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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Todo o Mundo é Composto de Mudança" | Álvaro Domingues



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Todo o Mundo é Composto de Mudança”,
de Álvaro Domingues
Curadoria | Aníbal Lemos
Centro de Arte de S. João da Madeira
22 Nov 2025 > 10 Jan 2026


Álvaro Domingues é um dos nossos maiores pensadores da paisagem e do território. Assente em livros, imagens e conferências, o que vou sabendo dele, o que vou vendo e escutando, reforça a cada dia esta certeza. Com profundidade consistente, o seu trabalho incide no estudo da geografia urbana, no território, na paisagem e nas políticas urbanas, conjugando investigação teórica e elaboração crítica. No passado mês de Julho, foi eleito Académico Efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, sinal por demais evidente da sua relevância científica no panorama português. Essa construção intelectual serve de alicerce a um olhar fotográfico que não é mero capricho artístico, antes resulta de um pensamento geográfico, sociológico e político, estruturado e amadurecido no meio académico. Exemplo acabado de um “olhar o território não como cenário, mas como processo”, aí está, à vista de todos, “Todo o Mundo é Composto de Mudança”, exposição de fotografia inaugurada no passado sábado no Centro de Arte de S. João da Madeira, com curadoria de Aníbal Lemos. Nela, o visitante entra com a convicção de que irá ver paisagem, mas sairá a perceber que viu tempo: O tempo das lendas herdadas, o tempo das metamorfoses rápidas, o tempo de um território que insiste em estender-se muito além de uma só fotografia, quanto mais de um só discurso.

No centro do trabalho de Álvaro Domingues está um olhar atento à paisagem como espelho das transformações sociais e económicas: Ele não apenas fotografa, mas “lê” o território. A sua famosa noção de “paisagens transgénicas” reflecte precisamente essa abordagem crítica. Ao inspirar-se no conceito biológico de organismos geneticamente modificados, Domingues descreve paisagens híbridas, instáveis, compostas por elementos muito diversos — rurais, industriais, urbanos — que coabitam num mesmo quadro estético e simbólico. Nas suas fotografias, tais paisagens revelam a dissolução das fronteiras tradicionais entre o “natural” e o “artificial”, oferecendo uma metáfora sociológica e política para a mudança acelerada e a globalização. Domingues convida-nos a perceber que vemos mal e identificamos pior, educados que fomos por um imaginário que promete permanência onde só existe fluxo. Mas, em vez de lamentar estragos, o autor propõe uma leitura mais madura: a paisagem como sismógrafo, registo das mudanças que fizemos, das escolhas que repetimos, dos desejos e omissões que deixámos impressos no território. A sedução das imagens resulta precisamente dessa ambiguidade: são belas, mesmo quando denunciam, poéticas mesmo quando se afirmam como “meios complementares de diagnóstico”.

Criticamente, a obra de Álvaro Domingues sugere uma tensão entre a promessa de desenvolvimento e o agravar das desigualdades. Fazendo valer o olhar irónico e um humor subtil, as suas imagens iluminam discrepâncias económicas e culturais nos territórios sobre os quais se debruça. Em Portugal como no Brasil, no México como em Espanha, o seu olhar guia o espectador ao encontro de construções improvisadas, viadutos interrompidos, cabos eléctricos emaranhados, rotundas que culminam estradas sem saída, animais de todos os géneros que povoam paisagens marcadas pela tecnologia. Domingues não pretende resolver o território, nem celebrá-lo ou castigá-lo. Pretende apenas torná-lo legível. E para isso desmonta mitologias, raspa vernizes, aproxima escalas, cruza o microscópico com o monumental. Cada fotografia é um convite à dúvida e um desafio à simplicidade com que julgamos compreender o espaço que habitamos. No fim, a exposição opera um raro efeito: devolve-nos o território como tarefa, um lugar em permanente experimentação, para o qual não basta olhar; é preciso interpretar. Sai-se com a sensação de que, “entre a rua e o país” vai, de facto, “o passo de um anão”. Mas que esse passo, quando dado com olhos de ver, pode revelar mais do que qualquer geografia oficial. Álvaro Domingues, uma vez mais, ensina-nos a caminhar.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Paisagens Tecnológicas"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Paisagens Tecnológicas”,
de Álvaro Domingues
Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa 2024
Casa da Torre
20 Jul > 21 Out 2024


Geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Álvaro Domingues tem-se debruçado sobre as temáticas da geografia urbana, do urbanismo e da paisagem. A sua obra escrita fala-nos disso, como nos falam disso as inúmeras imagens que partilha com aqueles que o seguem nas redes sociais. No seu livro “Paisagens Transgénicas” (Ed. Museu da Paisagem, Maio de 2021), refere-se a “paisagem” como “uma daquelas palavras cujo sentido habitualmente não se interroga. De tão banal, por mil vezes repetida, adjetivada, convertida em metáfora e outros artifícios de linguagem, toma-se a palavra como auto-explicativa e passa-se rapidamente aos assuntos que ela designa - são infinitos, polémicos e contraditórios. Atente-se àquilo de que se fala quando se fala de paisagem e logo se perceberá a imensa cacofonia, eliminadas certas tonalidades frequentes e relaxantes que povoavam os postais ilustrados, as imagens dos calendários e, agora, o fundo dos ecrãs dos computadores - o pôr do sol na linha do horizonte no grande mar oceano, o lago com a montanha ao fundo e os picos nevados, uma cena campestre de recorte romântico e cenografia a condizer, a fita da estrada entre colinas com o recorte da urbe ao longe e outros exemplares perfeitamente codificados por regimes de visibilidade do real bastante difundidos e visitados.”

Explorar este livro é abrir os horizontes sobre paisagem, transgénicos e identidade, fibras nervosas e espaço verde topiário, o chão pacífico da lavoira, ruas [que] se abrem derribando todos os tropeços que lhe fizerem impedimento. É perceber que o olhar paisagista pode não se revelar espontaneamente e que, muito menos, são consensuais as formas sobre “o que ver, como ver, sentir e como julgar e partilhar o que é visto.” “Paisagens Tecnológicas”, exposição que integra a Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa 2024 e que pode ser vista na Casa da Torre de Lamego até ao dia 21 de Outubro, reforça a visão de Álvaro Domingues, trazendo para primeiro plano o lado tecnológico da paisagem, a “natureza sintética” na qual “são os humanos especialistas”. Trabalhando sobre uma paisagem que ele próprio vem modificando há décadas e séculos, feita de muros, arruamentos, socalcos, sistemas de rega e uma “policultura promíscua”, o homem tem hoje para nos oferecer auto-estradas, viadutos, pontes, túneis, barragens, condutas, heliportos, torres eólicas e linhas da alta tensão. As imagens estão lá a confirmá-lo, numa sequência que pede tempo para olhar e mais tempo para reflectir.

Nos idos de 1531/2, Rui Fernandes falava de uma terra “(…) muito montuosa pela maior parte e toda é muito aproveitada, principalmente para o Douro. E os homens são tão benfeitores que às fragas altas levam o cesto da terra às costas para plantarem as parreiras e figueiras, pereiras, ameixoeiras, e todo outro arvoredo. E todas as estradas estão cobertas de fruteiras e videiras (…)”. Álvaro Domingues deixa-nos este excerto da “Descrição do terreno ao redor de Lamego duas léguas”, para lembrar que “mais do que impressões visuais sobre terras montuosas e muito aproveitadas, Rui Fernandes assinala modos de transformação”. E conclui: “Este é um exemplo claro das razões tecnológicas da paisagem. Construir socalcos e caminhos, pontes, fontanários, casada, cardenhos, moinhos, armazéns, adegas…, são trabalhos que mobilizam saberes, técnicas, ferramentas, máquinas e toda a infinidade de coisas de que é feita a tecnologia - desde as técnicas de enxertia, aos sistemas globais de telecomunicações (…). O território é uma construção social, um retalho do mundo que, como escreveu Camões, é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.”

sábado, 24 de fevereiro de 2024

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Valdemar Cruz



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Valdemar Cruz
Participação especial | Álvaro Domingues
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
22 Fev 2024 | qui | 17:00


Com a emoção de sempre e um renovado vigor, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte após quatro meses de interregno. Aberta a todos, a 13ª. sessão das tertúlias literárias contou com a participação de uma dezena de doentes internados na Instituição, a quem foram dirigidas as primeiras palavras de saudação e agradecimento pela sua presença e interesse. Palavras que se estenderam ao restante auditório e, em particular, ao convidado da sessão, Valdemar Cruz, jornalista que nas últimas três décadas fez parte da redação do semanário Expresso e que acaba de lançar o livro “Paisagens Construídas – O Passado e o Presente da Arquitetura Portuguesa em 16+1 Obras”. E foi, muito justamente, em torno da arquitectura que a conversa fluiu, enriquecida pela participação especial de Álvaro Domingues, geógrafo e Professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, e pela espontaneidade e dinâmica de um público “interessado e interessante”.

“Não sou arquitecto nem tenho nenhuma formação em arquitectura. O que eu sou é jornalista e aquilo que eu faço, e sempre fiz, é contar histórias”. Abrindo a conversa com esta ressalva, Valdemar Cruz pôs em evidência, ao longo de noventa minutos, a sua faceta do “jornalista-contador-de-histórias”, o olhar atento e um apurado sentido crítico a “condimentarem” as histórias que se propôs partilhar com o público. “Andar pela rua e reparar nas coisas, e nomeadamente reparar nos prédios, porque nos contam muitas histórias”, terá servido de ponto de partida para “elencar um conjunto de obras que são realmente importantes no contexto da Arquitectura portuguesa” e avançar com o projecto para este seu livro. Para tal, implicou no processo mais de cinquenta pessoas directa ou indirectamente ligados ao fascinante mundo da arquitectura, pedindo-lhes que indicassem as cinco obras “que mais as comoveram, que mais as influenciaram”. Daqui resultaram 133 nomeações, das quais extraiu aquelas que recolheram o maior número de “votos”, chegando assim a este corpo de dezasseis obras “representativas do que de melhor se fez na arquitetura portuguesa desde o início do século XX até a atualidade”.

