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domingo, 20 de setembro de 2026

LIVRO: “É a Ales” | Jon Fosse



LIVRO: “É a Ales”,
de Jon Fosse
Título original | “Der et Ales” (© 2023, mareverlag, Hamburgo, @ 2023, Jon Fosse)
Tradução | Pedro Porto Fernandes
Ed. Cavalo de Ferro, Maio de 2024


“ (...) ela pega na vara e vai até à fogueira e depois põe-se a passar a vara com a cabeça de ovelha sobre as chamas e, enquanto o rapaz esperneia ao colo dela, ela passa a cabeça de ovelha para a frente e para trás sobre as chamas, mas a lã pega fogo, as labaredas crescem e um cheiro forte a queimado espalha-se no ar e ela mergulha a cabeça de ovelha na água do mar e depois volta a passá-la para a frente e para trás sobre as chamas, e outra vez o cheiro a queimado, e volta a passar a cabeça de ovelha sobre as chamas, para a frente e para trás, para a frente e para trás. É a Ales, pensa ele, e ele vê, ele sabe. É a Ales. É a Ales, pensa ele, é a sua trisavó, ele sabe.”

Em “É a Ales”, a escrita minimalista, intensa, poética e hipnótica do Nobel norueguês, Jon Fosse, volta a impôr-se. Nele, constrói o autor uma narrativa breve na extensão, mas de enorme densidade emocional. Publicado em 2024, o romance acompanha Signe, uma mulher idosa que permanece na Casa Velha, junto ao fiorde, vinte e três anos depois do desaparecimento do marido, Asle, levado pelo mar num dia de tempestade. A partir de um ponto imóvel - Signe junto à janela, olhando para uma paisagem que parece imutável - Jon Fosse abre uma sucessão de tempos, vozes e memórias que atravessam cinco gerações de uma mesma família. O passado é uma recordação desorganizada que irrompe no presente, confundindo personagens, acontecimentos e perspectivas. A história remonta a Ales, antepassada de Signe, a Kristoffer e Brita, e aos filhos Asle e Olav, até chegar ao pequeno Asle, morto por afogamento no dia do seu sétimo aniversário, em 1897. Décadas mais tarde, o adulto Asle terá um destino semelhante. Entre as duas tragédias, a família parece condenada a repetir uma dor que o tempo não consegue apagar. A casa, o mar, a praia, a montanha e o pequeno barco tornam-se espaços de uma memória colectiva, enquanto Signe, sozinha, revive acontecimentos que pertencem simultaneamente à sua experiência e à dos que a antecederam.

A singularidade do romance está, sobretudo, na forma como Jon Fosse transforma o fluxo da consciência em matéria narrativa. Não há capítulos ou divisões convencionais, nem uma progressão cronológica que conduza o leitor de um acontecimento ao seguinte. As vozes sobrepõem-se, as perspectivas mudam sem aviso prévio e presente e passado convivem na mesma frase, como se o pensamento recusasse a linearidade própria da escrita. A repetição de palavras, expressões e imagens funciona como um ostinato musical, conduzindo o leitor através dessa corrente interior e criando um ritmo hipnótico. O silêncio desempenha, por sua vez, um papel tão importante como a fala: entre Asle e Signe, aquilo que não é dito revela tanto ou mais do que as palavras que trocam. A solidão, o amor, a perda, a maternidade frustrada, a espera e a impossibilidade de escapar ao passado vão emergindo de pensamentos que parecem atravessar-se uns aos outros. É essa aparente desordem que permite a Fosse aproximar-se da verdade emocional das personagens. Signe não se limita a recordar a jovem que foi ou o marido que perdeu; vê-se a si própria no passado e, através dessa imagem, vê também os mortos, os antepassados e as tragédias que moldaram a família.

