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domingo, 26 de fevereiro de 2023

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Multiplicidades"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Multiplicidades”,
de Francisco Pereira Coutinho
Galeria Municipal Artur Bual / Casa Aprígio Gomes
23 Fev > 02 Abr 2023


Las Vegas, Nova Iorque, Paris. A grande cidade. Perfilados, os edifícios preenchem o horizonte como guardiões de uma fortaleza indestrutível, sobem na paisagem numa competição de saltadores em altura. Em altivez alinhados, obrigam a um esforço de contorcionista para que o olhar chegue ao topo e mais além das letras que se acendem com o crepúsculo e deixam adivinhar quanto cobalto há no azul do céu.
Que cidades são estas? Quem as habita?
Dois milhões? Quatro? Oito milhões de pessoas?
(Onde estão as pessoas?)

Uma por uma, percorremos com o olhar as imagens de Francisco Pereira Coutinho em busca de respostas que não teremos. A estranheza veste-se de cores glaucas e um profundo silêncio pesa sobre cenários de filme futurista. Inquieto, o olhar acompanha as linhas que seguem paralelas entre si, se interceptam, se cruzam, se invertem e mudam de sentido. “Voyeurs” ocasionais, acompanhamos o estranho bailado do fotógrafo, câmera numa mão, na outra a rosa-dos-ventos, veloz rodopio entre espelhos, viagem-relâmpago aos antípodas, feiticeiro do perto e do longe.

Depuradas, cruas, as imagens surpreendem e seduzem. No padrão que tomam, na multiplicidade que encerram, pedem apuro ao olhar e asas à imaginação. O silêncio ensurdece. O coração dispara...


(Onde estão as pessoas?)

Numa árvore, a resposta? (Ou talvez no cais aguardando o ferry. Ou por detrás do vidro mais à esquerda do 67º andar. Ou aqui mesmo, ao nosso lado).


[Texto escrito para a exposição de fotografia “Multiplicidades”, de Francisco Pereira Coutinho, patente na Galeria Municipal Artur Bual / Casa Aprígio Gomes até ao próximo dia 02 de Abril. Foto gentilmente cedida por Francisco Pereira Coutinho]

sexta-feira, 3 de julho de 2020

CINEMA: Shortcutz Ovar 2020 | Sessão #37



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #37
Escola de Artes e Ofícios 
90 Minutos | Maiores de 16 anos
02 Jul 2020 | qui | 22:00 


Entre um vírus que teima em brincar às escondidas e em manter a palavra “planalto” na ordem do dia e a crença no desconfinamento possível, no estrito respeito pelas normas de segurança impostas pelas autoridades de saúde, prosseguiu na noite de ontem a quarta temporada do Shortcutz Ovar com a realização da 37ª sessão. De novo no belíssimo espaço da Escola de Artes e Ofícios e sempre com apresentação de Tiago Alves, as curtas-metragens exibidas tiveram na relação entre as pessoas e o espaço que as rodeia o seu denominador comum. Uma sessão onde a arquitectura se passeou de mãos dadas com o cinema, levando no seu encalce a mensagem ambiental e os problemas sociais e que conseguiu prender a atenção de um público exigente e conhecedor que voltou a esgotar a lotação da sala.

Tal como na sessão anterior, o cinema de animação voltou a estar em foco e a abrir as hostilidades com a apresentação do filme de Bruno Caetano, “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto”. Adaptado de um conto original de Manuel Ruas Moreira, o filme fala-nos de um mundo distópico que vive praticamente sem água e onde as flores e os pássaros quase só existem na memória dos mais antigos. É aqui que entra o Sr. Jacinto, um simpático velhote, saudosista e sonhador, que um dia “tropeça” numa planta e decide desafiar a ordem estabelecida. Filmado em stop motion, essa técnica fascinante que remete de imediato para os filmes da série “Wallace and Gromit” ou para o marcante “A Fuga das Galinhas”, “O Peculiar Crime do Estranho Sr. Jacinto” é uma pequena pérola da animação portuguesa, cuja mensagem ambiental se torna mais clara e acutilante em tempos de pandemia. O fascínio de Bruno Caetano pelo lado artesanal da animação percebe-se não apenas no cuidado posto na manipulação dos objectos, mas também nos adereços, nos cenários à escala – a marioneta do Sr. Jacinto, por exemplo, não ultrapassa os 16 cm de altura – e no bom gosto da música que acompanha o filme, da autoria do pianista e compositor Filipe Raposo. Uma última nota para a narração, de Sérgio Godinho, a cereja no topo do delicioso bolo que é esta curta de animação. 

O segundo filme da noite foi rodado nas montanhas de Hollywood e é um trabalho de tese de Francisco Pereira Coutinho na prestigiada Loyola Marymount University de Los Angeles. Focando a sua atenção na estranha relação de um casal de meia idade, o filme está repleto de contrastes, ambiguidades e segundos sentidos, começando no título e estendendo-se aos recantos duma “casa-estufa”, ao viço das flores, ao colorido das roupas e, em última análise, ao espaço privado das fantasias sexuais, onde o real e o imaginário se misturam e confundem. Filmado em película de 16 mm e com um excelente desempenho de Hayley J. Williams no papel de Ella, “A Greenhouse” revela um nível técnico notável, assente na extraordinária fotografia de Oscar Martinez. Refractário ao imediatismo e apostado em desafiar convencionalismos, este é um filme que prefere colocar questões em vez de apontar respostas. “A Greenhouse” – que passou em Ovar em estreia absoluta a nível mundial - tem essa extraordinária virtude de obrigar o espectador a pensar e a desvendar por si mesmo os mundos que se escondem em cada plano. Estamos perante um filme que é tudo menos fácil, mas esse é um risco que Francisco Pereira Coutinho aceitou correr. A julgar pela ovação e pela qualidade das questões colocadas no final ao realizador, o público de Ovar soube reconhecer os seus méritos, aclamando-o na justa medida dos seus pressupostos e ambições.

Para o final, o programador deixou-nos com “Filomena”, um filme de Pedro Cabeleira e que resultou de uma encomenda da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Elevados à categoria de actores, a Estação Marítima do Terreiro do Paço, uma casa em Telheiras, um centro de meditação, um local de culto, um bar e um prédio em construção na Fontes Pereira de Melo, competem com actores de carne e osso, Sandra Hung à cabeça de todos, desempenhando de forma notável o papel de Filomena, empregada de limpezas para quem a vida é sinónimo de trabalho e desencanto. É notável a forma como este jovem realizador conjuga a “obrigação” com a “devoção”, o fio narrativo a ligar os espaços da Trienal através de uma história fortíssima nas questões sociais que levante e na linguagem que assume. Mérito também para o trabalho de fotografia da jovem realizadora Leonor Teles, o cuidado com a luz e o rigor dos enquadramentos a pedir meças a qualquer projecto de arquitectura. Se mais provas fossem necessárias, “Filomena” está aí como a demonstração clara de que o cinema novo português existe, está de muito boa saúde e recomenda-se!