Debruçando-se sobre o livro, Valdemar Cruz começou por confessar que o produto final “é bastante melhor do que aquilo que tinha imaginado”. Falar de obras tão belas exigia “um livro bem construído em todos os seus aspectos” e a solução foi avançar para uma edição de autor, acrescentando à parte literária da obra uma forte componente visual através das mais de cem fotografias a cores de Inês d’Orey, o todo cuidadosamente harmonizado graças ao design gráfico com assinatura do André Cruz Studio. Folheando este seu “bebé”, como lhe chamou o moderador, Valdemar Cruz trouxe ao de cima as histórias por detrás de algumas das obras. Pegando numa “deixa” de Álvaro Domingues sobre arquitectura e poder, falou dos convidados na inauguração do edifício da Fundação Calouste Gulbenkian e a estagnação que representam face a uma obra que prenuncia o 25 de Abril e é “sinónimo de futuro”. Também da intenção dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas em romper com o cânone e criar “uma arquitectura revolucionária num país em ditadura” com a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa. Ou ainda o extraordinário trabalho de arquitectura de Archer de Carvalho, Nunes de Almeida e Rogério Ramos em torno da Barragem e Complexo de Picote, em Miranda do Douro.

Convidado especial desta sessão, Álvaro Domingues também começou por fazer a ressalva de que não é arquitecto, o que lhe permite estar “mais atento à linguagem dos arquitectos sobre a arquitectura”. Com o brilhantismo que lhe é reconhecido, falou da importância de “ler arquitectura” e quais as ferramentas que nos podem ajudar a “avaliar as muitas questões que a arquitectura trata”. Foi o tempo de trazer para a discussão um dos textos seminais da cultura da Antiguidade Clássica, o tratado “De architectura” de Vitrúvio, escrito no Século I a.C. . Explorando os conceitos vitruvianos – “firmitas”, “utilitas” e “venustas” –, Domingues desafiou os ouvintes a terem presente as ideias de firmeza, funcionalidade e beleza no momento de olharem uma obra (qualquer obra) de arquitectura e perceberem qual destas “ferramentas” valorizam acima das restantes. Da “caixa de sapatos” da Casa da Música à função de um espigueiro, da íntima relação entre estética e anestesia aos candeeiros da casa de Álvaro Siza, das arquitecturas “que pesam ou que voam” ao Tanque da Afurada, o público foi convidado a participar numa verdadeira aula de arquitectura, onde avultaram a clareza da exposição e o valor dos ensinamentos.

“As palavras são como as cerejas”, fez notar Valdemar Cruz, quando confrontado com o avançar da hora. A parte final da conversa ficou marcada por uma apresentação muito breve de três outros livros seus, um deles com ponto de partida em trinta e quatro depoimentos de personalidades da cultura portuguesa e intitulado “O Que a Vida me Ensinou” e os outros dois baseados em investigações jornalísticas, “Histórias Secretas do Atentado a Salazar” e “A Filha Rebelde”, este último em co-autoria com o jornalista João Pedro Castanheira. Para o final ficou também a descodificação do “+1” que surge no livro “Paisagens Construídas” e que Valdemar Cruz explica como sendo a possibilidade oferecida ao leitor de ter, também ele, o poder de escolher as suas obras de arquitectura favoritas e de acrescentar “mais uma” às dezasseis obras detalhadas no livro. As últimas palavras foram de Álvaro Domingues, considerando ser este “um livro obrigatório”, graças à sua linguagem simultaneamente acessível e rigorosa, contrastando com a “linguagem encriptada” dos livros feitos por arquitectos para arquitectos. É também um livro “que cria um genuíno interesse pela arquitectura, pelas diferentes formas de a ver, pelos seus autores. Aguça imenso o apetite e contribui em muito para a cultura arquitectónica”, concluiu.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

LIVRO: "Paisagem Portuguesa"



LIVRO: “Paisagem Portuguesa”,
de Duarte Belo (fotografia) e Álvaro Domingues (texto)
Ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, Outubro de 2022


“A estrada e a viagem são o inverso do fixismo e da permanência dos lugares. A estrada é o longe, o ruído que se liberta do inconformismo, da dúvida, da espiritualidade de uma geração que viveu durante a Segunda Grande Guerra, que conheceu a mensagem trágica da destruição atómica, o fim da inocência sobre a tecnologia, o adormecimento vazio do consumismo, a ilusão da razão e a fé, como diria Kirkegaard, numa objectiva incerteza.”

