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terça-feira, 30 de setembro de 2025

LIVRO: "O Desencanto" | Beatriz Serrano



LIVRO: “O Desencanto”,
de Beatriz Serrano
Título original | “El Descontento” (Editorial Planeta, 2023)
Tradução | Rita Custódio
Ed. Bertrand Editora, Outubro de 2024


“Sinto que hoje no escritório posso adotar esse tipo de personalidade. A personalidade de tubarão, de vencedora, o tipo de personalidade das mulheres que transformam o trabalho numa espécie de virtude sagrada como outrora foi a maternidade e publicam fotos no escritório com o hashtag#GirlBoss. Converter-me-ei a isso que o capitalismo entende por feminismo durante as próximas oito horas. Esse mostrengo de mulher total que aguenta tudo. As das rotinas da cinco às nove e depois das nove às cinco, Um espécie de ciborgue com todas as qualidades e características positivas associadas às mulheres, mas sem toda a parte má que também nos atribuem.”

“O Desencanto”, de Beatriz Serrano, inscreve-se com precisão cirúrgica na tradição do romance social contemporâneo, o olhar dirigido ao mal-estar quotidiano sem recorrer a gestos épicos. Através de Marisa, uma publicitária na casa dos trinta anos presa a uma agência madrilena, Serrano constrói um retrato ácido do trabalho enquanto sistema de sobrevivência emocional, mais do que espaço de realização pessoal. O escritório surge como cenário onde a produtividade se confunde com sentido de vida e onde a linguagem corporativa - “briefings”, “calls”, “team buildings” - funciona como verniz moderno que disfarça o vazio. Marisa não odeia apenas o emprego: rejeita a impostura constante, a obrigação de ser simpática, feminista funcional e líder inspiradora durante oito horas por dia. A sua rotina, sustentada por ansiolíticos, vídeos do YouTube e muito sarcasmo, revela uma alienação que não é individual, antes geracional. Serrano não aponta o dedo ao trabalho em abstracto, mas a uma cultura que transforma a precariedade em privilégio e a resistência emocional em mérito profissional.

O romance distingue-se por uma voz narrativa que cruza humor negro, observação minuciosa e uma ironia que não resvala nunca para o cinismo. Escrita na primeira pessoa, a prosa avança num ritmo cumulativo, alternando cenas da vida laboral com reflexões íntimas que retratam a solidão, as relações utilitárias e a anestesia emocional como mecanismos de defesa. A estrutura em espiral reforça a sensação de clausura e desgaste progressivo, enquanto referências culturais reconhecíveis ancoram o relato numa contemporaneidade saturada de estímulos e vazia de certezas. O feminismo corporativo, a estética do sucesso, a pressão familiar e o medo de desaparecer do sistema atravessam o texto sem sublinhados excessivos. Entre e-mails inúteis e sorrisos obrigatórios, a autora vem dizer-nos que a tragédia moderna se administra em pequenas doses diárias, em vez de explodir de uma só vez e e arrasar tudo em redor.

Mais do que oferecer respostas, “O Desencanto” coloca uma pergunta incómoda: o que acontece quando “funcionar” já não significa estar bem? O romance dialoga directamente com uma geração altamente qualificada, exausta e consciente da fraude simbólica que sustenta o actual contrato social. O final, deliberadamente não conciliador, reforça a honestidade do conjunto: não há redenção fácil nem fuga clara, apenas a constatação de um mal-estar partilhado. É nesse gesto que reside a sua força política e literária. Beatriz Serrano consegue transformar a banalidade do quotidiano numa crítica lúcida do presente, lembrando que reconhecer o cansaço, nomeá-lo ou até rir-se dele pode ser o primeiro acto de resistência face a um sistema que exige entusiasmo permanente em troca de pouco mais do que um open space com ar condicionado, uma pequena copa e frases motivacionais afixadas na casa de banho.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

LIVRO: “Eu Canto e a Montanha Dança” | Irene Solà



LIVRO: “Eu Canto e a Montanha Dança”,
de Irene Solà
Texto original | “Canto jo i la muntanya balla”, © Irene Solà, 2019
Tradução | Rita Custódio e Àlex Tarradellas
Ed. Cavalo de Ferro, Abril de 2024