No centro desta teia narrativa encontram-se dois grandes símbolos: o fogo e o fiorde. A fogueira que Ales acende junto à praia, o fogo doméstico e a fogueira que marca a memória da família representam simultaneamente abrigo, destruição e transformação. É olhando para as chamas que a realidade parece desvanecer-se e dar lugar às imagens interiores que unem vivos e mortos. O fogo mantém viva a lembrança das tragédias, mas também oferece uma espécie de purificação, como se o sofrimento pudesse finalmente ser consumido. O fiorde assume uma função simultaneamente inversa e complementar: é fonte de vida e ameaça permanente, espaço de trabalho dos pescadores e lugar de morte. Foi o mar que levou duas vidas da família e, em ambas as tragédias, as frágeis embarcações permaneceram como testemunhas silenciosas do que aconteceu. A força da Natureza confronta-se, deste modo, com a fragilidade humana e com a persistência do afecto. No fim, a narrativa revela uma família de pescadores marcada pela perda, mas também pelo amor e pela esperança, numa espécie de ciclo que só poderá ser interrompido quando a memória deixar de exigir a repetição da dor. “É a Ales” confirma, assim, a singularidade da escrita de Jon Fosse, aparentemente simples e formalmente desconcertante, capaz de transformar silêncio, repetição e consciência num território literário que rejeita a linearidade do tempo e faz da memória uma forma de existência.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

LIVRO: “Eu Canto e a Montanha Dança” | Irene Solà



LIVRO: “Eu Canto e a Montanha Dança”,
de Irene Solà
Texto original | “Canto jo i la muntanya balla”, © Irene Solà, 2019
Tradução | Rita Custódio e Àlex Tarradellas
Ed. Cavalo de Ferro, Abril de 2024


“ (…) E então deixámos cair o segundo raio. Rápido como uma serpente. Zangado. Aberto como uma teia de aranha. Os raios avançam por onde querem, como a água e os aludes e os insectos pequenos e as garças, pois tudo o que é bonito e brilha enche o seu olhar. O canivete, fora do bolso do Domènec, brilhou como um tesouro, como uma pedra preciosa, como um punhado de moedas. O canivete de metal espelhou-nos, polido. Como uns braços abertos, como um chamamento. Os raios enfiam-se onde querem, e o segundo raio enfiou-se dentro da cabeça do Domènec. Para dentro, bem no fundo, até ao coração. E tudo o que via dentro dos olhos era negro, por causa da queimadura. O homem caiu a prumo sobre a erva, e o prado colocou a face contra a dele, e todas as nossas águas agitadas e contentes se enfiaram pelas mangas da camisa, por baixo do cinto, por dentro das ceroulas e das meias, à procura da pele ainda seca. E morreu. E a vaca foi-se embora espiritada, e o bezerro correu atrás dela (…)”.

Poetisa, romancista e artista visual catalã, Irene Solà venceu o Prémio da União Europeia de Literatura em 2020 com “Eu Canto e a Montanha Dança”, o seu segundo romance. Publicado pela Cavalo de Ferro, com tradução de Rita Custódio e Àlex Terradellas, o livro narra as alegrias e as desventuras de uma família de camponeses, tendo como vibrante pano de fundo a vasta cordilheira pirenaica onde vive. Com uma escrita límpida, um olhar compassivo e uma enorme intencionalidade emocional, a autora rende homenagem às forças da natureza e à relação do ser humano com um mundo desconhecido, misterioso e iminentemente espiritual. Entre o acto de nascer e o de morrer, as personagens de Irene Solà fundem-se com um entorno natural austero e impiedoso que as prende e maneja a seu bel-prazer, moldando o curso das suas vidas entre a fantasia e o desgosto. “Eu Canto e a Montanha Dança” ilustra na perfeição a importância de nos sabermos distanciar para melhor percebermos essas conexões e de que forma se transmitem e dão sentido às nossas vidas.

Quando um raio atinge e mata Domènec, a sua viúva, Sió, e os seus dois filhos, Hilari e Mia, mais não têm do que lamentar a sua morte e fazerem-se à vida. Anos mais tarde, quando Hilari morre num acidente de caça na floresta às mãos do seu melhor amigo, Jaume, Mia chora a perda do irmão, mas lamenta também a sua relação com Jaume, que não voltará a ver. Entre o humano e o divino, Irene Solà encoraja-nos a ver o mundo de diferentes perspectivas, convocando o olhar de inesperadas personagens a cada novo capítulo. A trama vai muito além das histórias narradas na primeira pessoa por Hilari, Mia e Jaume, abrindo um convite ao leitor a que observe os vários episódios do ponto de vista de uma tempestade, de um bando de bruxas ou da própria montanha, por exemplo. Não é menor o tempo dispensado a uns cogumelos do que às vidas humanas que se cruzam no livro. Nenhuma perspectiva reivindica mais atenção, pois todas são igualmente importantes, aqui residindo o grande valor do livro: Tão trágica é a morte de Hilari, como o terror do corço que busca escapar à mira do caçador.

