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domingo, 8 de dezembro de 2019

CIRCO CONTEMPORÂNEO: "Sinergia 3.0"


CIRCO CONTEMPORÂNEO: “Sinergia 3.0”
Ideia original e direcção | Jorge Silvestre
Dramaturgia e apoio à direcção | Oscar Diéguez “Churun”
Interpretação | Isaac Posac, Miguel Frutos, Josu Montón, Jorge Silvestre
Cenografia | Alfonso Reverón (Colectivo Supermanazas)
Coreografia | Iris Muñoz
Marionetas | Fernando Barta
Composição musical | Vaz Olivier
Produção | Compañia Nueveuno
60 Minutos | Maiores de 6 anos
Cine-Teatro de Estarreja
07 Dez 2019 | sab | 21:30


Do grego συνεργία (“syn-”, que significa “união” e “-ergía” correspondente a “unidade de trabalho”), o nome deste espectáculo remete para o conceito de cooperação: Combinação dos esforços coordenados de dois ou mais elementos na realização de uma tarefa complexa, de forma a que o resultado dessa junção seja superior ao somatório dos elementos individualizados. Fundamentado numa reinterpretação do incomparável Leonardo da Vinci (cujos 500 anos da sua morte se assinalaram a 02 de Maio de 2019), “Sinergia 3.0” aborda os conflitos pessoais tão presentes nas sociedades individualistas de hoje, convidando o espectador a reflectir, de forma livre, nos benefícios duma articulação entre todos, deixando de parte o preconceito e ultrapassando as diferenças.

Combinando técnicas de malabarismo, manipulação de objetos, verticais e dança, “Sinergia 3.0” assenta numa coreografia de enorme plasticidade geométrica que lhe confere uma harmoniosa sensibilidade ao longo de todo o espectáculo. Das madeiras aos metais, do acústico ao electrónico, do simples ao complexo, da individualidade à coesão, a base conceptual deste trabalho aponta no sentido da união de esforços para um maior proveito no trabalho de todos. Este é, assim, um espectáculo que rola em dois eixos, um visual e um emocional, ao longo dos quais as personagens evoluem num processo de integração e de interacção com o grupo.

Estruturas complexas, coreografias de movimento precisas, materiais de enorme beleza plástica e uma banda sonora, trabalhada expressamente para este espectáculo, a sublinhar as transformações operadas nos objectos, personagens, situações e humores, fazem de “Sinergia 3.0” um exemplo do quanto de apelativo reside na renovação do circo e no novo paradigma de o trazer a palco. Jorge Silvestre, Miguel Frutos, Josu Montón e Isaac Posac mostram-se exímios na interpretação das várias figuras que compõem o espectáculo, acrescentando-lhe qualidade técnica, quadros de enorme beleza e muito humor. A isto não será alheio o trabalho de quatro anos com os londrinos Gandini Juggling, uma das companhias de circo contemporâneo mais conceituadas do mundo, e a sua colaboração com o Cirque du Soleil ao nível das coreografias. Tudo ingredientes para uma hora de espectáculo divertida, feita de criatividade, engenho e arte.

[Foto: Cía. Nueveuno | nueveunocirco.com/]

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

CIRCO CONTEMPORÂNEO: "Les Princesses"



CIRCO CONTEMPORÂNEO: “Les Princesses”
Concepção | Marie Jolet
Encenação | Christian Lucas
Interpretação | Matthieu Duval, Marie Jolet, Marjolaine Karlin, Julien Michenaud, Carine Nunes, Marc Pareti
Criação musical | Marjolaine Karlin, com o apoio de Julien Michenaud
Cenografia | Factota
Figurinos | Natacha Costechareire
Produção | Cheptel Aleïkoum
80 Minutos | Maiores de 8 anos
E.B. Manuel do Nascimento, Monchique
25 Out 2019 | Sex | 21:00


“Diz papá, diz mamã
Porque é que os príncipes encantados
Não têm nome”

É num imaginário de contos de fadas, reis e princesas, caçadores e guerreiros, frutos proibidos, coelhos gigantes e beijos que quebram feitiços que tem lugar “Les Princesses”, espectáculo de “Novo Circo Aéreo e Cantado”, do colectivo francês Cheptel Aleïkoum, pela segunda vez nesta região do Algarve. Abrindo a quarta temporada do “Lavrar o Mar” - projecto assente numa programação artística diversificada e de qualidade, apostada em descentralizar as artes e a cultura, levando-as ao alto da serra algarvia e à costa vicentina -, “Les Princesses” tem na vertente circense a sua grande força, revelando-se em doses generosas de virtuosismo e magia, uma forte interacção com o público e um irresistível sentido de humor.