“ (…) E então deixámos cair o segundo raio. Rápido como uma serpente. Zangado. Aberto como uma teia de aranha. Os raios avançam por onde querem, como a água e os aludes e os insectos pequenos e as garças, pois tudo o que é bonito e brilha enche o seu olhar. O canivete, fora do bolso do Domènec, brilhou como um tesouro, como uma pedra preciosa, como um punhado de moedas. O canivete de metal espelhou-nos, polido. Como uns braços abertos, como um chamamento. Os raios enfiam-se onde querem, e o segundo raio enfiou-se dentro da cabeça do Domènec. Para dentro, bem no fundo, até ao coração. E tudo o que via dentro dos olhos era negro, por causa da queimadura. O homem caiu a prumo sobre a erva, e o prado colocou a face contra a dele, e todas as nossas águas agitadas e contentes se enfiaram pelas mangas da camisa, por baixo do cinto, por dentro das ceroulas e das meias, à procura da pele ainda seca. E morreu. E a vaca foi-se embora espiritada, e o bezerro correu atrás dela (…)”.

Poetisa, romancista e artista visual catalã, Irene Solà venceu o Prémio da União Europeia de Literatura em 2020 com “Eu Canto e a Montanha Dança”, o seu segundo romance. Publicado pela Cavalo de Ferro, com tradução de Rita Custódio e Àlex Terradellas, o livro narra as alegrias e as desventuras de uma família de camponeses, tendo como vibrante pano de fundo a vasta cordilheira pirenaica onde vive. Com uma escrita límpida, um olhar compassivo e uma enorme intencionalidade emocional, a autora rende homenagem às forças da natureza e à relação do ser humano com um mundo desconhecido, misterioso e iminentemente espiritual. Entre o acto de nascer e o de morrer, as personagens de Irene Solà fundem-se com um entorno natural austero e impiedoso que as prende e maneja a seu bel-prazer, moldando o curso das suas vidas entre a fantasia e o desgosto. “Eu Canto e a Montanha Dança” ilustra na perfeição a importância de nos sabermos distanciar para melhor percebermos essas conexões e de que forma se transmitem e dão sentido às nossas vidas.

Quando um raio atinge e mata Domènec, a sua viúva, Sió, e os seus dois filhos, Hilari e Mia, mais não têm do que lamentar a sua morte e fazerem-se à vida. Anos mais tarde, quando Hilari morre num acidente de caça na floresta às mãos do seu melhor amigo, Jaume, Mia chora a perda do irmão, mas lamenta também a sua relação com Jaume, que não voltará a ver. Entre o humano e o divino, Irene Solà encoraja-nos a ver o mundo de diferentes perspectivas, convocando o olhar de inesperadas personagens a cada novo capítulo. A trama vai muito além das histórias narradas na primeira pessoa por Hilari, Mia e Jaume, abrindo um convite ao leitor a que observe os vários episódios do ponto de vista de uma tempestade, de um bando de bruxas ou da própria montanha, por exemplo. Não é menor o tempo dispensado a uns cogumelos do que às vidas humanas que se cruzam no livro. Nenhuma perspectiva reivindica mais atenção, pois todas são igualmente importantes, aqui residindo o grande valor do livro: Tão trágica é a morte de Hilari, como o terror do corço que busca escapar à mira do caçador.

O convite a que olhemos o mundo a partir da terra ou das alturas abre perspectivas diferentes e desafia a nossa concepção de espaço e de tempo. Num determinado momento do livro, a autora mostra uma série de esboços que retratam a deslocação da crosta terrestre ao longo de milhões de anos, para formar as montanhas onde a família de Domènec mora. A sobreposição de escalas de tempo drasticamente diferentes lembra-nos que as nossas vidas não são mais do que um simples ponto na linha do tempo. Com uma escrita simples, mas altamente eficaz, Irene Solà persiste em partir de uma única história e, tal como uma árvore que cresce e se desenvolve, fazer com que dela brotem “ramos” que a consubstanciam e reforçam. Percebermo-nos, enquanto seres humanos, como uma simples parte de um sistema complexo é a grande lição que se extrai do livro. E volto a Domènec e ao raio que se enfiou no seu corpo, matando-o. O reflexo da tempestade reenquadra um evento que causou sofrimento a esta pequena família. Da perspectiva da tempestade, porém, os danos foram quase nada.