O convite a que olhemos o mundo a partir da terra ou das alturas abre perspectivas diferentes e desafia a nossa concepção de espaço e de tempo. Num determinado momento do livro, a autora mostra uma série de esboços que retratam a deslocação da crosta terrestre ao longo de milhões de anos, para formar as montanhas onde a família de Domènec mora. A sobreposição de escalas de tempo drasticamente diferentes lembra-nos que as nossas vidas não são mais do que um simples ponto na linha do tempo. Com uma escrita simples, mas altamente eficaz, Irene Solà persiste em partir de uma única história e, tal como uma árvore que cresce e se desenvolve, fazer com que dela brotem “ramos” que a consubstanciam e reforçam. Percebermo-nos, enquanto seres humanos, como uma simples parte de um sistema complexo é a grande lição que se extrai do livro. E volto a Domènec e ao raio que se enfiou no seu corpo, matando-o. O reflexo da tempestade reenquadra um evento que causou sofrimento a esta pequena família. Da perspectiva da tempestade, porém, os danos foram quase nada.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

LIVRO: "Uma Brancura Luminosa"



LIVRO: “Uma Brancura Luminosa”,
de Jon Fosse
Título original | “Kvitleik”
Tradução | Liliete Martins
Ed. Cavalo de Ferro, Fevereiro de 2024


“Agora a lua está coberta por nuvens e já não se pode ver nada e eu ouço a minha mãe exclamar: onde estás - e eu ouço o meu pai dizer: estou aqui - e a minha mãe diz que sabe isso, pois está a segurar-lhe no braço, diz ela, não era a ele que ela se referia, era a mim, diz ela, e o meu pai diz: sim, é claro, eu apenas respondi sem pensar - e a minha mãe diz: pois, como é costume - e a seguir faz-se silêncio e nenhum deles diz o que quer que seja. Eu estou de pé totalmente silencioso. Quero um silêncio total, quero escutar o silêncio. Porque é no silêncio que Deus se faz ouvir.”

Depois do admirável “Manhã e Noite”, regresso a Jon Fosse e a uma escrita que é, simultaneamente, inquieta e branda, sensível e perturbadora. Em “Uma Brancura Luminosa”, o seu mais recente livro, Fosse volta a fazer incidir a sua atenção sobre os derradeiros instantes da vida, aquele momento de passagem em que já não estamos cá e ainda estamos, rodeado de uma profunda indefinição, sentindo que nos afastamos lentamente da matéria e nos entregamos ao etéreo, ao impalpável, a “uma brancura luminosa”. Lançando o braço sobre o ombro do leitor, guiando-o por caminhos que à fé dizem respeito, o autor faz notar, com voz serena, que a dúvida é uma virtude maior do ser, a capacidade de pôr em causa as certezas claras e distintas como fonte de conhecimento, a primazia dos sentidos como caminho ínvio de condução do homem à razão. Mas também sugere que deve aceitar de forma tranquila a ausência de respostas satisfatórias às suas dúvidas e inquietações, a ideia de verdade como algo inescrutável.

“Uma Brancura Luminosa” fala-nos de um homem que, tomado pelo tédio, decide sair de casa e conduzir sem destino, seguindo ao acaso até entrar numa estrada florestal que parece não ter fim. Com o carro atolado, decide partir em busca de auxílio, mas não sabe para onde nem a quem se dirigir. O final do Outono traz consigo as primeiras neves e os dias curtos fazem com que a tarde caia rapidamente. Decidido a regressar a casa, o homem embrenha-se na floresta, certo de que encontrará ajuda, mas rapidamente percebe que está perdido e não tem como regressar ao carro. Enregelado, esgotado, mergulhado num mar de dúvidas, vai questionando os porquês da sua conduta, ao mesmo tempo que descobre que não está sozinho. Afinal, talvez haja por ali alguém capaz de o compreender, de o orientar de regresso ao carro, de o pôr a salvo. Ou não passará tudo de mera ilusão, um produto da sua imaginação destinado a acrescentar mais dúvidas àquelas que já existem, a aumentar a sua estranheza, a sua ansiedade?

