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domingo, 20 de setembro de 2026

LIVRO: “É a Ales” | Jon Fosse



LIVRO: “É a Ales”,
de Jon Fosse
Título original | “Der et Ales” (© 2023, mareverlag, Hamburgo, @ 2023, Jon Fosse)
Tradução | Pedro Porto Fernandes
Ed. Cavalo de Ferro, Maio de 2024


“ (...) ela pega na vara e vai até à fogueira e depois põe-se a passar a vara com a cabeça de ovelha sobre as chamas e, enquanto o rapaz esperneia ao colo dela, ela passa a cabeça de ovelha para a frente e para trás sobre as chamas, mas a lã pega fogo, as labaredas crescem e um cheiro forte a queimado espalha-se no ar e ela mergulha a cabeça de ovelha na água do mar e depois volta a passá-la para a frente e para trás sobre as chamas, e outra vez o cheiro a queimado, e volta a passar a cabeça de ovelha sobre as chamas, para a frente e para trás, para a frente e para trás. É a Ales, pensa ele, e ele vê, ele sabe. É a Ales. É a Ales, pensa ele, é a sua trisavó, ele sabe.”

Em “É a Ales”, a escrita minimalista, intensa, poética e hipnótica do Nobel norueguês, Jon Fosse, volta a impôr-se. Nele, constrói o autor uma narrativa breve na extensão, mas de enorme densidade emocional. Publicado em 2024, o romance acompanha Signe, uma mulher idosa que permanece na Casa Velha, junto ao fiorde, vinte e três anos depois do desaparecimento do marido, Asle, levado pelo mar num dia de tempestade. A partir de um ponto imóvel - Signe junto à janela, olhando para uma paisagem que parece imutável - Jon Fosse abre uma sucessão de tempos, vozes e memórias que atravessam cinco gerações de uma mesma família. O passado é uma recordação desorganizada que irrompe no presente, confundindo personagens, acontecimentos e perspectivas. A história remonta a Ales, antepassada de Signe, a Kristoffer e Brita, e aos filhos Asle e Olav, até chegar ao pequeno Asle, morto por afogamento no dia do seu sétimo aniversário, em 1897. Décadas mais tarde, o adulto Asle terá um destino semelhante. Entre as duas tragédias, a família parece condenada a repetir uma dor que o tempo não consegue apagar. A casa, o mar, a praia, a montanha e o pequeno barco tornam-se espaços de uma memória colectiva, enquanto Signe, sozinha, revive acontecimentos que pertencem simultaneamente à sua experiência e à dos que a antecederam.

A singularidade do romance está, sobretudo, na forma como Jon Fosse transforma o fluxo da consciência em matéria narrativa. Não há capítulos ou divisões convencionais, nem uma progressão cronológica que conduza o leitor de um acontecimento ao seguinte. As vozes sobrepõem-se, as perspectivas mudam sem aviso prévio e presente e passado convivem na mesma frase, como se o pensamento recusasse a linearidade própria da escrita. A repetição de palavras, expressões e imagens funciona como um ostinato musical, conduzindo o leitor através dessa corrente interior e criando um ritmo hipnótico. O silêncio desempenha, por sua vez, um papel tão importante como a fala: entre Asle e Signe, aquilo que não é dito revela tanto ou mais do que as palavras que trocam. A solidão, o amor, a perda, a maternidade frustrada, a espera e a impossibilidade de escapar ao passado vão emergindo de pensamentos que parecem atravessar-se uns aos outros. É essa aparente desordem que permite a Fosse aproximar-se da verdade emocional das personagens. Signe não se limita a recordar a jovem que foi ou o marido que perdeu; vê-se a si própria no passado e, através dessa imagem, vê também os mortos, os antepassados e as tragédias que moldaram a família.

No centro desta teia narrativa encontram-se dois grandes símbolos: o fogo e o fiorde. A fogueira que Ales acende junto à praia, o fogo doméstico e a fogueira que marca a memória da família representam simultaneamente abrigo, destruição e transformação. É olhando para as chamas que a realidade parece desvanecer-se e dar lugar às imagens interiores que unem vivos e mortos. O fogo mantém viva a lembrança das tragédias, mas também oferece uma espécie de purificação, como se o sofrimento pudesse finalmente ser consumido. O fiorde assume uma função simultaneamente inversa e complementar: é fonte de vida e ameaça permanente, espaço de trabalho dos pescadores e lugar de morte. Foi o mar que levou duas vidas da família e, em ambas as tragédias, as frágeis embarcações permaneceram como testemunhas silenciosas do que aconteceu. A força da Natureza confronta-se, deste modo, com a fragilidade humana e com a persistência do afecto. No fim, a narrativa revela uma família de pescadores marcada pela perda, mas também pelo amor e pela esperança, numa espécie de ciclo que só poderá ser interrompido quando a memória deixar de exigir a repetição da dor. “É a Ales” confirma, assim, a singularidade da escrita de Jon Fosse, aparentemente simples e formalmente desconcertante, capaz de transformar silêncio, repetição e consciência num território literário que rejeita a linearidade do tempo e faz da memória uma forma de existência.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

