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sexta-feira, 3 de junho de 2022

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #61



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #61
Escola de Artes e Ofícios
135 Minutos | Maiores de 14 anos
02 Jun 2022 | qui | 21:30


Apostado em vincar a aposta no desconfinamento, nessa ousadia de transpor as paredes da casa ou os limites do bairro e partir em busca dos grandes espaços verdes, a quarta sessão da sexta temporada do Shortcutz Ovar teve para oferecer três curtas-metragens onde a relação do homem com a natureza no seu estado mais puro constituiu o denominador comum. “Kumaru”, filme de animação realizado por Bruno Maravilha, Patrícia Santos e Tânia Teixeira, deu o mote para esta sessão, convocando um interessante conjunto de reflexões em torno de um estranho e enigmático ser que encontra nos pirilampos os únicos pontos de luz que conhece. O contexto pandémico e a vida do outro lado da janela servem de inspiração para um filme que joga de forma hábil com as várias dimensões das nossas vidas, servindo-se de um conjunto de metáforas para falar dos obstáculos que vão sendo superados e do caminho que cada um faz em direcção à luz. Particularmente activo no debate que se seguiu à apresentação do filme, o público deu mostras do seu apreço por uma obra que, na sua simplicidade aparente, trouxe consigo um conjunto de mensagens de grande significado e alcance.

Tal como no filme anterior, “Musgo” faz assentar o seu mecanismo narrativo nesta relação dicotómica entre a luz e as trevas, entre aquilo que vemos e o que apenas podemos intuir. Com “o terço na mão e o diabo no coração”, o filme é inspirado no livro “Etnografia Transmontana”, do “etnólogo, padre e bruxo” António Lourenço Fontes, ao encontro das expressões culturais e afetivas de herança pagã no norte de Portugal. No cerne da acção encontramos uma criança que, ao explorar o interior de uma árvore, é levada numa viagem mística que cruza o imaginário popular transmontano, abraçando por igual o sagrado e o profano. Misto de documentário e ficção, “Musgo” vive das pulsões da vida e da ancestralidade dos gestos, de cantigas de roda e Festas dos Rapazes, mezinhas caseiras e chegas de bois, alminhas e pontes do diabo. Com realização, argumento e montagem de Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida, “Musgo” arrecadou o Grande Prémio Nacional da última edição do FEST e é uma primeira obra arrebatadora, que nos obriga a manter debaixo de olho esta dupla de jovens criadores.

“Oso” fechou a sessão com uma “mirada” ecológica franca e uma boa dose de humor. Visto com cepticismo por uns e com entusiasmo por outros, o relato do avistamento de um urso-pardo no território do Parque Nacional da Peneda-Gerês permitiu ao realizador Bruno Lourenço (que assina também o argumento, em co-autoria com Telmo Churro) partir para uma ficção de aproximadamente meia hora, recheando-a de elementos que questionam factores primordiais como a identidade e o território. Contrapondo a visão lúcida de uma jovem vigilante da natureza às fantasias que se vão avolumando nas mentes de muitos dos habitantes da região e mesmo de alguns forasteiros, “Oso” abre espaço à imaginação, ao mesmo tempo dando conta do quanto de pernicioso, quase cruel, pode refugiar-se na sombra de uma natureza idílica. Com interpretação de António Mortágua e Sofia Pires, eis um filme empenhado em mostrar o quão dúbia pode ser a relação do homem com o espaço que o rodeia.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #60



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #60
Escola de Artes e Ofícios
135 minutos | Maiores de 14 anos
05 Mai 2022 | qui | 21:30


Sem máscaras. Foi desta forma, espalhando sorrisos, que (quase todos) os “suspeitos do costume” se apresentaram na Escola de Artes e Ofícios, para assistir àquela que foi a terceira sessão da sexta temporada do Shortcutz Ovar. Após vinte e duas sessões vividas sob o peso das máscaras, a normalidade está de regresso, conforme salientou Tiago Alves, programador e apresentador destas noites imperdíveis, também ele de cara descoberta, a máscara do “puto vírus” deixada em casa. Mas se na plateia o público dizia adeus às máscaras, na tela a pandemia fazia-se notar de forma evidente, mostrando até que ponto pode ser causa e efeito de um objecto fílmico. Salvaguardando diferenças de género e de estilo, foi assim com as três curtas-metragens apresentadas, todas elas histórias na primeira pessoa, circunspectas, ponderadas, com uma forte ligação a um momento de distanciamento e clausura, reflectindo a forma como fomos obrigados a equacionar o mundo em que vivemos e o nosso posicionamento face aos outros e a nós mesmos.