Um olhar menos atento sobre “Paisagem Portuguesa” leva a que façamos dele um álbum de fotografia. Página após página, fixamo-nos em marcos geodésicos com bandeira a meia haste, no que resta de um povoado da Idade do Ferro, numa Sé Catedral construída sobre a rocha, em passadiços à beira-mar plantados, num toco de sobreiro a ser descortiçado por três homens, nos silos enormes como “catedrais tubulares” na imensidão da planície alentejana, em ilhas que escaparam ao afundamento “depois que Pangeia começou a rachar vai para 300 milhões de anos”. Ao todo são 141 fotografias onde se procura sintetizar toda a diversidade e complexidade da paisagem portuguesa. Por isso, a “leitura” destas fotos será sempre um desafio, à memória como aos sentidos. No jogo das comparações, vamos da Praia da Rocha ao Casal da Mira num aglomerado de casas, de Trás-os-Montes ao Algarve numa flor de amendoeira. Passamos pelas imagens em busca de lugares nossos. Topamos com a central solar fotovoltaica da Amareleja, as Portas do Sol de Santarém ou o cedro-do-mato da Ilha das Flores e sorrimos. Sorrimos mais ainda, completamente surpresos, ao fazermos na Ria de Aveiro uma casa de Socorro a Náufragos que, afinal, se situa na Ria Formosa.

As imagens não dispensam as palavras, por muitas mil que cada uma delas valha. E, assim, Álvaro Domingues acrescentou-lhes o texto, enriquecendo-as com a sua visão aguda, o seu apurado sentido crítico, a justeza das suas observações. Também a sua ironia (até porque há ali fotografias que estavam mesmo a pedi-las). São textos de uma enorme riqueza, que fazem a ponte entre o antes e o agora, ao mesmo tempo que levantam o véu sobre parte do muito que podemos esperar, herdeiros que somos “de excesso de identidade, mitos, lendas, narrativas, imagens do país à beira-mar plantado, pobre e feliz, descalço e trabalhador, habitando a terra abençoada dos egrégios avós”. Entre o futuro incerto e o passado em fuga, o presente mostra-se diverso e faz-se de espaços verdes e frutos vermelhos, antenas de telecomunicações e moinhos de vento, grandes lagos e monocultura intensiva, Fitbit Sense e monumentos megalíticos, aquecimentos globais e terras com pouca sorte. São marcas destes “tempos de identidades múltiplas, circulação rápida de referentes globais, pluralismo, metamorfoses tecnológicas e rupturas velozes e drásticas, dissipações e simultaneidade de contrários.”

Da mistura de imagens de enorme significado com prosa tão sedutora e tão rica de sentido resulta um livro verdadeiramente precioso. Um livro que nos ajuda a compreender que “por mil razões e mais uma, estamos agora num tempo em que o Estado, a Nação, o Território, a Paisagem, a Identidade e outras designações respeitosamente postas em maiúsculas, não correspondem a nenhuma representação ou realidade estável e consensual.” Isto é, afinal, o que Álvaro Domingues nos anda a dizer desde, pelo menos, esse magnífico ensaio sobre a metamorfose da urbanização que é “A Rua da Estrada”, livro publicado em 2009. Também Duarte Belo, cujo espólio de quase dois milhões de fotografias constitui um precioso mapeamento fotográfico do espaço português levado a cabo ao longo de mais de três décadas. Uma síntese destes seus trabalhos podemos encontrá-la neste “Paisagem Portuguesa”. Imagens e textos que não se mostram só porque sim, avessos ao conceito turistizado (e turistizante) de paisagem, que inquietam e interrogam, que desafiam e nos fazem reparar nas coisas com olhos de ver.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

EXPOSIÇÃO: "Mouzinho: Da Ribeira ao Aeroporto"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “Mouzinho: Da Ribeira ao Aeroporto”,
de Álvaro Domingues e Ivo Poças Martins
Curadoria | Núcleo de Programação do Museu da Cidade do Porto
Casa do Infante
10 Mar > 11 Set 2022


A Rua de Mouzinho da Silveira serve de mote à exposição que, até ao próximo dia 11 de Setembro, se encontra patente na Casa do Infante. Levando o visitante numa viagem que cruza os tempos e os lugares, as gentes e as práticas urbanas e socioculturais, o geógrafo Álvaro Domingues e o arquiteto Ivo Poças Martins partem da documentação referente à intenção de rasgar aquela artéria, em 1872, e perseguem as transformações dos últimos cento e cinquenta anos que moldaram a face da Invicta, transformando-a naquilo que é hoje. Da Ribeira a S. Bento, a “Mouzinho” ilustra e acompanha as grandes ruturas tecnológicas do seu tempo, produzindo uma espacialidade que, durante quase um século, contribuiu para fixar um centro, entretanto deslocado da Ribeira para a Baixa do Porto. Hoje, do nó da Arrábida ao Aeroporto, passando por Leixões, sucedem-se focos de novas centralidades que se distribuem e se relacionam no novo mapa da urbanização em curso. O centro do Porto perdeu o monopólio da centralidade. É “a revolução das cousas”, como escreveu uma vez o conselheiro Mouzinho da Silveira a D. Pedro IV a propósito de outras mudanças de que o mundo então se compunha.

