Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta J. Rentes de Carvalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta J. Rentes de Carvalho. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 10 de outubro de 2023

LIVRO: "Trás-os-Montes, o Nordeste"



LIVRO: “Trás-os-Montes, o Nordeste”,
de J. Rentes de Carvalho
Ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, Maio de 2017

“A sujidade era medieval. De Setembro à Primavera mantinha-se nas aldeias o hábito secular que durou até ao fim dos anos 50, de cobrir as ruas com palha, que depois, molhada da chuva e das penicadas de mijo e bosta que se atiravam das janelas - esgotos só no séc. XXI - calcada pelos passantes e os animais, fumegava e fermentava até que, podre bastante, fosse recolhida para ser levada para as hortas, os amendoais e olivais, seu único e muito biológico adubo.”

Regresso a Rentes de Carvalho e à sua magnífica prosa, de novo à boleia dos “retratos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos. “Trás-os-Montes, o Nordeste” fala, em oito capítulos e um epílogo, do viver e sentir transmontano, do modo de vida das suas gentes, dos seus usos e costumes, tradições, gastronomia. Das majestosas paisagens, do bucolismo dos lugares, do carinho das gentes. Das amêndoas de Moncorvo e das laranjas do Mazouco, dos pastéis de Chaves e das alheiras de Mirandela. De “boa gente, estranha gente, vivendo presa aos anseios de um tempo que passou”. Também da difícil e dolorosa existência no Nordeste Transmontano, “uma das mais atrasadas regiões da União Europeia, que em abandono e vergonhoso desleixo do governo central, talvez só se compare ao Nordeste da Roménia e à região de Severozapaden na Bulgária.”

Com epicentro em Estevais de Mogadouro, os apontamentos de J. Rentes de Carvalho têm contornos geográficos bem definidos, uma espécie de enclave que o autor designa por “seu” Nordeste Transmontano, limitado aos concelhos de Mogadouro, Moncorvo, Freixo-de-Espada-à-Cinta e Alfândega da Fé (ele explica, e bem, porque deixou de fora todos os outros). As ricas terras da Vilariça, a margem direita do Douro, o castelo de Algoso e a Estação do Pocinho, “essa espécie de farol mítico”, são baluartes fronteiriços de um reduto onde se conjuga a crítica com os elogios, as ternas memórias com a mais dura das realidades. É ao correr duma escrita fina, assente num olhar agudo e perspicaz, que percebemos a realidade nua e crua “de uma região que, por continuar pobre e atrasada, facilmente se torna presa de interesses particulares, de um caciquismo e clientelismo cuja única vantagem será a de poderem originar interessantes romances de costumes.”

Deixando de lado as habituais birras e excessos de certos pontos de vista do autor - olhar de esguelha a febre das viagens de lazer, o calar perante a “vergonha” da homossexualidade -, “Trás-os-Montes, o Nordeste” não desmerece no seio desta colecção de “Retratos da Fundação”. À escrita dinâmica e ao interesse dos assuntos abordados, junta-se o humor de alguns apontamentos e a qualidade de quem sabe, realmente, contar uma história. Percebe-se, sobretudo, o cuidado que J. Rentes de Carvalho coloca na forma como aborda os temas mais delicados ou controversos, conseguindo um distanciamento suficientemente equilibrado para que razão e emoção surjam vertidas em partes iguais. Para nosso encanto, o autor faz sair da gaveta quatro textos maravilhosos de uma conterrânea sua que nunca arriscou o passo de publicar aquilo que escreve. Chama-se ela Maria da Piedade Barroso Martins e vale, por si só, a leitura deste livro.

domingo, 9 de janeiro de 2022

LIVRO: "La Coca"



LIVRO: “La Coca”,
de J. Rentes de Carvalho
Ed. Quetzal Editores, Março de 2011; reimpresso em Novembro de 2013


“ - É. Falta a pesca porque faltam os homens, e os que vão pescar… - com uma expressão preocupada detém-se a meio da frase: - Não é da Polícia, pois não? A gente fala sem tomar tento, mas quando o Verão acaba por aqui só aparecem os da Judiciária e a malta que se mete no café.”