TEATRO: "Uma Brancura Luminosa" | Sandra Barata Belo



TEATRO: “Uma Brancura Luminosa”
Texto | Jon Fosse
Adaptação e encenação | Sandra Barata Belo
Cenografia | Rui Francisco
Música | Filho da Mãe
Movimento | Cláudia Nóvoa
Figurinos e adereços | Pilar Peres
Interpretação | Ricardo Pereira e Sandra Barata Belo
Produção | Beladona
80 Minutos | Maiores de 12 Anos
Centro de Artes e Espectáculos de Vale de Cambra
06 Dez 2025 | sab | 21:30


Começo com uma referência ao Centro de Artes e Espectáculos de Vale de Cambra, um equipamento muito recente, de linhas modernas e harmoniosas, uma sala pequena mas muito confortável e uma equipa de colaboradores particularmente simpática e disponível. Parabéns, Vale de Cambra, por este magnífico lugar de cultura. Mas vamos à peça. Em “Uma Brancura Luminosa”, Sandra Barata Belo enfrenta com coragem o desafio de transpor para cena o universo rarefeito e quase litúrgico de Jon Fosse, um território onde o silêncio pesa tanto quanto a palavra. A encenação aposta num dispositivo cénico versátil, com assinatura de Rui Francisco, assente na presença de volumes maleáveis, tecidos e superfícies que se desdobram em sombras, véus e falsas profundidades. Esta ambição visual pretende replicar o labirinto interior do protagonista, no seu caminhar hesitante pela floresta, mas nem sempre resulta com a clareza desejada. Há momentos em que o aparato cénico, em vez de amplificar o desconcerto existencial do texto, parece acrescentar ruído, como se baralhasse mais do que iluminasse. Apesar de um bom número de momentos de fulgor visual, o potencial do dispositivo nem sempre encontra um equilíbrio entre poesia e funcionalidade, desviando o olhar do público do essencial: A tensão íntima do homem que se perde para se reencontrar.

A interpretação de Ricardo Pereira, que sustenta a maior parte da peça, é decisiva para aceder ao centro emocional desta narrativa de desvio e transcendência. No entanto, a dicção irregular e uma colocação de voz frequentemente deficiente comprometeram a fruição de um texto que exige precisamente o contrário: precisão, subtileza e a capacidade de fazer das palavras um gesto interior. Num espetáculo em que a fronteira entre pensamento e fala é tão ténue, perder trechos do discurso é particularmente frustrante. Por várias vezes, o timbre afundado ou o fraseado pouco articulado impediram o público de acompanhar o fio existencial que Jon Fosse tão habilmente constrói, esse fluxo contínuo onde passado, presente e futuro se entrelaçam. A encenação de Sandra Barata Belo aposta na proximidade emocional, mas essa intimidade depende de um verbo nítido, capaz de guiar o espectador pelo labirinto mental da personagem. A fragilidade vocal do actor criou uma distância involuntária, quebrando a imersão que a peça tanto procura. E é uma pena, porque quando o actor encontra o tom certo - sobretudo nos momentos de maior exaustão ou perplexidade - a personagem adquire densidade, revelando na respiração pesada e na pausa prolongada a vertigem de quem caminha à beira do fim.

Apesar dos embaraços cénicos e interpretativos, “Uma Brancura Luminosa” evidencia a sensibilidade de Sandra Barata Belo ao captar o espírito ambíguo da obra de Fosse, onde o real se dissolve em espectro e onde cada gesto parece existir num limiar entre presença e ausência. A “brancura luminosa” que o protagonista vislumbra, essa figura ou energia que o acolhe num momento de cansaço extremo, surge aqui como metáfora de entrega, transição e possível renascimento. A encenação procura dar corpo a essa dimensão quase espiritual através de elementos visuais mutáveis, embora nem sempre alcance a simplicidade que o texto sugere. Ainda assim, há coerência na intenção: A peça quer que o público circule entre a dúvida e a revelação, entre a opacidade e a claridade, entre o medo e uma espécie de serenidade oculta. E é precisamente nestas zonas intermédias que o espectáculo encontra a sua força, sobretudo quando a música, a luz e o ritmo abrandado se conjugam na criação de um espaço contemplativo. Mesmo com falhas, a peça oferece momentos de genuína beleza, convocando questões sobre o abandono, a solidão e a esperança que ressoam para lá da sala. No final, aquilo que permanece não é a densidade dos adereços nem a falha circunstancial da palavra, mas a sensação de um caminho aberto, misterioso, inquietante e, tal como a escrita de Fosse, capaz de tocar o que há de mais silencioso em nós.

