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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

LIVRO: "O Dia Em Que Estaline Encontrou Picasso Na Biblioteca"



LIVRO: “O Dia Em Que Estaline Encontrou Picasso Na Biblioteca”,
de Alice Brito
Ed. Editorial Planeta, Maio de 2015


Picasso e Estaline, ou a crónica de um encontro improvável. Numa biblioteca, local perfeito para um encontro. É assim que se anuncia o segundo romance de Alice Brito, a ficção a fintar o real já que de encontros entre o pintor e o líder soviético não reza a História. Que Picasso nutria uma enorme simpatia por Estaline é publico e notório, sendo igualmente verdade que desenhou, para a revista literária “Lettres Françaises”, um retrato do líder soviético que acabou por gerar uma enorme controvérsia. E, ainda, que veio a receber o “Prémio Internacional Estaline para o Fortalecimento da Paz Entre os Povos”, isto numa altura em que a desestalinização já se tinha encarregado de substituir o nome de Estaline pelo de Lenine. Mas nada de encontros entre os dois, com calorosos apertos de mão. Tão longe um do outro e, no entanto, tão perto.

Com “O Dia Em Que Estaline Encontrou Picasso Na Biblioteca”, aquilo que Alice Brito tem para nos propor é uma deliciosa metáfora das relações humanas, ou de como, as mais das vezes sem nos darmos conta, a verdade se oculta debaixo dos nossos olhos. Orquestrando a trama com minúcia e engenho, a autora traz a Europa para cima do palco, fazendo incidir as luzes mais intensas sobre a incontornável cidade de Setúbal. Os cenários sucedem-se e, com eles, os tempos e os lugares da História. Matosinhos, Beja, Lisboa, Paris, Barcelona. Guerra Civil de Espanha, II Guerra Mundial, Estado Novo, o Maio de 68, o 25 de Abril, a “troika”. Andreu Nin, Hitler, Franco, Salazar, a PIDE, o KGB. Em cena, as personagens do romance – Julinha, Atiliano, Justina, Joaquim Manso, Juan, Maria Bento, Maria da Liberdade, Dulce, David, Nuno, Josefina e uma grande quantidade de “actores secundários” - vão-se mostrando, sabiamente conduzidas por Alice Brito, ela própria abandonando, de quando em vez, a penumbra dos bastidores e dando-se a ver na primeira pessoa.


Intercalando passado e presente, a autora vai narrando a história de uma família à medida que tece uma trama delicada e precisa do pulsar do Velho Continente. Este é também um trabalho de bastidor, sendo que o bastidor, neste caso, é “aquele aro de madeira onde se mete o bordado para esticar o pano e nele bordar com dedos finíssimos o desenho que a linha e agulha vão prosseguindo num prévio traçado de um olhar competente”. Já nas derradeiras páginas, uma breve frase tem o condão de assumir o livro por inteiro: “Sou um contentor da História do século XX”. A Alice Brito cabe o mérito de narrar os ciclos da História, lembrando que “o passado não é inocente”. Se depressa os muros se levantam, se muito duram, também de repente, ou mais depressa que de repente vêm abaixo. É disto que “O Dia Em Que Estaline Encontrou Picasso Na Biblioteca” nos fala, com a clarividência e a riqueza de imagens que só uma grande escritora consegue transmitir.


sábado, 1 de junho de 2019

LIVRO: "As Longas Noites de Caxias"



LIVRO: “As Longas Noites de Caxias”,
de Ana Cristina Silva
Ed. Planeta Manuscrito, Março de 2019


No rescaldo das eleições para o Parlamento Europeu, percebo com tristeza o peso da abstenção e penso o quanto isto é revelador daquilo em que nos vamos tornando. Independentemente das razões que assistam às pessoas, de esta poder ser uma forma de manifestar desagrado ou desencanto perante a política e os políticos, o que me parece estar cada vez mais em causa é a questão da memória enquanto vinco identitário da nossa história colectiva. Quanto deste alheamento é devido ao facto de termos cada vez mais dificuldade em lembrar o quanto devemos àqueles que deram tudo de si – inclusive a própria vida – para que escolher em liberdade pudesse ser hoje um direito de todos? Em seu nome, em nome da sua memória, votar é, mais do que um direito, um dever de consciência. E aos deveres de consciência não temos como fugir!