Fazendo da ficção uma arma poderosíssima, Jon Fosse parte ao encontro de si mesmo, das suas interrogações, num exercício de auto-reflexão que se revela, no limite, pacificador. Não se trata aqui de decifrar um qualquer mistério, antes partilhar com o leitor a percepção de que o mundo e a realidade são enigmáticos e vão muito para além do que possamos compreender ou exprimir por palavras. Apesar do desconforto que um assunto desta natureza gera, é de paz o tom da narrativa, as muitas camadas que a constituem a darem voz ao indizível e a conduzirem o leitor para um ponto de compreensão que não colide com as suas próprias crenças, antes as sustentam e reforçam. De uma enorme espiritualidade, “Uma Brancura Luminosa” reflecte de forma lúcida o pensamento religioso ou filosófico de Fosse, um homem que faz da escrita um meio de se aproximar de algo em que confia, que não consegue descrever, mas que não tem problemas nenhuns em chamar-lhe Deus. Um livro para todos, crentes e não crentes.

domingo, 21 de janeiro de 2024

LIVRO: "Manhã e Noite"



LIVRO: “Manhã e Noite”,
de Jon Fosse
Título original | “Morgon og Kveld” (Det Norske Samlaget, Noruega, 2000)
Tradução | Manuel Alberto Vieira
Ed. Cavalo de Ferro, Novembro de 2020 (5ª edição, Outubro de 2023)


“ (…) olha só para ti que menino tão perfeitinho e és o menino mais lindo que algumas vez existiu és a coisinha mais fofa de sempre a melhor e mais bela coisinha Oh se és que belo rapaz sim É lindo Sim és o bem mais precioso É agora pai de um menino e macio e encharcado e depois esta estranha quietude silente e depois oh oh oh e o branco oh e macio tão oh e rijo e oh oh assim assim oh oh e tão branco e depois quase quente e oh oh tão sereno Johannes chamar-se-á Johannes Será esse o seu nome sim (…)”

Foi pela via do teatro que, pela primeira vez, me cruzei com Jon Fosse e com a sua escrita. A peça levada à cena no Carlos Alberto intitulava-se “O Homem da Guitarra” e era um monólogo encenado e interpretado por Manuel Wiborg. Dela, contudo, não saberei dizer nem bem nem mal, do tão pouco que até hoje me ficou. Mais do que recuperar uma memória distante, a recente atribuição do Nobel ao escritor fez com muitos dos seus livros fossem reimpressos e passassem a preencher os escaparates, o que me motivou para ir ao encontro da sua obra. Sem referências quanto a este ou àquele livro, calhou pegar em “Manhã e Noite” e em boa hora o fiz. Extraordinariamente vívida, intensa e penetrante, a escrita de Jon Fosse impressiona pela forma como valoriza a palavra, pela fidelidade aos ambientes, pelo rigor das descrições. Mas também pelo arrojo formal que ultrapassa a mera abolição do uso dos pontos finais, por essa relação intrínseca com a oralidade, pela intencionalidade das ideias assente na repetição constante de certas palavras, pela ternura com que abraça as personagens e que faz do romance um longo e belo poema.

“Manhã e Noite” conta a história de Johannes em dois momentos absolutamente cruciais da existência de qualquer ser humano: a nascimento e a morte. Pescador como o pai, Johannes toda a vida habitou a mesma casa, em Holmen, no coração de um fiorde norueguês. Saberemos que é um lindo rapazinho e que nasceu forte e saudável - “parece impossível que um fedelho tão pequeno possa ter tamanha potência na voz”. Não será, porém, o estado da criança ou da mãe aquilo que mais chama a atenção do leitor neste (breve) primeiro capítulo, antes a forma como Jon Fosse, em “pinceladas” breves, dá a ver todo um quadro onde cabem o enquadramento natural da casa de família, um modo de vida austero, a integração da família na comunidade, a forte religiosidade que anima as personagens. São estas as marcas que justificam o desenvolvimento do segundo capítulo, aquele da morte de Johannes, a narrativa coberta de uma patine de irrealidade, a tocar nalguns pontos a escrita de Juan Rulfo, Manuel Scorza, Miguel Ángel Asturias e outros mestres do realismo mágico.