É numa estrutura circular, devidamente desenhada para o efeito, que tudo se passa. No seu interior, seis artistas irão evidenciar os seus dotes de trapezistas, contorcionistas, acrobatas, mimos e faquires, mas também a sua enorme capacidade para o canto, a dança e a performance, condensando num único espectáculo uma multiplicidade de géneros e de expressões artísticas que o transformam num caleidoscópio de emoções e sensações únicas, ora ternurentas, ora arrepiantes, ora completamente inesperadas, mas sempre contagiantes e divertidas.

Com uma mensagem centrada nos medos da infância e na maneira de os ultrapassarmos, dando-nos a necessária confiança para enfrentar um mundo cada vez mais afastado de um conto de fadas, “Les Princesses” está carregado de subtilezas, convidando o espectador a reflectir na forma como vê e aceita as diferenças, qual o seu grau de confiança no outro ou quão disposto está a tudo arriscar, em nome de princípios e valores. Simples e descomprometido na aparência, entre “belas adormecidas” ou “alices no país das maravilhas”, este é um espectáculo estimulante, que cativa e seduz pela forma como questiona e desmonta as convenções e os “bons costumes”. Bravo!

[Foto: João Mariano – 1000olhos | facebook.com/lavraromar/]

domingo, 12 de maio de 2019

TEATRO: "OTUS"



TEATRO: “OTUS”
Concepção, direcção e interpretação | Hugo Oliveira, Sage Bachtler Cushman
Dramaturgia | Hugo Oliveira, Sage Bachtler Cushman, Luciano Amarelo
Suporte artístico e movimento | Luciano Amarelo, Wendy Houstoun
Cenografia | Hugo Oliveira, Sage Bachtler Cushman, Bruno Capucho
Figurinos | Carolina Sousa, Thomas Benjamin
Produção | Carole Blade, Rodrigo Matos
55 minutos | Maiores de 6
Circo ao Palco
Centro de Artes de Ovar
10 Mai 2019 | sex | 22:00


Um fluxo constante de serrim derrama-se do tecto sobre uma parte do palco onde um conjunto de blocos de madeira se encontra criteriosamente empilhado. Há mais pilhas destes blocos de madeira noutras partes do palco e, no centro, os blocos alinham-se em sequência, como peças dum gigantesco dominó em forma de laço. É sobre eles que uma mulher caminha muito lentamente, muito cautelosamente, avançando sempre. Numa mesa instavelmente equilibrada, a um dos cantos do palco, um homem parece incapaz de domar os seus conflitos interiores, a cadeira onde se senta como que uma extensão de si próprio. Há ainda uma corda fixa que pende do tecto e um trapézio que sobe e desce. É este o universo de “OTUS”, o trabalho dos artistas Hugo Oliveira e Sage Bachtler Cushman que encerrou a programação da segunda edição do “Circo ao Palco” e que foi possível ver, na noite da passada sexta-feira, no Centro de Artes de Ovar.

Misturando arte circense e dança contemporânea, “OTUS” pretende evidenciar a instabilidade de uma relação a dois, com os seus altos e baixos, a precariedade dum espaço comum a condicionar e a limitar comportamentos e atitudes. Se o homem parece mais cioso da sua privacidade – com frequência o vemos carregar a mulher até uma pilha de blocos de madeira, “pondo-a no seu lugar” -, manipulando os blocos de madeira numa busca constante de reconfiguração dum espaço que pretende seu, já a protagonista se mostra mais à vontade neste processo de adaptação, encontrando nas alturas o seu espaço de liberdade. Local de abstracção, o palco é a casa que ambos ocupam, a resistência inicial em romper com uma existência até então trilhada a solo a dar lugar, de forma paulatina, à aproximação e à colaboração entre ambos.