terça-feira, 15 de agosto de 2023

LIVRO: "As Primas"



LIVRO: “As Primas”,
de Aurora Venturini
Título original | “Las primas” (2007)
Tradução | Rita Custódio e Àlex Tarradellas
Ed. Alfaguara, Abril de 2023


“Deixem-me pensar… deixem-me pensar implorava o sujeito ou professor que a partir de agora chamarei sujeito e respondemos em trio que não que estava tudo decidido e que já tínhamos marcado uma hora no Registo Civil e que iríamos lá no dia dois de novembro e pensei, meu deus que data… é o dia dos mortos e já estávamos em meados de outubro e a Betina estava prestes a entrar no oitavo mês e o sujeito perguntou se demos o nome dele e comunicámos-lhe que tínhamos organizado um casamento civil para o próximo dia dois de novembro aconselhadas por um escrivão amigo que verificaria se se cumpria tudo de acordo com a regulamentação e o sujeito interrompeu a sua reconsideração e aceitou, e a Petra disse-lhe filho da puta nem te passe pela cabeça fugir porque a polícia está avisada e eu tenho um amigo comissário.”

Aos oitenta e cinco anos, Aurora Venturini surpreendeu os leitores argentinos quando o seu romance de humor negro e formalmente ousado, “As Primas”, ganhou o Prémio Nueva Novela de Página/12. Aurora Venturini já tinha escrito mais de quarenta livros, mas só nessa altura, em 2007, foi amplamente reconhecida como uma voz absolutamente revolucionária na literatura de língua espanhola e universal. Considerada a sua obra-prima, “As Primas” é a história de quatro mulheres de uma família disfuncional de La Plata, que atravessam uma série de provações - incluindo abortos espontâneos ou ilegais, abusos sexuais, desfigurações e assassinatos -, narradas por uma filha cujo sucesso como pintora lhe oferece a oportunidade de alcançar a independência económica. Esta filha é Yuna, cuja voz inconfundível tanto pode ser franca e absolutamente arrebatadora, como afiada e de uma crueldade sem limites na forma como escrutina mitologias de vizinhança, de família, de sexualidade feminina e de vingança.

Assinado pela escritora Mariana Enríquez, uma das pré-juradas do Prémio, o Prólogo de “As Primas” fala de um texto enviado a concurso escrito à máquina - algo excepcional, mesmo há quinze anos -, os erros tipográficos cobertos com corrector líquido. Mas fala também do encontro “impactante” com Aurora Venturini, da sintaxe radical que evitava a pontuação porque a “cansava”, da brutalidade na exposição das misérias das personagens, na inusitada falta de piedade para descrever uma família (Yuan não tem “problemas cognitivos”, é “deficiente”. Ponto). Terminada a leitura do romance, Enríquez ligou a outra das pré-juradas, Liliana Viola, dando conta da sua estranheza, da sua confusão e admiração. As questões que a perturbaram na altura são precisamente aquelas com que se confronta o leitor: Será este um romance brilhante? O que é que há nele de tão brilhante? Os riscos que corre? A excentricidade? O facto de nunca termos visto nada assim?

A leitura de “As Primas” aproxima o leitor da visão de “Feios, Porcos e Maus”, filme de Ettore Scola. Também aqui a sordidez impera, com Venturini a inviabilizar o estabelecimento de qualquer relação empática entre o leitor e as personagens do livro. “Mas tudo passa neste mundo imundo. Por isso não é lógico afligirmo-nos muito por nada nem por ninguém”, diz ela logo nas primeiras páginas, dando início a um caminho de “vale tudo”, definidor da trajectória do romance. Entre o despudor e o desassombro, o leitor percebe que nada há de inocente nas questões que a autora ousa levantar, em absoluto contraciclo com a moral vigente que quase sempre opta pela ocultação e pelo silêncio. “As Primas” não é uma história redentora - Venturini trata o catolicismo com tanta raiva que a própria ideia de redenção seria contraditória com as suas palavras - e, no entanto, através da arte, oferece às suas personagens a mesma liberdade surpreendente que se permitiu oferecer a si própria ao longo de uma vida rica em amizades e aventuras.

