estou a falar de diálogo entre instrumentos, antes duma relação de complementaridade, de cumplicidade única, como se cada um deles vivesse de e para o outro. Prova disso é a parte inicial de “Coentros”, a fechar o programa, com as lâminas do vibrafone tocadas com arco e as cordas da guitarra postas a vibrar com a ajuda duma baqueta. Foi um momento sublime, o público suspenso da complexidade melódica que tomou conta do concerto, a música a fluir de forma expressiva e totalmente livre. Inesquecível!

[Foto: Auditório de Espinho – Academia | facebook.com/auditoriodeespinhoacademia/]

domingo, 2 de junho de 2019

CERTAME: 3ª. Bienal Internacional de Arte Gaia 2019


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CERTAME: 3ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2019
Fábrica da Fiação de Lever
24 Abr > 20 Jul 2019


Sem ser necessário pensar muito, encontraremos, seguramente, um belo punhado de razões para não deixar de visitar esta terceira edição da Bienal Internacional de Arte Gaia 2019. Uma haverá, porém, que se sobrepõem a todas as outras: É que não é todos os dias que, num mesmo espaço, qualidade e quantidade se oferecem aos nossos olhos sob a forma de arte. Na Quinta de Fiação de Lever, aquilo que espera o visitante é um conjunto vasto e riquíssimo de trabalhos artísticos em diversos formatos, suportes e texturas, que nos dizem muito do actual estado da arte em Portugal. E a conclusão a que se chega é que se está a trabalhar muito, se está a trabalhar bem e que há um sentido em cada trabalho, uma mensagem que se quer passar e que reflecte preocupações muito concretas, das quais “paz e refugiados” ou “mulheres e cidadania” são apenas dois exemplos maiores.

Empenhada em construir pontes com as questões de ordem política e social que estão na ordem do dia, a Bienal Internacional de Arte Gaia 2019 apresenta um conjunto superior a dois milhares de obras de 502 criadores, oriundos de 14 países. Percorrendo os dois pavilhões da antiga fábrica, o visitante começa por contactar com a obra do grande escultor que é Zulmiro de Carvalho, “homem de imenso coração e gigantesca obra” e que é o artista homenageado nesta edição da Bienal. Seguem-se as exposições “Pares”, com curadoria de Norberto Jorge e Rui Ferro, “(sub)missão”, com curadoria de Filipe Rodrigues, e “Na Sombra do Infinito”, com curadoria de Albuquerque Mendes, todas elas com belíssimas propostas, das quais destacaria os trabalhos dos escultores Ana Fernandes, Alírio e Carlos Barreira, João Pedro Rodrigues, Marta de Aguiar e João Ferreira e dos fotógrafos Sara Carneiro e Luís Santos.

Com curadoria de Ilda Figueiredo e Mirene, “Paz e Refugiados” reclama do visitante disponibilidade e entrega. Mais do que a beleza e harmonia do conjunto exposto, há toda uma onda de solidariedade que abraça os artistas aqui representados e que une vontades contra as guerras, as opressões, as injustiças e as desigualdades, em defesa da Paz, da emancipação e progresso da Humanidade. Outras duas exposições que reforçam a ideia desta ser uma “Bienal de Causas” são “Mulheres e Cidadania”, com curadoria de Manuela Aguiar e Luísa Prior, e “Museu de Causas / Coleções Agostinho Santos”, cada uma delas valendo, por si só, uma deslocação a Lever. Mas há ainda para ver o trabalho de 89 artistas seleccionados no Concurso Internacional, as exposições “Mínimo, máximo e assim assim”, com curadoria de Fátima Lambert, e “Territórios do vinho”, com curadoria de Manuel Cabral, um espaço “Viarco” e um espaço “Ateliê”, este último apresentando exemplares das coleções de galeristas e particulares e onde o visitante vai encontrar nomes consagrados como os de Siza Vieira, Cruzeiro Seixas, Nadir Afonso, João Cutileiro, Rui Chafes, Ângelo de Sousa ou Nikias Skapinakis, entre muitos outros.