Quando, há pouco menos de três anos, com ele me cruzei pela primeira vez, J. Rentes de Carvalho constituiu uma extraordinária descoberta. “Montedor”, “O Meças” ou “Ernestina” deram-me a ver uma escrita cuidada, marcadamente autobiográfica, muito generosa do ponto de vista cénico, a vida olhada sob o filtro da memória e transformada em paisagens romanceadas de uma enorme consistência e verdade. Vieram depois “Com os Holandeses”, “Mazagram” e, muito recentemente, “No Pais do Solidó”, e fui sendo tomado pela desilusão. Destas leituras sobraram ideias repisadas sobre o inevitável embate entre portugueses e holandeses, deixando a descoberto a visão de um homem aparentemente mal-humorado, desagradável, agastado com ninharias, pouco à vontade com a realidade do presente, conservador, retrógrado. “La Coca”, porém, veio reconciliar-me com o autor.

Percorrendo os meandros do contrabando que, ainda hoje, unem o Minho e a Galiza, o livro remete para uma investigação jornalística levada a cabo pelo próprio autor. Narrado na primeira pessoa, “La Coca” vem mostrar-nos como se passou do tabaco e do whisky para o narcotráfico, a ganância a determinar esse desvio. Sem rodeios, aproximamo-nos de nomes como o Feio, o Tito Cadafé, Sito Miñanco, Oubiña, Galeano, o Zézé Cadaval, o Pepe Mustafá, o Laurestim, os Viriatos, os Charlines, todos iguais, todos parentes de sangue, tendo na vida apenas um fito, a riqueza, reconhecendo uma única lei, a sua própria. Viajando entre os dois lados da fronteira, o autor mostra-nos as casas luxuosas de quem, ainda ontem, esmolava pelas ruas, leva-nos a uma sala de audiências onde decorre o julgamento de um suspeito de narcotráfico, faz-nos perceber de que forma os traficantes exploram as falhas na lei, apresenta-nos as “voadoras”, os locais de embarque e desembarque da droga, os pontos de encontro dos indivíduos ligados ao tráfico, as artimanhas para ludibriar a vigilância da polícia.

Esta vertente de investigação na qual o livro assenta, bem como as revelações que encerra, não são, porém, os grandes trunfos de “La Coca”. Visitando os “locais do crime”, o autor reencontra-se com o seu próprio passado, a aventurosa adolescência entre Lanhelas e Gondarém, o Minho espraiado aos seus pés, os relâmpagos de memória “tão vivos como se os factos acabassem de acontecer”. Nessa viagem no tempo encontra o leitor o melhor de J. Rentes de Carvalho, as versões do passado agora “meigas como ternura de amante, embelecendo a lembrança, colorindo e tornando duradouro o que foi cinzento, o que foi fugaz”. Habilmente construído, “La Coca” vive de constantes saltos no tempo, confrontando versões antigas e modernas da mesma história, o passado desfilando em cenas que não são de vida vivida, antes painéis desbotados num panorama de artifício. O lado jornalístico deste livro dificilmente resistirá ao passar do tempo. Mas a ficção, tornada real à força de sonhada, essa subsistirá, trazendo-nos um sorriso ao rosto de cada vez que pronunciemos “La Coca”.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

LIVRO: "Mazagran - Recordações & Outras Fantasias"



LIVRO: “Mazagran – Recordações & Outras Fantasias”,
de J. Rentes de Carvalho
Ed. Quetzal Editores, Outubro de 2012


“Se a Holanda me transformou? Pouca coisa. Na medida em que posso dizer que me conheço, as virtudes e defeitos maiores que carrego hoje são os que já tinha na infância. Mas para nela poder guardar um relativo equilíbrio psíquico e social, a minha pátria adoptiva como que me obrigou a criar um segundo eu. O que, com o correr do tempo, mostrou ser tanto calamidade como benesse, pois só raras vezes o português inato e o holandês assumido coexistem pacificamente em mim. E se é facto que o estado corrente de ambos nem todos os dias é de guerra, as oposições entre eles são bem mais frequentes que as harmonias.”

