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domingo, 12 de maio de 2019

TEATRO: "OTUS"



TEATRO: “OTUS”
Concepção, direcção e interpretação | Hugo Oliveira, Sage Bachtler Cushman
Dramaturgia | Hugo Oliveira, Sage Bachtler Cushman, Luciano Amarelo
Suporte artístico e movimento | Luciano Amarelo, Wendy Houstoun
Cenografia | Hugo Oliveira, Sage Bachtler Cushman, Bruno Capucho
Figurinos | Carolina Sousa, Thomas Benjamin
Produção | Carole Blade, Rodrigo Matos
55 minutos | Maiores de 6
Circo ao Palco
Centro de Artes de Ovar
10 Mai 2019 | sex | 22:00


Um fluxo constante de serrim derrama-se do tecto sobre uma parte do palco onde um conjunto de blocos de madeira se encontra criteriosamente empilhado. Há mais pilhas destes blocos de madeira noutras partes do palco e, no centro, os blocos alinham-se em sequência, como peças dum gigantesco dominó em forma de laço. É sobre eles que uma mulher caminha muito lentamente, muito cautelosamente, avançando sempre. Numa mesa instavelmente equilibrada, a um dos cantos do palco, um homem parece incapaz de domar os seus conflitos interiores, a cadeira onde se senta como que uma extensão de si próprio. Há ainda uma corda fixa que pende do tecto e um trapézio que sobe e desce. É este o universo de “OTUS”, o trabalho dos artistas Hugo Oliveira e Sage Bachtler Cushman que encerrou a programação da segunda edição do “Circo ao Palco” e que foi possível ver, na noite da passada sexta-feira, no Centro de Artes de Ovar.

Misturando arte circense e dança contemporânea, “OTUS” pretende evidenciar a instabilidade de uma relação a dois, com os seus altos e baixos, a precariedade dum espaço comum a condicionar e a limitar comportamentos e atitudes. Se o homem parece mais cioso da sua privacidade – com frequência o vemos carregar a mulher até uma pilha de blocos de madeira, “pondo-a no seu lugar” -, manipulando os blocos de madeira numa busca constante de reconfiguração dum espaço que pretende seu, já a protagonista se mostra mais à vontade neste processo de adaptação, encontrando nas alturas o seu espaço de liberdade. Local de abstracção, o palco é a casa que ambos ocupam, a resistência inicial em romper com uma existência até então trilhada a solo a dar lugar, de forma paulatina, à aproximação e à colaboração entre ambos.

Com uma concepção plástica brilhante e um trabalho cenográfico de enorme impacto visual, “OTUS” retira do virtuosismo de Oliveira & Bachtler as suas mais valias. A expressão corporal de ambos e os movimentos coreográficos que reforçam a ideia de aproximação ou afastamento, são complementados por um domínio inexcedível de várias artes circenses, com destaque para o malabarismo, a acrobacia, o contorcionismo e a manipulação de objectos. Também a banda sonora que acompanha a acção se revela preciosa, “House of The Rising Sun”, na voz de Nina Simone, a marcar o momento pela sensualidade, os silêncios forçados a vincarem a tensão entre o casal. O quadro final, com a mulher a distanciar-se do palco e a dar-se conta do resultado duma relação conflituosa, tem tanto de significativo como de belo. Na linha dos anteriores espectáculos, este foi mais um fantástico momento de teatro (de circo?) que se espera ver repetido numa terceira edição do "Circo ao Palco". E nas que se lhe seguirem, esperando que perdurem por muito tempo!

[Foto: oliveira-bachtler.com]

terça-feira, 2 de abril de 2019

CIRCO CONTEMPORÂNEO: "Lähtö"



CIRCO CONTEMPORÂNEO: “Lähtö”
Direcção | Kalle Nio
Coreografia | Vera Selene Tegelman, Kalle Nio
Interpretação | Kalle Nio, Vera Selene Tegelman
Guarda-Roupa | Mila Moisio, Kaisa Rissanen
Música e Desenho de Som | Samuli Kosminen
Desenho de Luz | Jere Mönkkönen
Video | Matias Boettge, Kalle Nio
Produção | WHS
Centro de Artes de Ovar
29 Mar 2019 | sex | 22:00


Pelo segundo ano consecutivo, o circo contemporâneo sobe ao palco do Centro de Artes de Ovar para três sessões onde expressão corporal e ambientes mágicos se combinam com ilusão e divertimento. A estreia deste novo ciclo teve lugar na passada sexta feira com o espectáculo “Lähtö”, protagonizado pela companhia finlandesa WHS. Estreada na primavera de 2013 e alvo da aclamação generalizada da crítica, tanto no seu país como além-fronteiras, a peça inspira-se no trabalho das ilusões de palco dos mágicos do século XIX e decorre numa atmosfera misteriosa, feita de sons ribombantes e de projecções oníricas, onde o real e o aparente se misturam e confundem.