Para o final deixo propositadamente as duas exposições mais inspiradoras, dum ponto de vista estritamente pessoal, e sobre as quais falarei separadamente noutro espaço do blogue. A primeira chama-se “Livre Mente”, é comissariada pelo jornalista Sérgio Almeida e explora a relação entre várias formas de arte, com ponto de partida na literatura. Desta forma, o visitante tem a oportunidade de mergulhar noutras formas de expressão artística, que não os livros, de escritores como Rui Machado, Afonso Reis Cabral, João Rasteiro, Minês Castanheira, Paulo M. Morais, Clara Haddad ou Aurelino Costa. Por outro lado, há esse momento delicioso que nos é oferecido por Maria do Carmo Vieira e que nos convida a “Desempacotar a Cultura”, uma exposição individual na qual a artista representa, em embalagens de leite vazias, mais de três dezenas de nomes grandes da nossa literatura, de Florbela Espanca a José Cardoso Pires, de Sophia de Mello Breyner a Miguel Torga ou José Saramago. Imperdível!

TEATRO: "Don Juan Esfaqueado na Avenida da Liberdade"



TEATRO: “Don Juan Esfaqueado na Avenida da Liberdade”
Texto e direcção artística | Pedro Gil
Cenografia e adereços | Pedro Silva
Figurinos | Catarina Graça
Interpretação | Filipa Matta, Miguel Loureiro, Pedro Gil, Raquel Castro, Rita Calçada Bastos, Tónan Quito
Direcção de produção | Raquel Castro
Co-produção | Barba Azul, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Municipal do Porto, Centro Cultural Vila Flor
135 minutos (com intervalo) | Maiores de 16 anos
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica
Teatro do Campo Alegre
24 Mai 2019 | sex | 19:00


Do cinema à pintura, da música ao teatro, são inúmeras as criações artísticas que beberam a inspiração no mito de Don Juan. Exemplo maior do imaginário comum, a lenda fala-nos de um intrépido sedutor que assassina um Comendador após conquistar o coração da sua jovem filha. Quando, algum tempo mais tarde, encontra num cemitério a estátua do homem que matou, jocosamente convida-a para jantar, ao que esta prontamente acede. Procurando não se mostrar intimidado com a reacção de tão invulgar interlocutor, Don Juan prossegue com as suas fanfarronices e, ao apertar a mão à estátua para selar o acordo, vê-se por ela arrastado para o Inferno.

Pegando em matéria tão rica de significados, o colectivo Barba Azul decidiu dar um novo sentido à história e criar a sua própria versão, fazendo subir ao palco este “Don Juan Esfaqueado na Avenida da Liberdade”. Preenchendo parte do programa do último fim de semana do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, a peça mostra-nos um Don Juan que, depois daquele inesperado encontro, se esquiva ao aperto de mão da estátua e que, consequentemente, se vê perseguido, para onde quer que vá, pelo fantasma do Comendador. A solução passa por fugir no tempo, após uma “ida à bruxa” e a confirmação de que a maldição é irrevogável no tempo presente. Por artes mágicas, Don Juan acaba por “aterrar” no século XXI, em plena Lisboa, onde maldições de outra ordem o esperam.

Dividida em duas partes distintas, separadas entre si por um “conveniente” intervalo, a peça está recheada de momentos de humor e de bom teatro, embora isto seja sobretudo válido para a primeira metade. Os momentos em que Tónan Quito, no papel de Don Juan, se confronta ao mesmo tempo com as quatro amantes ou em que Rita Calçada Bastos, deixando a aldeia natal, se encontra com o seu amor e lhe explica que está grávida, são absolutamente geniais. Tudo decai sobremaneira na segunda parte, a pouca originalidade a ceder espaço ao lugar comum e a um certo mau gosto, salvando-se, apenas, o quadro do “nenúfar”. Com a peça a chegar ao fim, a previsibilidade adensa-se e o riso torna-se amarelo. Às mãos de delinquentes, madrugada alta, Don Juan morre sem glória e, com ele, uma peça que tanto prometia.