Com uma concepção plástica brilhante e um trabalho cenográfico de enorme impacto visual, “OTUS” retira do virtuosismo de Oliveira & Bachtler as suas mais valias. A expressão corporal de ambos e os movimentos coreográficos que reforçam a ideia de aproximação ou afastamento, são complementados por um domínio inexcedível de várias artes circenses, com destaque para o malabarismo, a acrobacia, o contorcionismo e a manipulação de objectos. Também a banda sonora que acompanha a acção se revela preciosa, “House of The Rising Sun”, na voz de Nina Simone, a marcar o momento pela sensualidade, os silêncios forçados a vincarem a tensão entre o casal. O quadro final, com a mulher a distanciar-se do palco e a dar-se conta do resultado duma relação conflituosa, tem tanto de significativo como de belo. Na linha dos anteriores espectáculos, este foi mais um fantástico momento de teatro (de circo?) que se espera ver repetido numa terceira edição do "Circo ao Palco". E nas que se lhe seguirem, esperando que perdurem por muito tempo!

[Foto: oliveira-bachtler.com]

terça-feira, 2 de abril de 2019

CIRCO CONTEMPORÂNEO: "Lähtö"



CIRCO CONTEMPORÂNEO: “Lähtö”
Direcção | Kalle Nio
Coreografia | Vera Selene Tegelman, Kalle Nio
Interpretação | Kalle Nio, Vera Selene Tegelman
Guarda-Roupa | Mila Moisio, Kaisa Rissanen
Música e Desenho de Som | Samuli Kosminen
Desenho de Luz | Jere Mönkkönen
Video | Matias Boettge, Kalle Nio
Produção | WHS
Centro de Artes de Ovar
29 Mar 2019 | sex | 22:00


Pelo segundo ano consecutivo, o circo contemporâneo sobe ao palco do Centro de Artes de Ovar para três sessões onde expressão corporal e ambientes mágicos se combinam com ilusão e divertimento. A estreia deste novo ciclo teve lugar na passada sexta feira com o espectáculo “Lähtö”, protagonizado pela companhia finlandesa WHS. Estreada na primavera de 2013 e alvo da aclamação generalizada da crítica, tanto no seu país como além-fronteiras, a peça inspira-se no trabalho das ilusões de palco dos mágicos do século XIX e decorre numa atmosfera misteriosa, feita de sons ribombantes e de projecções oníricas, onde o real e o aparente se misturam e confundem.

Um homem e uma mulher sentam-se frente-a-frente a uma mesa. Comem com o olhar em baixo, o homem percutindo o prato com o garfo, a mulher servindo-se de vinho e erguendo o copo num brinde. Sem que nada o faça prever, o homem arremessa um molho de chaves para cima da mesa, provocando a fúria da mulher que se levanta e se acerca de uma janela de onde se avista o mar. O homem pega numa gabardina e faz menção de sair, mas acaba por voltar à mesa, tal como a mulher. A sequência repete-se três vezes, por três vezes os mesmos gestos, os mesmos sons, num exercício perfeito de sincronia. Até que os gestos deixam de acompanhar os sons, homem e mulher libertos da rotina das suas vidas, que não dos seus sentimentos interiores, dos laços por romper numa relação complexa.

Sem acrobacias nem malabarismos, mas com toda a magia do circo, “Lähtö” oferece-nos um olhar insólito sobre um quotidiano conturbado, a história desta relação contada em fragmentos dispersos nas ondas dum mar revolto. Fazendo do movimento a expressão narrativa da peça, Kalle Nio e Vera Selene Tegelman têm desempenhos notáveis na apresentação dos distintos estados emocionais da sua tormentosa relação. O resto é pura magia, as roupas que adquirem vida própria, os corpos em equilíbrio sobre uma jangada por detrás duma cortina de chuva intensa, um cubo onde o par se vê reflectido em múltiplas facetas ou as cortinas a derreter e o cenário a desfazer-se na derradeira cena. Realidade ou miragem, pouco importa. O resultado, esse, é genial!

[Foto: facebook.com/ovarcultura/]

sábado, 16 de junho de 2018

CIRCO CONTEMPORÂNEO: "La Cosa"



CIRCO CONTEMPORÂNEO: “La Cosa”
Direcção e Coreografia | Claudio Stellato
Interpretação | Claudio Stellato, Valentin Pythoud, Mathieu Delangle e Julian Blighy
Cenografia | Nathalie Mautroy
Produção | Nathalie De Backer
Centro de Arte de Ovar
15 Jun 2018 | sex | 22:00


