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domingo, 5 de abril de 2026

CINEMA: "Entroncamento" | Pedro Cabeleira



CINEMA: “Entroncamento”
Realização | Pedro Cabeleira
Argumento | Pedro Cabeleira, Diogo Figueira
Fotografia | Leonor Teles
Montagem | Pedro Cabeleira
Interpretação | Ana Vilaça, Cleo Diára, Rafael Morais, Henrique Barbosa, Tiago Costa, Sérgio Coragem, André Simões, Beatriz Almeida, Maria Gil, Luís Filipe Eusébio, João Craveiro, Carlos Sabado, Bruno Santos, Nuno Rogério, Jairo Sousa, Márcio Ferrão, Carlos Carvalho
Produção | Vasco Esteves, Edyta Janczak-Hiriart, Abel Ribeiro Chaves
Portugal | 2025 | Drama | 131 Minutos | Maiores de 16 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 7
02 Abr 2026 | qui | 15:05


Retrato de um certo interior esquecido do nosso país, “Entroncamento”, de Pedro Cabeleira, habita um território onde o crime parece ser a extensão natural de vidas sem alternativa. Ao longo de mais de duas horas, o filme acompanha Laura no seu regresso a uma cidade marcada pela estagnação económica, pela disfuncionalidade do tecido familiar, pela precariedade laboral e pela tendência crescente para o pequeno delito. Entre o desencanto e a resignação, o quotidiano impõe-se como força dominante, anulando qualquer gesto que aspire à ruptura. A promessa de recomeço esbarra numa realidade onde o trabalho mal garante a sobrevivência, ao passo que o roubo ou o tráfico de droga se mostram capazes de oferecer ganhos imediatos sem sobressaltos de maior. Dispensando moralismos fáceis, é neste ambiente de marginalidade que o filme se estabelece, mostrando em cada um dos protagonistas seres vulneráveis, sensíveis, que se movem por instinto e não por uma particular ideia de ambição desmedida.

Formalmente, Pedro Cabeleira aposta num naturalismo rigoroso, quase documental, visível na câmara crua, nos diálogos orgânicos e na recusa de artifícios narrativos clássicos. O filme privilegia a circulação entre personagens e histórias, fragmentando-se em torno de vidas que nunca chegam a mostrar uma verdadeira espessura. Parece haver uma tensão constante entre a vontade de retratar uma comunidade e a dificuldade, na grande maioria dos casos, de aprofundar trajectórias individuais, mas “Entroncamento” consegue momentos de notável observação nos pequenos gestos, na violência verbal, nos silêncios carregados que dizem mais do que qualquer confronto explícito. Marcado por barreiras conjunturais e estruturais, pela indiferença institucional e por dificuldades de toda a ordem, o ambiente social emerge com nitidez, sublinhado por uma estética sombria que a fotografia de Leonor Teles acentua, reforçando a ideia de um mundo fechado sobre si próprio, onde até a luz parece escassa.

Nesta contenção reside a força de “Entroncamento”, com o realizador a desmontar a dimensão mítica do crime, apresentando-o como gesto banal, quase mecânico, inscrito na rotina de um viver sem horizontes. Com a sua determinação silenciosa, Laura encarna essa ambiguidade simultaneamente lúcida e enigmática, capaz de manipular relações de poder, mas presa a um percurso que nunca se completa verdadeiramente. Há um extraordinário cuidado nos diálogos e são muitas as camadas inscritas no argumento, entre as quais avulta a realidade social e política de um concelho que é porta-bandeira dos fascismos e populismos que crescem no nosso país. Olhando para tudo isto, é inegável o talento de Pedro Cabeleira para encontrar as muitas pontas de um emaranhado tecido, espécie de mosaico de vidas autênticas que se cruzam e descruzam, alheias aos sinais de “pare, escute e olhe”. Um filme a merecer visão atenta, até porque nele se impõe Ana Vilaça num papel de grande solidez e impacto.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #78 - Júri Jovem



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #78
Júri Jovem
Escola de Artes e Ofícios
25 Jan 2024 | qui | 21:30