[Foto: Miguel Loureiro | facebook.com/miguelinho.loureiro]

sábado, 1 de junho de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Future Scenarios"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Future Scenarios”,
de Lena Dobrowolska e Teo Ormond-Skeaping
Ci.CLO - Bienal Fotografia do Porto
Reitoria da Universidade do Porto
16 Mai > 02 Jul 2019


Enquanto prossegue a Ci.CLO – Bienal Fotografia do Porto, tempo de particularizar uma das dezasseis exposições inseridas no certame, aquela que, dum ponto de vista pessoal, mais impacto teve. Ocupando um espaço no piso térreo da Reitoria da Universidade do Porto, “Future Scenarios”, conjunto de imagens da autoria da polaca Lena Dobrowolska e do britânico Teo Ormond-Skeaping, explora os temas da vulnerabilidade – e da responsabilidade – pelas alterações climáticas e o papel que a sua narrativa pode desempenhar na moldagem do futuro da humanidade. Nessa medida, esta é uma exposição plenamente integrada no tema da Bienal - “Adaptação e Transição” -, ajudando a perceber de que forma podemos colaborar na transição para uma sociedade mais adaptada e sustentável.

Produzida no Laos, Bangladesh, Nepal, Reino Unido e Uganda, “Future Scenarios” mostra de que forma os países mais vulneráveis, considerados indefesos face às alterações climáticas, emergem agora como líderes no desenvolvimento de estratégias de redução de danos e de adaptação. É neles que se descobre uma enorme resiliência dos seus habitantes, se desenvolvem conhecimentos sobre a questão da adaptação, se investigam perdas e danos e se partilham avanços sobre energias renováveis. São eles, igualmente, que se mostram mais perto da descarbonização das suas economias, não obstante serem, como grupo, os que menos contribuem para o total das emissões globais de carbono. As nações desenvolvidas – as principais responsáveis pelas alterações climáticas e as que têm os melhores recursos técnicos e financeiros para as combater – parecem, pelo contrário, imersas num estado de apatia política, sem evidenciarem grandes progressos no sentido da mitigação ou da adaptação.

Documentando fenómenos exacerbados de alterações climáticas – migração induzida pelo clima, catástrofes naturais intensificadas, aumento do nível do mar, energias do futuro, conflitos, stress térmico e hídrico e segurança alimentar - Dobrowolska e Ormond-Skeaping oferecem-nos vislumbres do que poderá vir a ser o futuro. Esta é a sua forma de chamar a atenção para o facto de sermos todos responsáveis – e vulneráveis – às alterações climáticas e, se bem que, obviamente, nem todos sejamos igualmente responsáveis, todos nós deixamos pegadas de carbono, pelo que todos temos um papel a desempenhar no combate às alterações climáticas.

Acrescentaria apenas que, para esta exposição imperdível, o visitante não deve ir pressionado em matéria de tempo. As legendas que acompanham cada uma das fotos (em inglês) são extensas mas de leitura obrigatória. Só assim entenderá na íntegra o trabalho sazonal nos fornos de tijolos de Gabtoli ou a vida nas favelas que se estendem ao longo da linha de caminho de ferro de Tejgaon (Bangladesh), o impacto de 1.1 milhões de refugiados sudaneses, congoleses, somalis ou do Burundi sobre um pequeno país como o Uganda, o resultado da passagem do furacão Michael junto à costa da Flórida (Estados Unidos) ou a série de “Retratos de Resiliência”, entre muitos outros. Há ainda uma apresentação de imagens em diapositivo que complementam esta excepcional mostra e que não deve perder.

LIVRO: "As Longas Noites de Caxias"



LIVRO: “As Longas Noites de Caxias”,
de Ana Cristina Silva
Ed. Planeta Manuscrito, Março de 2019


No rescaldo das eleições para o Parlamento Europeu, percebo com tristeza o peso da abstenção e penso o quanto isto é revelador daquilo em que nos vamos tornando. Independentemente das razões que assistam às pessoas, de esta poder ser uma forma de manifestar desagrado ou desencanto perante a política e os políticos, o que me parece estar cada vez mais em causa é a questão da memória enquanto vinco identitário da nossa história colectiva. Quanto deste alheamento é devido ao facto de termos cada vez mais dificuldade em lembrar o quanto devemos àqueles que deram tudo de si – inclusive a própria vida – para que escolher em liberdade pudesse ser hoje um direito de todos? Em seu nome, em nome da sua memória, votar é, mais do que um direito, um dever de consciência. E aos deveres de consciência não temos como fugir!