[Foto: Manuel Vitoriano | Ovar/Cultura https://www.facebook.com/ovarcultura]

segunda-feira, 1 de abril de 2024

LIVRO: "Uma Brancura Luminosa"



LIVRO: “Uma Brancura Luminosa”,
de Jon Fosse
Título original | “Kvitleik”
Tradução | Liliete Martins
Ed. Cavalo de Ferro, Fevereiro de 2024


“Agora a lua está coberta por nuvens e já não se pode ver nada e eu ouço a minha mãe exclamar: onde estás - e eu ouço o meu pai dizer: estou aqui - e a minha mãe diz que sabe isso, pois está a segurar-lhe no braço, diz ela, não era a ele que ela se referia, era a mim, diz ela, e o meu pai diz: sim, é claro, eu apenas respondi sem pensar - e a minha mãe diz: pois, como é costume - e a seguir faz-se silêncio e nenhum deles diz o que quer que seja. Eu estou de pé totalmente silencioso. Quero um silêncio total, quero escutar o silêncio. Porque é no silêncio que Deus se faz ouvir.”

Depois do admirável “Manhã e Noite”, regresso a Jon Fosse e a uma escrita que é, simultaneamente, inquieta e branda, sensível e perturbadora. Em “Uma Brancura Luminosa”, o seu mais recente livro, Fosse volta a fazer incidir a sua atenção sobre os derradeiros instantes da vida, aquele momento de passagem em que já não estamos cá e ainda estamos, rodeado de uma profunda indefinição, sentindo que nos afastamos lentamente da matéria e nos entregamos ao etéreo, ao impalpável, a “uma brancura luminosa”. Lançando o braço sobre o ombro do leitor, guiando-o por caminhos que à fé dizem respeito, o autor faz notar, com voz serena, que a dúvida é uma virtude maior do ser, a capacidade de pôr em causa as certezas claras e distintas como fonte de conhecimento, a primazia dos sentidos como caminho ínvio de condução do homem à razão. Mas também sugere que deve aceitar de forma tranquila a ausência de respostas satisfatórias às suas dúvidas e inquietações, a ideia de verdade como algo inescrutável.

“Uma Brancura Luminosa” fala-nos de um homem que, tomado pelo tédio, decide sair de casa e conduzir sem destino, seguindo ao acaso até entrar numa estrada florestal que parece não ter fim. Com o carro atolado, decide partir em busca de auxílio, mas não sabe para onde nem a quem se dirigir. O final do Outono traz consigo as primeiras neves e os dias curtos fazem com que a tarde caia rapidamente. Decidido a regressar a casa, o homem embrenha-se na floresta, certo de que encontrará ajuda, mas rapidamente percebe que está perdido e não tem como regressar ao carro. Enregelado, esgotado, mergulhado num mar de dúvidas, vai questionando os porquês da sua conduta, ao mesmo tempo que descobre que não está sozinho. Afinal, talvez haja por ali alguém capaz de o compreender, de o orientar de regresso ao carro, de o pôr a salvo. Ou não passará tudo de mera ilusão, um produto da sua imaginação destinado a acrescentar mais dúvidas àquelas que já existem, a aumentar a sua estranheza, a sua ansiedade?

Fazendo da ficção uma arma poderosíssima, Jon Fosse parte ao encontro de si mesmo, das suas interrogações, num exercício de auto-reflexão que se revela, no limite, pacificador. Não se trata aqui de decifrar um qualquer mistério, antes partilhar com o leitor a percepção de que o mundo e a realidade são enigmáticos e vão muito para além do que possamos compreender ou exprimir por palavras. Apesar do desconforto que um assunto desta natureza gera, é de paz o tom da narrativa, as muitas camadas que a constituem a darem voz ao indizível e a conduzirem o leitor para um ponto de compreensão que não colide com as suas próprias crenças, antes as sustentam e reforçam. De uma enorme espiritualidade, “Uma Brancura Luminosa” reflecte de forma lúcida o pensamento religioso ou filosófico de Fosse, um homem que faz da escrita um meio de se aproximar de algo em que confia, que não consegue descrever, mas que não tem problemas nenhuns em chamar-lhe Deus. Um livro para todos, crentes e não crentes.

