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quinta-feira, 21 de março de 2019

LIVRO: "A Noite Passada"



LIVRO: “A Noite Passada”,
de Alice Brito
Ed. Editorial Planeta, Dezembro de 2018


Os que viveram o 25 de Abril, que sentiram o momento com a emoção de quem sabia que uma nova aurora se abria, fulgurante, sobre a longa e terrível noite do fascismo, que assistiram pelas rádios, pelos jornais, pela televisão, à queda do regime e vieram para a rua, em euforia, gritar vivas à liberdade e à democracia, não podem deixar de se emocionar com “A Noite Passada”. E mesmo não sendo eles os principais destinatários de um livro que se afoita em preservar as memórias, denunciando o medo e a raiva contida dos explorados e oprimidos contra a precariedade, a injustiça e as perseguições, é neles que o livro encontra eco, testemunhas vivas que são da exaltação e do júbilo de um tempo glorioso e belo.

Navegando no espaço temporal entre o final da II Guerra Mundial e o 25 de Abril de 1974, “A Noite Passada” recupera os episódios mais marcantes de um quarto de século da história recente do País. Centrando a acção em Setúbal, Alice Brito recorda-nos o viver e o sentir das gentes em torno da campanha para a Presidência do General Humberto Delgado ou da visita da Rainha de Inglaterra, do assalto ao Santa Maria ou da Guerra do Ultramar, traçando um retrato social extraordinariamente vivo, tornado mais rico pela descrição realista dum quotidiano remediado, de “deus pátria família” feito, a mesa posta para o homem que chega do trabalho, a mulher submissa que tudo cala, as conversas à boca pequena, a PIDE à espreita.

Narrado como se de uma conversa em família se tratasse (que não a do Marcelo, senhores, que não a do Marcelo!), em volta de uma mesa onde o choco frito é rei, “A Noite Passada” é um desfiar de memórias emotivas, a crítica contundente ao virar de cada página, o toque de humor inteligente servido em doses generosas, porque melhor é rir do que chorar. Com frequência percebemos o quanto Alice Brito se envolve na escrita do livro, os comentários de cariz pessoal a integrarem-se na acção com toda a naturalidade e a arrancarem ao leitor gargalhadas cúmplices. Nestes tempos em que a memória é tão desprezada, aqui está um livro com memórias que sabe bem saborear. Uma e outra vez!

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