Mas recuemos a 1872, mais concretamente ao mês de Junho, altura em que o Director Geral da Secretaria da Câmara Municipal do Porto, Luís Antonio Nogueira, apresentou à Câmara a “Planta do Projecto da rua da Biquinha parallela à rua das Flores a qual a Ex.ma Camara pretende mandar abrir para ligar o Largo da Feira de S. Bento com a Rua de S. João”. Seria a Rua Mouzinho da Silveira, o novo eixo a unir o Porto ribeirinho e a distinta Praça do Infante à praça D. Pedro IV, terminando onde viria a ser a estação de S. Bento. Corria a segunda metade do séc. XIX e antes que tudo desmoronasse com a crise financeira do estado e do sistema bancário (1891), viviam-se tempos de mudança acelerada, grandes obras e inovações que mudariam radicalmente a organização da sociedade e da urbanização: o caminho de ferro, a eletricidade, o telégrafo, o motor de explosão, as estradas construídas ao modo de Mac-Adam, ou o betão. Entretanto, enquanto se encanava o rio da Vila para traçar a Mouzinho, construíam-se os molhes de Leixões e um outro rio, o Leça, seria depois esventrado para construir uma doca artificial. Os navios aumentavam em dimensão e calado e o Douro, o porto do Porto, era cada vez mais problemático.

Em 1963 inaugurava-se a ponte da Arrábida e o primeiro tramo de autoestrada que levaria a via rápida até Leixões e mais tarde, ao aeroporto. O velho mapa mental do Porto e arredores não tardaria a explodir, dando lugar a uma vasta conurbação: a cidade perdera o exclusivo da urbanização e as medidas curtas que antes bastavam para entender o comprimento da rua Mouzinho, deram lugar aos tempos rápidos das relações e do movimento. Funções que antes se aglomeravam no núcleo central favorecido pelo monopólio da acessibilidade, distribuem-se agora nesse espaço alargado, marcando lugares, expondo os sinais da mudança. A geografia extensa e descontínua da urbanização só é legível através das redes e sistemas de dispositivos técnicos que suportam o movimento de pessoas, mercadorias, informação, capital, água ou energia. É justamente tudo isto que “Mouzinho: Da Ribeira ao Aeroporto” nos dá a ver, através de um conjunto de documentos fascinantes e de intrigantes imagens de Álvaro Domingues, complementadas por textos onde sobressai a assertividade e o rigor, a par de alguma ironia e muito humor. A não perder!

[Baseado no texto que acompanha a exposição e que pode ser lido em https://www.museudacidadeporto.pt/exhibition/mouzinho-da-ribeira-ao-aeroporto/]

quarta-feira, 23 de março de 2022

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Álvaro Domingues



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Álvaro Domingues
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Auditório Dr. Correia de Campos | Centro de Reabilitação do Norte
22 Mar 2022 | ter | 17:00


A sexta sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5” chamou ao Auditório Dr. Correia de Campos, no Centro de Reabilitação do Norte, o geógrafo Álvaro Domingues, doutorado em Geografia Humana pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e docente do mestrado integrado e do curso de doutoramento da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Tendo a Geografia Humana, Paisagem, Urbanismo e Políticas Urbanas como objecto de análise e estudo, Álvaro Domingues vem partilhando as suas impressões sobre as transformações sentidas nestas áreas através de um vasto conjunto de ensaios que tanto podem assumir a forma de um artigo no jornal Público, de uma exposição intitulada “Mouzinho: Da Ribeira ao Aeroporto” [patente até ao próximo dia 11 de Setembro na Casa do Infante, no Porto] ou de um conjunto de livros de onde se destacam “A Rua da Estrada”, “Vida no Campo” e “Volta a Portugal” ou o mais recente “Paisagens Transgénicas”.

A conversa começou com a abordagem a “geografias” e “territórios” familiares a Álvaro Domingues, na tentativa de se dar a conhecer um pouco melhor. É desta forma que “Melgaço” surge como um lugar que lhe é intrínseco, uma “geografia emocional”, por ser o lugar onde nasceu e onde regressa frequentemente. Também “Geografia”, curso tirado ao arrepio das expectativas do pai – que via nele um futuro médico ou economista –, e em cuja decisão uma professora de Geografia do Liceu Sá de Miranda, em Braga, “nos tempos irrepetíveis do 25 de Abril”, teve um papel fundamental. Ainda “Quarentena”, um tempo de enormes expectativas, de quebra de rotinas, e que o convidado associa a horas e horas a desenhar pássaros, “uma obsessão, quase uma doença”. Ou “Ucrânia”, uma “geografia complicada” de uma guerra assustadora que conjuga “um doido no poder, uma potência nuclear e uma economia que não é assim tão forte” com “um cúmulo de ressentimentos e de tropeções da História” e que “só não é inumana porque os humanos, infelizmente, são assim”.