É sobretudo por isto que o mais recente romance da escritora Ana Cristina Silva é tão importante, porquanto nos recorda que a História não deve ser negada nem esquecida, avivando uma memória que se vai esboroando, ao mesmo tempo que nos devolve histórias dum período triste, sinistro, que alguns insistem em branquear. Fazendo incidir a sua atenção em “duas mulheres que ficaram na história da PIDE”, como podemos ler na capa do livro, “As Longas Noites de Caxias” é a história de todas as mulheres e de todos os homens que foram humilhados e isolados, sofreram a privação do sono, os espancamentos, a “estátua”, os insultos e as chantagens e que, como consequência imediata da tortura a que foram sujeitos, se viram acometidos de alucinações e delírio, perdas de conhecimento, ansiedade, insónia e tentativa de suicídio. Mas também daquelas figuras sinistras que, pretendendo justificar o injustificável, perseguiram , torturaram e mataram.

Os méritos de “As Longas Noites de Caxias”, porém, não se esgotam neste trazer à superfície os lugares, os nomes e os acontecimentos que marcaram um tempo que importa lembrar. Ana Cristina Silva sabe como tornar a leitura mais apetecível, avançando e recuando no tempo para melhor cruzar os acontecimentos. Ao leitor caberá a tarefa de combinar as pontas deixadas soltas e ir percebendo a dimensão interior destas duas mulheres, por força das circunstâncias em lados opostos da barricada. Apresentando Laura como uma mulher de convicções fortes e que resiste, apesar das humilhações e privações a que é sujeita, é sobretudo na figura da agente Leninha e na sua complexa personalidade que a autora se detém, penetrando na sua intimidade e privacidade, levantando o véu das falsas aparências e revelando o pulsante estigma do mal sempre pronto a manifestar-se.

Debaixo da pele deste livro, perceberá o leitor o dedo apontado àqueles que reabilitaram parcialmente a PIDE, aos tribunais que julgaram com indulgência escandalosa as atrocidades cometidas, àqueles que atribuíram pensões de reforma aos pides e a quem contribuiu, directa ou indirectamente, para que os membros de uma associação criminosa passassem, burocraticamente, à categoria de vulgares servidores do Estado. Ao mesmo tempo, “As Longas Noites de Caxias” não deixa de encerrar um lamento em nome de quem se sente injustiçado, devolvendo a voz àqueles cuja estatura moral e cívica exige que não sejam esquecidos. Numa altura em que vemos ser chumbada pelo executivo camarário a iniciativa do escritor Pedro Vieira, pedindo que o nome de João Arruda, Fernando Gesteiro, Fernando dos Reis e José Barnetto, os quatro jovens mortos pela PIDE no dia 25 de Abril de 1974, fosse dado a uma rua de Lisboa, cingimos ao peito “As Longas Noites de Caxias” e, irmanados no sentido de que a memória nunca se apague, gritamos Liberdade!

quinta-feira, 30 de maio de 2019

CONCERTO: Luca Argel



CONCERTO: Luca Argel
Bar do Cine-Teatro de Estarreja
25 Mai 2019 | sab | 22:00


“O que espanta miséria é festa!”
Beto Sem Braço

No regresso a Estarreja, após uma participação particularmente activa na última edição do Carnaval da cidade, Luca Argel esteve no Bar do CTE para apresentar “Conversa de Fila”, o seu último trabalho autoral. Leve e bem humorado, este álbum constitui uma resposta à tristeza e à desesperança que o Brasil e os brasileiros vivem neste momento menos positivo da sua História. De forma muito clara, o cantor carioca radicado em Portugal há quase oito anos faz questão de oferecer um momento colorido, pleno de alegria e riso, esse fôlego vital que permite reinventar a vida e fazer com que cada um possa seguir em frente o seu caminho.

Tomando o Samba como a sua grande força inspiradora, Luca Argel oferece-nos um trabalho que é, todo ele, uma celebração, um grito contagiante a clamar felicidade. É assim com “Pisque Três Vezes”, “Não Digo” e “Só Eu Acho?”, os três temas que abriram o concerto e que revelaram, desde logo, um enorme cuidado e bom gosto na construção dos poemas, mas também uma imensa frescura e harmonia em cada uma das composições, alicerçada numa voz timbrada e extremamente melodiosa. Não escondendo o seu apreço pela música de Chico Buarque, Luca Argel foi buscar “Doze Anos” à “Ópera do Malandro”, oferecendo em seguida uma espécie de réplica intitulada “Anos Doze” e que não fala dessa infância de crescer solto, de brincar na rua, jogar à bola e saltar os muros, antes de trocar tardes de praia “por reprises do Jiraya ou caçando Pokémon”.