Começando pela última curta da noite, “Fora de Jogo” fez-nos mergulhar na história de Leonardo, um jovem que sofre a desaprovação da tia na busca do sonho de ser jogador de futebol. Contando com uma bela interpretação de João Cravo Cardoso, o filme tem fortes ressonâncias pessoais, espelhando a experiência traumática do realizador José Freitas quando, aos 13 anos, também quis ser jogador de futebol e seu viu confrontado com uma nega para a aquisição de um par de chuteiras. Nesta que é a sua primeira obra, o realizador representa aqueles cujos sonhos não são convencionais e ainda vivem num ambiente que descredibiliza estas ambições como sendo utopias, não enquadráveis nos objetivos conservadores tradicionais que o seu meio abraça. Em equilíbrio sobre a ténue linha que distingue a realidade da ficção, “Fora de Jogo” não pode deixar de ser encarado como uma catarse, libertando o autor do peso da rejeição e ajudando-o a transformar as dúvidas em certezas.

“Fruto do Vosso Ventre” foi o primeiro filme da noite e causou no público um fortíssimo impacto. Ao longo de 20 minutos, o realizador Fábio Silva passa em revista as suas quase três décadas de vida, marcadas por uma relação conflituosa com o pai. Trata-se de um “filme familiar”, se considerado de um ponto de vista lato, do qual a dimensão celebratória está ausente. O filme adquire, então, um cunho pessoal intenso e denso, transformando-se numa “carta ao pai”, acusadora e condenatória, carregada de amargura e desencanto. É um filme com uma força interior invulgar, despojado na forma como a intimidade é exposta, feito de coragem e determinação. Um filme que pode, nas suas várias leituras, ser apreciado numa dimensão catártica, visto como uma lição ou um exemplo, ou partir ao encontro das questões da diáspora ao centrar-se numa família cabo-verdiana cujos valores tradicionais foram preteridos em favor de processos de assimilação à nova realidade da vida num bairro social dos arredores de Lisboa.

Propositadamente, deixo para o final “Sobrevoo”, filme que trouxe de novo a Ovar o flaviense Rúben Sevivas, depois de aqui ter apresentado, em 2020, “Direito à Memória”. Assumido como um “auto-retrato”, espécie de confissão emocional e testemunho de um período particularmente duro da nossa história recente, “Sobrevoo” tem esse dom de nos tocar pela sua verdade e intensidade, de nos fazer reflectir na forma como encaramos a adversidade e nas ferramentas de que dispomos para as ultrapassar. Este jovem que vive sozinho, que tem contas por pagar e comida para pôr na mesa, que se vê a braços com a precariedade e as incertezas e que, no meio de tudo isto, tem em mãos um filme que precisa de acabar, é o exemplo de muitos jovens (e menos jovens) que tentam manter-se à tona no meio de incertezas e frustrações e que vão resistindo à tentação de baixar os braços. Rúben Sevivas personifica a coragem de virar a página do passado e começar tudo de novo. Rodado em plena quarentena, no curto espaço de uma semana, este é um filme intemporal e que conta com um extraordinário actor, Rúben Sevivas, precisamente. O mesmo que não desiste. E que continua a fazer excelente cinema!

sábado, 2 de outubro de 2021

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #51



CERTAME: Shortcutz Ovar Sessão #51
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 14 anos
30 Set 2021 | qui | 21h30 


Referencial incontornável para os cinéfilos vareiros, de há um ano e meio a esta parte, a Escola de Artes e Ofícios abriu as portas para a sexta sessão da presente temporada do Shortcutz Ovar. Numa sala repleta de juventude e entusiasmo, o público foi o grande protagonista da noite, ainda mais interessado e participativo do que habitualmente face às propostas apresentadas. Intensos, desafiantes, provocantes, controversos, duvidosos, crus, os filmes de Miguel De, Pedro Rilhó e Vasco de Oliveira foram motivo de acesa discussão e debate, abrindo as mais variadas perspectivas sobre os assuntos abordados e tornando ainda mais viva e rica a sessão. Não se terá falado tanto de cinema como é habitual, dos seus aspectos mais técnicos às interpretações, antes reflectiu-se sobre as emoções, o impacto dos vários temas no mais íntimo do espectador. Enquanto objecto artístico, cada uma das obras cumpriu esse desígnio maior de abordar a realidade sob as mais diversas formas, polarizando-a ou tornando-a mais nítida, abrindo assim espaço ao questionamento sobre nós próprios e sobre o mundo que nos rodeia. Uma enorme sessão, em suma.