“Como funciona a sua ligação à escrita?” parece ser a pergunta para um milhão de euros. “Tomara eu saber”, diz Álvaro Domingues, para quem o exercício da escrita se desenrola “por intermitências”. A escrita, não sendo propriamente errática, tem como ponto de partida “a capacidade intrínseca ao ser humano de lidar com conceitos, de pensar com aproximações abstractas àquilo que dizem que é a realidade.“As peças que estão na cabeça, como um puzzle, andam por ali a navegar (…); só me encorajo a escrever quando acho que as coisas estão suficientemente estabilizadas”, diz. A partir desse momento, o processo é “torrencial”. Já quanto à fotografia, vemo-la intimamente ligada à escrita de Álvaro Domingues para quem é algo que “provoca um distanciamento das coisas, ajuda a pensar”. É quase obrigatório encontrarmos nos seus textos uma fotografia que lhes está associada. Veremos, porém, que nem sempre a relação com o texto é linear, que a mensagem nem sempre é imediata. Também nós somos convidados a guardar a devida distância. Também nós somos obrigados a pensar.

Falando dos seus livros – “A Rua da Estrada nasceu de um corte com o estilo académico” –, foi tempo de recordar Nuno Portas e as longas viagens a Guimarães, “duas horas e meia, no mínimo, fosse por Santo Tirso, pela Trofa ou por Famalicão”, as discussões em torno da falta de cabimento da aplicação dos “princípios ditos da boa forma urbana” a uma região de povoamento disperso como o Vale do Ave, o “ADN” da urbanização, a falta de lógica da dicotomia rural / urbano, o edifício-montra e a casa-quitada. A conversa evoluiu então para a noção de ruralidade e para as “mitologias do último país rural da Europa, que persiste em inscrever no imaginário colectivo (e ao mesmo tempo) as imagens bucólicas e os destroços desse mundo perdido”. Não se trata de um simples jogo de palavras. A ruralidade “descoisou-se” e, ao “descoisar-se”… Desapareceu!

“O rural, quando tinha sentido, era tão consensual que era auto-explicativo. Ninguém perguntava “rural, como?”, começa por contar Álvaro Domingues, para logo enunciar “os três pilares da ruralidade”: “A base económica é a agricultura, a visão do mundo é tradicionalista – baseada nos valores da família, com um sentido profundo da religiosidade, avessa à novidade e ao cosmopolitismo – e a ruralidade está associada a uma paisagem e a uma identidade paisagística própria, à construção do território, como bem podemos perceber, por exemplo, no Douro Vinhateiro”. A verdade é que, sem nunca termos pensado muito nisto, a palavra foi “descolando” da realidade. Hoje a palavra “ruralidade” quase só tem cabimento naquilo que necessita de adjectivação para efeitos de marketing. “É um site de turismo rural, é a forma como um município se caracteriza, é rural para aqui e rural para acolá”, mas onde já nada existe de verdadeiramente rural.

Na parte final da tertúlia, Álvaro Domingues projectou algumas das suas imagens, contextualizando-as. Uma casa em ruínas colocada à venda por uma imobiliária, um rebanho de cabras que pasta junto a uma barragem ou as ovelhas que se passeiam por entre uma floresta de painéis fotovoltaicos na gigantesca central da Amareleja deram ensejo a falar da(s) natureza(s), do grau zero da civilização, da história da emigração e do regresso às origens, do Portugal profundo. A última imagem transporta-nos a Melgaço e, de alguma forma, às geografias sentimentais que marcaram o arranque desta tertúlia e que agora se fecha. Uma imagem de uma ruralidade que faz todo o sentido na cabeça de alguém que, de Lisboa, está de passagem, mas que é, comprovadamente, uma falácia. O pasto verdejante não passa de um devaneio do dono das terras, emigrante no estrangeiro mas que tem aqui o seu “entretém”. Foi longe, o sino toca a finados pela alma de um filho da terra que morreu no Canadá, a mais de cinco mil quilómetros de distância.

sábado, 19 de junho de 2021

LIVRO: "Paisagens Transgénicas"



LIVRO: “Paisagens Transgénicas”,
de Álvaro Domingues
Ed. Museu da Paisagem, Maio de 2021


“(…) É isso a paisagem. Um artefacto político de elevado potencial narrativo e de confrontação entre interesses diversos, indicador de mal-estar (e às vezes de autoestima coletiva classificada pela UNESCO), revelador de polémicas “paisagificadas”, aferidor constante do consenso (menos) ou do dissenso (muito mais) sobre o que somos coletivamente - sociedade e território.”