Na antecâmara de uma nova temporada do Shortcutz Ovar, a primeira sessão de 2024 deu a ver as escolhas do Júri Jovem. Num formato em tudo idêntico ao das sessões regulares, foram exibidas três curtas-metragens eleitas entre as vinte e quatro que integraram a sétima temporada, de acordo com critérios que as cinco juradas – Maria Silva, Maria Manarte, Eduarda Terra, Sara Oliveira e Clara Alves – julgaram os mais adequados ao propósito de eleger bons filmes e que, mercê das suas temáticas, pudessem ser levados a algumas escolas do Distrito (à semelhança, aliás, do que aconteceu em 2023) para serem exibidos e debatidos. Foi uma sessão programada por jovens e pensada para jovens, que trouxe para primeiro plano questões familiares, sociais e laborais de enorme pertinência. Cabe aqui um parêntesis para expressar a minha admiração e gratidão pelo excelente trabalho do júri, capaz de três escolhas susceptíveis de gerar, cada uma delas, intensa reflexão e debate, em detrimento de outros filmes eventualmente mais apelativos, como seriam os casos das animações “Ice Merchants”, de João Gonzalez e “O Casaco Rosa”, de Mónica Santos.

Os méritos do Júri Jovem, porém, não se limitaram à programação da sessão. Foi graças ao esforço de persuasão das juradas que a bonita Sala Expande da Escola de Artes e Ofícios pode contar com a presença de muitos jovens, aliciados com a promessa de uma noite de excelente cinema (e, creio, com a expectativa de haver rissóis no final da sessão). Também foram elas que assumiram as despesas da conversa com o público, falando de consensos e divergências em torno dos filmes eleitos, mostrando-se genuínas na forma como defenderam as suas escolhas, demonstrando uma energia e um entusiasmo inexcedíveis e referindo, muito objectivamente, a importância que o Shortcutz Ovar tem tido na forma como ensina a ver cinema e, muito em particular, cinema português. Foi uma sessão animada, marcada por intervenções muito assertivas da parte do público e que também proporcionou algumas surpresas, nomeadamente a presença na sala de Ana Vilaça, protagonista do filme “By Flávio”, de Pedro Cabeleira. Ana Vilaça que, juntamente com a multi-instrumentista e cantora Surma, assumirão funções no Júri “Adulto” da próxima temporada do Shortcutz Ovar, ao lado do sempiterno Leandro Ribeiro.

Falando dos filmes, são bastante claros alguns aspectos que os unem. Talvez os mais vincados sejam a extraordinária qualidade das interpretações, mas também a tensão emocional que envolve cada uma das curtas. Numa sala com muitos estreantes nestas andanças do Shortcutz Ovar, creio que a impressão terá sido extraordinariamente positiva e que muitos deles irão voltar. Para mim, que já conhecia os filmes das sessões regulares, foi muito bom revê-los e recuperar um conjunto de momentos de grande cinema: A cena de abertura de “As Sacrificadas”, com as cinzas dos incêndios que cobrem de negro as folhas das árvores, a hilariante descrição de Da Reel Chullz acerca da feitura de um videoclip (“não é Dubai, é Xabregas, mas no fim até vai parecer que é o Dubai”, cito de cor) ou a imagem invertida em “Vórtice” deixando ver as luzes e o cimo dos prédios ao longo de uma avenida onde um carro avança a alta velocidade. Mas também o olhar resignado de Otília quando o irmão se nega a cuidar da mãe um fim de semana apenas, o olhar de superioridade de Márcia no momento em que vira as costas ao rapper ou o olhar de desespero de Paulo quando vê que não há um único lugar onde estacionar o carro em todo o bairro. Um fecho de temporada com chave de ouro e um “olá” a 2024 com a promessa de muito e bom cinema.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #75



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #75
Com | David Doutel, Vasco Sá, Carlos Lobo, Ana Vilaça
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
28 Set 2023 | qui | 21:30


Em noite de casa (e lua) cheia, o Shortcutz Ovar pôs fim à pausa estival e regressou à Escola de Artes e Ofícios para nova sessão da sua sétima temporada. Na recta final de um ano de excelentes trabalhos - em linha, aliás, com o muito de bom que o cinema português vem mostrando -, a sessão teve para oferecer três curtas muito distintas entre si, mas em cujas mensagens podemos adivinhar um mesmo propósito: o de deslocar as personagens do seu espaço natural, fazer com que “abandonem a montanha e desçam ao povoado”, enfrentem os seus demónios, desafiem o desconhecido e se mostrem prontas a aceitar verdades e consequências. “Uns são apanhados, outros conseguem fugir”, são palavras finais de um dos filmes, mas que condensam muito bem o sentimento de transgressão comum a todos eles. Deste ponto de vista, talvez nunca como ontem uma sessão se mostrasse tão coesa e equilibrada na busca da melhor forma de lidar com os problemas que afectam o nosso quotidiano, que fazem do pensamento e da acção uma necessidade premente. Entre o público, foi notória a indecisão no momento de dar o seu voto, acabando por se inclinar para “Garrano”, filme inaugural desta sessão.