Filme experimental com pouco menos de nove minutos, “The Kiss” abriu as hostilidades com o propósito imediato de abalar consciências (as mais conservadoras e todas as demais). Partindo do filme homólogo de 1896, realizado por William Heise, “um escândalo para a altura”, Miguel De editou numa peça única um conjunto de beijos, tendo como fonte a imensa oferta pornográfica que paira na internet. Estamos aqui muito longe da puerilidade de “Cinema Paraíso”, tão pouco dos “beijos técnicos” das telenovelas. São beijos fortemente “lubrificados”, alheios ao género dos parceiros, acompanhados duma panóplia de sons sugestivos, que Miguel De amplia e repete até à exaustão. A sequência está ali para provocar desconforto, mas sobretudo para interrogar os critérios de cada um numa hipotética classificação da obscenidade e da sua censura, no todo ou em parte. O poder do algoritmo que “censura o mamilo da mulher mas não o do homem” foi posto em causa e, com ele, ampliou-se a discussão aos direitos autorais, à forma como a produção artística se vê condicionada nas redes sociais e, até, aos casos de polícia. O começo perfeito de uma noite que, tão cedo, não se apagará da memória de todos.

Mais contido mas nem por isso menos perturbador, “Give Up The Ghost” é uma ficção de Pedro Rilhó que gira em torno de um beijo que, no dizer de um dos parceiros, foi tudo menos consensual. Saltando para fora da esfera íntima, o momento acabou por constituir um verdadeiro abalo na auto-representação de um mundo apenas esboçado, as réplicas a prolongarem-se no tempo e a afectarem profundamente o viver e o sentir dos envolvidos. Mas será que as coisas poderiam ter corrido de outra forma? Despindo-se de tudo, de uma verdade tocante, Pedro Rilhó colou as suas próprias vivências às de uma das personagens, oferecendo-nos um retrato marcadamente autobiográfico, o que o torna ainda mais inquietante. Legitimá-lo através daquilo que pode ser visto como a exorcização dos seus fantasmas (daí o título do filme), uma espécie de “psicoterapia pelo cinema”, será uma das leituras possíveis do filme, mas aquilo que passou da igualmente prolongada discussão foi a necessidade de repensar o consentimento, o abuso e o trauma, conceitos cada vez mais voláteis mas nem por isso menos importantes e cujas marcas se perpetuam no tempo.

Para o final estava reservado “A Vaca de Fogo”, filme de Vasco de Oliveira anunciado como um “musical” e que, por esse motivo, recolhia enormes expectativas. Deste ponto de vista, falando em termos pessoais, o desapontamento não poderia ter sido maior. Os traços característicos do género surgem apenas esporadicamente e os critérios para a sua utilização causam no espectador mais estranheza do que simpatia. O filme, todavia, tem uma história poderosa, decorrente de uma relação homossexual que envolve um menor e acaba por cair na alçada da justiça. Na esfera do chamado “filme de tribunal”, “A Vaca de Fogo” remete, tal como os filmes anteriores, para as balizas que definem e regulam a moralidade e as emoções e de que modo essa regulação é castradora, colidindo com o sentir de cada um. Uma intervenção acalorada mas tremendamente oportuna de uma das espectadoras sobre o poder do cinema e a forma como pode condicionar comportamentos e alimentar o indesejável e o ilícito marcou o momento de debate, mas aquilo que fica é, uma vez mais, o Homem e a sua circunstância. José Ortega Y Gasset passou por aqui.

sábado, 18 de setembro de 2021

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #50



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #50
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 14 anos
16 Set 2021 | qui | 21:30


Todos os motivos são bons para celebrar o Cinema, mas a razão agiganta-se quando envolve números redondos que acarretam consigo a dimensão dos grandes feitos e são prova de persistência, resiliência, muito suor e, seguramente, algumas lágrimas também. Por estes e outros motivos, dobradas as cinquenta sessões, o Shortcutz Ovar e os seus promotores e dinamizadores estão de parabéns, desde logo por não baixarem os braços face à ameaça de uma crise sanitária à escala global que virou as nossas vidas do avesso, mas também pela forma como têm sabido “alimentar” um público cada vez mais apto a compreender e valorizar o cinema em versão curta. Embora longe da normalidade e da “experiência-Shortcutz” tal como a conhecemos antes da pandemia, os sinais são francamente positivos e a “reentré” após a pausa estival veio confirmar isso mesmo. O formato voltou à exibição de três obras por sessão, o público em maior número esgotou uma vez mais a sala e percebeu-se um maior calor e entusiasmo da parte de todos. Só mesmo a obrigatoriedade da máscara permanece, mas até isso irá cair em breve, assim o esperamos.