É sobretudo por isto que o mais recente romance da escritora Ana Cristina Silva é tão importante, porquanto nos recorda que a História não deve ser negada nem esquecida, avivando uma memória que se vai esboroando, ao mesmo tempo que nos devolve histórias dum período triste, sinistro, que alguns insistem em branquear. Fazendo incidir a sua atenção em “duas mulheres que ficaram na história da PIDE”, como podemos ler na capa do livro, “As Longas Noites de Caxias” é a história de todas as mulheres e de todos os homens que foram humilhados e isolados, sofreram a privação do sono, os espancamentos, a “estátua”, os insultos e as chantagens e que, como consequência imediata da tortura a que foram sujeitos, se viram acometidos de alucinações e delírio, perdas de conhecimento, ansiedade, insónia e tentativa de suicídio. Mas também daquelas figuras sinistras que, pretendendo justificar o injustificável, perseguiram , torturaram e mataram.

Os méritos de “As Longas Noites de Caxias”, porém, não se esgotam neste trazer à superfície os lugares, os nomes e os acontecimentos que marcaram um tempo que importa lembrar. Ana Cristina Silva sabe como tornar a leitura mais apetecível, avançando e recuando no tempo para melhor cruzar os acontecimentos. Ao leitor caberá a tarefa de combinar as pontas deixadas soltas e ir percebendo a dimensão interior destas duas mulheres, por força das circunstâncias em lados opostos da barricada. Apresentando Laura como uma mulher de convicções fortes e que resiste, apesar das humilhações e privações a que é sujeita, é sobretudo na figura da agente Leninha e na sua complexa personalidade que a autora se detém, penetrando na sua intimidade e privacidade, levantando o véu das falsas aparências e revelando o pulsante estigma do mal sempre pronto a manifestar-se.

Debaixo da pele deste livro, perceberá o leitor o dedo apontado àqueles que reabilitaram parcialmente a PIDE, aos tribunais que julgaram com indulgência escandalosa as atrocidades cometidas, àqueles que atribuíram pensões de reforma aos pides e a quem contribuiu, directa ou indirectamente, para que os membros de uma associação criminosa passassem, burocraticamente, à categoria de vulgares servidores do Estado. Ao mesmo tempo, “As Longas Noites de Caxias” não deixa de encerrar um lamento em nome de quem se sente injustiçado, devolvendo a voz àqueles cuja estatura moral e cívica exige que não sejam esquecidos. Numa altura em que vemos ser chumbada pelo executivo camarário a iniciativa do escritor Pedro Vieira, pedindo que o nome de João Arruda, Fernando Gesteiro, Fernando dos Reis e José Barnetto, os quatro jovens mortos pela PIDE no dia 25 de Abril de 1974, fosse dado a uma rua de Lisboa, cingimos ao peito “As Longas Noites de Caxias” e, irmanados no sentido de que a memória nunca se apague, gritamos Liberdade!

quinta-feira, 21 de março de 2019

LIVRO: "A Noite Passada"



LIVRO: “A Noite Passada”,
de Alice Brito
Ed. Editorial Planeta, Dezembro de 2018


Os que viveram o 25 de Abril, que sentiram o momento com a emoção de quem sabia que uma nova aurora se abria, fulgurante, sobre a longa e terrível noite do fascismo, que assistiram pelas rádios, pelos jornais, pela televisão, à queda do regime e vieram para a rua, em euforia, gritar vivas à liberdade e à democracia, não podem deixar de se emocionar com “A Noite Passada”. E mesmo não sendo eles os principais destinatários de um livro que se afoita em preservar as memórias, denunciando o medo e a raiva contida dos explorados e oprimidos contra a precariedade, a injustiça e as perseguições, é neles que o livro encontra eco, testemunhas vivas que são da exaltação e do júbilo de um tempo glorioso e belo.