Em 1972, Rentes de Carvalho publicou “Com os Holandeses”. Para além da evidência autobiográfica da sua prosa, nele o autor abordava temas tão distintos como a organização do trabalho, as relações familiares, as peculiaridades culinárias, a tecnologia de ponta ou a revolução sexual, realçando o quanto a religião, a política e o dinheiro são a trindade das paixões dos holandeses. Quarenta anos depois, voltou a pegar nestes assuntos, daí resultando “Mazagran – Recordações & Outras Fantasias”, visão revista e actiualizada da Holanda e dos holandeses numa altura em que, aos 82 anos, começou a ponderar muito seriamente o regresso definitivo à terra que o viu nascer, Estevais, no concelho de Mogadouro.

Ao longo de mais de uma centena de crónicas, muitas delas “disfarçadas” de cartas enviadas a amigos e conhecidos, J. Rentes de Carvalho dá mostras de um olhar sempre arguto e de um enorme espírito combativo quando de “desancar o quotidiano” se trata. Leia-se o último parágrafo do livro e logo se perceberá que Deus tomou em boa conta as preces do autor, dando-lhe “raivas” em doses generosas e mantendo nele viva a capacidade de se enfurecer, de continuar a chamar “os bois pelos nomes”, a criticar sem medo, a rir de si próprio. Sobretudo, a livrá-lo das aceitações que crescem com a idade. O escritor não se fez rogado e tomou o dom à letra, alinhavando um conjunto de ideias que, se por um lado elucidam e confortam, por outro entristecem e irritam, “contaminadas” por um espírito sagaz mas resistente à mudança e assumidamente casmurro.

As grandes coisas holandesas – do esplendido queijo ao génio de Van Gogh, da luta contra o mar à segurança dos seus bancos e à variedade das suas flores – são aqui “pesadas” com a moda do golfe, a simpatia pelos Sandinistas, as romarias a Praga, os desportos de Inverno ou esse estranho hábito de “beber vinho depois de, com café e conhaque, dar por concluído o jantar”. Saltitando entre aquilo que o atrai e as suas maiores aversões, Rentes de Carvalho tropeça com frequência nos seus ódios de estimação, reafirmando ideias feitas e pouco contribuindo para desmistificar a ideia do holandês “taciturno e falso, calçado de tamancos e reforçando com paciência os seus diques”. As crónicas mais interessantes acabam por ser aquelas onde se evocam Portugal e os portugueses, mas isto sou eu a dizê-lo. O mais do resto é, socorrendo-me do título de uma das suas crónicas, “conversa de chacha”.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

LIVRO: "Com os Holandeses"



LIVRO: “Com os Holandeses”,
de J. Rentes de Carvalho
Ed. Quetzal Editores, Janeiro de 2009 (1ª edição)


“ – Então não és judeu, mas és português! – a informar que aos seus olhos era a mesma coisa. E logo a seguir explicou-me que era democrata a cem por cento, profundamente democrata, contra as ditaduras, contra as opressões. Mas nós latinos, curiosa opinião tantas vezes ouvida, preguiçosos e incapazes como somos, atrasados como andamos, desorganizados por natureza, tendendo só para as ocupações baixas do comer e do fornicar, a nossa salvação só podia vir dos governos fortes.”