Obra de animação 3D de Catarina Romano, “Seja Como For” abriu a sessão para falar-nos de solidão. É um filme que parte de testemunhos reais, remetendo para a precariedade laboral em cenário pós-troika e lembrando as dificuldades de quem perdeu o emprego e se vê obrigado a contar os tostões e a fazer escolhas com vista à própria sobrevivência. Com um trabalho de animação cuidado e de enorme beleza, a realizadora toca o público com a sua visão sensível de uma mulher desempregada que se refugia nas suas memórias para vencer um tempo estagnado, quase sufocante. Os sons que reconhecemos do quotidiano remetem para uma vida outrora activa, em choque com o actual mundo interior, fazendo dela o arquétipo de todas as mulheres isoladas e excluídas numa sociedade profundamente desigual. “Por riba se ceifa o pão, por baixo fica o restolho”, a voz de Mariana Root nessa “Cantiga da Ceifa” imortalizada por Ti Chitas, a fechar o filme, é um grito de desafio e um incentivo a erguer a cabeça e a olhar nos olhos o futuro.

Olhar o futuro pode ser também entendido como mote para o segundo filme da noite. “La Tierra de L Passado”, com realização, argumento e montagem de Rui Falcão, dá-nos a ver uma terra encostada a uma esquina do nosso País e que tem na sua língua a sua maior riqueza. Falo de Miranda do Douro, no extremo nordeste de Portugal, um território envelhecido e votado ao isolamento, que trava uma luta desigual na tentativa de preservar esta que é, desde 1999, a segunda língua oficial portuguesa. Enquanto objecto artístico, “La Tierra de L Passado” assume-se como sendo uma ficção, mas o carácter documental toca o filme de forma indelével, contaminando-o no mau sentido. Não poucas passagens têm o sabor da reportagem, o que não será o melhor dos seus salvo-condutos. Há, todavia, esse lado emocional que adquire aqui um cunho de tributo, um gesto de amor que abraça língua e território como ser uno e indivisível que é, e neste aspecto o sentido de oportunidade do filme não poderia ser maior. Chamar a atenção para uma “espécie ameaçada” é um dever que cumpre a todos e esse será, porventura, o grande mérito de Rui Falcão e do seu “La Tierra de L Passado”.

Antes de abandonar a sala, o público teve a oportunidade de ver um dos mais extraordinários filmes que passaram até hoje pelo Shortcutz Ovar. Falo de “Noite Perpétua” de Pedro Peralta, ficção que convida o espectador a viajar até Castuera, na estremenha província de Badajoz, fazendo-o mergulhar numa Guerra Civil Espanhola quase a chegar ao fim mas cuja memória permanece bem viva no coração de muitos sob a forma de um profundo ressentimento. É lá que encontraremos uma mulher que, encurralada por dois guardas falangistas, se entrega num doloroso mas muito digno acto de despedida, na certeza de que não voltará a ver aqueles que lhe são queridos. Extraordinariamente sóbrio, o filme faz uma gestão rigorosa do tempo e do espaço, em planos-sequência de cortar a respiração. A fotografia de João Ribeiro é preciosa, acentuando a tensão e mergulhando o filme numa atmosfera de angústia e dor. Quando a mulher - a actriz Paz Couso, extraordinária de contenção e nobreza - sai para a noite, escutamos o ladrar dos cães a rasgar o silêncio e sentimos as gargantas apertarem-se. Inquietante e envolvente, de um realismo profundo e trágico, “Noite Perpétua” é um manifesto contra o apagamento da memória e uma simples mas muito bela homenagem àqueles que morreram pela liberdade e são hoje um verdadeiro farol nas nossas vidas.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #48



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #48
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 16 anos
17 Jun 2021 | qui | 21:30 


Após duas sessões com a exibição de apenas dois trabalhos, o Shortcutz Ovar regressou ao seu formato original com a apresentação de três curtas-metragens nesta que foi a terceira sessão da quinta temporada do certame ovarense. As lotações esgotadas continuam a ser uma constante e a explicação é simples: Além de um excelente ponto de encontro para assistir ao melhor cinema que se vai fazendo em Portugal, o Shortcutz Ovar oferece momentos de discussão e partilha que, para além de serem uma fonte de aprendizagem e conhecimento que alargam extraordinariamente a visão que se tem das obras, estimulam e enriquecem a forma de ver e sentir o cinema em todas as suas componentes. Assim foi, uma vez mais, na noite de ontem, com a passagem de três filmes de realizadoras que estão agora a chegar ao cinema português e que, mais do que uma visão profundamente feminina das questões abordadas, nos propuseram um mergulho no “grand bleu”, nesse azul intenso que tinge o mar e o céu, nos faz agarrar a vida com mãos ambas e nos vem dizer que o Verão, com o seu calor, os dias longos e o tanto que sempre promete, está quase a chegar.

