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segunda-feira, 6 de junho de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "As I Was Dying"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “As I Was Dying”,
de Paolo Pellegrin
f/est Festival Internacional de Fotografia de Amarante
Museu Municipal Amadeo Souza-Cardoso
28 Mai > 28 Ago 2022


Um rapaz espreita através do vidro para alguém sentado no interior de um automóvel. Do lado direito do rapaz, uma mão discretamente estendida parece pedir esmola. Aquilo que mais prende a nossa atenção, porém, é o intenso reflexo que rasga o lado direito do rosto do rapaz, permitindo observar o plano contrário no qual surge uma pessoa com um chapéu de sol largo na cabeça. Quem será aquele rapaz, tão compenetrado naquilo que vê? Quem será o homem de chapéu largo, cuja mão parece segurar algo à altura do peito? A mão estendida estará mesmo a pedir esmola? Por um mero acaso, saberemos responder à segunda questão. O homem de chapéu é o fotojornalista Paolo Pellegrin e esse não é um dado irrelevante nesta equação. A sua presença situa-nos de imediato na Síria ou no Sudão, no Afeganistão ou na Palestina, em Guantanamo ou no Haiti, na Indonésia ou em Angola. Todos eles são lugares de conflito, lugares onde a violência preenche a paisagem e pinta os rostos de dor e morte. Máquina fotográfica segura à altura do peito, indicador direito permanentemente pousado sobre o botão de disparo, é aí que, desde 1992, podemos encontrar Pellegrin. Nesses sítios onde, como ele diz, “os momentos de violência se aproximam dos momentos de esperança”.

Por estes dias, à boleia do f/est Festival Internacional de Fotografia de Amarante, podemos ver Paolo Pellegrin e a sua fotografia no Museu Municipal Amadeo Souza-Cardoso. “As I Was Dying” é o nome desta impactante exposição, conjunto de imagens que colocam o espectador no “olho do furacão”. Na mulher dobrada sobre si própria ao lado de uma criança vítima da epidemia de cólera que grassa em Luanda, no cadáver arrastado pelas ruas de Basra após um intenso tiroteio, nos olhos congestionados de um jovem que chora a morte de João Paulo II, nos corpos que se acumulam cobertos de lama depois da passagem do tsunami por Banda Aceh ou no grupo de homens que tentam resgatar sobreviventes dos escombros de um prédio após os bombardeamentos da força aérea israelita sobre uma área residencial de Beirute, é na intensidade daquelas imagens que reside a principal nota de desconcerto, ao mesmo tempo tão reais, pela violência que delas emerge, e tão belas, pela maestria dos enquadramentos e pela força das composições. Passo em revista, de forma rápida, os olhares de muitos fotojornalistas com os quais me tenho cruzado e nunca, como em Paolo Pellegrin, a arte que é possível extrair daquilo que de mais primário habita o ser humano alcançou uma dimensão tão terrivelmente perturbadora.

Das breves palavras que o artista dedicou à sua exposição, retenho as seguintes: “ (…) sinto que é neste espaço tão delicado e frágil que envolve a morte, o espaço que às vezes tenho como privilégio e como fardo de entrar, que existe a possibilidade de um encontro com o outro de uma forma que vai além das palavras, cultura e diferenças. Trata-se de se expor, por um momento, diante do outro e diante do acto e do mistério de morrer. Nesse momento, sinto que estou a olhar para algo que não consigo ver completamente, mas que está a olhar para mim. É nessa troca que se encontra algo simultaneamente universal e profundamente íntimo; na morte do outro há uma perda que é de todos.” Perante tão profundo e sentido testemunho, encontramos o fundamento de “As I Was Dying”, escolhido para ser o título da mostra. Num espaço privilegiado de partilha, Luís Silva, Director do f/est Amarante, falou das muitas dúvidas que teve em levar por diante esta exposição, sobretudo num momento em que há um conflito armado no continente europeu. Mas haverá melhor forma de parar com a guerra do que expôr os seus excessos, a sua brutalidade, a sua iniquidade? Sucessão de murros no estômago, “As I Was Dying” é uma exposição superlativa, daquelas que não deixará ninguém indiferente.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Os Modernistas"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Os Modernistas”
Amadeo de Souza-Cardoso, António Carneiro, Eduardo Viana, Almada Negreiros, Mily Possoz, Francis Smith, Jorge Barradas, Mário Eloy, Bernardo Marques, Júlio Reis Pereira, Carlos Botelho, Dordio Gomes e Carlos Carneiro.
Colecção Millennium bcp
Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante
20 Jul > 28 Out 2018


No ano do centenário da morte de Amadeo de Souza-Cardoso, a figura maior do modernismo português, os Modernistas reúnem-se à sua volta, como se quisessem homenageá-lo no Museu que tem o seu nome e na cidade por onde permanentemente circulou. Os Modernistas da coleção Millenium BCP são autores que iniciaram as sua carreiras nas primeiras três décadas do século XX e, segundo Raquel Henriques da Silva, curadora, “(…) para a história da arte são artistas que questionaram os processos da pintura naturalista, empenhada na verosimilhança entre o visto e o representado. Os Modernistas, pelo contrário, acrescenta, não acreditam nessa naturalidade do ver: pretendem que o espectador não confunda a realidade com a pintura e sugerem que esta pode enriquecer aquela, através da imaginação plástica”.

