Há formações que o tempo consolida e outras que o tempo, sem lhes retirar identidade, ensina a reinventarem-se. O trio de Carlos Bica, Frank Möbus e Jim Black pertence, inequivocamente, à segunda categoria. Trinta anos de percurso conjunto não parecem ter diminuído a inquietação criativa destes músicos, como ficou demonstrado no concerto que encerrou o Estarrejazz 2026, perante um foyer do Museu Fábrica da História - Arroz repleto de público. Esta foi a quarta vez que ouvi o trio e, à semelhança das anteriores experiências, também desta vez a música revelou novas perspectivas, pequenos desvios e pormenores que escapam a uma escuta menos atenta. Desta feita, a surpresa maior veio de Jim Black. A generosidade com que o baterista se entregou à música, o entusiasmo quase infantil com que explorou cada possibilidade rítmica e a genuína diversão que transpareceu dos seus gestos deram ao concerto uma dimensão particularmente humana. Num ambiente intimista, em que a proximidade com o público favorecia a circulação de energia entre palco e audiência, o seu virtuosismo não foi exibição: foi linguagem, impulso e disponibilidade para o inesperado.
Se Jim Black funcionou frequentemente como detonador de acontecimentos musicais de nível superior, Frank Möbus e Carlos Bica asseguraram a arquitectura flexível que permitiu a esses impulsos ganharem forma. Ora incisiva, ora deliberadamente contida, a guitarra de Frank Möbus encontrou no contrabaixo de Bica um interlocutor capaz de conferir direcção melódica e profundidade harmónica ao discurso. Mas seria redutor atribuir-lhes apenas o papel de contraponto à exuberância do baterista. É precisamente na forma como os três distribuem responsabilidades, trocam de posições e prescindem de hierarquias fixas que reside uma das singularidades do trio. O ritmo não se limita a sustentar a harmonia, tal como a melodia não se apresenta como destino obrigatório: tudo permanece permeável à transformação. Daí que alguns dos momentos de maior intensidade tenham surgido sem preparação aparente, como se a música descobrisse a sua própria direcção à medida que vai acontecendo. Ao invés de eliminar o risco, a experiência acumulada torna-o, pelo contrário, mais fértil. E a cumplicidade entre os músicos, longe de produzir automatismos, permite-lhes reconhecer o instante em que uma ideia deve ser prolongada, contrariada ou simplesmente abandonada.
O alinhamento, de “John Wayne” a “XY Ungelöst”, passando por “A Lã e a Neve”, “Canção Vazia”, “Whale Rider”, “O Profeta” e o espantoso “Believer”, percorreu diferentes facetas de um repertório que resiste à cristalização. A inclusão de “11:11” e “Lucky”, dois temas do mais recente álbum de Carlos Bica, “11:11”, acrescentou ao concerto a actualidade de uma escrita que continua a procurar novas formas de articulação. Particularmente interessante foi a maneira como algumas composições surgiram recompostas, adaptadas ao alinhamento sem beliscarem a coerência do conjunto. Não se tratou de reproduzir mecanicamente versões conhecidas, mas de reabrir as peças à experiência acumulada e às possibilidades do presente. O encore, com «P-beat», prolongou uma actuação em que a concentração e o humor, a contenção e a exuberância, coexistiram sem contradição. Celebrar três décadas de trabalho conjunto poderia facilmente conduzir ao exercício da memória ou à consagração de uma fórmula. O trio preferiu demonstrar que a longevidade só adquire verdadeiro significado quando continua a gerar inquietação. Foi essa capacidade de permanecer reconhecível sem se tornar previsível que Carlos Bica & Azul souberam mostrar, fazendo de cada encontro não uma confirmação do que já sabemos, mas uma oportunidade para descobrir o que ainda não tínhamos ouvido.
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