“Blue 52”, de Catarina Nascimento, foi uma excelente surpresa. Com o dedo do Departamento de Comunicação Audiovisual da Escola Artística Soares dos Reis, esta ficção de quase dez minutos leva-nos ao encontro dos dilemas e angústias que se abatem sobre os jovens na sua passagem para a vida adulta, em particular em tempos de pandemia. À deriva, perante um futuro que tarda em definir-se, são muitos aqueles que se sentem como as criaturas mais infelizes e solitárias do planeta, autênticas “baleias 52 Hz”, seres incapazes de interagir ou comunicar uns com os outros. “Seriamos capazes de apreciar a beleza da vida se não tivéssemos com quem a partilhar?”, interroga-se Catarina Nascimento, para quem “oceano”, “esperança” e “real” não devem confundir-se com “deserto”, “desespero” e “falsidade”. Aos 18 anos - o mais novo realizador de sempre a passar pelo Shortcutz Ovar em quatro edições e picos -, Catarina Nascimento mostra uma desenvoltura invulgar na forma como sabe tirar partido das potencialidades técnicas do cinema, usando-as em prol do filme, enfatizando uma mensagem de confiança e optimismo e fazendo dele um objecto artístico por inteiro.

O segundo momento da sessão intitulou-se “Lascas” e teve a assinatura de Natália Azevedo Andrade. Tratou-se de uma curta-metragem de animação com cerca de dez minutos de duração, produzida pela Moholy-Nagy University of Art and Design, de Budapeste, e surge igualmente em contexto académico. Misturando imagem real com animação, o filme aborda de forma intensa o drama interior que se abate sobre uma mulher que, sentindo-se engolida pelos seus maiores traumas, decide abandonar os três filhos e fugir para bem longe. Baseada em histórias que a realizadora foi coleccionando, também aqui a questão da solidão se impõe, o mergulho nos grandes espaços como forma de nos perdermos ou encontramos. Metaforicamente, as portas que existem em cada um de nós tanto podem abrir-se para acolher e confortar, como se fecham definitivamente sobre os outros e sobre nós próprios. Filme de uma enorme maturidade, com uma estética a fazer lembrar alguns dos grandes mestres japoneses da animação - de Hashimoto a Miyazaki -, “Lascas” é mais uma prova da qualidade da animação portuguesa e permite antever um promissor futuro para esta jovem realizadora bracarense.

“Ouro Sobre Azul”, uma ficção com pouco mais de dezassete minutos, colocou um ponto final na sessão. À semelhança dos filmes anteriores, também este é um trabalho de escola e corresponde ao desafio lançado pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia a desenvolver uma curta-metragem sobre a temática do mar. Andreia Pereira da Silva quis, nesta sua primeira obra, abordar o delicado momento da entrada na pré-adolescência onde tudo é novo e desconhecido. Num ambiente marcadamente onírico, a realizadora conta-nos a história de duas crianças que vivem junto à praia e se vêem confrontadas com a descoberta de um ser extraordinário que, com o seu “canto”, irá mudá-las para sempre. O filme é, também ele, uma enorme metáfora sobre a perda de inocência e fala-nos da transição para o vago e impreciso mundo da adolescência, onde tudo é sedução e fascínio. Escrito pela própria Andreia Pereira da Silva e com fotografia de Concha Silveira, o filme conta com os desempenhos de Tomás Andrade, Mariana Gomes e Alice Sandizell, também eles a merecerem nota alta pela qualidade das interpretações. Vários, portanto, os nomes a fixar.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

CINEMA: Shortcutz Ovar 2020 | Sessão #38



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #38
Escola de Artes e Ofícios 
90 Minutos | Maiores de 16 anos
16 Jul 2020 | qui | 22:00 


Com confiança e em segurança, a quarta edição do Shortcutz Ovar vai fazendo o seu caminho. Ao esforço de adaptação a uma nova realidade em tempo de pandemia, continua a responder o público de forma particularmente afirmativa, acorrendo com entusiasmo ao lindíssimo espaço da Escola de Artes e Ofícios e fazendo questão de esgotar as sessões. Assim foi na noite de ontem, mau grado o calor que se fez sentir e um ou outro mosquito mais afoito que teimou em assistir à sessão à boleia de um braço, de um pescoço ou de uma careca. Mas a noite valeu francamente a pena, as badaladas do sino da torre da igreja a darem nota do compasso do tempo, o cheiro a estrume a marcar de forma intensa uma ruralidade da qual não nos queremos desfazer e, dentro da sala, muito e bom cinema em versão curta para ver.