Regressado ao Centro de Arte de Ovar para a sua quarta e última sessão, o “Circo ao Palco” trouxe-nos na noite de ontem Claudio Stellato e o espectáculo “La Cosa”, performance física e coreográfica que aborda a relação do homem com a matéria. Embora tenha nas artes plásticas o seu ponto de partida, “La Cosa” cedo se descarta deste vínculo para fazer do ensaio arquitectural um dos cernes da sua atenção. Ao mesmo tempo, mostra-nos como o manuseamento dos objectos redunda em puro malabarismo e revela-nos, nos movimentos a solo ou do conjunto, coreografias profundamente elaboradas. E apesar disso, “La Cosa” é um espectáculo totalmente inclassificável, que se funda no delicado equilíbrio entre Dança, Teatro e Circo e retira a sua força duma unicidade absoluta entre sujeitos e objectos.

A madeira é o suporte da proposta coreográfica, desempenhando um papel fundamental no desenrolar do espectáculo graças às suas características orgânicas, do odor que emana e perfuma o espaço à musicalidade dos pequenos troncos que se entrechocam ou ao pó que dela se desprende e que paira no ar ou se agarra aos fatos dos actores. Para além dos objectos e das distintas formas de os abordar, o equilibrio instável inerente aos blocos de madeira e a fragilidade das construções fazem com que uma permanente sensação de risco tome conta do espectáculo, mantendo o público em sobressalto constante. E depois há todo um trabalho de pesquisa por detrás de 
“La Cosa” que adequa os gestos do quotidiano ao ritmo e aos métodos da narrativa e que torna o espectáculo num objecto artístico fascinante.

Com uma carreira fortemente ligada às artes circenses, Claudio Stellato transporta para este espectáculo o gosto pelo perigo nessa tentativa de explorar os limites do corpo na sua relação com a matéria. Uma relação aqui profundamente caprichosa face à natureza dos próprios materiais donde resulta uma permanente reinvenção dos movimentos previamente desenhados, uma necessária reinterpretação coreográfica e um exercício de constante improviso. O resto ficará à imaginação do espectador, na certeza de que uns verão um telhado onde outros poderão ver a pilha de lenha pronta para receber os sentenciados da Santa Inquisição. Espectáculo surpreendente de quatro actores e da sua relação com duas toneladas de madeira - que se estenderá ao público no pós-espectáculo, dando um significado mais forte e vivo ao esforço colectivo -, “La Cosa” é um momento de palco absolutamente único, poderoso, emotivo, esteticamente surpreendente e duma exigência física brutal. Brilhante!

[Foto: © 2018 La Cosa / la-cosa.eu/fr/photos/]

segunda-feira, 4 de junho de 2018

CERTAME: Serralves em Festa 2018



CERTAME: Serralves em Festa 2018
Museu de Arte Contemporânea, Casa e Parque de Serralves
01 Jun > 03 Jun 2018


O Serralves em Festa regressou no passado fim de semana para celebrar 15 anos daquele que é hoje o maior evento da cultura contemporânea em Portugal e um dos maiores da Europa. Adoptando o tema “Transpor Fronteiras”, a edição deste ano voltou a oferecer 50 horas ininterruptas de festa, integrando propostas reveladoras da interacção entre as artes visuais e as artes performativas em áreas tão diversas como a Música, Dança, Performance, Circo Contemporâneo, Teatro, Cinema, Vídeo e Fotografia, entre outras. Visitas, exposições, inúmeros workshops, um mercado em Festa, uma feira da Festa, uma feira do livro e diversificados espaços de restauração, completaram a oferta dum fim-de-semana único no qual marcaram presença mais de 300.000 pessoas.

Ainda os ecos da primeira noite se faziam sentir e já os catalães da companhia La Industrial Teatrera representavam “De Paso”, ante um público maioritariamente infantil, oferecendo um divertido e poético ensaio, em forma de teatro e circo, sobre a circularidade da vida. O circo, na sua versão mais clownesca, voltaria a estar em evidência ainda antes do almoço com a peça “The Melting Pot Pourri”, levada ao palco pela companhia “Los Excentricos”. Nela, Marceline, Sylvestre e Zaza formam um trio de palhaços atípicos e particularmente divertidos que, ora encarnam uma diva desafinada ou um homem de três pernas, ora se debatem com um aspirador de pó endoidecido ou transformam uma serra, uma vassoura ou uma luva em instrumentos musicais. Pelo meio, tempo para apreciar a Orquestra de Jazz de Espinho que, com o solista João Moreira, ofereceu “Horns Ahead” ao público presente na quadra de ténis, um excelente concerto de Jazz em torno desse instrumento maior que é o Trompete e sobre o qual falarei em detalhe noutro espaço deste Blogue.