Depois da ficha técnica e de uma breve sinopse, “Paisagens Transgénicas” abre-se no olhar de Álvaro Domingues, traduzido em imagens onde os grandes espaços naturais, de um verde a perder de vista, apresentam-se desfigurados por alguns dos mais impactantes símbolos deste mundo novo e global, das monoculturas intensivas às energias renováveis ou ao uso abusivo dos plásticos. Será este o ponto de partida de um livro que, com as suas pouco mais de cem páginas, faz assentar os seus propósitos nos conceitos de “paisagem”, “transgénicos” e “identidade”, complementando-os com sete textos que o autor escreveu para o jornal Público ao longo de 2019 e oferecendo-nos, ainda, um conjunto de belíssimas imagens onde a paisagem, por força das alterações que o homem fez questão de introduzir no seu “código genético”, se revela numa amálgama desconcertante de elementos, à primeira vista, ilógicos e absurdos. Virada a última página, perceberemos que a nossa maneira de vermos o mundo dificilmente voltará a ser a mesma.

Se há aspecto que merece ser valorizado neste livro de Álvaro Domingues é a clareza com que o autor expõe as suas ideias sobre um assunto que lhe vem merecendo particular atenção desde sempre e que se traduz, entre outras publicações, nos incontornáveis “A Rua da Estrada” (2009), “Vida no Campo” (2012) e “Volta a Portugal” (2017). Metade livro de fotografia, metade ensaio, “Paisagens Transgénicas” tem essa enorme virtude de nos pôr a olhar para as coisas de maneira diferente. Implicitamente, Álvaro Domingues reforça a mensagem que vem dos seus livros anteriores, aconselhando o leitor a romper com o preconceito e a convencer-se de que “a Aldeia Típica vive no Instagram”. Não mais a dicotomia rural-urbana, cidade-campo ou litoral-interior. “Cidade é apenas um imaginário que ficou de nomes, acontecimentos e séculos de aglomerações apinhadas dentro de muralhas. O que agora domina, em Portugal e no planeta, é a urbanização, uma espécie de constelação de edifícios e redes de sistemas infra-estruturais, ora rarefeita, ora concentrada, ora difusa, ora resumida a pequenos episódios, ora espalhada por territórios imensos onde só pelas placas e pelo GPS se vai sabendo em que município se está ou em que lugar que tenha nome.”

Ao falar-nos de “paisagem transgénica”, Álvaro Domingues leva-nos ao encontro das palavras de José Mário Branco: “Entre a rua e o país vai o passo de um anão”. Levando a discussão para a uma escala de grandeza maior, o autor reconhece na globalização “o nome que se dá ao capitalismo global em modo desorganizado”, dizendo-a responsável por todas estas “combinações surpreendentes que não cessam de nos espantar”. À luz da ciência, é inegável que existe uma clara relação de causa e efeito entre a exuberante mancha de amendoeiras que desponta no Alqueva e o problema crítico em que a água se tornou para a Califórnia. Sempre com uma pontinha de ironia a apimentar o discurso, Álvaro Domingues lembra que “as raças apuram-se com os prodígios técnicos da manipulação transgénica e de outras engenharias biológicas”, pelo que não devemos estranhar esta apropriação do conceito de transgenia e a sua aplicação na paisagem, esse “sismógrafo de alta precisão” que nos dá conta de toda e qualquer mudança. Imbuídos de um sentimento nostálgico, falamos em estrago, descaracterização e perda de autenticidade, mas talvez devêssemos falar de evolução, progresso e futuro. Sem grandes dramas ou inquietações, sustenta Álvaro Domingues: “No exercício da circulação, deve-se reparar sempre em tudo o que está nas rotundas. É preciso controlar, rodear cuidadosamente, estar atento e seguir”.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Álvaro Domingues



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Álvaro Domingues
Museu de Ovar
24 Fev 2018 | sab | 21:30


Se de utilidade falamos quando falamos de “Conversas Úteis” - conjunto de tertúlias promovidas com espantosa regularidade pelo Museu de Ovar em torno de livros, autores e leitores -, então o capítulo mais recente destes encontros terá batido aos pontos os demais. Tendo o seu novo livro, “Volta a Portugal”, como ponto de partida, Álvaro Domingues deu uma verdadeira aula sobre o território português, desconstruindo a ideia do país-mosaico e desmontando os clichés habituais que concorrem para a ideia (impingida) de unidade territorial. Fê-lo apoiando-se num discurso esclarecido e extraordinariamente acessível e ainda em fotografias da sua autoria, convidando o público a refletir sobre o muito que se esconde por detrás de cada imagem, de cada mensagem.