Quando, num sábado de Março de 1956, chegou a Amsterdão, J. Rentes de Carvalho estaria longe de imaginar que as voltas da vida o levariam a fixar-se tão solidamente no país das tulipas. Os porquês ficam levemente explanados neste livro. Já a Holanda e os holandeses são aqui alvo de uma profunda reflexão, fruto dos vários e violentos choques de mais de meio século de permanência. Antes de acalmar, aprender e compreender, foram longos os anos em que o autor permaneceu em pé de guerra, não resistindo aos desabafos. Não proferiu insultos, não feriu quem o acolheu com setas envenenadas, mas à sinceridade da crítica só pôs os travões da decência. Com isto aprendeu uma lição: “Em vez das pauladas que esperava, que talvez merecesse, os holandeses mostraram que me tinham em apreço, agradecendo a franqueza.”

Terceira obra de José Rentes de Carvalho, “Com os Holandeses” evidencia o cariz autobiográfico da sua prosa, particularmente significativo em obras posteriores, como “Ernestina” ou “La Coca”, mas que se insinuava já no seu romance de estreia, o belíssimo “Montedor” (1968). É um livro que, remetendo para factos e números de há meio século atrás, deveria exigir do leitor disponibilidade e algum esforço para se enquadrar política e socialmente com a realidade vigente. A verdade, porém, é que ao ouvirmos hoje as bojardas de senhores como Dijsselbloem ou Rutte, percebemos que a Holanda e os holandeses pouco ou nada mudaram. E assim continuam a enriquecer e a entesourar à custa do parasitismo fiscal sobre os outros países da União Europeia, nomeadamente os países do Sul que pretendem domar.

Do trabalho às famílias, da imprensa à culinária, da tecnologia à revolução sexual, de tudo isto e muito mais nos fala J. Rentes de Carvalho neste seu livro, dando a ver o quanto a religião, a política e o dinheiro são a trindade das paixões dos holandeses. Fá-lo no seu jeito muito próprio, sem rodeios, o tom sarcástico a pontuar muitas das suas observações, uma pitada de humor a temperar o discurso, provando o quão enraizada se mantém a sua oposição a uma certa maneira holandesa de ser até aos dias de hoje. Desconcertado com algumas bizarrias, divertido com os hábitos de um quotidiano em constante contradição e espantado com certos números – desconhecia por completo que, em volume e valor, o café é o segundo produto do comércio mundial, logo a seguir ao petróleo, e que em ambos dispõem os holandeses uma posição extraordinariamente relevante -, o leitor só pode sair deste “Com os Holandeses” mais enriquecido. E de pé ainda mais atrás!

domingo, 10 de fevereiro de 2019

LIVRO: "A Amante Holandesa"



A Amante Holandesa”,
de J. Rentes de Carvalho
Ed. Quetzal Editores, 1ª edição Julho de 2010 (reimpresso em Fevereiro de 2016)


“A Amante Holandesa” marca, em termos pessoais, o reencontro com a prosa de José Rentes de Carvalho naquilo que nela há de mais duro e cru. É um livro que nos fala de uma amizade baseada nas recordações de uma vida, nos laços que se criam e que permitem abrir ao outro aquilo que de mais importante se guarda, mas onde se percebe também que uma relação bem assente pode não passar, afinal, de uma ilusão, um fortuito raio de luz a revelar de súbito aquilo que permanecia na sombra, daí sobrevindo o desencanto, o desapontamento, o fim.

O livro fala-nos de Amadeu, o Gato, pastor em Trás-os-Montes depois duma vida de trabalho como estivador no porto de Amsterdão e das conversas que vai mantendo com um amigo de infância, professor em Bragança em final de carreira. As memórias da aventura fugaz e fatal com uma bela mulher estrangeira e rica são o assunto mais frequentemente aflorado, causando uma viva impressão no professor, cuja existência se resume a um casamento gasto e uma história de vida com contornos obscuros e que o mantêm nas bocas do mundo. Entre o real e o fantasioso, os relatos do Gato farão vir ao de cima o que de pior existe em cada um dos amigos, emergindo em ambos o sentimento de que tudo falhou na sua vida.