Figura de proa do cinema de animação no nosso país, presença marcante em importantes festivais de cinema de todo o mundo, a dupla de realizadores David Doutel e Vasco Sá regressou a Ovar para mostrar “Garrano”, a sua quarta curta-metragem. De acordo com os realizadores, o filme nasce da vontade de abordar e refletir sobre o grave e endémico problema dos incêndios florestais em Portugal, mas o seu “braço” mostra-se muito mais longo, abarcando a precariedade e a pobreza, a falta de expectativas num interior cada vez mais desertificado, os atentados ambientais que se adivinham com a exploração do lítio, a morte lenta de um modo de vida que deu forma e sustento a comunidades inteiras ao longo de séculos. Cruzando animação 2D tradicional com pintura a óleo e pintura digital, “Garrano” oferece-nos quadros de uma beleza imensa, ao mesmo tempo que nos dá a ver o horrível que se abriga no coração do homem e nos actos que pratica.

Primeira obra do realizador vimaranense Carlos Lobo, “Aos Dezasseis” foi “o irmão do meio” desta sessão. Marcadamente autobiográfico, o filme é, nas palavras do seu realizador, “um retrato de uma certa ideia poética da juventude, um período em que a procura da definição da nossa identidade e das suas lutas está presente como condição de sobrevivência e de sentimento de pertença”. Entre uma Escola, um Skate Park e uma Discoteca, a jovem protagonista deste filme confronta-se com os grandes problemas da adolescência - as alterações do corpo, as dinâmicas de grupo, as pulsões sexuais - e está a um passo de se descobrir. No papel de Sara, Ana Ribeiro é preciosa, no gesto como no olhar, revelando tudo sem nada dizer. Por seu lado, percebe-se em Carlos Lobo uma enorme maturidade na sua forma de filmar, uma rigorosa planificação, a proximidade entre a lente e os rostos, uma estética muito própria em alguém que trata por “tu” a fotografia. Sobretudo, avulta a cuidadosa e delicada direcção de actores, legitimando a verdade que o filme encerra.

A programação desta sessão do Shortcutz Ovar escolheu “By Flávio”, de Pedro Cabeleira, para fechar a noite. Com fotografia de Leonor Teles e Ana Vilaça, Rodrigo Manaia e Tiago Costa nos principais papéis, este é um daqueles filmes que aborda as bases de sustentação das relações inter-pessoais nos nossos dias, pondo a nu as suas fragilidades, inconsistências e contradições. Na experiência de uma jovem mulher, empregada de uma loja de roupa num Centro Comercial em Torres Novas, cujas ambições passam por vir a ser uma influencer digital, multiplicar o número de seguidores no Instagram, garantir uma certa emancipação sexual, ser reconhecida como a companheira de um musico famoso, deixar para trás o pequeno burgo e mudar-se para a grande cidade, está a experiência de muitas jovens mulheres. Vencedor dos Prémios Sophia, da Academia Portuguesa de Cinema, na categoria de Melhor Curta-Metragem de Ficção, “By Flávio mostra-se exímio na forma como aborda o papel da mulher e como desconstrói as questões associadas à objectificação do seu corpo numa sociedade onde tudo é urgência e desassossego.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

CINEMA: Shortcutz Ovar 2020 | Sessão #37



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #37
Escola de Artes e Ofícios 
90 Minutos | Maiores de 16 anos
02 Jul 2020 | qui | 22:00 


Entre um vírus que teima em brincar às escondidas e em manter a palavra “planalto” na ordem do dia e a crença no desconfinamento possível, no estrito respeito pelas normas de segurança impostas pelas autoridades de saúde, prosseguiu na noite de ontem a quarta temporada do Shortcutz Ovar com a realização da 37ª sessão. De novo no belíssimo espaço da Escola de Artes e Ofícios e sempre com apresentação de Tiago Alves, as curtas-metragens exibidas tiveram na relação entre as pessoas e o espaço que as rodeia o seu denominador comum. Uma sessão onde a arquitectura se passeou de mãos dadas com o cinema, levando no seu encalce a mensagem ambiental e os problemas sociais e que conseguiu prender a atenção de um público exigente e conhecedor que voltou a esgotar a lotação da sala.

