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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CONCERTO: Carlos Bica & Azul



CONCERTO: Carlos Bica & Azul
Com | Carlos Bica (contrabaixo), Frank Möbus (guitarra) e Jim Black (bateria)
Estarrejazz 2026
Foyer do Museu Fábrica da História - Arroz
11 Out 2026 | dom | 17:00


Há formações que o tempo consolida e outras que o tempo, sem lhes retirar identidade, ensina a reinventarem-se. O trio de Carlos Bica, Frank Möbus e Jim Black pertence, inequivocamente, à segunda categoria. Trinta anos de percurso conjunto não parecem ter diminuído a inquietação criativa destes músicos, como ficou demonstrado no concerto que encerrou o Estarrejazz 2026, perante um foyer do Museu Fábrica da História - Arroz repleto de público. Esta foi a quarta vez que ouvi o trio e, à semelhança das anteriores experiências, também desta vez a música revelou novas perspectivas, pequenos desvios e pormenores que escapam a uma escuta menos atenta. Desta feita, a surpresa maior veio de Jim Black. A generosidade com que o baterista se entregou à música, o entusiasmo quase infantil com que explorou cada possibilidade rítmica e a genuína diversão que transpareceu dos seus gestos deram ao concerto uma dimensão particularmente humana. Num ambiente intimista, em que a proximidade com o público favorecia a circulação de energia entre palco e audiência, o seu virtuosismo não foi exibição: foi linguagem, impulso e disponibilidade para o inesperado.

Se Jim Black funcionou frequentemente como detonador de acontecimentos musicais de nível superior, Frank Möbus e Carlos Bica asseguraram a arquitectura flexível que permitiu a esses impulsos ganharem forma. Ora incisiva, ora deliberadamente contida, a guitarra de Frank Möbus encontrou no contrabaixo de Bica um interlocutor capaz de conferir direcção melódica e profundidade harmónica ao discurso. Mas seria redutor atribuir-lhes apenas o papel de contraponto à exuberância do baterista. É precisamente na forma como os três distribuem responsabilidades, trocam de posições e prescindem de hierarquias fixas que reside uma das singularidades do trio. O ritmo não se limita a sustentar a harmonia, tal como a melodia não se apresenta como destino obrigatório: tudo permanece permeável à transformação. Daí que alguns dos momentos de maior intensidade tenham surgido sem preparação aparente, como se a música descobrisse a sua própria direcção à medida que vai acontecendo. Ao invés de eliminar o risco, a experiência acumulada torna-o, pelo contrário, mais fértil. E a cumplicidade entre os músicos, longe de produzir automatismos, permite-lhes reconhecer o instante em que uma ideia deve ser prolongada, contrariada ou simplesmente abandonada.

O alinhamento, de “John Wayne” a “XY Ungelöst”, passando por “A Lã e a Neve”, “Canção Vazia”, “Whale Rider”, “O Profeta” e o espantoso “Believer”, percorreu diferentes facetas de um repertório que resiste à cristalização. A inclusão de “11:11” e “Lucky”, dois temas do mais recente álbum de Carlos Bica, “11:11”, acrescentou ao concerto a actualidade de uma escrita que continua a procurar novas formas de articulação. Particularmente interessante foi a maneira como algumas composições surgiram recompostas, adaptadas ao alinhamento sem beliscarem a coerência do conjunto. Não se tratou de reproduzir mecanicamente versões conhecidas, mas de reabrir as peças à experiência acumulada e às possibilidades do presente. O encore, com «P-beat», prolongou uma actuação em que a concentração e o humor, a contenção e a exuberância, coexistiram sem contradição. Celebrar três décadas de trabalho conjunto poderia facilmente conduzir ao exercício da memória ou à consagração de uma fórmula. O trio preferiu demonstrar que a longevidade só adquire verdadeiro significado quando continua a gerar inquietação. Foi essa capacidade de permanecer reconhecível sem se tornar previsível que Carlos Bica & Azul souberam mostrar, fazendo de cada encontro não uma confirmação do que já sabemos, mas uma oportunidade para descobrir o que ainda não tínhamos ouvido.

sábado, 21 de abril de 2018

CONCERTO: Carlos Bica & Azul – com Frank Möbus e Jim Black



CONCERTO: Carlos Bica & Azul – com Frank Möbus e Jim Black
Centro de Arte de Ovar
20 Abr 2018 | sex | 22:00


Quando, em 1996, o contrabaixista Carlos Bica, o guitarrista Frank Möbus e o baterista Jim Black uniram esforços e lançaram “Azul”, o seu primeiro álbum, estavam longe de imaginar que essa intimidade e cumplicidade resistiria de forma tão natural ao passar dos tempos, de tal maneira os seus interesses se espalhavam por outros e variados projectos. A verdade é que, apesar de tudo, o trio prosseguiu unido, reforçou a sua própria matriz identitária, continuou a criar e a divertir-se e gravou entretanto mais cinco álbuns, o último dos quais, “More Than This” (2016), foi apresentado na noite de ontem, no Centro de Arte de Ovar, no segundo dia da edição inaugural do Ovar em Jazz.

Das paisagens densamente urbanizadas de “Skeleton Dance” à vastidão da planície alentejana, com “Na Rama do Alecrim”, foram passadas a pente fino as composições que integram “More Than This”, às quais o trio acrescentou dois ou três temas dos seus álbuns anteriores para preencher um alinhamento de grande qualidade e interesse. Salta aos olhos do espectador a enorme maturidade compositiva e interpretativa do trio, apostado em fazer boa música e empenhado na sua divulgação. Cada tema é um convite a captar a onda de sonoridades que dele se desprende e a dar livre curso à imaginação, aqui subindo ao alto duma colina ou caminhando pela orla da praia, além observando as baleias ou galopando Jolly Jumper, o cavalo de Lucky Luke.

Podem não ser muitos, mas são bons e fiéis os seguidores do trabalho do trio. Sabem que cada concerto é uma descoberta e que, no final, todos sairão mais felizes e enriquecidos. Até pelas histórias que se partilham – Carlos Bica a trocar o contrabaixo pela bateria, Jim Black a tomar o lugar de Frank Möbus na guitarra e este, ao microfone, a contar uma história, passado que está o tempo do concerto. Uma história que fala de como a música pode mudar a vida duma pessoa, fazer com que recupere o entusiasmo e a força de viver, com que aqueles que partiram, por não aguentarem mais a situação, estejam agora de regresso, com que o seu próprio espaço – incluindo gatos e cães – retome a normalidade. Não uma música qualquer, mas a de Bica, Möbus e Black. Numa pequena cidade do distante e frio Norte da Alemanha ou aqui mesmo, em Ovar. Com um simples bombeiro ou com qualquer um de nós.