“Manhã e Noite” é um livro impressionante. O seu fulgor narrativo coloca o leitor num enorme dilema, entre a necessidade de refrear a leitura para apreender cada passo desta história e o desejo de continuar em ritmo acelerado para se encontrar com o destino último de Johannes (li o livro duas vezes, de rajada primeiro e, depois, calmamente, em êxtase, a beber cada palavra). A “costela” de dramaturgo do autor dá-se a ver de forma muito clara, pela teatralidade que se desprende de cada quadro, de cada gesto, de cada olhar. A bondade do olhar de Jon Fosse sobre esta figura solitária em fim de vida, estende-se ao leitor e contamina-o, a ponto de se ver no lugar da personagem e a fazer sua a experiência surreal que a atravessa. A espécie de balanço que Johannes faz de toda uma vida, enfatizando os momentos mais significativos, é profundamente comovedor. Como comovedor o derradeiro encontro entre pai e filha os afasta de forma inexorável. De um autor essencial, uma obra-prima da literatura moderna.

sábado, 4 de novembro de 2023

LIVRO: "A Selva"



LIVRO: “A Selva”,
de Ferreira de Castro
Livraria Civilização, 1ª. edição (1930)
Ed. Cavalo de Ferro, 6ª. edição, Junho de 2022


“ - Que têm eles? Ah, seu moço, bem se vê que você é mesmo “brabo”. Está ouvindo, Agostinho? Que têm eles se nós não trabalhamos? Se nós não trabalhamos, seu Juca ganha menos, porque é borracha que deixa de vender e demora mais a receber a conta que nós lhe devemos. Percebe? É para a gente não ficar na rede que seu Caetano, seu Alípio ou seu Balbino se apresentam aí quando não se espera e, se nós estamos de perna estendida, dizem coisas que um homem não gosta de ouvir e, depois, vão fazer queixa a seu Juca.”

28 de Outubro de 1914. Um rio largo e negro como a noite que o cobre, um barco cujos contornos mal se distinguem e que começa a descer na corrente, as margens que se afastam e, com elas, dois barracões e três cabanas, “únicos abrigos humanos naquele rasgão de floresta”. No barco segue Ferreira de Castro. Tem dezasseis anos e vive no seringal há quatro. Confrontado desde a primeira hora com a violência que se esconde na beleza luxuriante da selva amazónica, experimentando toda a espécie de perigos, dando-se conta da rudeza e mesquinhez que o coração do homem pode albergar, sente-se como num cárcere sem pena fixada. Ao longo do tempo passado na selva, não houve um só dia que não desejasse evadir-se, libertar-se, fugir. O momento chegara e o autor recorda-o como o fim de um tempo e o início de um outro, um tempo de “conflito sentimental, doloroso e cheio de perplexidades”, do qual, quinze anos após este episódio, nascerá “A Selva”, “um clássico do nosso tempo, um desses poucos livros definitivos”, como o classificou Jorge Amado.

Vívida e sentida, a narrativa de “A Selva” é, ao mesmo tempo, hino e desdita, exaltação e horror, fascínio e martírio. Com um cunho marcadamente autobiográfico, o livro alcança a dimensão de uma epopeia que irmana os seringueiros em torno do trabalho de extracção do látex e do ambiente de convivialidade e entreajuda face às adversidades, mas também da sua história de resistência e de luta contra a exploração e a miséria a que foram sujeitos, particularmente no período em que o livro decorre e que corresponde ao declínio do ciclo da borracha. Seringueiros que partilham com essa majestade verde, soberba e enigmática que é a selva amazónica a dedicatória do livro e a quem Ferreira de Castro se refere como “meus companheiros, meus irmãos, gente humilde que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crónica definitiva, que à extracção da borracha entregava a sua fome, a sua liberdade e a sua existência.” Do contraste entre uma selva a ressumar de vida e o peso da opressão e da fome, nasce um livro que canta a natureza, ao mesmo tempo que acompanha a tremenda caminhada dos deserdados em busca de pão e de justiça.

Fecunda experiência de vida vertida em prosa, “A Selva” coloca no centro da acção um português de 26 anos de nome Alberto, expatriado devido às suas inclinações monárquicas e que é convidado pelo tio a tentar a sua sorte na Amazónia, o seu novo mundo, com a promessa de enriquecimento fácil. A realidade mostrar-se-á bem diversa e só as grandes voltas do acaso permitirão ao jovem libertar-se de um círculo vicioso que ameaçava retê-lo para sempre. Percursor do movimento neo-realista, Ferreira de Castro oferece-nos a visão de uma natureza completamente nova para muitos, juntando à garça nívea, ao jaburu tristonho, ao magoari pensativo, ao urubu ladino, ao temeroso puraqué ou à esquiva onça, as margens húmidas dos igapós, os raizedos inverosímeis, a exuberância das orquídeas, os pingos grossos da chuva ou o estalar do trovão. Mas é na descrição das relações humanas que o livro alcança a sua dimensão universal, o drama dos homens perante as injustiças de outros homens como parcela da grande dor humana. De leitura obrigatória.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