Na linha de “O Meças” ou “Montedor”, este é um livro que revela como o ser humano, na sua aparente simplicidade e bonomia, pode ser tão imprevisível, capaz de, sem razão que se adivinhe, passar do bom modo à bruteza, da mansidão à selvajaria. É um livro que nos pega pela mão e nos convida a passear pelas serranias transmontanas, a sorver a serenidade e o bucolismo da paisagem, para logo nos pôr em sobressalto com emoções tão rudemente contratantes com toda aquela calma aparente. Incómodo, ácido, agreste, “A Amante Holandesa” é uma viagem a esse interior pequenino e mesquinho, onde se mata por uns metros quadrados de terra ou por um rego de água, onde não há lugar para ser ou pensar diferente. Com o despudor que o caracteriza, José Rentes de Carvalho volta a mostrar-se avesso a finais felizes, lembrando-nos que, afinal, debaixo da pele dum país para turista ver, continuamos a ser um país de gente retrógrada, preconceituosa e profundamente atrasada.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

LIVRO: "Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia"



LIVRO: “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”,
de José Rentes de Carvalho
Quetzal Editores, Agosto de 2011 


Haverá, numa boa franja do mundo académico, a concepção de que o conto é um género menor da literatura, “uma espécie de apêndice do romance”, como sugeriu Juan José Millás. Pensar assim será, porventura, menosprezar Jorge Luís Borges ou Julio Cortazár, autores cuja obra maior se baseia nos contos, precisamente. Ou passar ao lado de “O Afogado mais Bonito do Mundo”, de Gabriel García Márquez, que pode ser lido em “A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e da Sua Avó Desalmada” e que é, tão somente, a jóia mais rara de tudo quanto li até hoje. Ou, ainda, dar-se ao luxo de recusar o prazer de “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, de José Rentes de Carvalho, todo ele uma preciosidade.

Percebe-se neste livro o recuperar de escritos avulsos cerzidos nas entretelas do tempo, delicadamente reunidos, corpo e alma ao voltar de cada página. São oito décadas duma vida repleta de peripécias, pontuada por inúmeros acidentes de percurso, volta e meia no fio da navalha, umas vezes voluntariamente, outras de forma absolutamente casual. Cronologicamente desordenados, os trinta contos ora nos falam da infância do escritor - o fascínio duma história escutada no barbeiro a dar lugar ao quebrar dos sentidos -, ora partilham a dolorosa experiência do enterro do pai, o assumir a posição do chefe de família, “aquele que dá conselho e de quem se esperam decisões acertadas”. Mas também da ida à inspecção, com a hilariante descrição duma semana passada no Hospital Militar do Porto, dos tempos da mocidade em Cerveira e das histórias de contrabando, dos bordéis de Lisboa e do ambiente e decoro da Madame Blanche, ou da vida vivida entre Paris, o Rio de Janeiro e Amsterdão por este homem que nasceu rebelde e nunca deixou de o ser.

Para além da qualidade da escrita, aquilo que mais sobressai em “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” (título de um dos contos, curiosamente o mais pequeno, também o mais subtil e enigmático) é a sensibilidade e atenção que o escritor dedica àquilo que o rodeia. É assim que, no traço das memórias de José Rentes de Carvalho, encontramos cheiros e ruídos, cidades em movimento, os sinos das igrejas, as cornetas dos quartéis, as sirenes dos navios. Também as personagens mais díspares com quem conviveu, pessoas de extremos - na maneira de viver, na maneira de pensar, ou de correr riscos -, dos muito pobres aos extremamente ricos. Ainda um Portugal esquecido no tempo, retrógrado, reaccionário, de gente a viver na fronteira da humanidade com a animalidade, a autoridade absurda de quem é autoritário porque sim. Finalmente, ele próprio, um homem que, atravessando vários tempos, ousou dar-se a conhecer no seu mais íntimo, íntegro, sem máscaras.

domingo, 15 de abril de 2018

TERTÚLIA: "Porto de Encontro", com José Rentes de Carvalho



TERTÚLIA: “Porto de Encontro”,
com José Rentes de Carvalho
Auditório da Biblioteca Almeida Garret, Porto
14 abr | sab | 17:00