Deixando momentaneamente de parte “Conversa de Fila”, o cantor carioca visitou ao de leve o seu álbum anterior, “Bandeira” (2017), trazendo-nos “Estar o Ó” (um trocadilho que é também uma homenagem a “Star Wars”), “Rua da Consolação” e “Acanalhado”, mas também, mais à frente no concerto, “Ninguém Faz Festa” e “Calote”, este último tema dedicado a Joe Berardo. No regresso ao álbum mais recente, foi possível escutar “Vila Cosmos”, uma viagem às referências do cantor - “podemos sair do nosso lugar mas o nosso lugar não sai de nós”, disse -, “Natal, Natal” e “Rato! Rato! Rato!”. Luca Argel não esqueceu “Sorria”, o hino do Carnaval de Estarreja em 2019, no qual foi acompanhado por alguns dos presentes. Para o fim, deixo propositadamente, “Samba Invertido”, “Gentrificasamba” e “Conversa de Fila”, sobretudo pela qualidade das respectivas letras. Delas se derrama um humor refinado, uma enorme doçura nos gestos descritos, mas também uma certa ironia na forma como é desenhado o nosso quotidiano. “Lembranças antigas / Histórias de vida / Que a gente partilha” resume na perfeição o sujeito deste delicioso serão, seguido com emoção por todos os presentes. Que não foram muitos, mas foram muito bons!

quarta-feira, 29 de maio de 2019

LUGARES: Museo Delle Sinopie


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LUGARES: Museo Delle Sinopie
Piazza dei Miracoli, Pisa
Horário | Todos os dias, das 10:00 às 12:45 e das 14:00 às 17:00 (de novembro a fevereiro), das 10:00 às 18:00 (em março e outubro) e das 10:00 às 19:00 (de abril a setembro)


Condenadas a permanecerem ocultas sob a obra acabada, as preciosas “sinopias” são dos poucos trabalhos gráficos que restam dos antigos mestres do medievo, uma vez que esboços ou desenhos em papel ou em pergaminho que tenham chegado até aos nossos dias são extremamente raros. Primeiro passo na execução de um fresco, a sinopia é um desenho traçado na primeira camada de gesso, o termo advindo de “sinoper” ou “sinopias”, nome dado ao pigmento vermelho misturado com água e aplicado com a ajuda de um pincel. Foi esta a técnica utilizada pelos primeiros pintores a fresco para contarem as histórias do Velho e do Novo Testamento nas paredes do Camposanto, em Pisa, aí traçando as cenas por si idealizadas, dando o devido contorno às figuras e conferindo-lhes volume através da técnica pictórica do “claro-escuro”.

A colecção do Museo Delle Sinopie é absolutamente única e o facto de ser possível apreciá-la tal como a vemos hoje deve-se a um acontecimento terrível. Em 1944, um violento incêndio assolou o Camposanto na sequência de um bombardeamento aéreo durante a II Guerra Mundial. Tornou-se então imperiosa uma intervenção de urgência no sentido de resgatar as vastas porções de frescos que, milagrosamente, não tinham sido afectadas e proceder ao seu restauro. Foi precisamente ao remover a camada superficial dos frescos que as sinópias vieram à luz do dia. Feita a sua remoção, as mesmas viriam a constituir o espólio deste novo Museu inaugurado em 1979.

Aqui podemos admirar, com toda a clareza, o estilo de grandes artistas como Bonamico Buffalmacco, o criador do famoso “Triunfo Sobre a Morte”, mas também Andrea Bonaiuti, Antonio Veneziano, Spinello Aretino, Taddeo Gaddi, Piero di Puccio e Benzo Gozzoli, os três últimos responsáveis pela série de Histórias do Velho Testamento, cujo ciclo constitui o mais extenso dos trabalhos gráficos do século XIV conhecidos até hoje. Ao visitante recomenda-se, como complemento da visita ao Museo Delle Sinopie, uma incursão ao Camposanto, no lado norte da muito bela Piazza dei Miracoli, para apreciar os frescos que se mantêm conservados e, assim, perceber o real valor do conjunto pictórico que se abriga nestes dois espaços. Absolutamente a não perder!