LIVRO: "Pedro Páramo"



LIVRO: “Pedro Páramo”,
de Juan Rulfo
Título original | “Pedro Páramo” (1955)
Tradução | Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues
Ed. Cavalo de Ferro, Junho de 2017, 3ª edição (Abril de 2004, 1ª edição)


“ (…) - Não sei, Juan Preciado. Há já tantos anos que não erguia a cara que me esqueci do céu. E ainda que o tivesse feito, que teria eu ganho? O céu está tão alto e os meus olhos tão sem olhar que vivia contente só por saber onde ficava a terra. Aliás, perdi todo o interesse que nele tinha desde que o padre Rentería me garantiu que nunca conheceria a Glória. Que nem de longe a veria… Foi por conta dos meus pecados, mas ele não mo deveria ter dito. A vida já de si é cheia de trabalhos. A única coisa que faz com que alguém mexa os pés é a esperança de que, ao morrer, nos transportem de um lado para o outro; mas quando nos fecham uma porta e a que fica aberta é apenas a do Inferno, mais valia não ter nascido… O Céu para mim, Juan Preciado, está aqui onde estou agora.”

Solitário romance do escritor mexicano Juan Rulfo, “Pedro Páramo” é uma imensa fábula humana envolta no manto fascinante do realismo mágico. Vincadamente surrealista, sinuoso e nostálgico, o livro fala-nos do passado de Comala e dos seus habitantes e tem como ponto de partida Juan Preciado, filho não reconhecido de Pedro Páramo, que chega à aldeia para conhecer o pai. Embora breve e com um enredo aparentemente simples, o romance é de uma enorme complexidade, alternando e confundindo linhas temporais que se deslocam entre o presente de Juan Preciado e o passado de Pedro Páramo. Os vários enredos que implicam as figuras secundárias concorrem para adensar a trama, transformando o livro num verdadeiro quebra-cabeças para o leitor. Não é raro que algumas páginas exijam uma segunda leitura para perceber onde estamos ou com quem se está a lidar. Mas a intenção de Juan Rulfo é justamente essa: transpor para as páginas do romance a dose certa de mistério e magia ao ponto de confundir o leitor e de o lançar na busca de um sentido para tão invulgar história.

Veja-se o início do livro, a longa caminhada de sobe e desce no dorso de um burro, o encontro com o almocreve Abundio que diz também ser filho de Pedro Páramo, a primeira noite na casa de Eduviges Dayda. Não consigo recordar um começo tão intenso e intrigante como o deste livro, daqueles que nos prendem de forma irremediável e nos dão a certeza de termos “noitada” pela frente. De facto, assim é. Mergulhar a fundo no romance é sentirmo-nos levados por essa magnífica sensação de flutuar, de viver uma experiência alucinante, surreal, enquanto deixamos que o realismo mágico faça das suas. Na obra de Rulfo isso é mais do que evidente; a presença de visões fantasmagóricas e as conversas dos mortos entre si potenciam essa sensação mágica. O tema da morte, aliás, é uma constante no romance, não surgindo nunca numa perspectiva sombria ou melancólica, antes dando-se a ver de uma forma divertida e nostálgica à vez. Genuínos, incisivos e inteligentemente divertidos, os diálogos permitem ao leitor entrar na alma das personagens, ao encontro dos sentimentos que as assolam.

Teses, dissertações, análises, cruzamentos entre a literatura, o cinema, a fotografia ou a sociologia, tudo isto “Pedro Páramo” proporciona com abundância. Não tenho dados para o afirmar peremptoriamente, mas acredito que seja dos livros mais “estudados” do mundo. E, afinal, “Pedro Páramo” é simples como um conto. Um conto recheado de mistérios que ali são deixados para que o leitor os possa resolver. As suas histórias são delirantes, as personagens estão presas entre si pela sua extravagância. Nele encontramos, muito disfarçadamente, os mitos maiores que a literatura nos vem oferecendo através de clássicos como “O Monte dos Vendavais” ou “Crime e Castigo”, “Dom Quixote” ou “Moby Dick”. Como Juan Preciado, talvez o leitor encontre, enfim, a sua própria paixão, o seu próprio amor, o seu próprio reconhecimento. “O destino ter-se-á, então, cumprido fora das páginas do livro em cujo centro o gado muge, uma pedinte embala um mono como se fosse uma criança porque ali lhe sucedeu uma desgraça, noutros tempos, e o silêncio procura desesperadamente a palavra”.