domingo, 7 de março de 2021

LIVRO: "O Infinito num Junco"



LIVRO: “O Infinito num Junco”,
de Irene Vallejo
Texto original | “El infinito en un junco. La invención de los libros en el mundo antíguo”, 2019
Tradução | Rita Custódio e Alex Tarradellas
Ed. Bertrand Editora, Outubro de 2020


“Se alguém lê para ti, deseja o teu prazer; é um acto de amor e um armistício no meio dos combates da vida. Enquanto ouves com atenção sonhadora, o narrador e o livro fundem-se numa única presença, numa só voz. E, da mesma forma que o teu leitor modula para ti as inflexões, os sorrisos ténues, os silêncios e os olhares, a história também é tua por direito inalienável. Nunca esquecerás quem te contou uma boa história na penumbra de uma noite.”

Depois de todas as agonias da dúvida, depois de esgotar os adiamentos e os álibis, numa tarde quente de julho Irene Vallejo enfrenta a solidão da página em branco. Decide abrir o seu texto com a imagem de uns enigmáticos caçadores à espreita da presa. Identifica-se com eles, com a sua paciência, o seu estoicismo, os seus tempos perdidos, a lentidão e a adrenalina da procura. Trabalhou durante anos como investigadora, a consultar fontes, a interpretá-las, a tentar conhecer o material histórico. No momento da verdade, porém, a história real e documentada que vai descobrindo parece-lhe tão surpreendente que invade os seus sonhos e ganha, sem que o pretenda, a forma de um relato. Por isso entra na pele dos caçadores de livros nos caminhos de uma Europa antiga, violenta e convulsa. Está lançada a viagem.

Estamos no século III a. C. e Alexandria, a “cidade dos prazeres e dos livros”, é o ponto de partida deste extraordinário “O Infinito num Junco”. Como numa cruzada, acompanhamos a autora nessa viagem em busca de manuscritos perdidos, histórias desconhecidas e vozes prestes a emudecerem. Vamos no rasto de todos os livros como se fossem peças de um tesouro disperso. Vamos ao encontro dos alicerces do nosso mundo tal como o conhecemos. O resultado é um ensaio que se confunde com um romance, um livro extraordinariamente acessível à nossa compreensão, que nos coloca nos passos de Alexandre Magno e Ptolomeu, de Aristóteles, o primeiro colecionador de livros, de Eumenes e Sócrates, Ovídio, Piranesi, Escher, Borges, Kaváfis, Cervantes, Bradbury, Kurosawa ou os “hobbits” Frodo e Sam. Um livro que nos convida a visitar o antigo Egipto, Atenas e Roma, Berlim, Oxford ou Florença, onde Irene Vallejo folheou um pergaminho de Petrarca na Biblioteca Riccardiana, daí nascendo, quem sabe, o impulso de escrever este livro.

Da primeira à última página, “O Infinito num Junco” é uma sucessão de surpresas que a autora desvenda delicadamente, ligando-as à realidade actual com toda a simplicidade e clareza, fazendo repousar sobre elas as observações mais pertinentes e pontuando-as com um fino sentido de humor. No centro das atenções, o livro surge como um farol, legando-nos ideias com centenas ou milhares de anos que tudo fazemos por preservar: a igualdade entre os seres humanos, a possibilidade de escolher os nossos dirigentes, a intuição de que talvez as crianças estejam melhor nas escolas do que a trabalhar, a vontade de usar – e diminuir – o tesouro público para cuidar dos doentes, dos idosos e dos mais fracos. Elogio ao livro e a todos quantos, desde a Antiguidade, o mantêm vivo, “O Infinito num Junco” é uma verdadeira preciosidade, uma prova de amor à palavra, uma obra de leitura indispensável.