Tal como nas sessões anteriores, a programação teve o cuidado de aglutinar as quatro obras exibidas em torno de uma unidade formal à qual poderíamos chamar “cronologia da vida” – a infância, a adolescência e a transição para a idade adulta preenchidas com um conjunto de narrativas onde cabem conceitos como os de ruptura e separação, aventura e descoberta, amizade e cumplicidade. O que abre, desde logo, uma via-rápida para “Ode à Infância”, primeira curta-metragem a passar no ecrã, um trabalho de animação da autoria de João Monteiro e Luís Vital, ambos licenciados em Design Animação e Multimédia pela Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politénico de Portalegre. Misturando o 2D Digital e a animação tradicional, o filme conta a história de uma menina que, passeando no Parque na companhia do seu superprotector pai, encontra uma outra menina com quem trava amizade. Este tempo de soltar amarras e de olhar pela primeira vez o mundo com os próprios olhos é tratado com extrema sensibilidade pela dupla de autores, transformando a experiência da descoberta num poema visual terno e delicado, a envolvente música de Tomás Almeida a tornar mais doce ainda o encontro feliz da cor com o riso, da emoção com o movimento.

Matilde Calado veio apresentar “Quando For Tarde”, primeira obra de ficção de uma jovem realizadora licenciada em Cinema Documental pela Escola Superior de Tecnologias de Abrantes e com uma pós-graduação em Discursos da Fotografia Contemporânea pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Fazendo recair o olhar sobre um universo povoado de príncipes encantados que não existem e de amores à primeira vista nos quais não acredita – “pelo menos não acreditava quando rodei o filme, agora não sei”, conta Matilde, o olhar feito de travessura, a desfazer-se numa gargalhada –, a realizadora faz de “Quando For Tarde” um retrato de um universo com raízes que mergulham no mais fundo de si própria, contando com a empatia e cumplicidade da actriz Mia Tomé para melhor fazer passar a mensagem. Habilmente montado em “split screen”, o filme convida o espectador a explorar as várias narrativas imagéticas de forma contemplativa, percebendo-se aqui a clara influência da fotografia como um dos grandes interesses de Matilde Calado. Mas este é um duplo canal que não corre em roda livre, a vontade da realizadora a prevalecer no momento de apagar um dos canais, o sobressalto do espectador que percebe estar sem rede numa corda inesperadamente bamba. Experimental, poético e pessoal, eis, em resumo, o princípio, meio e fim de “Quando For Tarde”.

Nascido em 1991 em Viana do Castelo e licenciado em Realização pela Escola Superior de Teatro e Cinema, Rui Esperança foi convidado a fechar a noite, apresentando duas obras cuja temática primou pela complementaridade. “18” e “Os Inúteis” instalam-se sobre a delicada fase de transição entre a juventude e a idade adulta, expondo a ambição, a angústia, o sonho e o medo como notas de uma pauta que é, ao mesmo tempo, a expressão de uma ode e de um requiem. Há diferenças formais muito vincadas entre ambos os trabalhos – ou não fosse “18” um documentário e “Os Inúteis” uma obra de ficção –, mas é muito interessante notar a unidade dos dois filmes em torno das questões sociais, os 18 valores de média do secundário como salvo-conduto para o curso pretendido, a idade dos 18 anos como ponto de viragem e de afirmação para quem deixa de ser um homenzinho e passa a ser um homem, as colocações longe de casa, um mercado de trabalho pouco atractivo e, depois, a afirmação pessoal do quão cosmopolitas, num mundo globalizado, todos podemos ser, tão próximos uns dos outros e tão distantes ao mesmo tempo, tão necessários e tão inúteis. Nota ainda para o excelente trabalho de imagem de Ana Mariz em ambos os filmes, o bom trabalho de representação de Filipa Matta e Marta Fatal em “Os Inúteis” e a pureza da Maria e da Rafa em “18”, condensando no olhar uma certeza: “Ter 18 anos é uma merda!”

sexta-feira, 3 de julho de 2020

CINEMA: Shortcutz Ovar 2020 | Sessão #37



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #37
Escola de Artes e Ofícios 
90 Minutos | Maiores de 16 anos
02 Jul 2020 | qui | 22:00 


Entre um vírus que teima em brincar às escondidas e em manter a palavra “planalto” na ordem do dia e a crença no desconfinamento possível, no estrito respeito pelas normas de segurança impostas pelas autoridades de saúde, prosseguiu na noite de ontem a quarta temporada do Shortcutz Ovar com a realização da 37ª sessão. De novo no belíssimo espaço da Escola de Artes e Ofícios e sempre com apresentação de Tiago Alves, as curtas-metragens exibidas tiveram na relação entre as pessoas e o espaço que as rodeia o seu denominador comum. Uma sessão onde a arquitectura se passeou de mãos dadas com o cinema, levando no seu encalce a mensagem ambiental e os problemas sociais e que conseguiu prender a atenção de um público exigente e conhecedor que voltou a esgotar a lotação da sala.