Navegando no espaço temporal entre o final da II Guerra Mundial e o 25 de Abril de 1974, “A Noite Passada” recupera os episódios mais marcantes de um quarto de século da história recente do País. Centrando a acção em Setúbal, Alice Brito recorda-nos o viver e o sentir das gentes em torno da campanha para a Presidência do General Humberto Delgado ou da visita da Rainha de Inglaterra, do assalto ao Santa Maria ou da Guerra do Ultramar, traçando um retrato social extraordinariamente vivo, tornado mais rico pela descrição realista dum quotidiano remediado, de “deus pátria família” feito, a mesa posta para o homem que chega do trabalho, a mulher submissa que tudo cala, as conversas à boca pequena, a PIDE à espreita.

Narrado como se de uma conversa em família se tratasse (que não a do Marcelo, senhores, que não a do Marcelo!), em volta de uma mesa onde o choco frito é rei, “A Noite Passada” é um desfiar de memórias emotivas, a crítica contundente ao virar de cada página, o toque de humor inteligente servido em doses generosas, porque melhor é rir do que chorar. Com frequência percebemos o quanto Alice Brito se envolve na escrita do livro, os comentários de cariz pessoal a integrarem-se na acção com toda a naturalidade e a arrancarem ao leitor gargalhadas cúmplices. Nestes tempos em que a memória é tão desprezada, aqui está um livro com memórias que sabe bem saborear. Uma e outra vez!

sábado, 9 de março de 2019

LIVRO: "As Velhas"



LIVRO: “As Velhas”,
de Hugo Mezena
Ed. Editorial Planeta, Janeiro de 2019


Entre as muitas e boas novidades editoriais neste início de ano, é com prazer que se abraça a leitura de “As Velhas”. Segundo livro de Hugo Mezena, depois do muito promissor “Gente Séria”, estamos aqui perante um conjunto de vinte e dois contos que nos oferecem histórias da terceira idade, curiosamente incidindo apenas e só sobre mulheres, nas suas relações de vida com aqueles que lhes são mais próximos. São relatos de quem percebe que o ascendente que mantinha em relação aos outros é agora coisa do passado, a dependência a instalar-se aos poucos e com ela essa sensação de estorvo, de fardo, que se vai insinuando a cada dia que passa.

Um dos grandes trunfos de “As Velhas” é a sua verdade. Hugo Mezena não precisa de grandes enredos para entrar na vida da Dona Regina, da Dona Josefa ou da Dona Matilde pelo seu lado mais grave, seja o nome dos netos que importa lembrar ou os medicamentos com hora certa para tomar, sejam os cuidados a ter com gente que não se conhece, a dificuldade em encontrar o caminho de regresso a casa ou a sempiterna e detestável sopa de feijão. Mas não se pense que estas velhas são, todas elas, modelos de educação, conformismo e submissão. Aqui se encontram também aquelas que estão sempre prontas a fazer orelhas moucas a conselhos e recomendações ou a levar por diante os seus projectos, por mais improváveis que possam parecer, sabendo-se como é sabido que nada há de mais apetecível do que o fruto proibido, mesmo aos 80 ou 90 anos. Sobretudo aos 80 ou 90 anos.

A tensão que se instala desde o início de cada conto, aliada a uma enorme ternura, a um refinado toque de humor e à sinceridade e transparência das narrativas, faz com que o leitor facilmente se reveja ou projecte em palavras e gestos, aqui amáveis e delicados, além inquietos ou carregados de amargura. Não é difícil encontrar pontos de contacto entre a realidade de cada uma das personagens e a nossa própria realidade, de tal forma Hugo Mezena usa com mestria todo um conjunto de significados e de códigos que, na sua universalidade, convocam momentos e situações alojadas à esquina da memória. Numa sociedade em permanente mutação, cada vez mais egoísta e menos sensível a problemáticas como as da velhice, “As Velhas” pode ser um excelente ponto de partida para uma cuidada e atenta reflexão. Na certeza de que é para velhos que todos caminhamos!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

LIVRO: "Gente Séria"



LIVRO: “Gente Séria”,
de Hugo Mezena
Ed. Planeta Manuscrito, Fevereiro de 2018


Talvez deva começar por referir que a leitura de “Gente Séria” constitui uma agradável surpresa, não apenas pela desenvoltura demonstrada por Hugo Mezena na recriação de personagens e ambientes mas sobretudo pela forma subtil como consegue brincar com coisas sérias. É isso que se intui logo no primeiro capítulo – com o sugestivo título de “O Sovaco” - e se confirma à medida que a leitura avança, ora suscitando saborosas gargalhadas, ora obrigando a engolir em seco.