Um homem e uma mulher sentam-se frente-a-frente a uma mesa. Comem com o olhar em baixo, o homem percutindo o prato com o garfo, a mulher servindo-se de vinho e erguendo o copo num brinde. Sem que nada o faça prever, o homem arremessa um molho de chaves para cima da mesa, provocando a fúria da mulher que se levanta e se acerca de uma janela de onde se avista o mar. O homem pega numa gabardina e faz menção de sair, mas acaba por voltar à mesa, tal como a mulher. A sequência repete-se três vezes, por três vezes os mesmos gestos, os mesmos sons, num exercício perfeito de sincronia. Até que os gestos deixam de acompanhar os sons, homem e mulher libertos da rotina das suas vidas, que não dos seus sentimentos interiores, dos laços por romper numa relação complexa.

Sem acrobacias nem malabarismos, mas com toda a magia do circo, “Lähtö” oferece-nos um olhar insólito sobre um quotidiano conturbado, a história desta relação contada em fragmentos dispersos nas ondas dum mar revolto. Fazendo do movimento a expressão narrativa da peça, Kalle Nio e Vera Selene Tegelman têm desempenhos notáveis na apresentação dos distintos estados emocionais da sua tormentosa relação. O resto é pura magia, as roupas que adquirem vida própria, os corpos em equilíbrio sobre uma jangada por detrás duma cortina de chuva intensa, um cubo onde o par se vê reflectido em múltiplas facetas ou as cortinas a derreter e o cenário a desfazer-se na derradeira cena. Realidade ou miragem, pouco importa. O resultado, esse, é genial!

[Foto: facebook.com/ovarcultura/]

sábado, 16 de junho de 2018

CIRCO CONTEMPORÂNEO: "La Cosa"



CIRCO CONTEMPORÂNEO: “La Cosa”
Direcção e Coreografia | Claudio Stellato
Interpretação | Claudio Stellato, Valentin Pythoud, Mathieu Delangle e Julian Blighy
Cenografia | Nathalie Mautroy
Produção | Nathalie De Backer
Centro de Arte de Ovar
15 Jun 2018 | sex | 22:00


Regressado ao Centro de Arte de Ovar para a sua quarta e última sessão, o “Circo ao Palco” trouxe-nos na noite de ontem Claudio Stellato e o espectáculo “La Cosa”, performance física e coreográfica que aborda a relação do homem com a matéria. Embora tenha nas artes plásticas o seu ponto de partida, “La Cosa” cedo se descarta deste vínculo para fazer do ensaio arquitectural um dos cernes da sua atenção. Ao mesmo tempo, mostra-nos como o manuseamento dos objectos redunda em puro malabarismo e revela-nos, nos movimentos a solo ou do conjunto, coreografias profundamente elaboradas. E apesar disso, “La Cosa” é um espectáculo totalmente inclassificável, que se funda no delicado equilíbrio entre Dança, Teatro e Circo e retira a sua força duma unicidade absoluta entre sujeitos e objectos.

A madeira é o suporte da proposta coreográfica, desempenhando um papel fundamental no desenrolar do espectáculo graças às suas características orgânicas, do odor que emana e perfuma o espaço à musicalidade dos pequenos troncos que se entrechocam ou ao pó que dela se desprende e que paira no ar ou se agarra aos fatos dos actores. Para além dos objectos e das distintas formas de os abordar, o equilibrio instável inerente aos blocos de madeira e a fragilidade das construções fazem com que uma permanente sensação de risco tome conta do espectáculo, mantendo o público em sobressalto constante. E depois há todo um trabalho de pesquisa por detrás de 
“La Cosa” que adequa os gestos do quotidiano ao ritmo e aos métodos da narrativa e que torna o espectáculo num objecto artístico fascinante.

Com uma carreira fortemente ligada às artes circenses, Claudio Stellato transporta para este espectáculo o gosto pelo perigo nessa tentativa de explorar os limites do corpo na sua relação com a matéria. Uma relação aqui profundamente caprichosa face à natureza dos próprios materiais donde resulta uma permanente reinvenção dos movimentos previamente desenhados, uma necessária reinterpretação coreográfica e um exercício de constante improviso. O resto ficará à imaginação do espectador, na certeza de que uns verão um telhado onde outros poderão ver a pilha de lenha pronta para receber os sentenciados da Santa Inquisição. Espectáculo surpreendente de quatro actores e da sua relação com duas toneladas de madeira - que se estenderá ao público no pós-espectáculo, dando um significado mais forte e vivo ao esforço colectivo -, “La Cosa” é um momento de palco absolutamente único, poderoso, emotivo, esteticamente surpreendente e duma exigência física brutal. Brilhante!

[Foto: © 2018 La Cosa / la-cosa.eu/fr/photos/]