Tal como na sessão anterior, o cinema de animação voltou a estar em foco e a abrir as hostilidades com a apresentação do filme de Bruno Caetano, “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto”. Adaptado de um conto original de Manuel Ruas Moreira, o filme fala-nos de um mundo distópico que vive praticamente sem água e onde as flores e os pássaros quase só existem na memória dos mais antigos. É aqui que entra o Sr. Jacinto, um simpático velhote, saudosista e sonhador, que um dia “tropeça” numa planta e decide desafiar a ordem estabelecida. Filmado em stop motion, essa técnica fascinante que remete de imediato para os filmes da série “Wallace and Gromit” ou para o marcante “A Fuga das Galinhas”, “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto” é uma pequena pérola da animação portuguesa, cuja mensagem ambiental se torna mais clara e acutilante em tempos de pandemia. O fascínio de Bruno Caetano pelo lado artesanal da animação percebe-se não apenas no cuidado posto na manipulação dos objectos, mas também nos adereços, nos cenários à escala – a marioneta do Sr. Jacinto, por exemplo, não ultrapassa os 16 cm de altura – e no bom gosto da música que acompanha o filme, da autoria do pianista e compositor Filipe Raposo. Uma última nota para a narração, de Sérgio Godinho, a cereja no topo do delicioso bolo que é esta curta de animação. 

O segundo filme da noite foi rodado nas montanhas de Hollywood e é um trabalho de tese de Francisco Pereira Coutinho na prestigiada Loyola Marymount University de Los Angeles. Focando a sua atenção na estranha relação de um casal de meia idade, o filme está repleto de contrastes, ambiguidades e segundos sentidos, começando no título e estendendo-se aos recantos duma “casa-estufa”, ao viço das flores, ao colorido das roupas e, em última análise, ao espaço privado das fantasias sexuais, onde o real e o imaginário se misturam e confundem. Filmado em película de 16 mm e com um excelente desempenho de Hayley J. Williams no papel de Ella, “A Greenhouse” revela um nível técnico notável, assente na extraordinária fotografia de Oscar Martinez. Refractário ao imediatismo e apostado em desafiar convencionalismos, este é um filme que prefere colocar questões em vez de apontar respostas. “A Greenhouse” – que passou em Ovar em estreia absoluta a nível mundial - tem essa extraordinária virtude de obrigar o espectador a pensar e a desvendar por si mesmo os mundos que se escondem em cada plano. Estamos perante um filme que é tudo menos fácil, mas esse é um risco que Francisco Pereira Coutinho aceitou correr. A julgar pela ovação e pela qualidade das questões colocadas no final ao realizador, o público de Ovar soube reconhecer os seus méritos, aclamando-o na justa medida dos seus pressupostos e ambições.

Para o final, o programador deixou-nos com “Filomena”, um filme de Pedro Cabeleira e que resultou de uma encomenda da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Elevados à categoria de actores, a Estação Marítima do Terreiro do Paço, uma casa em Telheiras, um centro de meditação, um local de culto, um bar e um prédio em construção na Fontes Pereira de Melo, competem com actores de carne e osso, Sandra Hung à cabeça de todos, desempenhando de forma notável o papel de Filomena, empregada de limpezas para quem a vida é sinónimo de trabalho e desencanto. É notável a forma como este jovem realizador conjuga a “obrigação” com a “devoção”, o fio narrativo a ligar os espaços da Trienal através de uma história fortíssima nas questões sociais que levante e na linguagem que assume. Mérito também para o trabalho de fotografia da jovem realizadora Leonor Teles, o cuidado com a luz e o rigor dos enquadramentos a pedir meças a qualquer projecto de arquitectura. Se mais provas fossem necessárias, “Filomena” está aí como a demonstração clara de que o cinema novo português existe, está de muito boa saúde e recomenda-se!

sábado, 7 de março de 2020

CINEMA: Shortcutz Ovar 2019 | Festa dos Premiados


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CINEMA: Ovar Shortcutz 2019 | Festa dos Premiados 
Escola de Artes e Ofícios 
06 Mar 2020 | sex | 22:00