Repartidas por quatro salas, ao encontro do visitante, podem ser apreciadas nesta exposição obras de Amadeo de Souza-Cardoso, António Carneiro, Eduardo Viana, Almada Negreiros, Mily Possoz, Francis Smith, Jorge Barradas, Mário Eloy, Bernardo Marques, Júlio Reis Pereira, Carlos Botelho, Dordio Gomes e Carlos Carneiro. Da cerâmica alegre e primaveril de Jorge Barradas, aos desenhos de Bernardo Marques, evocativos de longos e estivais dias, das manchas líricas das aguarelas de Carlos Carneiro ao ingenuismo da pintura de Júlio Reis Pereira, a lembrar Marc Chagall, é todo um percurso pela arte da primeira metade do século passado, absolutamente fascinante. De tela em tela, é quase uma fatalidade perdermo-nos em composições como “Vista de Veneza (Ponte do Rialto)”, de Carlos Botelho (1954), “Barredo, Porto”, de Eduardo Viana (1920), “Aqueduto das Águas Livres com vista para a Estação de Campolide”, de Mily Possoz (n.d.), “Mulher sentada à janela”, de Mário Eloy (1927-1931) ou em qualquer um dos onze trabalhos de Dórdio Gomes, o artista mais representado nesta colecção. A não perder, até 28 de Outubro!

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

EXPOSIÇÃO: "O Surrealismo em Portugal"


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EXPOSIÇÃO: “O Surrealismo em Portugal”
Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante
23 Jun > 16 Set 2018


O Surrealismo, esse acontecimento feito de liberdade, amor e poesia, assumiu enorme relevância nos anos 20 do século passado no âmbito internacional, uma força que ainda hoje é herança no contexto criativo e no pensamento estético. Esta exposição é feita de uma selecção de obras que mostram a importância e as múltiplas faces do acontecimento do Surrealismo em Portugal. Uma mostra que se propõe representativa dos fundos da colecção do Centro Português do Surrealismo – Fundação Cupertino de Miranda, nas suas variantes temáticas e técnicas da produção plástica dos autores que protagonizam a aventura da intervenção surrealista em Portugal e no contexto internacional. Relações que se estabelecem por via da admiração, das afinidades e amizades, que resultaram em muitas das obras e documentos que aqui podemos ver.

No percurso da exposição vamos ao encontro de obras de Julio, que nos anos 30 desenvolvia um trabalho de pendor surrealista que o tornava um autor singular nesta aventura. De António Pedro, um dos autores de relevo no acontecimento do Surrealismo em Portugal, podemos ver desenhos em que figuras se metamorfoseiam numa relação com elementos naturais. De Mário Cesariny percebemos o carácter experimentalista, obras criadas numa estreita relação com a poesia e com a liberdade que se impunha conquistar numa época de tons cinzentos e ar pesado. Cruzeiro Seixas explora um universo onírico em que o desenho, os objectos surrealistas, as colagens, respondem às inquietações do momento e assumem manifestos de amor, liberdade e poesia. É também o desenho que serve de base aos trabalhos de Risques Pereira, Pedro Oom, António Maria Lisboa, Carlos Eurico da Costa, chegando a fronteira da escrita a ficar diluída com a do desenho por uma singular capacidade de fusão destes contextos e universos. Já Fernando José Francisco, Mário Henrique Leiria e António Paulo Tomás, é através da pintura que desenvolvem as suas manifestações plásticas de resposta aos propósitos do Surrealismo.

Nomes como Carlos Calvet, Raúl Perez, Eurico Gonçalves e Mário Botas habitam um universo de proximidade ao registo surrealista, desenvolvendo uma obra em sincronia com a apresentada pelo movimento. Ana Hatherly, Paula Rego, Gonçalo Duarte, António Quadros e Manuel Patinha são artistas para quem o Surrealismo esteve presente quer pelas relações que mantiveram com alguns surrealistas, quer pelas linhas subtis que terão encontrado na sua prática criativa. Eugénio Granell, Sergio Lima, Rik Lina, Philip West e Jorge Camacho foram consolidando a relação dos acontecimentos e divulgando o acontecimento nacional nas exposições e actividades que faziam de âmbito internacional.

Contribuir para a preservação e divulgação do Surrealismo português é um dos objectivos desta exposição, bem como lembrar aqueles que deram o seu contributo a estes acontecimentos e que nos deixaram obra. Agora podemos revisitar esses momentos, rever esses tempos e contemplar a herança que aqui é exposta, reflectindo e estudando. Assim, fazemos existir e damos continuidade a tão importante movimento artístico e aos nomes a ele ligados, com a responsabilidade que nos assiste de preservar a memória e de a sustentar com um realizar assegurado pela liberdade e verdade. Para ver até aos próximo dia 16 de Setembro!