José Rentes de Carvalho foi o convidado de honra da segunda sessão do “Porto de Encontro”, em Dezembro de 2011. Regressou agora, mais de seis anos depois, com a mesma vitalidade, a mesma sageza, com mais sentido de humor, até, para uma tertúlia que pretendeu comemorar o 50º aniversário da sua carreira literária. Uma carreira da qual fazem parte mais de 30 títulos onde cabem os soberbos “Com os Holandeses”, “Portugal, a Flor e a Foice”, “A Sétima Onda”, “La Coca”, “Ernestina”, “A Amante Holandesa”, “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, “Mazagran”, “A Ira de Deus sobre a Europa”, “Montedor” ou “O Meças” - estes dois últimos já lidos e comentados aqui no Blogue. Uma carreira escalpelizada ao pormenor numa conversa extraordinariamente conduzida por Sérgio Almeida e que contou ainda com a participação do escritor e editor Francisco José Viegas, do actor António Durães e do público, que esgotou completamente o Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett e que não deixou de colocar algumas questões ao escritor.

“Porque é que nasci aqui?” Foi com esta questão - que José Rentes de Carvalho colocou a si próprio - que tudo começou. Natural de Vila Nova de Gaia mas a viver na Holanda há 62 anos, o escritor sente-se “extremamente português”, mas admite que há como que uma dicotomia: “Aquilo que em mim é holandês está muito separado daquilo que em mim é português”. Fala em holandês, pensa em holandês, mas sonha em português e confessa ter medo de que esta crescente influência do holandês venha a dominá-lo por completo: “Não tenho medo de ficar doente mas tenho medo de perder a minha língua”, remata.

“A boa disposição é talvez melhor do que a saúde”, são palavras de Rentes de Carvalho. E foi sob o signo da boa disposição que a conversa prosseguiu, com algumas pérolas a surgirem em resposta às questões do moderador: “A maldade tem muito interesse”, “criar uma personagem dura é descartar um pouco do veneno que há em mim”, “nasci contra e sou contra seja o que for”, “quando as coisas estão a ficar muito bonitinhas, dou-lhes uma torcidela” ou “tenho uma grande capacidade de mentir; minto a mim próprio” são exemplos que justificam a sua escrita e os temas que lhe estão subjacentes. Uma escrita na qual “a inspiração está ausente”, diz, e que é fruto de “muito trabalhinho e de uma boa dose de acaso”. “O Meças”, uma das suas obras mais recentes, parece ser um bom exemplo disso mesmo: “O livro começou na minha cabeça com a imagem dum homem sentado num muro à espera dum autocarro. Não sei como nem de onde surgiu essa imagem, tão pouco sei quem era aquele homem. Comecei a escrever sem qualquer intenção de que essa seria uma personagem maligna ou cruel. Mas à medida que o livro foi crescendo, foi caminhando num certo sentido. Não sei como. Conheço os ambientes mas não aquelas pessoas. É talvez este o mistério da criação literária. Não faço ideia!...

Falar da Holanda e falar de Portugal, fazer o contraponto entre os dois países, parece ser algo que, embora dividindo sentimentalmente o escritor, surge perfeitamente estruturado na sua mente. “Eu não saí de Portugal, eu fugi de Portugal”, diz, acentuando essa ideia de fuga e acrescentando que foi dum país, duma sociedade e das pessoas que o asfixiavam que fugiu. Ainda o dedo acusador: “Nunca compreendi como é que o meu país não quis saber de mim ou se esqueceu de mim”, refere a propósito da sua carreira literária, só agora a começar a ser conhecida e devidamente valorizada nonosso país. Mas diz não querer mal às pessoas - “é a vida como ela é...”, citando Nélson Rodrigues - e  promete continuar a escrever, um processo que se mostra pouco produtivo quando está em Portugal: “Aqui, levanto-me às 6, escrevo das 7 às 10, depois começo a preparar-me para ir ao Restaurante, como aquele Bacalhau à Narcisa, bebo um copo de vinho, sobremesa, chego a casa às 2 e meia e depois o que faço? Vou para a cama!” Esta confissão, como muitas outras, arrancou saborosas gargalhadas na plateia e confirmou um homem no vigor dos seus 88 anos, a prova provada da certeza das suas palavras: “As vicissitudes da vida ajudam a manter a jovialidade e a saúde”.