Numa das mais amplas programações de cinema curto português produzido em 2019, a terceira temporada do Shortcutz Ovar decorreu, como habitualmente, no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, oferecendo a possibilidade de visualizar, ao longo de nove sessões, três dezenas de obras que, no seu conjunto, evidenciaram na perfeição o carácter, a diversidade e a vitalidade de um formato muito injustamente secundarizado no campo da sétima arte. Dinamizadas por Tiago Alves, as sessões tiveram lugar entre o final de Janeiro e o final de Novembro do ano passado, nelas sendo o público convidado a assistir a alguns dos mais notáveis exemplares do cinema de imagem animada, do cinema documental e do cinema de ficção em formato curto, de conviver com realizadores, produtores, actores e demais agentes ligados ao mundo do cinema e por fim, mas não menos importante, de deixar o seu voto em relação às obras visualizadas. 

Na hora de colocar um ponto final na temporada de 2019, o lindíssimo espaço da Escola de Artes e Ofícios de Ovar engalanou-se para a Festa dos Premiados, enchendo-se de um público entusiasta e desejoso de conhecer os trabalhos eleitos. A escolha dos jurados – a actriz Carla Chambel, o realizador Luís Costa e a artista Barbara Andrez – terá sido tudo menos fácil, como foi transparecendo das palavras de Carla Chambel que, ao longo da noite, partilhou o trabalho de apresentação com Tiago Alves. Quem permite que o Shortcutz Ovar exista não foi esquecido e Salvador Malheiro, o presidente da edilidade ovarense, foi convidado a deixar algumas palavras ao público, através das quais reafirmou a importância do evento para Ovar e para a região, abrindo o interesse do Município “a novos desafios, a projectos diferentes, onde todos possamos ganhar, sejam os criadores, seja a comunidade vareira e, indirectamente, a Câmara Municipal de Ovar”. Passando a bola para o lado de lá, Salvador Malheiro deixou o convite a produtores e realizadores a que “apresentem projectos diferentes, que possam afirmar a nossa identidade, que sejam bons para ambas as partes, e a Câmara cá estará para os apoiar”, concluiu.

Chegado o momento mais aguardado, pelo palco foram desfilando os premiados da noite, trazendo com eles palavras gratas e emocionadas pelo reconhecimento dado aos seus trabalhos. David Doutel e Vasco Sá conquistaram o Prémio de Melhor Animação com o filme “Agouro” – pequena jóia baseada na animação tradicional sobre vidro e animação numérica em 2D – e que nos conta a tragédia que se abate sobre dois primos, no culminar de uma relação tempestuosa. O Prémio para a Melhor Primeira Obra foi para o surpreendente “Red Hill”, de Laura Carreira, uma obra de ficção que nos traz os pequenos gestos diários de um homem cuja idade da reforma se revela próxima e não parece particularmente preparado para aceitar uma nova vida. O Prémio Especial do Júri foi atribuído a André Guiomar com o belíssimo documentário “Pele de Luz”, rodado no coração de Maputo, em Moçambique, ao encontro de duas irmãs que se debatem com a diferença marcante de serem albinas e, por isso mesmo, perseguidas devida à crença na magia negra.

Chamado a escolher o melhor dos 29 trabalhos a concurso, o Público do Festival elegeu “Sleepwalk”, do realizador Filipe Melo, mostrando o seu particular apreço por esta história que nos diz que uma tarte de maçã pode esconder muito mais do que aquilo que apenas aparenta. Os ambientes são os de uma América profunda, com os seus estereótipos e segredos bem guardados, a sua aura de mistério, os quais o realizador acentua graças à excelência do argumento, a uma fotografia esmerada, ao rigor dos décors e a um conjunto de interpretações notáveis. Por último, o Prémio Melhor Curta foi para Alice Eça Guimarães e Mónica Santos pelo seu trabalho “Entre Sombras” e que nos leva numa aventura em busca de um coração roubado. Uma estética surrealista, um excelente trabalho de combinação entre a animação e a imagem real, os lugares reconhecíveis da cidade do Porto e uma história muito bem engendrada que é, em si mesma, uma homenagem ao “film noir”, foram trunfos decisivos para a escolha de um júri que mais não fez do que render-se à imaginação e ao talento das duas realizadoras. Grande festa, grande noite, o Shortcutz Ovar 2019 acabou em beleza com a DJ Lara Soft a prolongar a animação e o convívio. É tempo agora de dar vivas ao Shortcutz Ovar 2020!