Mais três concertos no período da tarde, o primeiro dos quais de Ballaké Sissoko, um virtuoso da kora, instrumento musical composto por 21 cordas e do qual se desprendem sonoridades suaves e envolventes. Em Serralves, o mestre apresentou-se em palco rodeado por cinco dos seus discípulos no naipe instrumental, acompanhados de quatro vozes, oferecendo ao público momentos que atestaram o seu talento de melodista e improvisador, bem como a riqueza e beleza da música do Mali. João Barradas, acordeonista e um nome de créditos firmados na cena jazzística nacional, trouxe-nos o projecto “Home”, um sexteto cuja música se desdobra entre o livre improviso e o rock e que se traduz por uma enorme força em palco. O grande momento desta jornada pessoal de 10 horas non-stop acabaria por surgir já no cair do pano, com o etíope Hailu Mergia a celebrar o jazz de raiz etíope com a apresentação de “Lala Belu”, o seu mais recente trabalho. Mas sobre isto falarei igualmente em detalhe noutro espaço do “Erros meus…”.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

CIRCO CONTEMPORÂNEO: "inTarsi"



CIRCO CONTEMPORÂNEO: “inTarsi”
Direcção | Compañia de Circo “eia” e Jordi Aspa
Interpretação | Armando Rabanera Muro, Fabio Nicolini, Fabrizio Giannini, Manel Rosés Moretó
Direcção Musical | Cristiano Della Monica
Coreografia | Michelle Man
Cenografia | Compañia de Circo “eia” e El Taller del Lagarto
Produção | Compañia de Circo “eia” e La Destil-leria
Centro de Arte de Ovar
18 Mai 2018 | sex | 22:00


Num estrado circular – palco em cima do palco (!) - o actor #1 (chamemos-lhe assim) exercita-se, pondo uma pose de superioridade como que a dizer que é ele o dono e senhor do singular reduto. Um pouco abaixo, junto ao público, o actor #2 sobrepõe cuidadosamente estreitos prismas, três a três, até formar uma construção em forma de torre. Mas quando o actor #2 vai mostrar a sua construção ao actor #1, este, com um pontapé certeiro, deita por terra todo o seu trabalho. Surgem então o actor #3 e o actor #4 que, juntando-se ao actor #2, irão desapossar o actor #1 do seu palco. Agora em pé de igualdade, os quatro actores irão aprender a viver uns com os outros, a partilhar alegrias e tristezas, a ultrapassar as dificuldades e, finalmente, no mais elevado dos palcos, a serem um só, unos e indivisíveis, torre sólida e indestrutível.

No palco da vida, trazendo consigo uma mensagem de grande actualidade e alcance, “inTarsi” é um espectáculo que se vê com entusiasmo do princípio ao fim. Vivendo muito da mobilidade e plasticidade dos objectos em palco – um estrado circular que se desdobra em plintos e trampolins, escadas e armários, rampas e passereles –, o espectáculo conta, sobretudo, com um desempenho notável dos quatro actores, exímios em aliar às capacidades técnicas e físicas uma mímica extraordinária e um sentido de humor requintado. A forma como actores e objectos se articulam entre si propicia a criação de situações díspares, ora fazendo apelo às emoções mais primárias, o “frisson” num equilibrio instável ou no risco duma acrobacia, ora convocando gargalhadas e aplausos nos momentos de maior tensão ou nos mais hilariantes.

Depois de “Mundo Interior”, da Companhia de João Garcia Miguel e de “Smashed”, dos britânicos Gandini Juggling, foi agora a vez da Compañia de Circo “eia” visitar o Centro de Arte de Ovar na terceira das quatro sessões do “Circo ao Palco”. Galardoada com o Premio MAX das Artes Cénicas 2017 na categoria de “Melhor Espetáculo Revelação” e também nomeado para o mesmo prémio em duas outras categorias, o espectáculo “inTarsi” arrecadou ainda o Premio Especial do Júri nos Prémios Zirkolika da Catalunha em 2016. Na noite da passada sexta feira os catalães provaram a sua enorme qualidade, oferecendo um momento performativo completo que combinou as artes circenses, o teatro e a dança e proporcionou ao pouco público presente uma noite deveras especial.