sábado, 7 de abril de 2018

LIVRO: "O Meças"



LIVRO: “O Meças”,
de J. Rentes de Carvalho
Ed. Quetzal Editores, Maio de 2016


Após uma primeira incursão no universo literário de José Rentes de Carvalho – com “Montedor”, o seu romance de estreia (1968) -, de novo essa sensação de mal estar, quase repugnância, perante a figura central dum livro seu, desta vez António Roque, o “Meças” do título. Com o Freitas, de “Montedor”, partilha esta personagem doentia os mesmos referentes geográficos e sociais. Num caso, como no outro, estamos perante alguém à margem da sociedade, voltado sobre si mesmo, com uma história de vida miserável, sem infância, sem essa capacidade de aprender com as experiências pessoais, faltando-lhe a introspecção de si mesmo e do efeito do seu comportamento nos outros, sem remorsos nem vergonha, sem objectivos de vida realistas. Ambos se arrastam num presente que é uma verdadeira morte lenta. Mas enquanto o Freitas é um pobre coitado, “sem cara para levar um estalo”, o Meças é um sádico e um depravado, um homem violento, um psicopata da pior espécie, nutrindo um particular desprezo pela vida e pelos valores que lhe são intrínsecos.

A acção decorre em Trás-os-Montes, mas estamos aqui muito distantes do “reino maravilhoso” de Miguel Torga. Este é um Trás-os-Montes “de gente heróica, lúbrica, ladina, pateta, pacóvia, malandra, espertinha, orgulhosa, humilde, amável, cheia de defeitos perigosos e de virtudes escondidas, isolados do mundo, regressados do mundo, ricos remediados e pobres sem lugar a não ser no cemitério”, conforme resumiu Francisco José Viegas a propósito da obra do autor [ver AQUI]. Assim, ler “O Meças” é ir ao encontro dum microcosmos social que permanece imutável desde tempos imemoriais, moldado pela dureza dos elementos, subsistindo na estreita faixa das necessidades básicas do nascer, comer, procriar e morrer, feito de gente primária, relacionando-se maquinalmente e que, nas suas reacções instintivas, faz vir ao de cima o melhor e o pior que há no ser humano.

Fernando Pessoa dizia que “o génio, o crime e a loucura, provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio” e este é um aspecto muito interessante que se evidencia em “O Meças” e se vai cristalizando à medida que avançamos na sua leitura. Determinada pela construção da Barragem do Sabor, a subida das águas vai apagando da superfície da terra a paisagem duma infância recalcada, obrigando o Meças a refugiar-se no mais alto dos montes, transportando consigo as sementes da violência e do ódio. A cada nova página a mesma atitude desajustada face ao outro, à vida, ao mundo. Uma atitude com uma direção apenas, que se deteriora de forma irrevogável. O mal que alastra é uma certeza. Vira-se cada página em permanente sobressalto, na certeza de que o pior ainda está para vir. Cada passo, cada gesto, cada palavra proferida, traz consigo apreensão e medo. Fiel a uma escrita rasteira, sem facilidades nem concessões ao bom gosto, Rentes de Carvalho tem esse dom de dar a ver para lá do óbvio, recriando universos ficcionais que vão de braço dado com a realidade.  A mão que, delicadamente, pousa sobre o ombro é a mesma capaz de derrubar, com um murro, o homem mais possante. Para o Meças não há remissão. Só a morte o apaziguará.