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segunda-feira, 6 de junho de 2022

CONCERTO: Rui Massena Trio



CONCERTO: Rui Massena Trio
Centro de Arte de Ovar
03 Jun 2022 | sex | 21:30


A menina dava mostras de uma grande impaciência. Sentada ao meu lado, não parava de mexer e de perguntar à mãe porque é que o concerto não começava. Passados alguns minutos, veio aquela voz que ninguém ouve, pedindo para desligarem telemóveis e proibindo a recolha de imagens e de seguida Rui Massena entrou na sala sob uma chuva de palmas. Fez uma vénia, rodopiou as mãos uma em volta da outra como se fosse um treinador de basquetebol a pedir uma substituição e sentou-se ao piano. Então a menina endireitou-se na cadeira, arregalou olhos e ouvidos e escutou o silêncio. Os primeiros acordes devem tê-la maravilhado. “Um Lugar”, o tema de abertura do concerto, é tão harmoniosamente belo que a menina não conteve um suspiro prolongado. Mas foi quando Massena tocou “The Tree” e, logo de seguida, “Resistir”, que a vi inclinar-se ligeiramente para a frente e, sentindo-se preenchida, elevar os bracitos e começar a seguir a música com os seus gestos doces e delicados.

De regresso a Ovar, depois de aqui ter estado no Verão de 2019 aquando da apresentação de “Carnaval Sujo”, curta-metragem de José Miguel Moreira de cuja banda sonora é o criador, Rui Massena ofereceu um concerto verdadeiramente inesquecível, marcado pela beleza da sua música e pelo envolvimento com o público que é uma das suas imagens de marca. Com uma formação que incluiu Ana Alves na viola e Rui Moreira no violino, o pianista, compositor e maestro seleccionou temas dos seus três trabalhos iniciais, convidando os presentes a embarcarem numa viagem feita de paz e harmonia, tão necessárias nos dias que correm. Aos três temas iniciais, todos eles extraídos do álbum "III", seguiram-se “Lazy” e “Mateus”, também do mesmo álbum, para de seguida recuarmos a 2015 e ao inaugural “Solo”, com “Para Ti” e “Família”, dois temas de enorme intimidade. Com o público completamente rendido, eis chegado o momento de apurar as vozes e entoar uma breve melodia sobre a qual Rui Massena dispôs os acordes de dois temas ainda em gestação.

Prosseguindo na senda de “Solo”, Rui Massena ofereceu-nos essa melodia luminosa que dá pelo nome de “Luzes”. Só então saltou para o seu segundo álbum, “Ensemble”, dando a ouvir “Borboleta” num registo deliciosamente clássico. Seguiram-se “Amanhecer” e “Estrada”, este último inspirado no poema “Para Além da Curva da Estrada”, de Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa) e que é, todo ele, uma lição de vida – “ (…) Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer”. O alinhamento chegou ao fim e os músicos despediram-se do público, mas o público queria mais. Estendendo a ovação por um largo período de tempo, a sala (esgotada, diga-se) viu reconhecido tão sentido tributo com a interpretação do tema “aBem”, do álbum “Ensemble”. À saída, eram muitos aqueles que continuavam a trautear a música, prolongando momentos de tanta felicidade. Também eu a trauteei e continuei a trautear enquanto seguia no carro em direcção a casa. A caminhar pelo passeio ao lado da mãe, reconheci a menina que se sentou ao meu lado no concerto. Pela sua expressão, estou certo que também ela trauteava a música. A acompanhá-la, os bracitos eram como duas penas ao vento, ensaiando uma carícia.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

CONCERTO: Rui Massena



CONCERTO: Rui Massena
Centro Cultural de Lagos – Auditório Duval Pestana
26 Out 2019 | sab | 21:30


Em véspera de celebração do Dia do Município, Lagos acolheu o pianista e compositor Rui Massena, para um concerto acústico centrado no seu mais recente álbum, “III”, mas onde os seus trabalhos anteriores, nomeadamente esse celebrado e muito auspicioso “Solo”, não foram esquecidos. Num auditório que se revelou pequeno para um público devoto da sua música profundamente harmoniosa e meditativa, o artista apresentou-se ao seu melhor nível, fazendo do momento um imenso poema musical.

Para este concerto, Rui Massena faz-se acompanhar por cordas, com as cristalinas notas do seu piano a serem sublinhadas pelas harmonias desenhadas pela viola de arco de Ana Alves e pelo violino de Rui Moreira, numa apaixonante conversa a seis mãos em torno de um repertório composto por evocativas e românticas peças. Por caminhos novos e desafiantes, trilhados com rigor, dedicação e paixão, Rui Massena soube conduzir o público ao longo de uma dezena de temas instrumentais, transportando-o, sob as asas do sonho, a lugares da mais pura beleza.

Em torno do piano, enquanto voz principal, foi possível perceber todo um universo sonoro igualmente desafiante. O resultado foi um constante navegar por águas serenas e de tons extremamente belos, envolvendo o espectador numa sensação de optimismo e bem estar. Talvez os “puristas” possam lamentar não ter havido aqui uma ideologia claramente identificada com o clássico, com o jazz ou até com o rock. Mas houve - e há - uma ideia de felicidade que é transmitida, uma linguagem musical que se traduz por amor. Que mais se pode querer?