Esta utilidade foi tanto mais útil, passe o pleonasmo, quanto a leitura que havia feito do livro não gerara em mim grandes entusiasmos. Houve, assim, a possibilidade de perceber um objectivo fundamental de Álvaro Domingues ao escrever o livro: Transportar o leitor para uma determinada ambiência, oferecer-lhe ferramentas para compreender aquilo que se esconde por detrás das palavras e das imagens, conceder-lhe total liberdade para relacionar as coisas entre si e esperar que seja ele a encontrar a unidade do livro. “Volta a Portugal” é, pois, uma “obra aberta”, aberta a várias leituras, a vários sentidos, assente numa escrita hipertextual, visto ser esta a que melhor se adapta ao estilo e aos motivos do livro. Entendidas assim as coisas, importa um regresso à leitura de Volta a Portugal” para tirar teimas.

Ao longo de duas horas que passaram num ápice falou-se, entre muitas outras coisas, da estranheza desta nova vida na esfera dos livros - “tenho alguma dificuldade em ouvir as pessoas dizerem que sou escritor” - e do desassossego dum professor de Geografia a dar aulas numa Faculdade de Arquitectura. Falou-se de textos que remontam ao Século XVI e de fotografias ao encontro dos “emissores de sinais” que são “aquelas gentes que habitam aquelas terras”. Falou-se da relação poética “cidade-campo” ser, na realidade, uma relação de “poder-dominação” e da urbanização ser, à escala planetária, “o grau zero da condição humana”. Também de toiros bravos e de puro Ribatejo, de framboesas e de Nepaleses, de burros que já não puxam carroças e passaram a ser meros elementos decorativos, de faianças e camelos, de papoilas e morangos e ópio e Beatles. Ainda de globalização e de desterritorialização - “essa palavra estranha para um geógrafo” -, do rural versus o neo-rural, duma paisagem que existe para ser mudada e dum Portugal pós-moderno que nunca chegou a ser moderno. E falou-se de “Entre nós... da auto-estrada”, um livro que vem a caminho e onde iremos “tentar perceber como é que um dispositivo socio-técnico tão performativo influencia o território, o espaço e a paisagem”. Vamos estar atentos!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

LIVRO: "Volta a Portugal"



LIVRO: “Volta a Portugal”,
de Álvaro Domingues
Ed. Contraponto, Novembro de 2017


De estranheza se faz a leitura de “Volta a Portugal”. A causa, essa, estará certamente no facto de o cérebro estar “formatado” para a ficção e de nela nada haver de comparável ao livro de Álvaro Domingues. Aliás, “Volta a Portugal” é, na essência, um livro anti-ficção, honestamente empenhado em desmontar a “ficção” do “todo que nunca houve” e, de passagem, assentar umas valentes bordoadas nos mitos que persistem em fazer da Pátria “a grande árvore de Natal do velho mundo carregada de brinquedos divinos”, seja lá o que isso for.

Com uma estrutura simples, o livro percorre Portugal de lés a lés, tendo a Serra da Estrela como ponto de partida e terminando nas Ilhas. Pelo meio convida-nos a visitar o Minho, o Ribatejo e o Algarve, o Alentejo, Trás-Os-Montes e o Douro, também a Ria de Aveiro, ainda a região do Oeste, a “falecida Estremadura”. Cada capítulo é alvo duma apreciação do autor em jeito de preâmbulo, uma espécie de inventário das regiões, no que de bom e de mau nelas se pode achar. Há também uma parte essencialmente visual, espécie de “fundamentação da tese”, com belíssimas fotografias do próprio Álvaro Domingues, legendadas com um toque de humor requintado. Finalmente, uma recolha de textos e poemas alusivos a cada uma das fotografias, completando o todo de forma mais ou menos discursiva.

Perante tamanha “hibridização”, chamado a dar o veredicto, quedo-me pelo “nim” e explico porquê. Retire-se do livro a sua componente fotográfica e a recolha de textos que a acompanham e teremos aquilo a que chamaria o trabalho de escrita do autor, ou seja, os argumentos de cariz exclusivamente pessoal em que assenta esta sua “desconstrução da paisagem”. Ficamos, assim, com pouco mais de duas dúzias de páginas (num livro que ultrapassa as trezentas), sem dúvida bem escritas – ainda que a fórmula da inventariação dos atributos de cada região se esgote ao fim de um par de capítulos - mas que sabem a pouco face ao muito que haveria por dizer. Direi que é nas imagens que reside a grande força desta “Volta a Portugal”, o que me leva a tirar o chapéu ao Álvaro Domingues fotógrafo, que não ao Álvaro Domingues literato. Talvez preferisse mesmo ver este livro sob a forma de álbum fotográfico, as mais de duas centenas de imagens destacadas da forma que bem mereceriam, as legendas geniais e as considerações do autor num belo Prólogo. Assim, tal como o vi, devo confessar que não fiquei fã.