Tal como na sessão anterior, o cinema de animação voltou a estar em foco e a abrir as hostilidades com a apresentação do filme de Bruno Caetano, “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto”. Adaptado de um conto original de Manuel Ruas Moreira, o filme fala-nos de um mundo distópico que vive praticamente sem água e onde as flores e os pássaros quase só existem na memória dos mais antigos. É aqui que entra o Sr. Jacinto, um simpático velhote, saudosista e sonhador, que um dia “tropeça” numa planta e decide desafiar a ordem estabelecida. Filmado em stop motion, essa técnica fascinante que remete de imediato para os filmes da série “Wallace and Gromit” ou para o marcante “A Fuga das Galinhas”, “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto” é uma pequena pérola da animação portuguesa, cuja mensagem ambiental se torna mais clara e acutilante em tempos de pandemia. O fascínio de Bruno Caetano pelo lado artesanal da animação percebe-se não apenas no cuidado posto na manipulação dos objectos, mas também nos adereços, nos cenários à escala – a marioneta do Sr. Jacinto, por exemplo, não ultrapassa os 16 cm de altura – e no bom gosto da música que acompanha o filme, da autoria do pianista e compositor Filipe Raposo. Uma última nota para a narração, de Sérgio Godinho, a cereja no topo do delicioso bolo que é esta curta de animação. 

O segundo filme da noite foi rodado nas montanhas de Hollywood e é um trabalho de tese de Francisco Pereira Coutinho na prestigiada Loyola Marymount University de Los Angeles. Focando a sua atenção na estranha relação de um casal de meia idade, o filme está repleto de contrastes, ambiguidades e segundos sentidos, começando no título e estendendo-se aos recantos duma “casa-estufa”, ao viço das flores, ao colorido das roupas e, em última análise, ao espaço privado das fantasias sexuais, onde o real e o imaginário se misturam e confundem. Filmado em película de 16 mm e com um excelente desempenho de Hayley J. Williams no papel de Ella, “A Greenhouse” revela um nível técnico notável, assente na extraordinária fotografia de Oscar Martinez. Refractário ao imediatismo e apostado em desafiar convencionalismos, este é um filme que prefere colocar questões em vez de apontar respostas. “A Greenhouse” – que passou em Ovar em estreia absoluta a nível mundial - tem essa extraordinária virtude de obrigar o espectador a pensar e a desvendar por si mesmo os mundos que se escondem em cada plano. Estamos perante um filme que é tudo menos fácil, mas esse é um risco que Francisco Pereira Coutinho aceitou correr. A julgar pela ovação e pela qualidade das questões colocadas no final ao realizador, o público de Ovar soube reconhecer os seus méritos, aclamando-o na justa medida dos seus pressupostos e ambições.

Para o final, o programador deixou-nos com “Filomena”, um filme de Pedro Cabeleira e que resultou de uma encomenda da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Elevados à categoria de actores, a Estação Marítima do Terreiro do Paço, uma casa em Telheiras, um centro de meditação, um local de culto, um bar e um prédio em construção na Fontes Pereira de Melo, competem com actores de carne e osso, Sandra Hung à cabeça de todos, desempenhando de forma notável o papel de Filomena, empregada de limpezas para quem a vida é sinónimo de trabalho e desencanto. É notável a forma como este jovem realizador conjuga a “obrigação” com a “devoção”, o fio narrativo a ligar os espaços da Trienal através de uma história fortíssima nas questões sociais que levante e na linguagem que assume. Mérito também para o trabalho de fotografia da jovem realizadora Leonor Teles, o cuidado com a luz e o rigor dos enquadramentos a pedir meças a qualquer projecto de arquitectura. Se mais provas fossem necessárias, “Filomena” está aí como a demonstração clara de que o cinema novo português existe, está de muito boa saúde e recomenda-se!