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sábado, 29 de novembro de 2025

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #100



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #100
Com | Sara Naves Sousa, Daniel Soares e Gonçalo Almeida
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
27 Nov 2025 | qui | 21:30


O Shortcutz Ovar assinalou na noite da passada quinta-feira a sua centésima sessão. Trata-se de um marco simbólico para um certame que, nascido a 26 de Janeiro de 2017, tem dado um importante contributo para a afirmação da vitalidade do cinema português em formato curto. Primeiro no Museu Júlio Dinis e, desde Junho de 2020, na Escola de Artes e Ofícios, o projecto soube conquistar e fidelizar um público a rondar os vinte mil espectadores, transformando cada sessão num momento lúdico e didáctico, onde ver bom cinema e discutir a sua relevância são as duas pedras de toques. Ao longo destas cem sessões, o Shortcutz Ovar tornou-se ponto de passagem obrigatório para realizadores emergentes e para amantes de cinema que souberam reconhecer aqui uma programação consistente, feita de risco, experimentação e espírito crítico. “Make Movies Great Again”, apetece dizer, no momento de celebrar cem oportunidades de contacto directo com a criação cinematográfica, cem possibilidades de formar público, de abrir horizontes e estimular o pensamento. A vitalidade do projecto, sustentada por uma comunidade que cresce a cada edição, sugere que as próximas cem sessões têm todas as condições para continuar a surpreender pela positiva e a provar que, em Ovar, o cinema curto é uma causa duradoura e uma festa contínua.

Passando aos filmes propriamente ditos, a sessão abriu com “O Estado de Alma”, uma curta-metragem de imagem animada com assinatura de Sara Naves Sousa, professora da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Nela, o desconforto assume forma física e brutal numa narrativa que acompanha Alma, uma jovem que acorda diariamente transformada, espelho das suas inseguranças e da dificuldade em corresponder a um ideal de normalidade. Em Ovar pela primeira vez, a realizadora mostrou um filme que se destaca pela ousadia estética e emocional com que traduz a ansiedade social, os medos de encarar ou de se relacionar com o outro, a sensação de inadequação que corrói a personagem por dentro e por fora. Até a casa, tradicional refúgio e porto de abrigo, surge aqui como espaço caótico, incapaz de oferecer segurança a um processo de crescente apatia que culmina no colapso. Só no fundo desse abismo Alma encontrará a possibilidade de renascer, reconhecendo nas diferenças dos outros a prova de que ninguém está realmente só.

“Bad For a Moment”, de Daniel Soares, foi o filme que preencheu o período intermédio da sessão, impondo-se como espelho incómodo sobre a função social da arquitectura e o preço oculto do “progresso”. Filmada no Bairro da Alfazina, esplêndido miradouro natural sobre Lisboa e o Tejo, o filme expõe as tensões latentes da gentrificação e a dureza das vidas que ela empurra para fora do mapa. Há, no centro da narrativa, o desconforto e o dilema moral do arquitecto de contribuir para um mundo melhor o que, na prática, acarreta o desmoronar do mundo de muitos, vítimas que são da voracidade imobiliária. Rebelar-se contra o sistema parece ser um “não assunto”, sabendo que uma eventual escusa  não é sinónimo de travão a tudo o que está em marcha, porquanto haverá sempre alguém pronto a ocupar o lugar. Distinguida com o Prémio Especial do Júri do Festival de Cannes, a obra confirma, à semelhança dos anteriores “Please Make It Work” e “O Que Resta”, já exibidos no Shortcitz Ovar, o rigor estético e a sensibilidade para as causas sociais do realizador luso-alemão e questiona até quando é possível resistir num cenário onde o idealismo cede, quase sempre, ao peso das consequências.

A encerrar a sessão - e a 9.ª temporada -, “Atom & Void”, de Gonçalo Almeida, seguiu as pisadas das curtas anteriores e voltou a instalar o espectador no lugar do desconforto. Filmado no interior de uma garagem alentejana, o filme transforma uma aranha na protagonista silenciosa de uma fábula pós-apocalíptica. Desafiando o poder e sedução da alta tecnologia, a obra devolve à artesania a sua capacidade expressiva, convertendo-se num lúcido tratado sobre a condição humana - mesmo sem humanos em cena - e numa reflexão inquietante sobre o rumo civilizacional num antropoceno onde os efeitos da acção do homem sobre o planeta são evidências que os líderes das grandes potências teimam em negar. Enquanto se mascaram os danos do progresso sob a bandeira do avanço científico, a corrida pelo domínio geopolítico permanece a fonte de todos os conflitos. Não por acaso, “Atom & Void” abre com uma advertência de Yuri Gagarin: “There never has been a bloodless victory over nature”. Ela lembra-nos que cada conquista exige um preço, e que a imaginação, quando alimentada por meios mínimos e uma lente comprada à custa de todo o orçamento de um filme, é capaz de revelar abismos que preferimos não enfrentar.

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