domingo, 21 de janeiro de 2024

LIVRO: "Manhã e Noite"



LIVRO: “Manhã e Noite”,
de Jon Fosse
Título original | “Morgon og Kveld” (Det Norske Samlaget, Noruega, 2000)
Tradução | Manuel Alberto Vieira
Ed. Cavalo de Ferro, Novembro de 2020 (5ª edição, Outubro de 2023)


“ (…) olha só para ti que menino tão perfeitinho e és o menino mais lindo que algumas vez existiu és a coisinha mais fofa de sempre a melhor e mais bela coisinha Oh se és que belo rapaz sim É lindo Sim és o bem mais precioso É agora pai de um menino e macio e encharcado e depois esta estranha quietude silente e depois oh oh oh e o branco oh e macio tão oh e rijo e oh oh assim assim oh oh e tão branco e depois quase quente e oh oh tão sereno Johannes chamar-se-á Johannes Será esse o seu nome sim (…)”

Foi pela via do teatro que, pela primeira vez, me cruzei com Jon Fosse e com a sua escrita. A peça levada à cena no Carlos Alberto intitulava-se “O Homem da Guitarra” e era um monólogo encenado e interpretado por Manuel Wiborg. Dela, contudo, não saberei dizer nem bem nem mal, do tão pouco que até hoje me ficou. Mais do que recuperar uma memória distante, a recente atribuição do Nobel ao escritor fez com muitos dos seus livros fossem reimpressos e passassem a preencher os escaparates, o que me motivou para ir ao encontro da sua obra. Sem referências quanto a este ou àquele livro, calhou pegar em “Manhã e Noite” e em boa hora o fiz. Extraordinariamente vívida, intensa e penetrante, a escrita de Jon Fosse impressiona pela forma como valoriza a palavra, pela fidelidade aos ambientes, pelo rigor das descrições. Mas também pelo arrojo formal que ultrapassa a mera abolição do uso dos pontos finais, por essa relação intrínseca com a oralidade, pela intencionalidade das ideias assente na repetição constante de certas palavras, pela ternura com que abraça as personagens e que faz do romance um longo e belo poema.

“Manhã e Noite” conta a história de Johannes em dois momentos absolutamente cruciais da existência de qualquer ser humano: a nascimento e a morte. Pescador como o pai, Johannes toda a vida habitou a mesma casa, em Holmen, no coração de um fiorde norueguês. Saberemos que é um lindo rapazinho e que nasceu forte e saudável - “parece impossível que um fedelho tão pequeno possa ter tamanha potência na voz”. Não será, porém, o estado da criança ou da mãe aquilo que mais chama a atenção do leitor neste (breve) primeiro capítulo, antes a forma como Jon Fosse, em “pinceladas” breves, dá a ver todo um quadro onde cabem o enquadramento natural da casa de família, um modo de vida austero, a integração da família na comunidade, a forte religiosidade que anima as personagens. São estas as marcas que justificam o desenvolvimento do segundo capítulo, aquele da morte de Johannes, a narrativa coberta de uma patine de irrealidade, a tocar nalguns pontos a escrita de Juan Rulfo, Manuel Scorza, Miguel Ángel Asturias e outros mestres do realismo mágico.

“Manhã e Noite” é um livro impressionante. O seu fulgor narrativo coloca o leitor num enorme dilema, entre a necessidade de refrear a leitura para apreender cada passo desta história e o desejo de continuar em ritmo acelerado para se encontrar com o destino último de Johannes (li o livro duas vezes, de rajada primeiro e, depois, calmamente, em êxtase, a beber cada palavra). A “costela” de dramaturgo do autor dá-se a ver de forma muito clara, pela teatralidade que se desprende de cada quadro, de cada gesto, de cada olhar. A bondade do olhar de Jon Fosse sobre esta figura solitária em fim de vida, estende-se ao leitor e contamina-o, a ponto de se ver no lugar da personagem e a fazer sua a experiência surreal que a atravessa. A espécie de balanço que Johannes faz de toda uma vida, enfatizando os momentos mais significativos, é profundamente comovedor. Como comovedor o derradeiro encontro entre pai e filha os afasta de forma inexorável. De um autor essencial, uma obra-prima da literatura moderna.