Nesta sua primeira obra, o autor serve-se do olhar dum rapazinho de dez anos para traçar o retrato social duma comunidade rural à beira da viragem do milénio e, por extensão, deste país que temos e somos. Um retrato que tem o seu início em 1987 e que, partindo do núcleo familiar mais restrito – onde pontuam uma catrefada de tios e um avô com rotinas no mínimo estranhas -, se estende ao padre e à catequista, ao presidente da Junta e ao tractorista, à professora e ao “simplório” do lugar. E que nos mostra do que a natureza humana é capaz numa pequena aldeia grávida de hipocrisia, inveja, ciúmes, transgressões, rivalidades, calúnias, traições e boas e más acções. Aliás, uma das leituras possíveis de “Gente Séria” consistirá, porventura, em pensar, à luz destes retratos, um País que é um verdadeiro paradoxo, no qual as assimetrias se agravam a cada dia que passa, tão próximo de tudo mas sempre tão afastado, um país “simplex” feito de gente simples, mas acima de tudo de gente séria (com aspas ou sem elas, como se queira).

Da leitura de “Gente Séria” ninguém sai incólume. A acção tem data mas não é datada. É impossível ao leitor não se rever numa parte substancial do que ali é narrado, se não como elemento sugestivo das suas próprias vivências, pelo menos das de muitos que lhe são próximos. Benomilde pode não ter este nome no mapa, mas aquela aldeia existe na realidade e não é, garantidamente, uma caricatura. Com uma escrita fácil e apelativa, “Gente Séria” está recheado de momentos deliciosos, permitindo-me destacar esse “registo de pecados” que, com os anos e o entendimento, se verá transformado em “registo de pensamentos”. Já na parte final do livro, Hugo Mezena brinda-nos com um Interlúdio que é, ao mesmo tempo, uma marca distintiva do seu génio enquanto escritor. O olhar acutilante atinge aí o seu expoente máximo, num registo avassalador que subjuga o leitor, obrigando-o a olhar para o interior de si mesmo e a pensar o mundo e os homens tais como eles são.

domingo, 31 de dezembro de 2017

LIVRO: "O Último Beijo da Mamba Verde"



LIVRO: “O Último Beijo da Mamba Verde”,
de Cesário Borga
Ed. Planeta, Setembro de 2017


“O Último Beijo da Mamba Verde” é uma história de vingança, nos anos amargos da Guerra do Ultramar. Centrando a acção no Norte de Moçambique, o livro descreve uma sequência de episódios que têm Arnaldo Salima como personagem principal. Cantineiro junto ao aquartelamento das tropas portuguesas em Tomboza, próximo da fronteira com a Rodésia (atual Zimbabwe), é ele o protagonista duma história onde amor e morte se passeiam de mãos dadas.

Com uma escrita fácil, na qual avulta a reprodução cuidada dum certo linguajar nas margens do português, Cesário Borga dá a ver a face mais negra duma guerra sem razão. Exímio na forma como trabalha a acção, o autor faz-nos mergulhar nos cenários idílicos de África, nas suas riquezas naturais e na forma de vida dos povos do Norte de Moçambique, para depois nos despertar, de forma brusca, para o horror das minas e dos corpos decepados, do ruído surdo das pás dos helicópteros rodesianos e dos bombardeamentos, do cerco às aldeias e dos esbirros da PIDE, do fogo nas palhotas e do cheiro a carne queimada.

Ao contrário da generalidade dos escritores portugueses que se vêm debruçando sobre esta matéria, interessa a Cesário Borga o efeito da Guerra sobre os que ficaram em África e de que forma os acontecimentos foram determinantes nas suas vidas. Nesse sentido, “O Último Beijo da Mamba Verde” não é apenas mais um livro sobre um capítulo particularmente sombrio da nossa história colectiva. Ele é um testemunho sólido da violência e do horror em cenário de guerra, tendo como principais protagonistas as tropas portuguesas, a sua crueldade, insensibilidade e irracionalidade, à imagem e semelhança das tropas congéneres. A outra face duma mesma moeda que não adianta fazer de conta que nunca existiu.